Sete
pacientes morrem durante uso compassivo de polilaminina no Brasil
Sete
pacientes que receberam a substância polilaminina em uso compassivo morreram
desde fevereiro, quando o Laboratório Cristália começou a disponibilizar o
tratamento fora do estudo clínico. A última delas nesta quinta-feira (6). O
laboratório diz que maioria das aplicações não teve efeitos adversos e que aplicações
são seguras.
A
informação foi divulgada durante uma apresentação da pesquisadora Tatiana
Sampaio, responsável pelos estudos com a polilaminina, durante a Rio Innovation
Week sobre a evolução dos pacientes em uso compassivo.
Segundo
ela, pouco mais de 100 pessoas já usaram a substância no país de forma
compassiva e sete morreram.
O uso
compassivo é o mecanismo que permite a pacientes acessar, de forma voluntária,
substâncias ainda em fase de pesquisa, antes da conclusão dos estudos clínicos
e da aprovação definitiva pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância
Sanitária). No Brasil, essa modalidade só pode ocorrer com autorização prévia
da agência reguladora.
Hoje, a
polilaminina ainda depende de estudos de eficácia e segurança. Os dados
apresentados não fazem parte de estudo, os pacientes acompanhados não podem ser
incluídos no estudo clínico.
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Como estão os pacientes de uso compassivo até agora
Após a
apresentação em público do caso de Bruno, o paciente que usou polilaminina e,
por isso, teria recuperado os movimentos, o Cristália passou a receber pedidos
de uso compassivo da substância. Responsáveis pelo laboratório chegaram a dar
declarações públicas incentivando os pedidos e alegando reuniões com a Anvisa
para cobrar celeridade nas autorizações.
Dos
mais de 100 pacientes que receberam a substância desde fevereiro, 17
completaram os seis meses de acompanhamento necessários para que os
pesquisadores possam avaliar a evolução do quadro clínico e o efeito do
tratamento. Os demais ainda não atingiram esse período mínimo de observação.
Segundo
a análise apresentada por Tatiana, dez desses pacientes acompanhados
apresentaram alguma evolução clínica. A apresentação mostra evolução da escala
AIS, que Escala de Comprometimento da ASIA (ASIA Impairment Scale), usada para
classificar a gravidade de lesões na medula espinhal.
Nos
slides, ela mostrou que ao menos dez pacientes, saíram de AIS A, que é
considerada lesão completa, para a AIS C ou B. No entanto, isso não quer dizer
que essa evolução demonstra retomada motora do paciente, como é o caso do
paciente Bruno. A evolução mostrada quer dizer que esses pacientes conseguiram
recuperar a função sensorial ou motora na região anal.
Durante
a apresentação, Tatiana questionou a necessidade de um estudo clínico para a
polilaminina.
“Se
você está trabalhando com ser humano e já tem esse volume de dados, vai fazer
ensaio clínico pra que?”
Os
pacientes do uso compassivo não fazem parte de um estudo, não são monitorados,
não são atendidos todos no mesmo hospital ou com o controle como no caso de um
estudo clínico. Qualquer substância que hoje é apresentada como medicamento no
país, precisa passar por essa etapa de análise. Após as falas, a Anvisa
questionou a posição da pesquisadora e reforçou que são necessários estudos
criteriosos.
"A
Anvisa refuta qualquer declaração de que a realização de estudo clínico é
inócua e não produzirá dados úteis. Qualquer afirmação nesse sentido demonstra
completo desconhecimento do processo científico e dos protocolos utilizados em
todo o mundo para o desenvolvimento de medicamentos e cujo objetivo central é
garantir a segurança dos participantes da pesquisa", respondeu em nota.
Durante
sua fala, Tatiana chegou a dizer que a Anvisa estaria dificultando o acesso ao
uso compassivo após as críticas que a pesquisa recebeu. No entanto, disso isso
antes de anunciar que a modalidade tinha feito mortes.
Ao g1,
a agência negou que tenha criado barreiras no acesso.Tatiana alegou que a
Anvisa teria fechado mais o cerco às exigências na hora de permitir o uso da
substância. Antes de abril, por exemplo, era permitido que pessoas com lesões
ocorridas em até 90 dias tivessem acesso. Depois, foi reduzido para 3 dias --
mais próximo do que cita a própria pesquisa da polilaminina, que não estuda o
uso em pacientes com lesões antigas.
Em
nota, a Anvisa disse que recebeu 128 pedidos de uso compassivo de polilaminina,
sendo 71 pedidos judiciais e 57 pedidos não judiciais. Desses, 110 foram
autorizados e 18 não autorizados.
Sobre
as restrições, a Anvisa disse que as primeiras autorizações foram concedidas
antes mesmo da autorização da pesquisa clínica. A partir da aprovação do
desenho do estudo clínico, as autorizações passaram a seguir os dados de
segurança e eficácia apresentados pela empresa dentro da proposta de estudo.
"Até
o momento, os dados preliminares apresentados pela empresa indicam apenas a
possibilidade de uso para casos de lesão torácica entre as regiões T2 e T10 e
dentro da janela de 72 horas após a lesão. Mesmo esses dados preliminares são
limitados e incompletos, pois o produto não teve estudo clínico de nenhuma fase
iniciado em nenhum lugar do mundo", escreveu em nota.
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O que diz sobre as mortes?
Durante
sua apresentação, Tatiana disse que desde fevereiro desde ano, quando houve o
início das aplicações do uso compassivo, foram registradas sete mortes entre os
pouco mais de 100 pacientes que receberam a substância.
Ela
disse que a farmacovigilância do Cristália, responsável por coletar dados sobre
eventos adversos e enviar relatórios mensais à Anvisa analisou os casos
registrados até o momento. Em sua fala, Tatiana disse que as mortes não
estariam relacionadas à substância.
A
Anvisa confirmou que foi notificada sobre as mortes. A agência informou que até
o momento, a avaliação não indica relação direta entre os óbitos e o produto
experimental. Um sétimo caso de óbito foi informado, mas os dados ainda não
foram encaminhados para análise.
Segundo
o laboratório, a maioria dos pacientes não apresentou qualquer evento adverso.
Entre os que apresentaram algum evento, a maior parte foi classificada como não
relacionada ao uso do medicamento. Menos de 10% dos pacientes tiveram algum
evento adverso considerado possivelmente relacionado à substância, mas nenhum
foi classificado como grave.
Diante
desse quadro, o laboratório afirma que "até agora, a administração da
polilaminina não promove eventos adversos significativos".
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Quais são os próximos passos da polilaminina?
Apesar
da apresentação dos dados, o uso compassivo não pode ser usado como insumo de
pesquisa. A polilaminina ainda depende de apresentar estudos que provem que:
1. ela é uma substância segura para ser
aplicada em pessoas
2. ela é eficaz para pacientes com lesão
medular, como se propõe
Para
isso, é necessário o estudo clínico, que já foi aprovado pela Anvisa no início
deste ano, mas que ainda não foi iniciado. De acordo com Sampaio, serão
recrutados cinco voluntários para a pesquisa que vai, na primeira etapa,
mostrar primeiro a segurança da substância.
A
pesquisa será conduzida por grupos do HC (Hospital das Clínicas) da USP
(Universidade de São Paulo) e da Santa Casa de São Paulo.
Fonte:
g1

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