terça-feira, 11 de agosto de 2026

Faltam três meses para as eleições. E aí?

Faltando pouco tempo para as eleições nacionais e estaduais, persistem muitas indecisões entre os eleitores e também interpretações equivocadas sobre as tendências eleitorais no Brasil. Parte delas nasce de uma leitura inadequada das regras do jogo e da geografia do nosso sistema político. Três falácias, em especial, precisam ser esclarecidas.

A primeira diz respeito à maneira como o voto é contado na eleição presidencial. Na última semana, vi especialistas afirmarem que Lula e Flávio Bolsonaro estariam em "empate técnico" no Rio de Janeiro, enquanto o segundo teria vantagem em São Paulo, apresentado como "o maior colégio eleitoral do Brasil". Não é apenas a expressão "colégio eleitoral" que está errada. Também é enganoso falar em vitória, derrota ou empate dentro de um estado como se isso tivesse valor próprio na disputa presidencial. No Brasil, o candidato não ganha nem perde São Paulo, Rio de Janeiro, Piauí ou Bahia. Ele ganha ou perde votos, que são somados nacionalmente.

Cada voto válido tem o mesmo peso, independentemente de onde tenha sido depositado. Se um candidato tem 60% das intenções de voto em um estado e seu adversário reduz essa vantagem para 57%, houve um ganho importante, ainda que ele continue longe de vencer naquele território. Como os estados não são conquistados em bloco, o objetivo de uma campanha presidencial não é necessariamente vencer em cada unidade da Federação, mas maximizar votos em todo o país. Isso não significa que os estados sejam irrelevantes: eles importam como espaços de organização da campanha, de construção de palanques e de mobilização política, mas não como unidades autônomas de contagem do resultado. Analisar o Brasil como se fossem os Estados Unidos é cafona, para dizer o mínimo.

Isso nos leva ao segundo ponto: o impacto político dos problemas sociais não é homogêneo no território. Ninguém espera que o Nordeste, tratado erroneamente como um bloco eleitoral, passe a dar maioria a Flávio Bolsonaro em 2026. Mas essa forma de enxergar ignora que o lugar específico em que o eleitor vive importa. A violência é um exemplo. O Atlas da Violência de 2026 mostrou que as 10 cidades mais violentas do Brasil estão no Nordeste. Ao compararmos as eleições de 2018 e 2022, Jair Bolsonaro ampliou sua participação nos votos válidos do segundo turno em sete desses 10 municípios. A associação do cidadão entre bolsonarismo e uma suposta maior capacidade de lidar com a segurança pública pode produzir efeitos territoriais diferentes daqueles sugeridos por uma leitura genérica do chamado "voto nordestino".

O que acontecerá em 2026? A expansão da violência e o fortalecimento de facções criminosas poderão reduzir a vantagem petista em determinados municípios? Embora a segurança pública seja atribuição principalmente dos governos estaduais, essa divisão constitucional raramente orienta a percepção cotidiana. Para quem vive sob medo, pouco importa qual esfera de governo tem formalmente a competência.

É justamente aí que o segundo ponto se conecta ao terceiro. Os problemas que mais afetam o voto são vividos de maneira local e desigual, mas os partidos brasileiros são obrigatoriamente nacionais. Interesses nacionais, estaduais e municipais precisam coexistir dentro das mesmas estruturas partidárias, mesmo quando apontam para direções opostas. Até em países pequenos, como Costa Rica e Eslovênia, podem existir partidos organizados apenas em escala regional ou local. No Brasil, isso não é permitido. 

Por isso, vemos candidatos à Presidência sem conseguir montar palanques nos estados e candidatos a governador evitando apoiar qualquer presidenciável. Declarar apoio nacional pode comprometer uma aliança estadual; a saída, muitas vezes, é a "neutralidade". Todos perdem, porque os partidos deixam de organizar consensos e de apresentar agendas articuladas entre as diferentes escalas de governo. 

Essa desconexão se aprofundou com a transformação recente do orçamento federal. O Brasil vive uma espécie de "descentralização centralizada". As emendas parlamentares permitem que municípios recebam recursos para obras e políticas públicas sem depender exclusivamente de negociações com o Palácio do Planalto. Porém, os recursos continuam concentrados em Brasília, agora sob controle crescente de deputados e senadores. O resultado é o fortalecimento de parlamentares com vínculos locais cada vez mais intensos, embora inseridos em partidos obrigatoriamente nacionais. Eles constroem suas bases destinando recursos a municípios específicos, mas nem sempre conseguem transformar essas relações territoriais em projetos partidários mais amplos.

Conhecer as regras do jogo é compreender que os votos para presidente são somados nacionalmente, embora as escolhas sejam construídas em realidades locais muito diferentes, e que partidos, alianças e recursos públicos deveriam conectar essas várias escalas da política. É também reconhecer o peso de cada escolha eleitoral: não apenas de quem ocupará a Presidência, mas de quem terá poder no Legislativo para apoiar seu projeto, modificá-lo, fiscalizá-lo ou impedir sua execução.

¨      Os partidos ainda não têm a cara do Brasil

É preocupante constatar que a maioria da população brasileira continua sub-representada nas chapas mais competitivas nas eleições deste ano. As principais candidaturas à Presidência da República são encabeçadas por homens brancos e, em grande parte, repetem esse perfil na escolha dos candidatos a vice. O mesmo ocorre nas disputas estaduais. Nos cinco maiores colégios eleitorais — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná —, o perfil se repete entre os nomes com maior possibilidade de vitória. O poder político permanece muito menos diverso do que a sociedade chamada a legitimá-lo pelo voto.

Os partidos ainda têm até 15 de agosto para registrar formalmente as candidaturas na Justiça Eleitoral. Entretanto, as convenções terminaram na última quinta, e o desenho político das principais disputas está praticamente definido. O contraste com a composição da sociedade é evidente. Segundo o Censo de 2022, do IBGE, 45,3% dos brasileiros se declararam pardos e 10,2%, pretos. Somados, são 55,5% da população, enquanto os brancos representam 43,5%. As mulheres, por sua vez, são 51,5% dos habitantes do país.

A maioria demográfica também é maioria no colégio eleitoral. Nas eleições municipais de 2024, as mulheres somaram 52,47% do eleitorado. Eram maioria em todos os estados e em quase 62% dos municípios. Apesar disso, apenas 12.331 foram eleitas, 17,92% do total. Nas prefeituras, a desigualdade foi ainda maior: somente 725 mulheres chegaram ao comando municipal, equivalentes a 13,23% dos prefeitos escolhidos naquele ano. 

Nas eleições gerais de 2022, foram eleitas 91 deputadas federais, apenas 17,7% dos 513 integrantes da Câmara. Levantamento publicado pela Escola Judiciária Eleitoral mostra uma desigualdade ainda mais profunda quando gênero e raça são considerados conjuntamente: apenas 10 cadeiras, ou 1,94% da Câmara, foram atribuídas a mulheres negras na classificação utilizada pelo estudo. No Senado, havia somente uma mulher negra entre os 81 integrantes. Nas assembleias legislativas, mulheres negras ocupavam 74 das 1.059 vagas, aproximadamente 7%. Não se trata, portanto, apenas de desigualdade entre homens e mulheres, mas de uma estrutura submetida aos efeitos do racismo e do machismo.

A legislação procurou corrigir parte dessa distorção ao estabelecer o mínimo de 30% de candidaturas de cada gênero nas eleições proporcionais e determinar a distribuição proporcional de recursos e propaganda para mulheres e pessoas negras. Mas as regras são insuficientes. São cumpridas de maneira burocrática, com candidaturas pouco competitivas, concentração do dinheiro nos mesmos grupos e tentativas de fraude às cotas. A igualdade formal na lista não produz automaticamente igualdade real na disputa. Em 2024, por exemplo, as mulheres eram cerca de 34% das candidaturas registradas, enquanto as mulheres negras representavam 17,7%. 

Não significa que somente mulheres possam representar mulheres ou que negros devam votar exclusivamente em negros. A democracia representativa não é feita de critérios raciais e de gênero. Entretanto, quando determinados grupos controlam sistematicamente as posições de comando, enquanto outros permanecem confinados às bases partidárias, às candidaturas sem recursos ou às funções subalternas, já não se pode atribuir o resultado apenas ao mérito individual ou à livre escolha dos eleitores.

Valorizar a participação proporcional dos diferentes segmentos da população não significa impor uma reprodução matemática do Censo em cada parlamento ou governo. Significa criar condições para que a diversidade brasileira possa chegar ao poder sem enfrentar barreiras adicionais de raça, gênero ou classe. Significa a presença de mulheres e negros nas direções dos partidos, nas chapas majoritárias e entre as candidaturas que recebem prioridade política e financeira.

¨      O que vem antes do voto? Por Ana Dubeux

A democracia já foi um sonho, uma luta e uma conquista. Hoje, é uma realidade. E as eleições são o exercício pleno desse direito e da construção da cidadania. Para mim, é sempre um momento de celebração. Olhando os arquivos do Correio Braziliense, garimpados pelos documentaristas do nosso Cedoc, vejo preciosidades, como, por exemplo, os 10 fascículos do curso Constituição e Constituintes feito pela Universidade de Brasília (UnB), todos publicados em nossas páginas. Um material riquíssimo com colaboradores de grandes nomes da nossa sociedade, da política à cultura. 

O curso tinha como objetivo o despertar para a educação política, algo que tentamos fazer a cada eleição por meio de reportagens, mas também de debates. Já ouvi de ministros do STF, como Carlos Velloso e Gilmar Mendes, que não perdiam nenhum fascículo. Tradicionalmente, o jornal acompanhou e reportou todos os grandes movimentos políticos do país, com destaque para a Assembleia Constituinte, quando nem banheiro para mulheres o Congresso Nacional tinha. Mas elas estavam lá, lutando pelo direito ao básico. Hoje, nas eleições do DF, três candidatas ao Senado lideram as pesquisas do Correio/Opinião. Outra candidata aparece em primeiro lugar na disputa pelo GDF.

Meu sonho, ao vir para Brasília, era fazer parte daquela equipe de cobertura. Bem jovem, uma foca como se diz no jargão jornalístico, fui impelida a começar por Cidades, editoria que me levou a conhecer as entranhas daquela cidade ainda em construção. Pouco depois, iniciava meus anos dedicados à política local, cobrindo o processo de autonomia política da capital federal.

O auditório do Correio, décadas atrás, foi palco de debates intensos até a aprovação de eleições diretas para escolher os governantes e deputados distritais da capital federal. Nesse mesmo espaço, na próxima terça-feira, às 9h, daremos a largada na cobertura da campanha eleitoral com a sabatina dos 10 postulantes ao Palácio do Buriti. Será transmitida ao vivo pelo YouTube.

É preciso lembrar sempre que, mais do que um ringue de disputas partidárias e ideológicas acaloradas, a campanha eleitoral é uma oportunidade ímpar de escolher os nossos representantes ouvindo e refletindo sobre suas propostas. No dia 1º de setembro, também vamos promover nosso tradicional debate com os governadores em parceria com TV Brasília. Também nos dedicaremos às eleições presidenciais, com a sabatina dos candidatos à presidência — já fizemos uma primeira rodada, e iniciaremos a segunda esta semana — e, posteriormente, no final de setembro, com o debate dos presidenciáveis. Todos têm sido convidados.

Mais um capítulo para o futuro de Brasília e do Brasil está se desenhando. Acho absolutamente fascinante acompanhar a história por dentro, produzindo informação responsável e escuta equilibrada de todos os lados. O jornalismo existe também para formar cidadãos responsáveis e conscientes que precisam escolher muito bem os seus votos. Muito mais do que um jornal, o Correio tem sido um guardião da história, sobretudo da política, em especial do ponto de vista de Brasília. Esperamos que vocês estejam conosco nesse momento tão especial da nossa democracia.

¨      Americanos, dívidas e eleição. Por André Gustavo Stumpf

As pressões norte-americanas contra o governo brasileiro, nas vésperas da eleição presidencial, não chegam a constituir surpresa. Trump e sua turma não gostam de Lula e seus auxiliares. As ações assustam pela falta de sutileza e pelo primarismo demonstrado pelas autoridades de Washington. A briga por intermédio de meios diplomáticos confunde embaixadores porque os argumentos são inventados e não resistem a exame mais preciso. O argumento de que o nome de Daniel Perez ainda não foi aceito por Brasília como embaixador no Brasil não resiste. Não há prazo para admitir embaixador estrangeiro.

O Brasil está constrangido pela pressão de Washington, que retirou as credenciais da embaixadora Maria Luiza Viotti, representante do país nos Estados Unidos. Ela poderá permanecer no seu atual endereço, mas perdeu a autoridade para falar em nome do governo brasileiro. O secretário de Estado, Marco Rubio, filho de migrante cubano fugido de Fidel Castro, pretende que os líderes latino-americanos estejam alinhados à sua política. E fiquem cada vez mais distantes de Pequim. Dentro dessa moldura, o presidente da Argentina, Javier Milei, abre a boca para xingar o presidente Lula. A Argentina está quebrada, sem dinheiro, e vai suplicar por novas ajudas com objetivo de manter sua economia funcionando. 

Eleições presidenciais costumam ser o momento de crise na democracia. O poder é questionado e novos nomes tentam ascender às posições de comando. Tudo dentro da lógica do sistema. O governante é obrigado a se submeter às vontades do eleitorado. A solução mais fácil é falar e fazer o que o povo quer ouvir e receber. Assim se sucedem ações cada vez mais objetivas para colocar dinheiro no bolso do contribuinte. Dinheiro e vantagens. Surgem planos inesperados para o cidadão renegociar suas dívidas, comprar gás de cozinha, adquirir imóveis com juros mais amigáveis ou entrar para o cadastro do governo onde encontra uma série de programas favoráveis a seu bolso. O problema é que essa política tem preço. Custa caro. E o país não tem os recursos necessários para suportar as despesas resultantes das bondades. Sem dinheiro, resta fazer dívida.

Esse é o caminho do Partido dos Trabalhadores (PT) no poder. Aumentar impostos e gastar mais, muito mais. O Brasil tinha enorme dívida externa, contraída em moeda forte. Era uma tremenda dor de cabeça porque ela aumentava ao sabor da variação do câmbio. E dos juros variáveis. Mudava ao sabor dos ventos da economia internacional. Foi o segundo governo Lula que resolveu o problema, depois que a equipe econômica do governo Fernando Henrique acabou com a inflação, criou o Plano Real e ofereceu os fundamentos para liquidar a dívida externa. A descoberta de petróleo na plataforma continental, no chamado Pré-sal, acabou com outro pesadelo econômico brasileiro. A conta petróleo. O Brasil comprava milhares de barris por dia, à vista, em moeda forte, nos vários mercados internacionais do produto. Sem dinheiro, só poderia recorrer aos bancos internacionais. Ou seja, contratava mais dívida.

A conta petróleo não existe mais. Hoje, o Brasil exporta petróleo, e a Petrobras ganha muito dinheiro com as crises no Oriente Médio. A dívida externa foi quitada. Mas se transformou em dívida interna. A trajetória da dívida pública brasileira foi de crescimento quase contínuo desde o Plano Real, com duas interrupções relevantes: entre 2003 e 2013, quando a relação dívida/PIB caiu ou ficou estável, e entre 2021 e 2022, após o pico provocado pela pandemia. Desde 2023, a tendência voltou a ser de elevação. A presidente Dilma Rousseff conseguiu a reeleição ampliando os gastos públicos. 

Começou seu segundo mandato, com novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que armou a cena para fazer breve recessão e modificar o cenário das contas brasileiras. Não conseguiu. Foi demitido. E o governo Dilma tentou soluções heterodoxas, chamadas de Nova Matriz Econômica. Reduziu arbitrariamente taxas de juros, preços de eletricidade e de combustível, o resultado foi uma recessão severa, desemprego alto e queda da atividade econômica. Dilma Rousseff sofreu impeachment.

O próximo governo terá que enfrentar o problema das contas nacionais para que o país volte a conviver com taxas de juros civilizadas. E com crescimento relevante acima de 3% ao ano. Alguma coisa, ou muita coisa, terá que ser cortada no cardápio de bondades do governo federal. Empresas deficitárias, como a dos Correios, não podem ser mantidas. O país precisa ser contemporâneo do presente. As soluções burocráticas petistas não são mais eficazes. Os governos de inspiração esquerdista ou populista perceberam a necessidade de mudar. Uns foram derrubados, alguns caminharam para o autoritarismo, outros para abertura econômica. Essa é a decisão que vai estar diante do novo governo brasileiro.

 

Fonte: Por Daniel A. de Azevedo, no Correio Braziliense

 

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