Faltam
três meses para as eleições. E aí?
Faltando
pouco tempo para as eleições nacionais e estaduais, persistem muitas indecisões
entre os eleitores e também interpretações equivocadas sobre as tendências
eleitorais no Brasil. Parte delas nasce de uma leitura inadequada das regras do
jogo e da geografia do nosso sistema político. Três falácias, em especial,
precisam ser esclarecidas.
A
primeira diz respeito à maneira como o voto é contado na eleição presidencial.
Na última semana, vi especialistas afirmarem que Lula e Flávio Bolsonaro
estariam em "empate técnico" no Rio de Janeiro, enquanto o segundo
teria vantagem em São Paulo, apresentado como "o maior colégio eleitoral
do Brasil". Não é apenas a expressão "colégio eleitoral" que
está errada. Também é enganoso falar em vitória, derrota ou empate dentro de um
estado como se isso tivesse valor próprio na disputa presidencial. No Brasil, o
candidato não ganha nem perde São Paulo, Rio de Janeiro, Piauí ou Bahia. Ele
ganha ou perde votos, que são somados nacionalmente.
Cada
voto válido tem o mesmo peso, independentemente de onde tenha sido depositado.
Se um candidato tem 60% das intenções de voto em um estado e seu adversário
reduz essa vantagem para 57%, houve um ganho importante, ainda que ele continue
longe de vencer naquele território. Como os estados não são conquistados em
bloco, o objetivo de uma campanha presidencial não é necessariamente vencer em
cada unidade da Federação, mas maximizar votos em todo o país. Isso não
significa que os estados sejam irrelevantes: eles importam como espaços de
organização da campanha, de construção de palanques e de mobilização política,
mas não como unidades autônomas de contagem do resultado. Analisar o Brasil
como se fossem os Estados Unidos é cafona, para dizer o mínimo.
Isso
nos leva ao segundo ponto: o impacto político dos problemas sociais não é
homogêneo no território. Ninguém espera que o Nordeste, tratado erroneamente
como um bloco eleitoral, passe a dar maioria a Flávio Bolsonaro em 2026. Mas
essa forma de enxergar ignora que o lugar específico em que o eleitor vive
importa. A violência é um exemplo. O Atlas da Violência de 2026 mostrou que as
10 cidades mais violentas do Brasil estão no Nordeste. Ao compararmos as
eleições de 2018 e 2022, Jair Bolsonaro ampliou sua participação nos votos
válidos do segundo turno em sete desses 10 municípios. A associação do cidadão
entre bolsonarismo e uma suposta maior capacidade de lidar com a segurança
pública pode produzir efeitos territoriais diferentes daqueles sugeridos por uma
leitura genérica do chamado "voto nordestino".
O que
acontecerá em 2026? A expansão da violência e o fortalecimento de facções
criminosas poderão reduzir a vantagem petista em determinados municípios?
Embora a segurança pública seja atribuição principalmente dos governos
estaduais, essa divisão constitucional raramente orienta a percepção cotidiana.
Para quem vive sob medo, pouco importa qual esfera de governo tem formalmente a
competência.
É
justamente aí que o segundo ponto se conecta ao terceiro. Os problemas que mais
afetam o voto são vividos de maneira local e desigual, mas os partidos
brasileiros são obrigatoriamente nacionais. Interesses nacionais, estaduais e
municipais precisam coexistir dentro das mesmas estruturas partidárias, mesmo
quando apontam para direções opostas. Até em países pequenos, como Costa Rica e
Eslovênia, podem existir partidos organizados apenas em escala regional ou
local. No Brasil, isso não é permitido.
Por
isso, vemos candidatos à Presidência sem conseguir montar palanques nos estados
e candidatos a governador evitando apoiar qualquer presidenciável. Declarar
apoio nacional pode comprometer uma aliança estadual; a saída, muitas vezes, é
a "neutralidade". Todos perdem, porque os partidos deixam de
organizar consensos e de apresentar agendas articuladas entre as diferentes
escalas de governo.
Essa
desconexão se aprofundou com a transformação recente do orçamento federal. O
Brasil vive uma espécie de "descentralização centralizada". As
emendas parlamentares permitem que municípios recebam recursos para obras e
políticas públicas sem depender exclusivamente de negociações com o Palácio do
Planalto. Porém, os recursos continuam concentrados em Brasília, agora sob
controle crescente de deputados e senadores. O resultado é o fortalecimento de
parlamentares com vínculos locais cada vez mais intensos, embora inseridos em
partidos obrigatoriamente nacionais. Eles constroem suas bases destinando
recursos a municípios específicos, mas nem sempre conseguem transformar essas
relações territoriais em projetos partidários mais amplos.
Conhecer
as regras do jogo é compreender que os votos para presidente são somados
nacionalmente, embora as escolhas sejam construídas em realidades locais muito
diferentes, e que partidos, alianças e recursos públicos deveriam conectar
essas várias escalas da política. É também reconhecer o peso de cada escolha
eleitoral: não apenas de quem ocupará a Presidência, mas de quem terá poder no
Legislativo para apoiar seu projeto, modificá-lo, fiscalizá-lo ou impedir sua
execução.
¨ Os partidos ainda não
têm a cara do Brasil
É
preocupante constatar que a maioria da população brasileira continua
sub-representada nas chapas mais competitivas nas eleições deste ano. As
principais candidaturas à Presidência da República são encabeçadas por homens
brancos e, em grande parte, repetem esse perfil na escolha dos candidatos a
vice. O mesmo ocorre nas disputas estaduais. Nos cinco maiores colégios
eleitorais — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná —, o
perfil se repete entre os nomes com maior possibilidade de vitória. O poder
político permanece muito menos diverso do que a sociedade chamada a legitimá-lo
pelo voto.
Os
partidos ainda têm até 15 de agosto para registrar formalmente as candidaturas
na Justiça Eleitoral. Entretanto, as convenções terminaram na última quinta, e
o desenho político das principais disputas está praticamente definido. O
contraste com a composição da sociedade é evidente. Segundo o Censo de 2022, do
IBGE, 45,3% dos brasileiros se declararam pardos e 10,2%, pretos. Somados, são
55,5% da população, enquanto os brancos representam 43,5%. As mulheres, por sua
vez, são 51,5% dos habitantes do país.
A
maioria demográfica também é maioria no colégio eleitoral. Nas eleições
municipais de 2024, as mulheres somaram 52,47% do eleitorado. Eram maioria em
todos os estados e em quase 62% dos municípios. Apesar disso, apenas 12.331
foram eleitas, 17,92% do total. Nas prefeituras, a desigualdade foi ainda
maior: somente 725 mulheres chegaram ao comando municipal, equivalentes a
13,23% dos prefeitos escolhidos naquele ano.
Nas
eleições gerais de 2022, foram eleitas 91 deputadas federais, apenas 17,7% dos
513 integrantes da Câmara. Levantamento publicado pela Escola Judiciária
Eleitoral mostra uma desigualdade ainda mais profunda quando gênero e raça são
considerados conjuntamente: apenas 10 cadeiras, ou 1,94% da Câmara, foram
atribuídas a mulheres negras na classificação utilizada pelo estudo. No Senado,
havia somente uma mulher negra entre os 81 integrantes. Nas assembleias
legislativas, mulheres negras ocupavam 74 das 1.059 vagas, aproximadamente 7%.
Não se trata, portanto, apenas de desigualdade entre homens e mulheres, mas de
uma estrutura submetida aos efeitos do racismo e do machismo.
A
legislação procurou corrigir parte dessa distorção ao estabelecer o mínimo de
30% de candidaturas de cada gênero nas eleições proporcionais e determinar a
distribuição proporcional de recursos e propaganda para mulheres e pessoas
negras. Mas as regras são insuficientes. São cumpridas de maneira burocrática,
com candidaturas pouco competitivas, concentração do dinheiro nos mesmos grupos
e tentativas de fraude às cotas. A igualdade formal na lista não produz
automaticamente igualdade real na disputa. Em 2024, por exemplo, as mulheres
eram cerca de 34% das candidaturas registradas, enquanto as mulheres negras
representavam 17,7%.
Não
significa que somente mulheres possam representar mulheres ou que negros devam
votar exclusivamente em negros. A democracia representativa não é feita de
critérios raciais e de gênero. Entretanto, quando determinados grupos controlam
sistematicamente as posições de comando, enquanto outros permanecem confinados
às bases partidárias, às candidaturas sem recursos ou às funções subalternas,
já não se pode atribuir o resultado apenas ao mérito individual ou à livre
escolha dos eleitores.
Valorizar
a participação proporcional dos diferentes segmentos da população não significa
impor uma reprodução matemática do Censo em cada parlamento ou governo.
Significa criar condições para que a diversidade brasileira possa chegar ao
poder sem enfrentar barreiras adicionais de raça, gênero ou classe. Significa a
presença de mulheres e negros nas direções dos partidos, nas chapas
majoritárias e entre as candidaturas que recebem prioridade política e
financeira.
¨ O que vem antes do
voto? Por Ana Dubeux
A
democracia já foi um sonho, uma luta e uma conquista. Hoje, é uma realidade. E
as eleições são o exercício pleno desse direito e da construção da cidadania.
Para mim, é sempre um momento de celebração. Olhando os arquivos do Correio
Braziliense, garimpados pelos documentaristas do nosso Cedoc, vejo
preciosidades, como, por exemplo, os 10 fascículos do curso Constituição e
Constituintes feito pela Universidade de Brasília (UnB), todos publicados em
nossas páginas. Um material riquíssimo com colaboradores de grandes nomes da
nossa sociedade, da política à cultura.
O curso
tinha como objetivo o despertar para a educação política, algo que tentamos
fazer a cada eleição por meio de reportagens, mas também de debates. Já ouvi de
ministros do STF, como Carlos Velloso e Gilmar Mendes, que não perdiam nenhum
fascículo. Tradicionalmente, o jornal acompanhou e reportou todos os grandes
movimentos políticos do país, com destaque para a Assembleia Constituinte,
quando nem banheiro para mulheres o Congresso Nacional tinha. Mas elas estavam
lá, lutando pelo direito ao básico. Hoje, nas eleições do DF, três candidatas
ao Senado lideram as pesquisas do Correio/Opinião. Outra candidata aparece em
primeiro lugar na disputa pelo GDF.
Meu
sonho, ao vir para Brasília, era fazer parte daquela equipe de cobertura. Bem
jovem, uma foca como se diz no jargão jornalístico, fui impelida a começar por
Cidades, editoria que me levou a conhecer as entranhas daquela cidade ainda em
construção. Pouco depois, iniciava meus anos dedicados à política local,
cobrindo o processo de autonomia política da capital federal.
O
auditório do Correio, décadas atrás, foi palco de debates intensos até a
aprovação de eleições diretas para escolher os governantes e deputados
distritais da capital federal. Nesse mesmo espaço, na próxima terça-feira, às
9h, daremos a largada na cobertura da campanha eleitoral com a sabatina dos 10
postulantes ao Palácio do Buriti. Será transmitida ao vivo pelo YouTube.
É
preciso lembrar sempre que, mais do que um ringue de disputas partidárias e
ideológicas acaloradas, a campanha eleitoral é uma oportunidade ímpar de
escolher os nossos representantes ouvindo e refletindo sobre suas propostas. No
dia 1º de setembro, também vamos promover nosso tradicional debate com os
governadores em parceria com TV Brasília. Também nos dedicaremos às eleições
presidenciais, com a sabatina dos candidatos à presidência — já fizemos
uma primeira rodada, e iniciaremos a segunda esta semana — e,
posteriormente, no final de setembro, com o debate dos presidenciáveis. Todos
têm sido convidados.
Mais um
capítulo para o futuro de Brasília e do Brasil está se desenhando. Acho
absolutamente fascinante acompanhar a história por dentro, produzindo
informação responsável e escuta equilibrada de todos os lados. O jornalismo
existe também para formar cidadãos responsáveis e conscientes que precisam
escolher muito bem os seus votos. Muito mais do que um jornal, o Correio tem
sido um guardião da história, sobretudo da política, em especial do ponto de
vista de Brasília. Esperamos que vocês estejam conosco nesse momento tão
especial da nossa democracia.
¨ Americanos, dívidas e
eleição. Por André Gustavo Stumpf
As
pressões norte-americanas contra o governo brasileiro, nas vésperas da eleição
presidencial, não chegam a constituir surpresa. Trump e sua turma não gostam de
Lula e seus auxiliares. As ações assustam pela falta de sutileza e pelo
primarismo demonstrado pelas autoridades de Washington. A briga por intermédio
de meios diplomáticos confunde embaixadores porque os argumentos são inventados
e não resistem a exame mais preciso. O argumento de que o nome de Daniel Perez
ainda não foi aceito por Brasília como embaixador no Brasil não resiste. Não há
prazo para admitir embaixador estrangeiro.
O
Brasil está constrangido pela pressão de Washington, que retirou as credenciais
da embaixadora Maria Luiza Viotti, representante do país nos Estados Unidos.
Ela poderá permanecer no seu atual endereço, mas perdeu a autoridade para falar
em nome do governo brasileiro. O secretário de Estado, Marco Rubio, filho de
migrante cubano fugido de Fidel Castro, pretende que os líderes
latino-americanos estejam alinhados à sua política. E fiquem cada vez mais
distantes de Pequim. Dentro dessa moldura, o presidente da Argentina, Javier
Milei, abre a boca para xingar o presidente Lula. A Argentina está quebrada,
sem dinheiro, e vai suplicar por novas ajudas com objetivo de manter sua
economia funcionando.
Eleições
presidenciais costumam ser o momento de crise na democracia. O poder é
questionado e novos nomes tentam ascender às posições de comando. Tudo dentro
da lógica do sistema. O governante é obrigado a se submeter às vontades do
eleitorado. A solução mais fácil é falar e fazer o que o povo quer ouvir e
receber. Assim se sucedem ações cada vez mais objetivas para colocar dinheiro
no bolso do contribuinte. Dinheiro e vantagens. Surgem planos inesperados para
o cidadão renegociar suas dívidas, comprar gás de cozinha, adquirir imóveis com
juros mais amigáveis ou entrar para o cadastro do governo onde encontra uma
série de programas favoráveis a seu bolso. O problema é que essa política tem
preço. Custa caro. E o país não tem os recursos necessários para suportar as
despesas resultantes das bondades. Sem dinheiro, resta fazer dívida.
Esse é
o caminho do Partido dos Trabalhadores (PT) no poder. Aumentar impostos e
gastar mais, muito mais. O Brasil tinha enorme dívida externa, contraída em
moeda forte. Era uma tremenda dor de cabeça porque ela aumentava ao sabor da
variação do câmbio. E dos juros variáveis. Mudava ao sabor dos ventos da
economia internacional. Foi o segundo governo Lula que resolveu o problema,
depois que a equipe econômica do governo Fernando Henrique acabou com a
inflação, criou o Plano Real e ofereceu os fundamentos para liquidar a dívida
externa. A descoberta de petróleo na plataforma continental, no chamado
Pré-sal, acabou com outro pesadelo econômico brasileiro. A conta petróleo. O
Brasil comprava milhares de barris por dia, à vista, em moeda forte, nos vários
mercados internacionais do produto. Sem dinheiro, só poderia recorrer aos
bancos internacionais. Ou seja, contratava mais dívida.
A conta
petróleo não existe mais. Hoje, o Brasil exporta petróleo, e a Petrobras ganha
muito dinheiro com as crises no Oriente Médio. A dívida externa foi quitada.
Mas se transformou em dívida interna. A trajetória da dívida pública brasileira
foi de crescimento quase contínuo desde o Plano Real, com duas interrupções
relevantes: entre 2003 e 2013, quando a relação dívida/PIB caiu ou ficou
estável, e entre 2021 e 2022, após o pico provocado pela pandemia. Desde
2023, a tendência voltou a ser de elevação. A presidente Dilma Rousseff
conseguiu a reeleição ampliando os gastos públicos.
Começou
seu segundo mandato, com novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que armou a
cena para fazer breve recessão e modificar o cenário das contas brasileiras.
Não conseguiu. Foi demitido. E o governo Dilma tentou soluções heterodoxas,
chamadas de Nova Matriz Econômica. Reduziu arbitrariamente taxas de juros,
preços de eletricidade e de combustível, o resultado foi uma recessão severa,
desemprego alto e queda da atividade econômica. Dilma Rousseff sofreu
impeachment.
O
próximo governo terá que enfrentar o problema das contas nacionais para que o
país volte a conviver com taxas de juros civilizadas. E com crescimento
relevante acima de 3% ao ano. Alguma coisa, ou muita coisa, terá que ser
cortada no cardápio de bondades do governo federal. Empresas deficitárias, como
a dos Correios, não podem ser mantidas. O país precisa ser contemporâneo do
presente. As soluções burocráticas petistas não são mais eficazes. Os governos
de inspiração esquerdista ou populista perceberam a necessidade de mudar. Uns
foram derrubados, alguns caminharam para o autoritarismo, outros para abertura
econômica. Essa é a decisão que vai estar diante do novo governo brasileiro.
Fonte:
Por Daniel A. de Azevedo, no Correio Braziliense

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