terça-feira, 11 de agosto de 2026

A série de assassinatos que mostra como influencers viraram alvo do narcotráfico no México

O influencer de 25 anos César Gastélum fazia uma transmissão ao vivo com dois amigos, em frente a um restaurante fast-food em Culiacán, no Estado mexicano de Sinaloa. De repente, dois homens de moto se aproximaram e o mataram, disparando contra sua cabeça.

O ataque ocorreu na terça-feira (4/8) à noite e foi gravado pela sua câmera.

Centenas dos 500 mil seguidores acompanharam ao vivo a morte de "Cesarín", o jovem criador de conteúdo que compartilhava temas como humor, desafios, estilo de vida, viagens, vida noturna e carros.

Gastélum se soma à lista de pelo menos 10 influenciadores executados no Estado, localizado no noroeste do México, desde o início da guerra entre as facções do Cartel de Sinaloa, dois anos atrás.

Segundo as informações divulgadas pelas autoridades até o momento, Gastélum não era ameaçado nem investigado, como ocorreu em outros casos de influencers assassinados.

Ele compartilhava conteúdo sobre luxo e havia publicado material no túmulo de Leobardo Aispuro, o "Gordo Peruci", outro influencer assassinado em 2024.

"Entre as linhas de investigação, encontram-se diversas publicações, algumas delas fazendo alusão a uma facção de um grupo criminoso", segundo o comunicado emitido pela Procuradoria de Sinaloa, sem fornecer maiores detalhes.

A imprensa local atribuiu as alusões a um recente conteúdo de Gastélum sobre "La Mayiza", uma facção do cartel de Sinaloa leal ao capo Ismael "El Mayo" Zambada, condenado nos Estados Unidos, cuja prisão gerou uma guerra interna.

Segundo a presidente do México, Claudia Sheinbaum, os governos local e federal prometeram investigar e identificar os responsáveis materiais e intelectuais pelo ocorrido.

Mas a maioria dos homicídios de criadores de conteúdo continua sem punição e não há registro oficial de uma categoria que os tipifique perante a legislação mexicana.

O certo é que muitos criadores de conteúdo, não apenas em Sinaloa, adquiriram papel de protagonista da vida criminosa do México, o que os transforma cada vez mais em alvos.

"O algoritmo e o narcotráfico promovem o mesmo: chegar rapidamente ao consumo e ao luxo como valores máximos", analisa Claudia Arruñada, especialista em comunicação da Universidade Iberoamericana, no México.

"Quando o modelo do sucesso deixa de ser construir uma carreira metódica, mas sim uma carreira meteórica, as redes sociais e o narcomundo acabam involuntariamente sendo aliados."

<><> Fenômeno opaco

Em janeiro de 2025, caíram de um avião sobre as ruas de Culiacán panfletos acusando 25 influencers e músicos de estarem vinculados à "La Mayiza". Um deles era Peso Pluma, cantor e compositor famoso no país.

Quatro daqueles nomes já haviam sido executados e apareciam nos folhetos com os dizeres "ELIMINADO". Dois outros foram mortos desde então.

Gastélum não estava na lista, nem era investigado pelas autoridades por possíveis ligações com o crime. Mas muitos inevitavelmente interpretarão seu brutal assassinato como parte de uma tendência aparente.

Trata-se da tendência do "narcoinfluenciador", que parte de um fenômeno opaco, cuja magnitude é difícil de se estimar.

Alguns deles realmente trabalham para o narcotráfico, mas outros (talvez a maioria) estão presos neste contexto ou são jornalistas cidadãos que investigam o assunto.

Muito do que se sabe a respeito surgiu depois que os Estados Unidos decidiram investigar e impor sanções a centenas de mexicanos supostamente envolvidos com o narcotráfico.

As indagações estão em curso, e a maioria dos criadores de conteúdo acusados negou qualquer tipo de implicação.

O motivo das mortes talvez não seja, necessariamente, seu envolvimento em práticas ilegais. Simplesmente ser jovem, visível e chamativo em Culiacán, atualmente, pode transformar uma pessoa em alvo.

<><> A nova forma de publicidade do narcotráfico

Os cartéis do México são multinacionais com diversos ramos de negócios. E, como qualquer empresa, eles incluem uma área de publicidade.

Diversos estudos acadêmicos descobriram que os cartéis usam criadores de conteúdo como uma espécie de gerentes de comunidades, para divulgar suas posições e aspirações.

E, quando eles se enfrentam, os ativos de propaganda de uma das facções, como um influenciador, se tornam alvo da outra.

Os cartéis usaram os músicos durante anos para glorificar seus líderes, ou reciclar o mito do bandido social no que se denominou "narcocorridos" (ou seja, corridos, gênero musical típico mexicano, dedicados ao narcotráfico).

Atualmente, alguns influencers ajudam neste trabalho publicitário de forma similar.

"Eles promovem a narcocultura de forma muito mais eficiente que as canções, pois já não o fazem com metáforas, não é uma ficção, mas alguém mostrando aquela que supostamente é a sua própria vida, com seus vínculos a essas estruturas simbólicas do narcotráfico", explica Arruñada.

Um estudo do Colégio do México concluiu que, especialmente no TikTok, onde quase não há moderação, os narcotraficantes tentam recrutar pessoas com vídeos que promovem a vida fácil, a ostentação e o desafio à polícia.

Em Sinaloa, as facções "La Mayiza" e "Los Chapitos", atualmente em confronto, usam hashtags e narrativas típicas das redes sociais como parte da sua batalha recorrente. "La Mayiza" adotou o tradicional chapéu sombrero como símbolo, e "Los Chapitos" transformaram a pizza no seu ícone.

Gastélum, por exemplo, foi visto recentemente com o sombrero símbolo da "La Mayiza". Mas isso, mais do que uma prova, é uma amostra de que a cultura popular também foi cooptada pelo narcotráfico.

<><> Outra forma de lavagem

Além de serem os rostos que normalizam a cultura do narcotráfico, acredita-se que os influenciadores, ainda que em menor medida, também possam participar do trabalho de lavagem de dinheiro.

Em julho de 2025, foi publicada uma lista de 64 criadores de conteúdo de Sinaloa investigados pela Unidade de Inteligência Financeira (UIF), organismo da Secretaria da Fazenda, por supostamente usarem seus perfis para transformar dinheiro sujo em limpo.

Para isso, existem diversos mecanismos, como relata o jornalista Óscar Balderas. Com rifas e sorteios, empreendimentos, patrocínios ou assinaturas, o influencer ganha notoriedade, que é remunerada com o dinheiro obtido na plataforma, por conta do alto número de visualizações.

As plataformas não rejeitaram estas suposições de forma unânime ou contundente. A Meta afirmou não ter encontrado violações às suas políticas nas contas assinaladas, e o YouTube cancelou a conta do influencer e músico "El Makabélico", que é objeto de sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.

Na verdade, mais do que as plataformas, os influenciadores seriam o mecanismo de lavagem, usando suas atividades e negócios como fachada para lavar o dinheiro.

Mas Gastélum não estava na lista dos investigados pela UIF.

Além de investigar o fenômeno, o governo Sheinbaum pretende romper o vínculo entre a cultura popular e o narcotráfico, intervindo nas letras dos corridos e promovendo outros temas na produção artística mexicana.

Paralelamente, o governo do México deu início à guerra que trouxe mais resultados em anos de combate ao crime, conseguindo reduzir os homicídios em 48% em 2025, segundo os números oficiais.

Mas incidentes como o de Gastélum ou da famosa influenciadora mexicana Valeria Márquez, assassinada a tiros enquanto realizava uma transmissão ao vivo pelo TikTok, dão a impressão de que o narcotráfico continua marcando presença não apenas nas ruas mexicanas, mas também no mundo digital e na cultura.

Claudia Arruñada defende que "os casos de influencers assassinados demonstram que, além da questão do seu possível envolvimento, o conteúdo simbolicamente relacionado ao narcotráfico não irá desaparecer, pelo contrário. Ele irá migrar para o formato seguinte, de forma ainda mais eficiente e massiva."

"Ninguém imaginou que a cultura do narcotráfico encontraria um aliado na cultura do algoritmo, mas é exatamente o que eles são", conclui a professora.

<><> A disputa entre 'Chapitos' e 'Mayos'

O Gabinete de Segurança não detalhou quais seriam as "alusões a uma facção de um grupo criminoso", supostamente feitas por Gastélum em publicações anteriores.

Mas a imprensa local afirma que, no conteúdo recente do influenciador, havia possíveis referências ao grupo de La Mayiza, uma facção do Cartel de Sinaloa, liderada pelo capo condenado Ismael "El Mayo" Zambada.

Esse grupo é conhecido pela sigla MZ ou pelo apelido "Os do sombrero".

Gastélum teria supostamente sido visto em uma publicação recente com as letras MZ e publicado vídeos usando um sombrero, como os adotados pela facção.

Na sua transmissão de terça-feira, o influenciador e os outros participantes do vídeo também portavam sombreros. Mas não há nenhuma informação das autoridades confirmando que esta seja a alusão mencionada.

"La Mayiza" mantém conflito, desde 2025, com outra facção do mesmo cartel, "Los Chapitos", liderada pelos filhos do capo condenado Joaquín "El Chapo" Guzmán.

Os dois grupos se enfrentaram em Sinaloa, deixando um saldo de centenas de mortos, devido ao suposto sequestro de "El Mayo" Zambada, realizado por Joaquín Gusmán López, um dos filhos de "El Chapo".

Gusmán López teria se entregado junto com ele às autoridades americanas, em julho do ano passado.

Cerca de 12 influencers foram assassinados nos últimos anos em Sinaloa. Alguns deles estariam supostamente vinculados a grupos criminosos.

<><> Quem era 'Cesarín'?

Criador de conteúdo conhecido entre seus seguidores como "Cesarín", César Gastélum tinha 25 anos.

Nas suas contas nas redes sociais, ele apresentava humor, paródias, falava sobre seu estilo de vida e também mostrava um pouco do que ele chamava de cultura sinaloense.

Há dois anos, Gastélum lançou um podcast no YouTube chamado Al Estilo Culiacán, descrito por ele como o "mais bélico" que havia.

Como outros influencers da sua região, ele fazia constantes alusões ao estilo de vida de luxo e exagero dominante na cultura relacionada ao narcotráfico. Nos seus vídeos, ele mostrava carros de luxo, fazendas e mansões, além de roupas e joias.

Nove meses atrás, ele havia declarado estar se afastando das redes sociais, para um momento de luto pela morte do seu pai e para se dedicar à música. Mas prosseguiu com seus vídeos e transmissões.

Após a sua morte, suas contas começaram a ser invadidas por mensagens de pêsames.

<><> Outra influencer assassinada

O caso de Gastélum foi comparado com o assassinato da influencer de beleza Valeria Márquez, durante uma transmissão ao vivo no ano passado.

Márquez era uma modelo mexicana que, em 2021, começou a ficar conhecida ao vencer o concurso de beleza Miss Rosto.

Pouco depois, ela começou a criar conteúdo nas redes sociais, compartilhando conselhos sobre maquiagem e rotinas de cuidados pessoais. Ela também falava sobre moda e sobre suas viagens.

Durante a transmissão, Márquez contou que estava no interior do seu salão de beleza, na região de Guadalajara, a segunda cidade mais populosa do país. Ela esperava um mensageiro que havia estado no local anteriormente e avisou que voltaria para fazer uma entrega.

As autoridades afirmam que pelo menos dois homens chegaram de moto ao estabelecimento e um deles perguntou à vítima se ela era Valeria. Quando ela respondeu "sim", ele sacou uma arma e disparou pelo menos duas vezes, escapando em seguida.

Na semana passada, o governo mexicano anunciou a captura do líder criminoso Ramón Ángel Álvarez ("R1"), acusado de ser o mandante do assassinato de Márquez a pedido do seu filho, que mantinha uma relação amorosa com a jovem.

"Tudo indica, iremos provar, que o filho pede ao seu pai, o 'R1', que seja cometido o feminicídio", afirmou o secretário nacional de Segurança do México, Omar García Harfuch.

¨      Moradores acusam governo da Cidade do México de falhar no combate à ocupação ilegal de imóveis

Moradores da colônia Del Valle e vítimas de ocupação de outras prefeituras acusaram que depois de um ano da criação do gabinete de ocupações da Cidade do México, não existem resultados visíveis na restituição de imóveis invadidos, razão pela qual disseram que este delito é um câncer que pode fazer metástase.

Acompanhados de Arturo Santana, filho da senhora Carlota, — que assassinou dois ocupantes no Estado do México —, os moradores afirmaram que apresentarão à procuradora Bertha Alcalde e ao secretário de Governo, César Cravioto, uma demanda com sete pontos, entre eles a detenção de Virginia Vázquez García, suposta responsável pela ocupação de um imóvel localizado em Matías Romero.

Os afetados também propuseram levar adiante um projeto de lei com o objetivo de agilizar a restituição de propriedades e fortalecer o marco legal contra este delito, como ocorreu no Estado do México.

Alicia Camps, integrante da Comissão de Participação Comunitária (Copaco) de Valle Centro, explicou que a proposta que buscam permitirá articular a legislação da Cidade do México com a do estado do México.

Por sua vez, Arturo Santana disse que na entidade mexicana conseguiram recuperar mais de dois mil imóveis mediante a Operação Restituição, mas que isto não ocorre na capital.

Garantiram que os invasores chegam com caminhões e serralheiros, esvaziam as casas em questão de horas, mudam placas e até remodelam os imóveis para consolidar a ocupação.

<><> Autoridades do CDMX oferecem combate total às redes de ocupação de imóveis

Depois de uma reunião com moradores e vítimas de ocupação de seis prefeituras, autoridades da capital se comprometeram a restituir os imóveis, a revisão de pelo menos 61 novos casos que foram registrados no dia 29 de julho e a desarticulação de redes que cometem este delito na cidade.

Depois de quatro horas de reunião na Superintendência da Polícia de Investigação, as vítimas também pediram a restruturação do gabinete contra a ocupação, que, denunciaram, não deu resultados depois de um ano de sua implementação; também pediram a incorporação desta instância à Secretaria de Segurança Cidadã e ao Registro Público da Propriedade e do Comércio.

A Promotoria Geral de Justiça informou que receberam 81 pessoas, foram registrados 61 novos casos e 20 por outros delitos, além de comprometerem-se a realizar trabalhos com a Direção de Assuntos Internos para rever outros onde se presuma a participação de servidores públicos.

Na reunião estiveram presentes a procuradora, Bertha Alcalde e o secretário de Governo, César Cravioto, que afirmaram que conduzem 300 casos positivos de restituição de imóveis, cifra que os afetados consideraram baixa para o tamanho do problema.

Entre as solicitações que fizeram está a detenção de Virginia Vázquez García, suposta responsável pela ocupação de um imóvel na rua Matías Romero, colônia Del Valle, assim como a judicialização de todos os expedientes com que conta o gabinete contra a ocupação.

No término da reunião, Alicia Camps, integrante do grupo de moradores da colônia Del Valle, afirmou que confiavam nos protocolos e que conseguiram formar mesas de trabalho para mês a mês verificar os avanços.

O advogado Arturo Santana, filho da senhora Carlota, que assassinou no estado do México dois ocupantes, uniu-se à defesa dos moradores e vítimas, informando que as autoridades asseguraram maior presença em zonas com foco vermelho pela ocorrência deste delito; no entanto, evitaram dizer quais seriam.

Entre os casos apresentados um foi a ocupação de uma casa do muralista Jorge González Camarena, que está há nove semanas invadida.

<><> Realizam-se operações

Elementos da PDI e da SSC e pessoal da Secretaria de Governo implementaram no dia 29 de julho pela manhã cinco operações nas prefeituras de Benito Juárez, Coyoacán, Cuauhtémoc e Iztapalapa para assegurar o mesmo número de imóveis supostamente ocupados, relataram fontes ministeriais.

Tais operações fazem parte das ações imediatas para atender este ilícito em arquivos que já continham avanços significativos.

O primeiro se realizou na rua Galeana 20, colônia Guerrero, em Cuauhtémoc, onde permitiram que uma mulher soltasse seu cachorro para posteriormente assegurar o imóvel e colocar selos.

O segundo foi na avenida Cuauhtémoc 1146, município de Benito Juárez, onde dois indivíduos guardavam o imóvel, mas não foram detidos.

Outro ainda foi realizado na prefeitura de Coyoacán, realizado na madrugada de quarta-feira, como parte de uma investigação por uma suposta ocupação com violência ocorrida em dezembro de 2025.

O advogado do caso, Leonel Rodríguez, afirmou que a ação fez parte de um expediente localizado na Procuradoria de Investigação do Delito de Ocupação e Recuperação de Imóveis.

Relatou que uma das linhas de investigação indica a participação de uma célula delitiva dedicada à ocupação de imóveis, ainda que, disse, as autoridades terão que precisar que tipo de rede participou, quem fez uma dupla venda do imóvel, supostamente realizada por um notário e sua companheira.

 

Fonte: BBC News Mundo/Diálogos do Sul Global

 

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