A
série de assassinatos que mostra como influencers viraram alvo do narcotráfico
no México
O
influencer de 25 anos César Gastélum fazia uma transmissão ao vivo com dois
amigos, em frente a um restaurante fast-food em Culiacán, no Estado mexicano de Sinaloa. De
repente, dois homens de moto se aproximaram e o mataram, disparando contra
sua cabeça.
O
ataque ocorreu na terça-feira (4/8) à noite e foi gravado pela sua câmera.
Centenas
dos 500 mil seguidores acompanharam ao vivo a morte de "Cesarín", o
jovem criador de conteúdo que
compartilhava temas como humor, desafios, estilo de vida, viagens, vida noturna
e carros.
Gastélum
se soma à lista de pelo menos 10 influenciadores executados no Estado,
localizado no noroeste do México, desde o início da guerra entre as facções
do Cartel de Sinaloa, dois anos atrás.
Segundo
as informações divulgadas pelas autoridades até o momento, Gastélum não era
ameaçado nem investigado, como ocorreu em outros casos de influencers
assassinados.
Ele
compartilhava conteúdo sobre luxo e havia publicado material no túmulo de
Leobardo Aispuro, o "Gordo Peruci", outro influencer assassinado em
2024.
"Entre
as linhas de investigação, encontram-se diversas publicações, algumas delas
fazendo alusão a uma facção de um grupo criminoso", segundo o comunicado
emitido pela Procuradoria de Sinaloa, sem fornecer maiores detalhes.
A
imprensa local atribuiu as alusões a um recente conteúdo de Gastélum sobre
"La Mayiza", uma facção do cartel de Sinaloa leal ao capo Ismael
"El Mayo" Zambada, condenado nos Estados Unidos, cuja prisão gerou
uma guerra interna.
Segundo
a presidente do México, Claudia Sheinbaum, os governos local e federal
prometeram investigar e identificar os responsáveis materiais e intelectuais
pelo ocorrido.
Mas a
maioria dos homicídios de criadores de conteúdo continua sem punição e não há
registro oficial de uma categoria que os tipifique perante a legislação
mexicana.
O certo
é que muitos criadores de conteúdo, não apenas em Sinaloa, adquiriram papel de
protagonista da vida criminosa do México, o que os transforma cada vez mais em
alvos.
"O
algoritmo e o narcotráfico promovem o mesmo: chegar rapidamente ao consumo e ao
luxo como valores máximos", analisa Claudia Arruñada, especialista em
comunicação da Universidade Iberoamericana, no México.
"Quando
o modelo do sucesso deixa de ser construir uma carreira metódica, mas sim uma
carreira meteórica, as redes sociais e o narcomundo acabam involuntariamente
sendo aliados."
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Fenômeno opaco
Em
janeiro de 2025, caíram de um avião sobre as ruas de Culiacán panfletos
acusando 25 influencers e músicos de estarem vinculados à "La
Mayiza". Um deles era Peso Pluma, cantor e compositor famoso no país.
Quatro
daqueles nomes já haviam sido executados e apareciam nos folhetos com os
dizeres "ELIMINADO". Dois outros foram mortos desde então.
Gastélum
não estava na lista, nem era investigado pelas autoridades por possíveis
ligações com o crime. Mas muitos inevitavelmente interpretarão seu brutal
assassinato como parte de uma tendência aparente.
Trata-se
da tendência do "narcoinfluenciador", que parte de um fenômeno opaco,
cuja magnitude é difícil de se estimar.
Alguns
deles realmente trabalham para o narcotráfico, mas outros (talvez a maioria)
estão presos neste contexto ou são jornalistas cidadãos que investigam o
assunto.
Muito
do que se sabe a respeito surgiu depois que os Estados Unidos decidiram
investigar e impor sanções a centenas de mexicanos supostamente envolvidos com
o narcotráfico.
As
indagações estão em curso, e a maioria dos criadores de conteúdo acusados negou
qualquer tipo de implicação.
O
motivo das mortes talvez não seja, necessariamente, seu envolvimento em
práticas ilegais. Simplesmente ser jovem, visível e chamativo em Culiacán,
atualmente, pode transformar uma pessoa em alvo.
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A nova forma de publicidade do narcotráfico
Os
cartéis do México são multinacionais com diversos ramos de negócios. E, como
qualquer empresa, eles incluem uma área de publicidade.
Diversos
estudos acadêmicos descobriram que os cartéis usam criadores de conteúdo como
uma espécie de gerentes de comunidades, para divulgar suas posições e
aspirações.
E,
quando eles se enfrentam, os ativos de propaganda de uma das facções, como um
influenciador, se tornam alvo da outra.
Os
cartéis usaram os músicos durante anos para glorificar seus líderes, ou
reciclar o mito do bandido social no que se denominou "narcocorridos"
(ou seja, corridos, gênero musical típico mexicano, dedicados ao
narcotráfico).
Atualmente,
alguns influencers ajudam neste trabalho publicitário de forma similar.
"Eles
promovem a narcocultura de forma muito mais eficiente que as canções, pois já
não o fazem com metáforas, não é uma ficção, mas alguém mostrando aquela que
supostamente é a sua própria vida, com seus vínculos a essas estruturas
simbólicas do narcotráfico", explica Arruñada.
Um
estudo do Colégio do México concluiu que, especialmente no TikTok, onde quase
não há moderação, os narcotraficantes tentam recrutar pessoas com vídeos que
promovem a vida fácil, a ostentação e o desafio à polícia.
Em
Sinaloa, as facções "La Mayiza" e "Los Chapitos",
atualmente em confronto, usam hashtags e narrativas típicas das redes sociais
como parte da sua batalha recorrente. "La Mayiza" adotou o
tradicional chapéu sombrero como símbolo, e "Los Chapitos"
transformaram a pizza no seu ícone.
Gastélum,
por exemplo, foi visto recentemente com o sombrero símbolo da "La
Mayiza". Mas isso, mais do que uma prova, é uma amostra de que a cultura
popular também foi cooptada pelo narcotráfico.
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Outra forma de lavagem
Além de
serem os rostos que normalizam a cultura do narcotráfico, acredita-se que os
influenciadores, ainda que em menor medida, também possam participar do
trabalho de lavagem de dinheiro.
Em
julho de 2025, foi publicada uma lista de 64 criadores de conteúdo de Sinaloa
investigados pela Unidade de Inteligência Financeira (UIF), organismo da
Secretaria da Fazenda, por supostamente usarem seus perfis para transformar
dinheiro sujo em limpo.
Para
isso, existem diversos mecanismos, como relata o jornalista Óscar Balderas. Com
rifas e sorteios, empreendimentos, patrocínios ou assinaturas, o influencer
ganha notoriedade, que é remunerada com o dinheiro obtido na plataforma, por
conta do alto número de visualizações.
As
plataformas não rejeitaram estas suposições de forma unânime ou contundente. A
Meta afirmou não ter encontrado violações às suas políticas nas contas
assinaladas, e o YouTube cancelou a conta do influencer e músico "El
Makabélico", que é objeto de sanções do Departamento do Tesouro dos
Estados Unidos.
Na
verdade, mais do que as plataformas, os influenciadores seriam o mecanismo de
lavagem, usando suas atividades e negócios como fachada para lavar o dinheiro.
Mas
Gastélum não estava na lista dos investigados pela UIF.
Além de
investigar o fenômeno, o governo Sheinbaum pretende romper o vínculo entre a
cultura popular e o narcotráfico, intervindo nas letras dos corridos e
promovendo outros temas na produção artística mexicana.
Paralelamente,
o governo do México deu início à guerra que trouxe mais resultados em anos de
combate ao crime, conseguindo reduzir os homicídios em 48% em 2025, segundo os
números oficiais.
Mas
incidentes como o de Gastélum ou da famosa influenciadora mexicana Valeria Márquez, assassinada a tiros
enquanto realizava uma transmissão ao vivo pelo TikTok, dão a impressão de que
o narcotráfico continua marcando presença não apenas nas ruas mexicanas, mas
também no mundo digital e na cultura.
Claudia
Arruñada defende que "os casos de influencers assassinados demonstram que,
além da questão do seu possível envolvimento, o conteúdo simbolicamente
relacionado ao narcotráfico não irá desaparecer, pelo contrário. Ele irá migrar
para o formato seguinte, de forma ainda mais eficiente e massiva."
"Ninguém
imaginou que a cultura do narcotráfico encontraria um aliado na cultura do
algoritmo, mas é exatamente o que eles são", conclui a professora.
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A disputa entre 'Chapitos' e 'Mayos'
O
Gabinete de Segurança não detalhou quais seriam as "alusões a uma facção
de um grupo criminoso", supostamente feitas por Gastélum em publicações
anteriores.
Mas a
imprensa local afirma que, no conteúdo recente do influenciador, havia
possíveis referências ao grupo de La Mayiza, uma facção do Cartel de Sinaloa, liderada pelo capo
condenado Ismael "El Mayo" Zambada.
Esse
grupo é conhecido pela sigla MZ ou pelo apelido "Os do sombrero".
Gastélum
teria supostamente sido visto em uma publicação recente com as letras MZ e
publicado vídeos usando um sombrero, como os adotados pela facção.
Na sua
transmissão de terça-feira, o influenciador e os outros participantes do vídeo
também portavam sombreros. Mas não há nenhuma informação das autoridades
confirmando que esta seja a alusão mencionada.
"La
Mayiza" mantém conflito, desde 2025, com outra facção do mesmo cartel,
"Los Chapitos", liderada pelos filhos do capo condenado Joaquín
"El Chapo" Guzmán.
Os dois
grupos se enfrentaram em Sinaloa, deixando um saldo de centenas de mortos,
devido ao suposto sequestro de "El Mayo" Zambada, realizado por
Joaquín Gusmán López, um dos filhos de "El Chapo".
Gusmán
López teria se entregado junto com ele às autoridades americanas, em julho do
ano passado.
Cerca
de 12 influencers foram assassinados nos últimos anos em Sinaloa. Alguns deles
estariam supostamente vinculados a grupos criminosos.
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Quem era 'Cesarín'?
Criador
de conteúdo conhecido entre seus seguidores como "Cesarín", César
Gastélum tinha 25 anos.
Nas
suas contas nas redes sociais, ele apresentava humor, paródias, falava sobre
seu estilo de vida e também mostrava um pouco do que ele chamava de cultura
sinaloense.
Há dois
anos, Gastélum lançou um podcast no YouTube chamado Al Estilo Culiacán,
descrito por ele como o "mais bélico" que havia.
Como
outros influencers da sua região, ele fazia constantes alusões ao estilo de
vida de luxo e exagero dominante na cultura relacionada ao narcotráfico. Nos
seus vídeos, ele mostrava carros de luxo, fazendas e mansões, além de roupas e
joias.
Nove
meses atrás, ele havia declarado estar se afastando das redes sociais, para um
momento de luto pela morte do seu pai e para se dedicar à música. Mas
prosseguiu com seus vídeos e transmissões.
Após a
sua morte, suas contas começaram a ser invadidas por mensagens de pêsames.
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Outra influencer assassinada
O caso
de Gastélum foi comparado com o assassinato da influencer de beleza
Valeria Márquez,
durante uma transmissão ao vivo no ano passado.
Márquez
era uma modelo mexicana que, em 2021, começou a ficar conhecida ao vencer o
concurso de beleza Miss Rosto.
Pouco
depois, ela começou a criar conteúdo nas redes sociais, compartilhando
conselhos sobre maquiagem e rotinas de cuidados pessoais. Ela também falava
sobre moda e sobre suas viagens.
Durante
a transmissão, Márquez contou que estava no interior do seu salão de beleza, na
região de Guadalajara, a segunda cidade mais populosa do país. Ela esperava um
mensageiro que havia estado no local anteriormente e avisou que voltaria para
fazer uma entrega.
As
autoridades afirmam que pelo menos dois homens chegaram de moto ao
estabelecimento e um deles perguntou à vítima se ela era Valeria. Quando ela
respondeu "sim", ele sacou uma arma e disparou pelo menos duas vezes,
escapando em seguida.
Na
semana passada, o governo mexicano anunciou a captura do líder criminoso Ramón
Ángel Álvarez ("R1"), acusado de ser o mandante do assassinato de
Márquez a pedido do seu filho, que mantinha uma relação amorosa com a jovem.
"Tudo
indica, iremos provar, que o filho pede ao seu pai, o 'R1', que seja cometido o
feminicídio", afirmou o secretário nacional de Segurança do México, Omar
García Harfuch.
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Moradores acusam governo da Cidade do México de falhar no
combate à ocupação ilegal de imóveis
Moradores
da colônia Del Valle e vítimas de ocupação de outras prefeituras acusaram que
depois de um ano da criação do gabinete de ocupações da Cidade do México, não
existem resultados visíveis na restituição de imóveis invadidos, razão pela
qual disseram que este delito é um câncer que pode fazer metástase.
Acompanhados
de Arturo Santana, filho da senhora Carlota, — que assassinou dois ocupantes no
Estado do México —, os moradores afirmaram que apresentarão à procuradora Bertha Alcalde e ao secretário
de Governo, César Cravioto, uma demanda com sete pontos, entre eles a detenção
de Virginia Vázquez García, suposta responsável pela ocupação de um imóvel
localizado em Matías Romero.
Os
afetados também propuseram levar adiante um projeto de lei com o objetivo de
agilizar a restituição de propriedades e fortalecer o marco legal contra este
delito, como ocorreu no Estado do México.
Alicia
Camps, integrante da Comissão de Participação Comunitária (Copaco) de Valle
Centro, explicou que a proposta que buscam permitirá articular a legislação da
Cidade do México com a do estado do México.
Por sua
vez, Arturo Santana disse que na entidade mexicana conseguiram recuperar mais
de dois mil imóveis mediante a Operação Restituição, mas que isto não ocorre na
capital.
Garantiram
que os invasores chegam com caminhões e serralheiros, esvaziam as casas em
questão de horas, mudam placas e até remodelam os imóveis para consolidar a
ocupação.
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Autoridades do CDMX oferecem combate total às redes de ocupação de imóveis
Depois
de uma reunião com moradores e vítimas de ocupação de seis prefeituras,
autoridades da capital se comprometeram a restituir os imóveis, a revisão de
pelo menos 61 novos casos que foram registrados no dia 29 de julho e a
desarticulação de redes que cometem este delito na cidade.
Depois
de quatro horas de reunião na Superintendência da Polícia de Investigação, as
vítimas também pediram a restruturação do gabinete contra a ocupação, que,
denunciaram, não deu resultados depois de um ano de sua implementação; também
pediram a incorporação desta instância à Secretaria de Segurança Cidadã e ao
Registro Público da Propriedade e do Comércio.
A
Promotoria Geral de Justiça informou que receberam 81 pessoas, foram
registrados 61 novos casos e 20 por outros delitos, além de comprometerem-se a
realizar trabalhos com a Direção de Assuntos Internos para rever outros onde se
presuma a participação de servidores públicos.
Na
reunião estiveram presentes a procuradora, Bertha Alcalde e o secretário de
Governo, César Cravioto, que afirmaram que conduzem 300 casos positivos de
restituição de imóveis, cifra que os afetados consideraram baixa para o tamanho
do problema.
Entre
as solicitações que fizeram está a detenção de Virginia Vázquez García, suposta responsável
pela ocupação de um imóvel na rua Matías Romero, colônia Del Valle, assim como
a judicialização de todos os expedientes com que conta o gabinete contra a
ocupação.
No
término da reunião, Alicia Camps, integrante do grupo de moradores da colônia
Del Valle, afirmou que confiavam nos protocolos e que conseguiram formar mesas
de trabalho para mês a mês verificar os avanços.
O
advogado Arturo Santana, filho da senhora Carlota, que assassinou no estado do
México dois ocupantes, uniu-se à defesa dos moradores e vítimas, informando que
as autoridades asseguraram maior presença em zonas com foco vermelho pela
ocorrência deste delito; no entanto, evitaram dizer quais seriam.
Entre
os casos apresentados um foi a ocupação de uma casa do muralista Jorge González
Camarena, que está há nove semanas invadida.
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Realizam-se operações
Elementos
da PDI e da SSC e pessoal da Secretaria de Governo implementaram no dia 29 de
julho pela manhã cinco operações nas prefeituras de Benito Juárez, Coyoacán,
Cuauhtémoc e Iztapalapa para assegurar o mesmo número de imóveis supostamente
ocupados, relataram fontes ministeriais.
Tais
operações fazem parte das ações imediatas para atender este ilícito em arquivos
que já continham avanços significativos.
O
primeiro se realizou na rua Galeana 20, colônia Guerrero, em Cuauhtémoc, onde
permitiram que uma mulher soltasse seu cachorro para posteriormente assegurar o
imóvel e colocar selos.
O
segundo foi na avenida Cuauhtémoc 1146, município de Benito Juárez, onde dois
indivíduos guardavam o imóvel, mas não foram detidos.
Outro
ainda foi realizado na prefeitura de Coyoacán, realizado na madrugada de
quarta-feira, como parte de uma investigação por uma suposta ocupação com
violência ocorrida em dezembro de 2025.
O
advogado do caso, Leonel Rodríguez, afirmou que a ação fez parte de um
expediente localizado na Procuradoria de Investigação do Delito de Ocupação e
Recuperação de Imóveis.
Relatou
que uma das linhas de investigação indica a participação de uma célula delitiva
dedicada à ocupação de imóveis, ainda que, disse, as autoridades terão que
precisar que tipo de rede participou, quem fez uma dupla venda do imóvel,
supostamente realizada por um notário e sua companheira.
Fonte:
BBC News Mundo/Diálogos do Sul Global

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