segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Crise de 1929: Quando o mundo econômico se choca(Parte I)

No debate público e na literatura econômica, 1929 permaneceu, durante décadas, como o principal termo de comparação para medir a gravidade de cada crise econômica posterior.

Entretanto, o conhecimento efetivo desse acontecimento frequentemente se limita aos seus aspectos mais superficiais ou à narrativa do colapso da Bolsa de Wall Street, negligenciando a duração plurianual da depressão subsequente e a lentidão dos processos de recuperação, que se prolongaram ao longo de toda a década seguinte.

O impacto, originado nos mercados financeiros, atingiu toda a estrutura produtiva e o comércio internacional, provocando a desarticulação da ordem econômica mundial e conduzindo o mundo a uma combinação de fenômenos como protecionismo, desemprego, caos monetário e instabilidade política, que colocaram em xeque os fundamentos da economia internacional da época e do próprio sistema capitalista.

<><> 1929 – O colapso da bolsa e as primeiras fissuras globais

O sistema econômico internacional da década de 1920 sustentava-se sobre um equilíbrio precário, cujas bases repousavam em um complexo entrelaçamento de obrigações financeiras decorrentes da Primeira Guerra Mundial.

No centro desse sistema encontravam-se o problema das reparações de guerra impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes e o das dívidas contraídas pelas potências da Entente junto aos Estados Unidos. Formou-se, assim, um circuito triangular de fluxos financeiros, no qual os capitais privados americanos, por meio de empréstimos concedidos à Alemanha a partir do Plano Dawes de 1924, permitiam que esta honrasse as reparações devidas à França e à Grã-Bretanha, que, por sua vez, utilizavam esses recursos para reembolsar suas dívidas de guerra junto a Washington.

Essa estrutura, que já à primeira vista apresentava elementos de extrema fragilidade tanto econômica quanto política, dependia inteiramente da disposição das instituições financeiras norte-americanas em continuar concedendo crédito à Europa.

Além desse desequilíbrio, o restabelecimento do sistema de câmbio fixo, conhecido como Gold Exchange Standard (câmbio padrão-ouro), caracterizou-se por fenômenos como a sobrevalorização da libra esterlina e a subvalorização do franco francês, fatores que dificultaram a cooperação entre os bancos centrais.

O acontecimento que desencadeou o colapso desse sistema ocorreu em outubro de 1929, com a queda das cotações na Bolsa de Wall Street. A desvalorização das ações teve início nos primeiros dias do mês, culminando nos dias 24 e 29 de outubro, quando o pânico provocou vendas maciças de títulos.

Entretanto, a contração dos empréstimos externos americanos já vinha ocorrendo desde meados de 1928, pois os investidores norte-americanos passaram a considerar mais lucrativo aplicar seus capitais em operações especulativas internas, como o mercado de empréstimos de curto prazo em Nova York.

Após o colapso da bolsa, a interrupção dos fluxos de crédito tornou-se sistêmica, acompanhada pela retirada imediata dos capitais americanos dos mercados europeus.

O desaparecimento do principal financiador internacional privou as economias devedoras dos instrumentos necessários para equilibrar suas contas externas, desencadeando uma corrida generalizada por liquidez.

As repercussões foram imediatas e severas nos países exportadores de matérias-primas, que já antes de outubro de 1929 sofriam com o acúmulo de excedentes produtivos e com a estagnação da demanda.

Na Austrália, a queda dos preços da lã e do trigo, iniciada no verão de 1929, lançou o país em uma profunda recessão antes mesmo do colapso de Wall Street. A interrupção do crédito londrino e a necessidade de honrar uma elevada dívida externa obrigaram as autoridades australianas a restringir o crédito bancário e, em dezembro de 1929, a abandonar a paridade-ouro.

Dinâmicas semelhantes ocorreram na América Latina, onde o Brasil teve de enfrentar a redução pela metade do preço do café entre a primavera e o final daquele ano. A Argentina e o Uruguai, atingidos pela contração das receitas provenientes das exportações agrícolas, decidiram igualmente suspender a conversibilidade de suas moedas em dezembro de 1929.

Toda a periferia agrícola do sistema econômico mundial viu-se, assim, em pouco tempo, impossibilitada de suportar o peso das dívidas contraídas nos anos anteriores, sofrendo uma deterioração dos termos de troca que transferiu o ônus do ajuste econômico para os produtores rurais.

Nesse contexto, a Itália chegou ao encontro da crise internacional em condições de fragilidade interna, provocadas pela política de deflação necessária para manter a revalorização da lira na Cota 90 – que fixou a taxa de câmbio em exatamente 90 liras por libra esterlina –, implementada em 1927. O sistema produtivo italiano já apresentava estagnação da atividade industrial e aumento do desemprego operário antes mesmo de 1929. A estrutura bancária, baseada no modelo do banco misto, apresentava elevado grau de imobilização financeira, uma vez que os bancos comerciais haviam concedido financiamentos de longo prazo a grandes complexos industriais e mantinham em suas carteiras expressivos volumes de ações das empresas financiadas. Ao longo de 1929 surgiram os primeiros sinais de iliquidez, agravados pela queda dos depósitos e pela necessidade de sustentar as cotações dos títulos industriais na bolsa. Para suprir a escassez de recursos internos, os bancos italianos aumentaram seu endividamento externo; contudo, a mudança do cenário financeiro internacional tornou essa posição insustentável. Já no final do ano tornou-se evidente que os bancos comerciais não seriam capazes de absorver as perdas dos grandes grupos industriais sem uma intervenção externa, estabelecendo as bases para as dificuldades que se manifestariam plenamente no ano seguinte.

<><> 1930 – A espiral deflacionária e a contração do comércio internacional

O ano de 1930 marcou uma nova fase da crise econômica, que deixou de se concentrar no sistema financeiro para transformar-se em uma contração sistemática do comércio internacional e da produção.

O acontecimento central dessa transformação foi a aprovação, em junho, da tarifa Smoot-Hawley nos Estados Unidos. Essa medida, originalmente concebida para apoiar os produtores agrícolas americanos em dificuldades, sofreu numerosas modificações durante sua tramitação no Congresso, estendendo a proteção tarifária a mais de 21.000 itens.

A sanção da lei pelo presidente Hoover, apesar do protesto formal de trinta e quatro países e da oposição de mais de mil economistas, indicou que a liderança política do país economicamente mais poderoso do mundo, os Estados Unidos, não estava disposta a assumir a responsabilidade pela estabilidade dos mercados mundiais.

As retaliações foram imediatas e amplamente disseminadas.

A Itália respondeu já em 30 de junho de 1930 com o aumento das tarifas de importação sobre automóveis americanos e franceses. O Canadá, após a mudança de governo ocorrida em agosto, impôs tarifas alfandegárias sobre uma ampla gama de manufaturas e produtos alimentícios americanos. A Suíça promoveu campanhas de boicote contra produtos provenientes de além-mar, enquanto a França reagiu com o endurecimento seletivo de suas tarifas sobre determinados bens industriais.

A adoção de tarifas alfandegárias cada vez mais elevadas contribuiu para a redução dos fluxos comerciais globais, que entraram em uma espiral contínua de contração. O valor das importações mensais dos Estados Unidos caiu de 400 milhões de dólares, no período anterior a outubro de 1929, para 200 milhões registrados no outono de 1930. A retração do comércio internacional teve reflexos diretos sobre a produção industrial e o emprego nas economias mais desenvolvidas, como os próprios Estados Unidos e a Alemanha, agravando a tendência deflacionária geral.

Bibliografia

Nas economias coloniais e periféricas, o impacto da crise foi particularmente severo devido ao colapso das cotações das matérias-primas. A queda dos preços do trigo e do arroz na segunda metade de 1930 alimentou um amplo descontentamento rural na Índia. A coincidência entre a crise agrícola e a Marcha do Sal, liderada por Gandhi, ampliou o apoio ao movimento nacionalista entre os camponeses, atingidos pela impossibilidade de pagar impostos fixos com receitas agrícolas reduzidas à metade. Na Austrália, o governo trabalhista de James Scullin tentou enfrentar a crise do balanço de pagamentos por meio de uma campanha destinada a ampliar a produção de trigo; contudo, essa iniciativa acabou deprimindo ainda mais seu preço nos mercados internacionais. A América Latina também foi atingida pela contração das receitas de exportação que, somada à escassez de empréstimos externos, levou a situações de insolvência e instabilidade política: a Bolívia declarou moratória de sua dívida externa em dezembro de 1930, enquanto Peru e Chile mergulharam no caos político e suspenderam o pagamento da dívida pública, abrindo caminho para uma atuação mais intensa do Estado na administração dos recursos nacionais.

A Itália procurou defender a paridade-ouro da lira por meio de uma rigorosa política de deflação interna. O regime fascista, consciente de que a revalorização da moeda na Cota 90 comprometia a competitividade dos produtos italianos, determinou, em dezembro, uma redução compulsória dos salários nominais entre 5% e 10%, apresentada como necessária para alinhar os custos de produção à queda dos preços no atacado. O desemprego no setor industrial aumentou continuamente, ultrapassando meio milhão de trabalhadores já no início do ano. Nos setores têxtil e metalúrgico, os sinais da crise tornaram-se evidentes pela redução dos turnos de trabalho e pelo acúmulo de estoques não vendidos. Para evitar uma crise do sistema bancário, que detinha grandes participações em empresas em dificuldades, as autoridades monetárias iniciaram as primeiras medidas emergenciais. Com o consentimento do governo, o banco Credito Italiano promoveu a criação de uma holding financeira destinada a separar as participações industriais dos depósitos dos poupadores, estabelecendo as bases do modelo de gestão dos resgates financeiros que seria plenamente desenvolvido nos anos seguintes.

<><> 1931 – O colapso bancário europeu e a crise do Gold Standard

Em 1931, a crise voltou a concentrar-se no setor financeiro, provocando a desarticulação dos mecanismos de cooperação monetária internacional. O colapso do sistema de crédito teve origem na Europa Central, onde os bancos mantinham uma estreita ligação estrutural com a indústria, por meio da concessão de empréstimos de longo prazo e da posse de participações acionárias. Em maio, a principal instituição bancária austríaca, o Kreditanstalt, de Viena, que controlava cerca de 60% da indústria nacional, entrou em colapso por insolvência. O anúncio de perdas equivalentes a 140 milhões de xelins desencadeou uma fuga de capitais que nem mesmo as tentativas de resgate promovidas pelo governo conseguiram conter, exercendo imediata pressão sobre as reservas cambiais da Áustria.

O pânico rapidamente se espalhou para a Alemanha, cujo sistema bancário mostrava-se particularmente vulnerável devido ao elevado endividamento externo de curto prazo e à fragilidade das finanças públicas. Em julho, o fechamento do Darmstädter und Nationalbank, conhecido como Danat Bank, levou o governo alemão a decretar a suspensão das atividades bancárias e a introduzir controles cambiais destinados a limitar a saída de ouro.

Nesse cenário de instabilidade, a atuação da França desempenhou papel decisivo na redução da liquidez mundial. Desde o realinhamento do franco promovido por Raymond Poincaré, o Banco da França adotara uma política de acumulação maciça de reservas de ouro, favorecida por uma taxa de câmbio subvalorizada que fortalecia seu balanço de pagamentos. Entre meados de 1928 e o início de 1930, as autoridades monetárias francesas adquiriram ouro no valor aproximado de um bilhão de dólares, intensificando essa política ao longo de 1931 mediante a conversão em ouro físico das reservas mantidas em moedas estrangeiras, especialmente em libras esterlinas. Essa estratégia, ao retirar recursos do circuito internacional de crédito, foi alvo de severas críticas da imprensa britânica e americana, que acusava Paris de utilizar o ouro como instrumento de pressão política e de agravar os desequilíbrios do Gold Standard.

A pressão especulativa voltou-se, por fim, para a Grã-Bretanha, onde a contínua perda de reservas de ouro para a França e o elevado volume de créditos concedidos à Europa Central — agora de difícil recuperação — tornavam o país especialmente vulnerável. Em 21 de setembro de 1931, as autoridades britânicas decidiram suspender a conversibilidade da libra em ouro, marcando o fim do Gold Exchange Standard. A subsequente desvalorização da moeda levou à formação da Área da Libra Esterlina, um bloco monetário ao qual aderiram numerosos países do Império Britânico, como Austrália e Índia. A vinculação à moeda britânica e a dominação colonial favoreceram, na Índia, um intenso fluxo de ouro em direção à Grã-Bretanha, alimentado pela necessidade dos camponeses de vender as joias da família para pagar suas dívidas em um contexto de preços agrícolas deprimidos — fenômeno conhecido como distress gold. Esses fluxos permitiram a Londres recompor parcialmente suas reservas e estabilizar o novo sistema de trocas dentro do império.

Na Itália, o ano de 1931 evidenciou a crise do modelo de banco misto. A Banca Commerciale Italiana e o Credito Italiano apresentaram elevado grau de iliquidez em razão da imobilização de recursos na indústria. Embora não tenha ocorrido um pânico público semelhante ao austríaco, a situação dos bancos comerciais revelou-se insustentável, tornando necessária uma ampla intervenção estatal. O regime fascista realizou um primeiro resgate sigiloso por meio da criação de sociedades financeiras destinadas a assumir as carteiras de ações dos bancos em dificuldades. Em novembro foi criado o Istituto Mobiliare Italiano (IMI), um organismo público encarregado de conceder financiamentos de longo prazo às empresas, separando, dessa forma, a atividade de captação de depósitos daquela de financiamento industrial. Essa medida representou o primeiro passo para uma reorganização sistemática do crédito, que conduziria ao desaparecimento definitivo do modelo de banco misto nos anos seguintes.

<><> 1932 – O auge da crise e a fragmentação dos mercados

A economia mundial atingiu, em 1932, seu ponto máximo de contração, e o desemprego alcançou níveis sem precedentes nas principais economias industrializadas.

A produção industrial alemã reduziu-se quase à metade em relação ao final da década anterior, e a proporção de trabalhadores sem emprego atingiu 30% da força de trabalho, enquanto no Reino Unido a taxa oficial chegou a 17,6%. A situação não era melhor nos Estados Unidos, onde o número de desempregados ultrapassou doze milhões, refletindo uma paralisação da atividade produtiva que levou os índices industriais aos níveis mais baixos da história.

A resposta britânica à crise acelerou a fragmentação do mercado mundial por meio do abandono dos princípios do livre-comércio. Em julho de 1932, a Conferência Imperial de Ottawa instituiu o sistema da Imperial Preference, transformando o Império Britânico em uma união econômica de caráter mercantilista. O acordo previa a elevação das barreiras tarifárias contra mercadorias provenientes de países externos ao império, aumentando as tarifas sobre diversos produtos agrícolas e matérias-primas de cerca de 10% para percentuais entre 33% e 100%. Nesse modelo, conhecido como “bilateralismo múltiplo”, a Grã-Bretanha garantiu livre acesso a determinadas matérias-primas oriundas das colônias em troca de condições preferenciais para suas exportações industriais. À Índia, por exemplo, foram concedidas vantagens alfandegárias sobre dez categorias de mercadorias, principalmente minerais e produtos agrícolas, mas, em contrapartida, o país teve de abrir seu mercado aos manufaturados britânicos. A Austrália, fortemente endividada junto aos bancos londrinos, também procurou estabilizar seu balanço de pagamentos mediante o aumento das exportações de trigo protegidas pelo regime imperial.

A contração dos fluxos comerciais favoreceu igualmente, em outras regiões, a adoção sistemática de instrumentos de controle quantitativo e de acordos bilaterais de compensação. Na Europa continental e na América Latina, os governos substituíram gradualmente as tarifas alfandegárias pelos sistemas de cotas de importação e de controle cambial. Esses mecanismos foram utilizados pelos países credores para assegurar a recuperação de seus créditos comerciais, como ocorreu nos acordos firmados pela Alemanha com Bulgária, Romênia e Iugoslávia ao longo de 1932. Esses acordos de clearing permitiam a realização de trocas sem desembolso efetivo de divisas, vinculando estreitamente as transações comerciais ao serviço da dívida. Essa tendência ao fechamento das economias nacionais dificultou qualquer tentativa de restabelecer a cooperação monetária internacional.

Na Itália, o número de desempregados oficialmente registrados agravou-se em 1932, ultrapassando um milhão de pessoas, sobretudo nos centros urbanos onde se concentrava a atividade industrial. O desemprego na indústria de transformação atingiu 15% da força de trabalho, levando o regime a utilizar a administração pública como instrumento de absorção parcial do excedente de mão de obra mediante o aumento dos gastos com obras públicas, destinando recursos à recuperação de áreas agrícolas e à construção estatal na tentativa de reduzir as tensões sociais.

Paralelamente, a crise dos grandes bancos comerciais tornou necessária a elaboração de um plano orgânico para ampliar a intervenção do Estado na indústria pesada. Ao longo do ano foram lançadas as bases para o financiamento de longo prazo das empresas dos setores metalúrgico e da construção naval, preparando o terreno para o modelo de Estado empresário que se consolidaria nos anos seguintes. A criação de consórcios obrigatórios na indústria siderúrgica buscou sustentar os preços internos e proteger o valor agregado dos setores mais expostos à retração da demanda mundial.

<><> 1933 – O New Deal, a criação do IRI e o fracasso do multilateralismo

O ano de 1933 representou a definitiva fragmentação da ordem econômica internacional e a transição para formas nacionais e dirigistas de organização da produção e do crédito.

O acontecimento que marcou o fim da cooperação multilateral ocorreu em Londres, entre junho e julho, durante a Conferência Econômica Mundial. Essa reunião constituiu a última tentativa sistemática de restaurar a estabilidade cambial e reduzir as barreiras comerciais dentro de um quadro internacional. Entretanto, seus trabalhos sofreram um bloqueio irreversível em razão da posição adotada pelo novo presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt.

Empossado em março daquele ano, Roosevelt já havia priorizado a recuperação interna ao suspender a conversibilidade do dólar em ouro, em abril, seguida da imposição de um embargo às exportações de ouro. Na mensagem enviada à Conferência em 3 de julho de 1933, recusou qualquer acordo de estabilização monetária, sustentando que a recuperação dos preços internos era mais importante do que a estabilidade das taxas de câmbio internacionais.

Essa decisão, que explicitou o afastamento dos Estados Unidos da função de liderança financeira mundial exercida ao longo da década anterior, também pôs fim às esperanças de um acordo internacional, levando os diversos países a concentrar suas políticas econômicas na proteção de seus mercados internos.

No plano doméstico, a ação do governo Roosevelt, conhecida como New Deal, desenvolveu-se por meio de medidas legislativas destinadas a regular a atividade agrícola e industrial. Em maio de 1933, a aprovação do Agricultural Adjustment Act (AAA) introduziu o controle da produção como instrumento para sustentar os preços dos produtos primários, prevendo indenizações aos agricultores que reduzissem a área cultivada.

Em junho, o National Industrial Recovery Act (NIRA) estimulou a criação de códigos de disciplina industrial destinados a limitar a concorrência por preços e garantir níveis salariais mínimos, embora essa crescente regulamentação burocrática tenha encontrado resistência entre os empresários.

Na Itália, em janeiro, por iniciativa de Alberto Beneduce, foi criado o Istituto per la Ricostruzione Industriale (IRI). O novo órgão surgiu com o objetivo imediato de sanear o balanço do Banco da Itália, sobrecarregado pelas participações acionárias herdadas dos resgates anteriores dos bancos comerciais.

O IRI foi estruturado em duas seções: a Seção de Financiamento, destinada à concessão de financiamentos de longo prazo, e a Seção de Desmobilização Industrial, que assumiu as funções do Instituto de Liquidações, pois a intenção inicial era recuperar e posteriormente revender ao setor privado as participações acionárias que haviam passado para as mãos do Estado.

Por meio da transferência das participações acionárias da Banca Commerciale Italiana, do Credito Italiano e do Banco di Roma, o Estado passou a controlar uma parcela significativa do capital das Sociedades Anônimas italianas, estimada em cerca de 21,5% do valor nominal total. Essa operação resultou, portanto, em uma nacionalização “compulsória” de setores inteiros, como a siderurgia bélica, a mineração de carvão e os serviços telefônicos, transformando o Estado no principal acionista do país.

Nas economias da América Latina, a impossibilidade de honrar as dívidas externas e o bloqueio dos fluxos comerciais favoreceram o início de processos de industrialização voltados para a substituição de importações. No Brasil, o governo de Getúlio Vargas adotou medidas de controle cambial e suspendeu o pagamento da dívida externa, ao mesmo tempo em que estimulou o desenvolvimento de indústrias nacionais nos setores têxtil, cimenteiro e siderúrgico. A desvalorização cambial tornou os produtos manufaturados importados menos competitivos, incentivando os produtores locais a utilizar plenamente a capacidade instalada construída ao longo da década de 1920 para atender à demanda interna.

Na Argentina, apesar da assinatura do acordo bilateral Roca-Runciman com a Grã-Bretanha, em maio de 1933 — que assegurava o acesso da carne argentina ao mercado britânico em troca de tarifas preferenciais para os manufaturados ingleses —, a produção industrial registrou crescimento significativo. O processo de substituição de importações reduziu a participação dos produtos importados no consumo total de manufaturas, passando de 40,5% em 1929 para 25,3% poucos anos depois.

Esses processos representaram a tentativa da periferia agrícola de reduzir sua dependência das flutuações dos preços das matérias-primas nos mercados mundiais.

CONTINUA...

 

Fonte: La Storia e le Idee | Tradução: Lucas Scatolini, em Outras Palavras

 

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