Crise de 1929: Quando o mundo econômico se
choca(Parte I)
No
debate público e na literatura econômica, 1929 permaneceu, durante décadas,
como o principal termo de comparação para medir a gravidade de cada crise
econômica posterior.
Entretanto,
o conhecimento efetivo desse acontecimento frequentemente se limita aos seus
aspectos mais superficiais ou à narrativa do colapso da Bolsa de Wall Street,
negligenciando a duração plurianual da depressão subsequente e a lentidão dos
processos de recuperação, que se prolongaram ao longo de toda a década
seguinte.
O
impacto, originado nos mercados financeiros, atingiu toda a estrutura produtiva
e o comércio internacional, provocando a desarticulação da ordem econômica
mundial e conduzindo o mundo a uma combinação de fenômenos como protecionismo,
desemprego, caos monetário e instabilidade política, que colocaram em xeque os
fundamentos da economia internacional da época e do próprio sistema
capitalista.
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1929 – O colapso da bolsa e as primeiras fissuras globais
O
sistema econômico internacional da década de 1920 sustentava-se sobre um
equilíbrio precário, cujas bases repousavam em um complexo entrelaçamento de
obrigações financeiras decorrentes da Primeira Guerra Mundial.
No
centro desse sistema encontravam-se o problema das reparações de guerra
impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes e o das dívidas contraídas pelas
potências da Entente junto aos Estados Unidos. Formou-se, assim, um circuito
triangular de fluxos financeiros, no qual os capitais privados americanos, por
meio de empréstimos concedidos à Alemanha a partir do Plano Dawes de 1924,
permitiam que esta honrasse as reparações devidas à França e à Grã-Bretanha,
que, por sua vez, utilizavam esses recursos para reembolsar suas dívidas de
guerra junto a Washington.
Essa
estrutura, que já à primeira vista apresentava elementos de extrema fragilidade
tanto econômica quanto política, dependia inteiramente da disposição das
instituições financeiras norte-americanas em continuar concedendo crédito à
Europa.
Além
desse desequilíbrio, o restabelecimento do sistema de câmbio fixo, conhecido
como Gold Exchange Standard (câmbio padrão-ouro),
caracterizou-se por fenômenos como a sobrevalorização da libra esterlina e a
subvalorização do franco francês, fatores que dificultaram a cooperação entre
os bancos centrais.
O
acontecimento que desencadeou o colapso desse sistema ocorreu em outubro de
1929, com a queda das cotações na Bolsa de Wall Street. A desvalorização das
ações teve início nos primeiros dias do mês, culminando nos dias 24 e 29 de
outubro, quando o pânico provocou vendas maciças de títulos.
Entretanto,
a contração dos empréstimos externos americanos já vinha ocorrendo desde meados
de 1928, pois os investidores norte-americanos passaram a considerar mais
lucrativo aplicar seus capitais em operações especulativas internas, como o
mercado de empréstimos de curto prazo em Nova York.
Após o
colapso da bolsa, a interrupção dos fluxos de crédito tornou-se sistêmica,
acompanhada pela retirada imediata dos capitais americanos dos mercados
europeus.
O
desaparecimento do principal financiador internacional privou as economias
devedoras dos instrumentos necessários para equilibrar suas contas externas,
desencadeando uma corrida generalizada por liquidez.
As
repercussões foram imediatas e severas nos países exportadores de
matérias-primas, que já antes de outubro de 1929 sofriam com o acúmulo de
excedentes produtivos e com a estagnação da demanda.
Na
Austrália, a queda dos preços da lã e do trigo, iniciada no verão de 1929,
lançou o país em uma profunda recessão antes mesmo do colapso de Wall Street. A
interrupção do crédito londrino e a necessidade de honrar uma elevada dívida
externa obrigaram as autoridades australianas a restringir o crédito bancário
e, em dezembro de 1929, a abandonar a paridade-ouro.
Dinâmicas
semelhantes ocorreram na América Latina, onde o Brasil teve de enfrentar a
redução pela metade do preço do café entre a primavera e o final daquele ano. A
Argentina e o Uruguai, atingidos pela contração das receitas provenientes das
exportações agrícolas, decidiram igualmente suspender a conversibilidade de
suas moedas em dezembro de 1929.
Toda a
periferia agrícola do sistema econômico mundial viu-se, assim, em pouco tempo,
impossibilitada de suportar o peso das dívidas contraídas nos anos anteriores,
sofrendo uma deterioração dos termos de troca que transferiu o ônus do ajuste
econômico para os produtores rurais.
Nesse
contexto, a Itália chegou ao encontro da crise internacional em condições de
fragilidade interna, provocadas pela política de deflação necessária para
manter a revalorização da lira na Cota 90 – que fixou a taxa de câmbio em
exatamente 90 liras por libra esterlina –, implementada em 1927. O sistema
produtivo italiano já apresentava estagnação da atividade industrial e aumento
do desemprego operário antes mesmo de 1929. A estrutura bancária, baseada no
modelo do banco misto, apresentava elevado grau de imobilização financeira, uma
vez que os bancos comerciais haviam concedido financiamentos de longo prazo a
grandes complexos industriais e mantinham em suas carteiras expressivos volumes
de ações das empresas financiadas. Ao longo de 1929 surgiram os primeiros
sinais de iliquidez, agravados pela queda dos depósitos e pela necessidade de
sustentar as cotações dos títulos industriais na bolsa. Para suprir a escassez
de recursos internos, os bancos italianos aumentaram seu endividamento externo;
contudo, a mudança do cenário financeiro internacional tornou essa posição
insustentável. Já no final do ano tornou-se evidente que os bancos comerciais
não seriam capazes de absorver as perdas dos grandes grupos industriais sem uma
intervenção externa, estabelecendo as bases para as dificuldades que se
manifestariam plenamente no ano seguinte.
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1930 – A espiral deflacionária e a contração do comércio internacional
O ano
de 1930 marcou uma nova fase da crise econômica, que deixou de se concentrar no
sistema financeiro para transformar-se em uma contração sistemática do comércio
internacional e da produção.
O
acontecimento central dessa transformação foi a aprovação, em junho, da
tarifa Smoot-Hawley nos Estados Unidos. Essa medida,
originalmente concebida para apoiar os produtores agrícolas americanos em
dificuldades, sofreu numerosas modificações durante sua tramitação no
Congresso, estendendo a proteção tarifária a mais de 21.000 itens.
A
sanção da lei pelo presidente Hoover, apesar do protesto formal de trinta e
quatro países e da oposição de mais de mil economistas, indicou que a liderança
política do país economicamente mais poderoso do mundo, os Estados Unidos, não
estava disposta a assumir a responsabilidade pela estabilidade dos mercados
mundiais.
As
retaliações foram imediatas e amplamente disseminadas.
A
Itália respondeu já em 30 de junho de 1930 com o aumento das tarifas de
importação sobre automóveis americanos e franceses. O Canadá, após a mudança de
governo ocorrida em agosto, impôs tarifas alfandegárias sobre uma ampla gama de
manufaturas e produtos alimentícios americanos. A Suíça promoveu campanhas de
boicote contra produtos provenientes de além-mar, enquanto a França reagiu com
o endurecimento seletivo de suas tarifas sobre determinados bens industriais.
A
adoção de tarifas alfandegárias cada vez mais elevadas contribuiu para a
redução dos fluxos comerciais globais, que entraram em uma espiral contínua de
contração. O valor das importações mensais dos Estados Unidos caiu de 400
milhões de dólares, no período anterior a outubro de 1929, para 200 milhões
registrados no outono de 1930. A retração do comércio internacional teve
reflexos diretos sobre a produção industrial e o emprego nas economias mais
desenvolvidas, como os próprios Estados Unidos e a Alemanha, agravando a
tendência deflacionária geral.
Bibliografia
Nas
economias coloniais e periféricas, o impacto da crise foi particularmente
severo devido ao colapso das cotações das matérias-primas. A queda dos preços
do trigo e do arroz na segunda metade de 1930 alimentou um amplo
descontentamento rural na Índia. A coincidência entre a crise agrícola e a
Marcha do Sal, liderada por Gandhi, ampliou o apoio ao movimento nacionalista
entre os camponeses, atingidos pela impossibilidade de pagar impostos fixos com
receitas agrícolas reduzidas à metade. Na Austrália, o governo trabalhista de
James Scullin tentou enfrentar a crise do balanço de pagamentos por meio de uma
campanha destinada a ampliar a produção de trigo; contudo, essa iniciativa
acabou deprimindo ainda mais seu preço nos mercados internacionais. A América Latina
também foi atingida pela contração das receitas de exportação que, somada à
escassez de empréstimos externos, levou a situações de insolvência e
instabilidade política: a Bolívia declarou moratória de sua dívida externa em
dezembro de 1930, enquanto Peru e Chile mergulharam no caos político e
suspenderam o pagamento da dívida pública, abrindo caminho para uma atuação
mais intensa do Estado na administração dos recursos nacionais.
A
Itália procurou defender a paridade-ouro da lira por meio de uma rigorosa
política de deflação interna. O regime fascista, consciente de que a
revalorização da moeda na Cota 90 comprometia a competitividade dos produtos
italianos, determinou, em dezembro, uma redução compulsória dos salários
nominais entre 5% e 10%, apresentada como necessária para alinhar os custos de
produção à queda dos preços no atacado. O desemprego no setor industrial
aumentou continuamente, ultrapassando meio milhão de trabalhadores já no início
do ano. Nos setores têxtil e metalúrgico, os sinais da crise tornaram-se
evidentes pela redução dos turnos de trabalho e pelo acúmulo de estoques não
vendidos. Para evitar uma crise do sistema bancário, que detinha grandes
participações em empresas em dificuldades, as autoridades monetárias iniciaram
as primeiras medidas emergenciais. Com o consentimento do governo, o banco
Credito Italiano promoveu a criação de uma holding financeira destinada a
separar as participações industriais dos depósitos dos poupadores,
estabelecendo as bases do modelo de gestão dos resgates financeiros que seria
plenamente desenvolvido nos anos seguintes.
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1931 – O colapso bancário europeu e a crise do Gold Standard
Em
1931, a crise voltou a concentrar-se no setor financeiro, provocando a
desarticulação dos mecanismos de cooperação monetária internacional. O colapso
do sistema de crédito teve origem na Europa Central, onde os bancos mantinham
uma estreita ligação estrutural com a indústria, por meio da concessão de
empréstimos de longo prazo e da posse de participações acionárias. Em maio, a
principal instituição bancária austríaca, o Kreditanstalt, de Viena, que
controlava cerca de 60% da indústria nacional, entrou em colapso por
insolvência. O anúncio de perdas equivalentes a 140 milhões de xelins
desencadeou uma fuga de capitais que nem mesmo as tentativas de resgate
promovidas pelo governo conseguiram conter, exercendo imediata pressão sobre as
reservas cambiais da Áustria.
O
pânico rapidamente se espalhou para a Alemanha, cujo sistema bancário
mostrava-se particularmente vulnerável devido ao elevado endividamento externo
de curto prazo e à fragilidade das finanças públicas. Em julho, o fechamento do
Darmstädter und Nationalbank, conhecido como Danat Bank, levou o governo alemão
a decretar a suspensão das atividades bancárias e a introduzir controles
cambiais destinados a limitar a saída de ouro.
Nesse
cenário de instabilidade, a atuação da França desempenhou papel decisivo na
redução da liquidez mundial. Desde o realinhamento do franco promovido por
Raymond Poincaré, o Banco da França adotara uma política de acumulação maciça
de reservas de ouro, favorecida por uma taxa de câmbio subvalorizada que
fortalecia seu balanço de pagamentos. Entre meados de 1928 e o início de 1930,
as autoridades monetárias francesas adquiriram ouro no valor aproximado de um
bilhão de dólares, intensificando essa política ao longo de 1931 mediante a
conversão em ouro físico das reservas mantidas em moedas estrangeiras,
especialmente em libras esterlinas. Essa estratégia, ao retirar recursos do
circuito internacional de crédito, foi alvo de severas críticas da imprensa britânica
e americana, que acusava Paris de utilizar o ouro como instrumento de pressão
política e de agravar os desequilíbrios do Gold Standard.
A
pressão especulativa voltou-se, por fim, para a Grã-Bretanha, onde a contínua
perda de reservas de ouro para a França e o elevado volume de créditos
concedidos à Europa Central — agora de difícil recuperação — tornavam o país
especialmente vulnerável. Em 21 de setembro de 1931, as autoridades britânicas
decidiram suspender a conversibilidade da libra em ouro, marcando o fim
do Gold Exchange Standard. A subsequente desvalorização da moeda
levou à formação da Área da Libra Esterlina, um bloco monetário ao qual
aderiram numerosos países do Império Britânico, como Austrália e Índia. A
vinculação à moeda britânica e a dominação colonial favoreceram, na Índia, um
intenso fluxo de ouro em direção à Grã-Bretanha, alimentado pela necessidade
dos camponeses de vender as joias da família para pagar suas dívidas em um
contexto de preços agrícolas deprimidos — fenômeno conhecido como distress
gold. Esses fluxos permitiram a Londres recompor parcialmente suas reservas
e estabilizar o novo sistema de trocas dentro do império.
Na
Itália, o ano de 1931 evidenciou a crise do modelo de banco misto. A Banca
Commerciale Italiana e o Credito Italiano apresentaram elevado grau de
iliquidez em razão da imobilização de recursos na indústria. Embora não tenha
ocorrido um pânico público semelhante ao austríaco, a situação dos bancos
comerciais revelou-se insustentável, tornando necessária uma ampla intervenção
estatal. O regime fascista realizou um primeiro resgate sigiloso por meio da
criação de sociedades financeiras destinadas a assumir as carteiras de ações
dos bancos em dificuldades. Em novembro foi criado o Istituto Mobiliare
Italiano (IMI), um organismo público encarregado de conceder financiamentos de
longo prazo às empresas, separando, dessa forma, a atividade de captação de
depósitos daquela de financiamento industrial. Essa medida representou o
primeiro passo para uma reorganização sistemática do crédito, que conduziria ao
desaparecimento definitivo do modelo de banco misto nos anos seguintes.
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1932 – O auge da crise e a fragmentação dos mercados
A
economia mundial atingiu, em 1932, seu ponto máximo de contração, e o
desemprego alcançou níveis sem precedentes nas principais economias
industrializadas.
A
produção industrial alemã reduziu-se quase à metade em relação ao final da
década anterior, e a proporção de trabalhadores sem emprego atingiu 30% da
força de trabalho, enquanto no Reino Unido a taxa oficial chegou a 17,6%. A
situação não era melhor nos Estados Unidos, onde o número de desempregados
ultrapassou doze milhões, refletindo uma paralisação da atividade produtiva que
levou os índices industriais aos níveis mais baixos da história.
A
resposta britânica à crise acelerou a fragmentação do mercado mundial por meio
do abandono dos princípios do livre-comércio. Em julho de 1932, a Conferência
Imperial de Ottawa instituiu o sistema da Imperial Preference,
transformando o Império Britânico em uma união econômica de caráter
mercantilista. O acordo previa a elevação das barreiras tarifárias contra
mercadorias provenientes de países externos ao império, aumentando as tarifas
sobre diversos produtos agrícolas e matérias-primas de cerca de 10% para
percentuais entre 33% e 100%. Nesse modelo, conhecido como “bilateralismo
múltiplo”, a Grã-Bretanha garantiu livre acesso a determinadas matérias-primas
oriundas das colônias em troca de condições preferenciais para suas exportações
industriais. À Índia, por exemplo, foram concedidas vantagens alfandegárias
sobre dez categorias de mercadorias, principalmente minerais e produtos
agrícolas, mas, em contrapartida, o país teve de abrir seu mercado aos
manufaturados britânicos. A Austrália, fortemente endividada junto aos bancos
londrinos, também procurou estabilizar seu balanço de pagamentos mediante o
aumento das exportações de trigo protegidas pelo regime imperial.
A
contração dos fluxos comerciais favoreceu igualmente, em outras regiões, a
adoção sistemática de instrumentos de controle quantitativo e de acordos
bilaterais de compensação. Na Europa continental e na América Latina, os
governos substituíram gradualmente as tarifas alfandegárias pelos sistemas de
cotas de importação e de controle cambial. Esses mecanismos foram utilizados
pelos países credores para assegurar a recuperação de seus créditos comerciais,
como ocorreu nos acordos firmados pela Alemanha com Bulgária, Romênia e
Iugoslávia ao longo de 1932. Esses acordos de clearing permitiam
a realização de trocas sem desembolso efetivo de divisas, vinculando
estreitamente as transações comerciais ao serviço da dívida. Essa tendência ao
fechamento das economias nacionais dificultou qualquer tentativa de
restabelecer a cooperação monetária internacional.
Na
Itália, o número de desempregados oficialmente registrados agravou-se em 1932,
ultrapassando um milhão de pessoas, sobretudo nos centros urbanos onde se
concentrava a atividade industrial. O desemprego na indústria de transformação
atingiu 15% da força de trabalho, levando o regime a utilizar a administração
pública como instrumento de absorção parcial do excedente de mão de obra
mediante o aumento dos gastos com obras públicas, destinando recursos à
recuperação de áreas agrícolas e à construção estatal na tentativa de reduzir
as tensões sociais.
Paralelamente,
a crise dos grandes bancos comerciais tornou necessária a elaboração de um
plano orgânico para ampliar a intervenção do Estado na indústria pesada. Ao
longo do ano foram lançadas as bases para o financiamento de longo prazo das
empresas dos setores metalúrgico e da construção naval, preparando o terreno
para o modelo de Estado empresário que se consolidaria nos anos seguintes. A
criação de consórcios obrigatórios na indústria siderúrgica buscou sustentar os
preços internos e proteger o valor agregado dos setores mais expostos à
retração da demanda mundial.
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1933 – O New Deal, a criação do IRI e o fracasso do multilateralismo
O ano
de 1933 representou a definitiva fragmentação da ordem econômica internacional
e a transição para formas nacionais e dirigistas de organização da produção e
do crédito.
O
acontecimento que marcou o fim da cooperação multilateral ocorreu em Londres,
entre junho e julho, durante a Conferência Econômica Mundial. Essa reunião
constituiu a última tentativa sistemática de restaurar a estabilidade cambial e
reduzir as barreiras comerciais dentro de um quadro internacional. Entretanto,
seus trabalhos sofreram um bloqueio irreversível em razão da posição adotada
pelo novo presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt.
Empossado
em março daquele ano, Roosevelt já havia priorizado a recuperação interna ao
suspender a conversibilidade do dólar em ouro, em abril, seguida da imposição
de um embargo às exportações de ouro. Na mensagem enviada à Conferência em 3 de
julho de 1933, recusou qualquer acordo de estabilização monetária, sustentando
que a recuperação dos preços internos era mais importante do que a estabilidade
das taxas de câmbio internacionais.
Essa
decisão, que explicitou o afastamento dos Estados Unidos da função de liderança
financeira mundial exercida ao longo da década anterior, também pôs fim às
esperanças de um acordo internacional, levando os diversos países a concentrar
suas políticas econômicas na proteção de seus mercados internos.
No
plano doméstico, a ação do governo Roosevelt, conhecida como New Deal,
desenvolveu-se por meio de medidas legislativas destinadas a regular a
atividade agrícola e industrial. Em maio de 1933, a aprovação do Agricultural
Adjustment Act (AAA) introduziu o controle da produção como
instrumento para sustentar os preços dos produtos primários, prevendo
indenizações aos agricultores que reduzissem a área cultivada.
Em
junho, o National Industrial Recovery Act (NIRA) estimulou a
criação de códigos de disciplina industrial destinados a limitar a concorrência
por preços e garantir níveis salariais mínimos, embora essa crescente
regulamentação burocrática tenha encontrado resistência entre os empresários.
Na
Itália, em janeiro, por iniciativa de Alberto Beneduce, foi criado o Istituto
per la Ricostruzione Industriale (IRI). O novo órgão surgiu com o
objetivo imediato de sanear o balanço do Banco da Itália, sobrecarregado pelas
participações acionárias herdadas dos resgates anteriores dos bancos
comerciais.
O IRI
foi estruturado em duas seções: a Seção de Financiamento, destinada à concessão
de financiamentos de longo prazo, e a Seção de Desmobilização Industrial, que
assumiu as funções do Instituto de Liquidações, pois a intenção inicial era
recuperar e posteriormente revender ao setor privado as participações
acionárias que haviam passado para as mãos do Estado.
Por
meio da transferência das participações acionárias da Banca Commerciale
Italiana, do Credito Italiano e do Banco di Roma, o Estado passou a controlar
uma parcela significativa do capital das Sociedades Anônimas italianas,
estimada em cerca de 21,5% do valor nominal total. Essa operação resultou,
portanto, em uma nacionalização “compulsória” de setores inteiros, como a
siderurgia bélica, a mineração de carvão e os serviços telefônicos,
transformando o Estado no principal acionista do país.
Nas
economias da América Latina, a impossibilidade de honrar as dívidas externas e
o bloqueio dos fluxos comerciais favoreceram o início de processos de
industrialização voltados para a substituição de importações. No Brasil, o
governo de Getúlio Vargas adotou medidas de controle cambial e suspendeu o
pagamento da dívida externa, ao mesmo tempo em que estimulou o desenvolvimento
de indústrias nacionais nos setores têxtil, cimenteiro e siderúrgico. A
desvalorização cambial tornou os produtos manufaturados importados menos
competitivos, incentivando os produtores locais a utilizar plenamente a
capacidade instalada construída ao longo da década de 1920 para atender à
demanda interna.
Na
Argentina, apesar da assinatura do acordo bilateral Roca-Runciman com a
Grã-Bretanha, em maio de 1933 — que assegurava o acesso da carne argentina ao
mercado britânico em troca de tarifas preferenciais para os manufaturados
ingleses —, a produção industrial registrou crescimento significativo. O
processo de substituição de importações reduziu a participação dos produtos
importados no consumo total de manufaturas, passando de 40,5% em 1929 para
25,3% poucos anos depois.
Esses
processos representaram a tentativa da periferia agrícola de reduzir sua
dependência das flutuações dos preços das matérias-primas nos mercados
mundiais.
CONTINUA...
Fonte:
La Storia e le Idee | Tradução: Lucas Scatolini, em Outras Palavras

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