Primeiro
a OpenAI, depois a Meta: por que robôs de IA continuam fazendo ataques hackers
Nas
últimas duas semanas, relatos de modelos de inteligência artificial que
ultrapassam os limites esperados — sejam eles técnicos ou éticos — tornaram-se
comuns.
O que
começou com um pequeno episódio — a OpenAI, criadora do ChatGPT, admitindo que
sua IA havia invadido o site Hugging Face — foi seguido por uma enxurrada de
empresas e institutos revelando que descobriram casos de IA fora de controle.
A
Anthropic, empresa criadora do Claude Voile, a Meta e o Instituto de Segurança
de IA do Reino Unido (AISI) relataram incidentes que parecem pintar um quadro
preocupante de um mundo onde a tecnologia agindo de forma descontrolada é a
norma.
Na
realidade, cada caso oferece uma visão diferente dos riscos representados por
agentes de IA cada vez mais poderosos — e da importância de se testar seus
limites antes de que sejam lançados.
O
incidente com a OpenAI no final de julho serviu de "alerta" para a
indústria de tecnologia, como descreveu Thomas Wolf, cofundador da Hugging
Face.
Foi um
momento crucial que levou grandes empresas a refletirem sobre seus próprios
sistemas e, em alguns casos, a verificarem se não haviam deixado passar algo
igualmente chocante.
A
Anthropic foi a primeira a agir. Na sexta-feira, a empresa encontrou três
casos, entre milhares, em que seu modelo Claude conseguiu acessar a internet.
Na
terça-feira, o AISI, agência governamental do Reino Unido que avalia modelos de
ponta, afirmou ter detectado um "incidente de segurança" durante uma
avaliação de rotina.
A
organização vinha testando modelos da OpenAI e da Anthropic e descobriu que
ambas também tentaram realizar ataques cibernéticos, o que levou a um apelo por
"análise rigorosa, transparência e ação".
Por
fim, veio a Meta, que revelou que um de seus modelos de IA havia obtido acesso
à internet inadvertidamente devido a uma "configuração incorreta"
durante um teste realizado por terceiros.
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Testes
Antes
de os modelos de IA serem disponibilizados ao público em geral, eles são
testados em uma série de avaliações internas e externas.
O
objetivo é descobrir o potencial deles para o bem ou para o mal, bem como o
desempenho em indicadores que medem suas habilidades.
Normalmente,
esses experimentos ocorrem em locais conhecidos como "sandboxes". São
espaços protegidos, projetados para simular sistemas reais, mas com rígidas
medidas de segurança.
No
incidente entre a OpenAI e a Hugging Face, a IA atacou o próprio ambiente de
testes (sandbox), encontrando uma vulnerabilidade que lhe permitiu acessar a
internet e agir por conta própria.
Já o
AISI afirmou que o incidente envolvendo suas tecnologias — em que duas
poderosas ferramentas de IA criaram perfis humanos falsos para tentar enganar
pessoas em tentativas de ataques cibernéticos — não foi causado por um problema
no ambiente de testes (sandbox).
O
motivo foi a forma como os testes forma conduzidos. Os modelos testados
receberam acesso à internet, e o AISI também desativou os filtros integrados
que normalmente bloqueariam ataques cibernéticos perigosos.
"Em
certa medida, nossas escolhas de projeto de avaliação e configurações
específicas possibilitaram esse comportamento", afirmou, observando, ao
mesmo tempo, "sinais inesperados de comportamentos novos e potencialmente
enganosos".
Alan
Woodward, professor de SCegurança ibernética da Universidade de Surrey, disse
que esses casos — embora distintos — contam uma história importante.
"Durante
30 anos, uma regra dos testes de software permaneceu inalterada: tudo o que
acontece no ambiente de teste permanece no ambiente de teste", disse ele.
"No último mês, essa regra foi quebrada três vezes."
"Um
dos modelos conseguiu escapar. Outro passou por uma porta que havia sido
deixada aberta por engano. Um terceiro recebeu as chaves de propósito para que
os testadores pudessem medir seu comportamento."
Ele
disse que eram causas diferentes, mas que ambas tinham a mesma lição: "o
risco agora reside no laboratório de testes".
Ele
disse à BBC que, à medida que os modelos se tornam mais capazes, é preciso
fazer mais para garantir a segurança dos ambientes onde são testados.
"Testar
um agente de IA é menos como verificar um código e mais como lidar com um
material perigoso: salas seladas, monitoramento constante do que sai do prédio,
um plano de contenção ensaiado", disse ele.
"A
AISI conteve o incidente em uma hora. Outra organização pode não conseguir
isso."
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Capacidades crescentes
Para
aqueles que desenvolvem ferramentas de IA projetadas para realizar ações em
nome de uma pessoa, é preciso encontrar um equilíbrio delicado entre aproveitar
seus benefícios e expor seus riscos.
O
benefício é significativo. Em teoria, poderíamos nos livrar de tarefas tediosas
e repetitivas, como responder a emails, participar de reuniões ou gerenciar
calendários e agendas, delegando-as a bots eficientes.
A
desvantagem é que, com grande poder, vem grande responsabilidade e risco.
Isso
fica particularmente evidente quando entregamos o poder a ferramentas que não
são, como nós, capazes de trazer uma gama de valores, contexto e compreensão
para as decisões que tomamos.
"Incidentes
recentes envolvendo modelos de IA de ponta realizando ações não autorizadas e,
em alguns casos, comportamentos enganosos semelhantes aos humanos na internet
aberta são um sério lembrete dos riscos que as capacidades da IA representam",
disse Ollie Whitehouse, diretor de tecnologia do Centro Nacional de Segurança
Cibernética, na terça-feira (04/08).
Alguns
acreditam que o enorme volume de tarefas que serão executadas por essas
ferramentas significa que a supervisão humana pode não ser suficiente para
conter o problema de modelos que se descontrolam.
Entretanto,
muitos acreditam que o fortalecimento da supervisão geral é vital para que o
desenvolvimento continue no mesmo ritmo frenético.
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E agora?
É
improvável que a Meta será a última empresa a apresentar resultados de modelos
capazes de reconhecer e explorar lacunas nos sistemas.
Para
alguns, esses episódios apontam para falhas de segurança evidentes por parte
das empresas de IA que lideram o desenvolvimento dessa tecnologia
revolucionária.
Para
outros, são apenas mais um espaço para as empresas de tecnologia promoverem
seus modelos poderosos e competirem com os rivais.
Para
mim, ambas as teorias contêm um fundo de verdade.
Mas, ao
surgirem um após o outro, esses eventos, sem dúvida, suscitaram receios sobre
as capacidades da IA e para onde ela está caminhando à medida que a tecnologia
avança.
E a
questão inevitavelmente se volta para os órgãos reguladores e o que eles podem
e devem fazer.
Michael
Birtwistle, diretor associado do Instituto Ada Lovelace, destaca que o Reino
Unido não oferece incentivos legais para que as empresas de IA impeçam o
desenvolvimento de sistemas com capacidades que possam representar perigos, e
que não há consequências caso os protocolos de teste falhem.
Imogen
Stead, gerente de políticas de IA do Centro para Resiliência a Longo Prazo,
disse à BBC que, com as oportunidades de testar sistemas de IA de ponta cada
vez mais escassas para muitos, os governos deveriam seguir o Reino Unido na
criação de institutos dedicados a testes.
Ela
afirmou que aprimorar as avaliações de terceiros com iniciativas como um
"esquema de testadores confiáveis" para os tipos de desafios mais
arriscados também poderia ser usado para limitar os impactos negativos.
Em vez
de temer um apocalipse cibernético causado pela IA, Woodward afirma: "O
importante é manter a calma e resolver os problemas".
Fonte:
BBC News

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