Por
que Brasil não sofre com grandes terremotos, ao contrário dos países vizinhos
na América Latina
A
Colômbia sofreu um forte terremoto nesta segunda-feira (10/08) com epicentro na
região de San José del Palmar, no litoral da Colômbia no Oceano Pacífico.
O
tremor, que teve magnitude 7,4 segundo o Serviço Geológico dos EUA, foi sentido
em grande parte do país.
O
incidente aconteceu menos de dois meses depois que a Venezuela sofreu os abalos
mais fortes que já atingiram o continente em toda a história. Os dois
terremotos ocorridos em junho mataram mais de 1.700 pessoas no país.
Na
época, apesar do abalo fortíssimo no vizinho ao norte, o Brasil foi quase
totalmente poupado, com apenas leves tremores tendo sido sentidos em cidades
como Manaus ou Belém. Dois brasileiros estão entre as vítimas.
O
Brasil parece ser, em geral, poupado de terremotos. Mas a ciência mostra que
não é bem assim.
O que
acontece é que, como o país está localizado no meio de uma placa tectônica, ou
seja, longe das bordas que estão em constante atrito com outras na crosta
terrestre, os tremores acabam sendo sentidos com menos intensidade no país.
Tecnicamente,
o Brasil está no centro da chamada placa Sul-Americana.
Já os
países vizinhos ao Brasil, especialmente os que estão mais próximos à
cordilheira dos Andes, têm em seus territórios bordas de duas placas — e são
destes encontros que ocorrem os terremotos, alguns deles com catastróficas
consequências.
Para
entender isso é preciso compreender como os terremotos ocorrem. E isto está
diretamente ligado à constituição da crosta terrestre — a camada externa do
planeta é formada por gigantescas placas rochosas, chamadas de placas
tectônicas.
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Tensões constantes
"Essa
parte mais da superfície da Terra seria algo semelhante a um casco de
tartaruga, com várias peças se encaixando", compara o geógrafo e
historiador Sergio Ribeiro Santos, professor na Universidade Presbiteriana
Mackenzie.
E elas
se movimentam a velocidades que podem chegar a até 10 centímetros por ano.
São
formações imensas. A placa Sul-Americana, em alguns trechos, pode ter até 200
quilômetros de espessura.
Há
placas que "carregam" os continentes, outras que estão cobertas por
água marinha e até mesmo as que combinam ambas as superfícies. Professor em um
colégio paulistano e mestre em geografia pela Universidade de São Paulo (USP),
o geógrafo Sergio de Moraes Paulo faz uma analogia com uma casca de ovo para
explicar o que é a crosta terrestre. "Só que uma casca toda fragmentada,
em grandes placas, que são as placas litosféricas, as placas tectônicas",
pontua ele.
"Como
a parte de baixo, o manto, que é como se fosse a clara do ovo, está se mexendo,
as placas também se mexem", explica Paulo.
Segundo
o professor, esse movimento se torna mais notável nas chamadas "áreas de
contato" — ou seja, o limite entre um placa e outra.
O
geógrafo Santos explica que essa movimentação se dá por conta das altas
temperaturas do interior do planeta.
O
movimento das placas faz com que elas estejam constantemente em atrito umas com
as outras, como se buscassem se encaixar em um espaço limitado. Elas se
empurram, se raspam e se chocam. Se a tensão é constante, há momentos em que a
energia chega a um nível em que as rochas se fraturam, se rompem. Mais ou menos
como ocorre se pegarmos uma pedra e, com uma ferramenta bastante sólida, formos
apertando-a cada vez mais — uma hora ela trinca, quebra.
No
âmbito de dimensões gigantescas das placas tectônicas, essa fratura é chamada
de falha. Mas a energia liberada desse movimento é tão grande que acaba fazendo
vibrar todo o solo ao redor. É isso que faz com que ocorram os tremores.
A área
onde essas duas placas colidem é conhecida como limites convergentes.
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No meio, a tranquilidade
"O
Brasil está bem no meio da placa tectônica, e os terremotos acontecem muito
mais próximos dos extremos das placas, nos limites convergentes. Ficamos
distantes desses limites", explica o geógrafo Anderson Andrade,
pesquisador no Instituto Mackenzie.
"Os
países vizinhos ao Brasil, principalmente os mais próximos à cordilheira dos
Andes, estão muito perto desses limites convergentes", acrescenta Andrade.
O que
ocorre em países vizinhos ao Brasil é justamente a localização — onde se tocam
as placas Sul-Americana e a de Nasca, na costa oeste da América do Sul, na
região banhada pelo Oceano Pacífico. "Ali temos um movimento mais intenso
e os abalos sísmicos. Aí ocorrem os terremotos. Esses abalos podem até chegar
ao Brasil, mas como estamos no meio da placa, eles chegam mais fracos",
explica Paulo.
Segundo
Santos, foi exatamente a fricção entre essas duas placas tectônicas que deu
origem à imensa cadeia montanhosa chamada de Cordilheira dos Andes.
"Os
países andinos da América do Sul, logo a oeste, estão sobre o contato entre
duas grandes placas tectônicas", sintetiza o engenheiro Antonio Eduardo
Giansante, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Qualquer
movimento entre ambas causatremores e se for mais intenso, tem-se um terremoto.
Muitas vezes o contato entre essas placas tem uma quantidade grande energia
armazenada e por qualquer variação entre ambas, há liberação dessa energia e
reacomodação entre ambas as placas, terremotos de grande intensidade."
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Terremotos brasileiros
Dados
do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade
de São Paulo (USP) mostram que o Brasil teve cerca de 100 terremotos no século.
Nenhum deles de forte intensidade — na maioria, seus efeitos foram
imperceptíveis pela população.
Os
terremotos são medidos pela chamada escala Richter e, via de regra, apenas os
que atingem mais de 7 graus nessa forma de medição causam alguma destruição. O
mais grave do Brasil ocorreu em 1955, quando em algumas localidades do estado
do Mato Grosso foram registrados 6,6 graus nessa escala. Na mesma ocasião,
localidades do Espírito Santo chegaram a registrar 6,3 graus.
Em
1980, houve um terremoto registrado no Ceará com 5,2 graus na escala Richter.
Três anos mais tarde, os sismógrafos marcaram 5,5 graus no estado do Amazonas.
Neste
século, alguns episódios marcantes também foram percebidos no Brasil. Em 2007,
6,1 graus de abalo sísmico chegaram a ser percebidos por moradores na divisa
entre os estados do Acre e do Amazonas. No mesmo ano, em Minas Gerais, houve um
sismo registrado de 4,9 graus.
Em
abril de 2008 ocorreu aquela que talvez tenha sido a percepção sísmica de maior
repercussão na história recente do Brasil. Na ocasião, 5,2 graus na escala
Richter foram registrados em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa
Catarina.
O caso
mais recente foi em 2018, quando reflexos de um terremoto na Bolívia foram
percebidos em determinadas regiões do Brasil.
Segundo
as medições do Centro de Sismologia da USP, os últimos tremores registrados no
território brasileiro ocorreram em 11 de junho deste ano, quando três pequenos
terremotos ocorreram na região de Tucuruí, no Pará — o maior deles, com 3,5
graus de magnitude.
A
repercussão dos tremores é proporcional à intensidade deles. Em outras
palavras, abalos sísmicos pequenos são muito comuns. "Mas acabamos por ter
notícias apenas daqueles mais intensos, que geram imagens
impressionantes", diz o geógrafo Paulo.
Fonte:
BBC News Brasil

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