Soberania
em questão
No
início dos anos 1950, as ruas brasileiras foram tomadas por um grito que unia
generais, operários, escritores e poetas na campanha “O petróleo é nosso”.
Aquela mobilização não se limitava à disputa por uma fonte de energia;
representava a afirmação simbólica de uma nação que reivindicava o direito de
decidir seu próprio destino.
A
partir do regime militar implantado em 1964, entretanto, o aparato de
comunicação dominante operou uma profunda transmutação semântica. Assim, a
defesa da soberania sobre recursos estratégicos, antes celebrada como expressão
de patriotismo, passou a ser apresentada como um resquício de nacionalismo
ultrapassado ou um fetiche anacrônico. Em muitos casos, inverteu-se o sentido
do chamado “complexo de vira-latas”: o apego à autodeterminação nacional passou
a ser retratado como sinal de atraso, enquanto a dependência externa passou a
ser revestida de modernidade e pragmatismo.
Longe
de representar uma questão superada, o tema retorna hoje com renovado vigor – e
com uma urgência inversamente proporcional à acomodação em que parte da
esquerda parece mergulhada. Tomo como exemplo a compra da mineradora Serra
Verde por US$ 2,8 bilhões pela empresa norte-americana USA Rare Earth
(20.04.2026). O episódio guarda paralelos significativos com a controvérsia
sobre a exploração das reservas do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais pela
Hanna Mining, em um contexto marcado pela reorientação política, econômica e
ideológica do país.
Embora
separados por mais de meio século, ambos os casos levantam uma questão
fundamental sobre o papel das riquezas estratégicas em um projeto nacional de
desenvolvimento. Afinal, o que é melhor para o país – priorizar a soberania
econômica ou atender às demandas dos mercados globais e dos investidores
internacionais? Para compreender melhor essa questão, é preciso recuar no
tempo.
O
assédio da Hanna ao minério brasileiro ganhou dimensões de escândalo nos
governos Jânio Quadros e João Goulart, mas era apenas o derradeiro capítulo de
uma disputa iniciada décadas antes. A Constituição de 1937, promulgada por
Getúlio Vargas, consagrava o princípio de que o subsolo constituía patrimônio
estratégico da nação. Sua exploração estava reservada a brasileiros ou empresas
constituídas por brasileiros natos.
Ao
tomar posse em 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra flexibilizou essas
restrições ao firmar um acordo com os Estados Unidos sobre a exploração do
Quadrilátero ferrífero. Os trabalhos seriam conduzidos pelo DNPM (Departamento
Nacional de Produção Mineral) e pelo U.S. Geological Survey.
Entretanto,
Getúlio Vargas voltou ao poder em 1951 pelo voto popular, restabelecendo as
diretrizes relativas ao controle nacional dos recursos minerais e energéticos.
Ao instalar a Comissão Mista Brasil–Estados Unidos para o Desenvolvimento
Econômico, Getúlio Vargas procurou preservar a visão de que as riquezas
estratégicas deveriam servir ao fortalecimento da economia nacional e ao
desenvolvimento do país.
Essa
orientação foi posteriormente mantida, com diferentes nuances, pelos governos
de Jânio Quadros e João Goulart. Cada um a seu modo, os três presidentes
compartilhavam a convicção de que as gigantescas reservas de minério de ferro
deveriam funcionar como instrumento de industrialização e de independência
econômica.
Nesse
período histórico, o governo Juscelino Kubitschek foi o único a adotar uma
linha divergente: defendeu a ampliação das exportações de minério de ferro,
sustentando a necessidade de atrair grandes investimentos. Em 24 de novembro de
1957, o diretor do DNPM, Mário Silva Pinto, argumentou publicamente que o
Brasil possuía reservas de ferro suficientes para abastecer o mundo por quatro
mil anos. Para ele, urgia explorar esse potencial exportador. Uma semana antes
de seu pronunciamento, havia sido criada a Mineração Hannaco Ltda., braço
brasileiro da Hanna Mining Company.
Sob
orientação de Roberto Campos e Lucas Lopes, a Hanna adquiriu o controle da St.
John d’El Rey Mining, empresa que durante mais de um século explorou ouro em
Minas Gerais. A revista Time destacou na ocasião que a compra
visava o aproveitamento de mais de dois bilhões de toneladas de minério de alto
teor no território antes controlado pelos ingleses. Paralelamente, Lucas Lopes
tornou-se ministro da Fazenda e Roberto Campos assumiu a presidência do BNDE.
Contudo, a posse de Jânio Quadros interromperia o projeto.
Por
trás da aparência histriônica, Jânio Quadros defendia o fortalecimento da
siderurgia nacional, a proteção da Companhia Vale do Rio Doce e a prioridade ao
transporte ferroviário estatal. No início de sua gestão, o Conselho de
Segurança Nacional emitiu parecer considerando o projeto da Hanna inaceitável
sob os aspectos econômico, político e psicossocial. Em 21 de agosto de 1961,
Jânio aprovou integralmente o relatório contrário à empresa norte-americana.
Quatro dias depois, em 25 de agosto, ele renunciou à Presidência da República,
denunciando pressões de grupos internos e externos.
No
início do governo João Goulart, Lucas Lopes assumiu a presidência da Companhia
de Mineração Novalimense, tendo como vice-presidente executivo o brasilianista
John W. F. Dulles. Para dar continuidade ao projeto interrompido, a empresa
propôs um novo estudo sobre a exportação de minério, mas não obteve o sucesso
esperado.
Nesse
contexto, empresários e militares criaram o Instituto de Pesquisas e Estudos
Sociais (IPES), em novembro de 1961, com o objetivo de articular um movimento
para desestabilizar o governo. Entre seus principais fundadores destacavam-se
Augusto Trajano de Azevedo Antunes e o general Golbery do Couto e Silva.
Em 1º
de abril de 1964, os militares tomaram o poder. As resistências à Hanna aos
poucos foram relaxadas, mas não totalmente abolidas. Na reunião do Conselho de
Segurança Nacional realizada em 15 de dezembro de 1964, o general Peri Costa
Beviláqua classificou o projeto como uma ameaça aos interesses nacionais. O
presidente Castelo Branco discordou, ao classificar a posição de Peri Beviláqua
como “impertinência nacionalista”. Em 22 de dezembro de 1964, Castelo Branco
assinou o Decreto nº 55.282, eliminando os principais obstáculos jurídicos e
políticos que limitavam a atuação da Hanna Mining no Brasil.
Acreditava-se
que Costa e Silva reverteria o quadro ao tomar posse na Presidência em
substituição a Castelo Branco. Estava enganado. Nada foi alterado. Hoje, a
aquisição feita pela USA Rare Earth já não causa indignação ou protesto. Há no
país uma etiqueta neoliberal a ser obedecida.
Fonte:
Por Paulo Carneiro, em A Terra é Redonda

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