terça-feira, 11 de agosto de 2026

Guerra com Irã leva militares dos EUA a pedir desligamento

O médico militar Taylor Highland decidiu que deixaria as Forças Armadas dos Estados Unidos quando EUA e Israel lançaram seus primeiros ataques contra o Irã, há quase seis meses. Para ele, o estopim foi o míssil que atingiu uma escola de meninas no sul do país e que, segundo Teerã, deixou mais de 150 mortos.

Em entrevista à emissora pública alemã ARD, Highland, médico do Exército há dez anos, afirmou que passou a questionar o papel de sua profissão dentro da atual estrutura e estratégia militar americana. Agora, tenta obter o reconhecimento formal como objetor de consciência para deixar a instituição.  Trata-se do direito legal de um cidadão de recusar o serviço militar com base em convicções de natureza religiosa, moral ou ética.

Segundo ele, os danos causados a civis e militares em conflitos armados passaram a ser tratados de forma banal.

"Eu ajudava as pessoas a se recuperarem, mas, no fim, o objetivo era que estivessem aptas novamente para serem alvejadas ou para alvejar outras pessoas", disse à ARD. O nome verdadeiro do militar foi omitido pela reportagem.

<><> EUA não divulgam números oficiais

A legislação americana permite que integrantes das Forças Armadas deixem o serviço como objetores de consciência, embora o processo costume ser demorado. Trata-se de um caminho semelhante ao adotado por milhares de pessoas que buscaram evitar o serviço militar durante a Guerra do Vietnã.

Os números atuais não são divulgados oficialmente, mas Highland afirma conhecer ao menos 12 pessoas que seguiram o mesmo caminho e diz que o tema tem se tornado cada vez mais comum entre oficiais. Segundo a ARD, a organização americana GI Rights Hotline, que orienta militares sobre seus direitos, registrou um aumento expressivo na procura por informações sobre como deixar o serviço.

O que antes se limitava a alguns telefonemas por semana se transformou em contatos diários. Em março, primeiro mês do conflito, a entidade recebeu 80 novos casos, o dobro do que costuma registrar em um ano inteiro.

"Quase todos mencionam o ataque à escola de meninas e dizem: 'não quero fazer parte de uma organização que faz algo assim'", afirmou à emissora Bill Galvin, representante da entidade.

Além da guerra contra o Irã, o uso de militares em operações controversas, como o amplo emprego da Guarda Nacional em cidades americanas para proteger agentes e prédios federais de manifestações contra as políticas migratórias da Casa Branca, também tem sido citado entre as preocupações.

<><> Casa Branca vive impasse na guerra

Embora os números identificados pela reportagem representem apenas uma pequena fração do efetivo militar americano, que supera 1 milhão de integrantes, o movimento é visto como um sinal do momento vivido pelas Forças Armadas dos EUA, divididas entre ampliar as ofensivas contra o Irã ou consolidar um acordo.

Desde o início da guerra, o presidente Donald Trump tem alternado ameaças de escalada militar com sinais de abertura ao diálogo. Em diferentes momentos, prometeu ataques mais duros contra o Irã e, pouco depois, sugeriu que uma solução negociada estaria próxima.

Segundo o jornal The New York Times, aliados dos Estados Unidos avaliam que a guerra caminha para uma derrota estratégica. A preocupação é que Washington tenha demonstrado dificuldade para converter sua superioridade militar em ganhos concretos no campo político, ficando longe dos objetivos traçados para a campanha.

Apesar dos danos aos programas nuclear e de mísseis, o Irã mantém capacidade militar relevante, continua influenciando o tráfego no Estreito de Ormuz e não alterou sua estrutura de poder.

Reportagem da CNN indica que o impasse levou um oficial do comando militar americano a solicitar ideias "criativas e não convencionais" a outros integrantes das Forças Armadas.

"Estamos procurando maneiras novas, criativas e não convencionais de pressionar e punir o Irã", escreveu um integrante do setor de inteligência do Comando Central dos EUA (Centcom) a um grupo de analistas militares, segundo fontes ouvidas pela emissora.

De acordo com a CNN, o militar criou uma lista de discussão por e-mail para reavaliar a estratégia americana, iniciativa considerada incomum dentro da estrutura do comando. Trump também tem sugerido novas operações controversas, como a possibilidade de uma incursão terrestre em território iraniano.

<><> Esgotamento do estoque de mísseis

Nesta semana, uma reportagem da agência de notícias Reuters informou que os Estados Unidos enfrentam um esgotamento de seus estoques de mísseis de longo alcance e alta precisão. Duas fontes ouvidas pela agência disseram que Washington utilizou "praticamente todos" os mísseis ATACMS e Precision Strike Missile (PrSM) disponíveis para a campanha.

Já segundo a CNN, os militares americanos teriam consumido quase 80% de seu estoque de interceptadores THAAD. O Washington Post informou ainda que a escassez de armamentos levou Trump a cancelar novos ataques contra o Irã, apesar de ter ameaçado ampliar a ofensiva.

Os números teriam sido debatidos internamente nos últimos dias, durante discussões sobre por quanto tempo Washington conseguiria manter ataques ao Irã sem comprometer sua capacidade militar.

Ainda segundo o Post, Trump cobrou explicações do secretário de Defesa, Pete Hegseth, sobre a falta de munições durante uma reunião de gabinete.

Na quinta-feira, porém, o presidente afirmou que o país dispõe de grandes estoques de armamentos e ameaçou com penas de prisão integrantes do governo que divulgassem informações sobre uma suposta escassez de munições.

No mesmo dia, Trump disse a jornalistas que acredita que a guerra com o Irã terminará em breve, embora tenha reconhecido dificuldades no fornecimento de alguns armamentos. Enquanto isso, o Ministério das Relações Exteriores iraniano negou que existam negociações em andamento com Washington.

Para Highland, as incertezas em torno do conflito fazem com que muitos colegas enxerguem a guerra com ceticismo. Pelo menos 18 militares americanos morreram até o momento. "Eles não estão totalmente convencidos dos motivos que levaram a essa guerra. Isso torna mais difícil justificar tudo o que está ligado às ações de um conflito", disse o militar à ARD.

¨      Pentágono pede "ideias criativas" para derrotar Irã

Com um estoque cada vez mais limitado de armamentos, os Estados Unidos buscam novas formas de pressionar o Irã na guerra que já dura cinco meses. Segundo uma reportagem da CNN, um alto oficial do comando militar americano enviou um email a seus pares pedindo ideias "criativas e não convencionais" para resolver o impasse no conflito.

"Estamos procurando maneiras novas, criativas e não convencionais de pressionar e punir o Irã", escreveu um oficial do setor de inteligência do Comando Central dos EUA (Centcom) a um grupo de analistas militares, segundo fontes ouvidas pela emissora.

De acordo com a CNN, o militar abriu um grupo de discussão por e-mail para reavaliar a estratégia americana, algo incomum dentro da estrutura do comando.

À emissora, o porta-voz do Centcom, Timothy Hawkins, afirmou que o órgão "tem uma longa história de pensar e trabalhar de formas inovadoras". "O almirante Cooper, em particular, busca contribuições de membros da equipe independentemente da patente para alcançar os mais altos níveis de desempenho operacional", disse.

<><> Entre a escalada e o acordo

A revisão ocorre enquanto a Casa Branca oscila entre ampliar a ofensiva militar e tentar alcançar um acordo. Desde o início da guerra, o presidente americano Donald Trump tem alternado ameaças de escalada com sinais de abertura ao diálogo. Em diversos momentos, prometeu ataques mais duros contra o Irã para, pouco depois, sugerir que uma saída negociada estaria próxima.

Esse movimento voltou a ficar evidente nos últimos dias. Após ameaçar novos ataques, Trump passou a sustentar que um entendimento poderia ser alcançado rapidamente e incluir a reabertura do Estreito de Ormuz, um dos principais focos da disputa. O padrão tem se repetido ao longo das últimas semanas, com ataques e contra-ataques seguidos por declarações contraditórias sobre cessar-fogo e negociações.

Na terça-feira, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou à CNBC que Washington mantinha conversas com Teerã e que um acordo poderia ser alcançado em questão de dias. O governo iraniano, porém, nega que negociações estejam em andamento. Na terça-feira, um projétil atingiu um navio cargueiro no Estreito de Ormuz.

<><> Estoques de mísseis preocupam militares

A busca por alternativas ocorre em meio ao desgaste do arsenal americano. Segundo a agência de noticias Reuters, os Estados Unidos já consumiram grande parte de seus estoques de mísseis de longo alcance e alta precisão durante os cinco meses de guerra. Duas fontes ouvidas pela agência afirmaram que Washington utilizou "praticamente todos" os mísseis ATACMS e Precision Strike Missile (PrSM) disponíveis para a campanha.

O esgotamento dos estoques preocupa setores do governo e das Forças Armadas porque pode limitar a capacidade de resposta dos EUA em outras crises, incluindo eventuais confrontos com Rússia ou China. Segundo a Reuters, os números foram discutidos internamente nos últimos dias durante debates sobre por quanto tempo Washington conseguiria manter ataques ao Irã sem comprometer sua prontidão militar.

¨      Netanyahu rejeita plano de Trump para Gaza aceito pelo Hamas

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, rejeitou publicamente neste domingo (09/08) o plano de 15 pontos anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e divulgado pelo Conselho de Paz para avançar para a segunda fase do cessar-fogo com o Hamas.

Netanyahu disse que Israel não vai retirar suas tropas da Faixa de Gaza até que o grupo palestino seja de fato desarmado. Nesta semana, o Hamas anunciou que havia aceitado o plano de Trump.

"Vou ser claro: Israel rejeita o documento de 15 pontos. As Forças de Defesa de Israel (FDI) não se retirarão até que o Hamas se desarme. E quando digo desarmar o Hamas, refiro-me a todas as suas armas: as pesadas, as menos pesadas, todas. Estamos falando de um desarmamento real, não de um fictício”, afirmou Netanyahu em uma mensagem em vídeo no início de uma reunião de gabinete.

Além disso, Netanyahu acrescentou que seus aliados americanos têm algumas "ideias inaceitáveis" para Israel, às quais devem "se opor", e disse estar dialogando com eles. 

Após o anúncio de Trump do plano de 15 pontos no último dia 30 de julho, um membro da Casa Branca disse que o presidente americano ficaria "muito, muito decepcionado" se Israel não cumprisse sua parte.

No entanto, Netanyahu afirmou neste domingo que a "existência de Israel e a segurança de todos os cidadãos de Israel não estão sujeitas a negociação", numa rara refutação pública contra Trump, com quem o israelense mantém uma aliança estreita.

"Mantemo-nos firmes nestes interesses", frisou Netanyahu, que enfrenta uma dura batalha pela reeleição em outubro e uma rebelião de membros da ultradireita da sua base contra o acordo sobre Gaza.

"Enquanto eu for primeiro-ministro, nenhum Estado palestino será criado, nem na Cisjordânia nem em Gaza. Nem 'Fatahistão' nem 'Hamastão'", reiterou neste domingo Netanyahu, numa referência às duas principais facções políticas palestinas - o secular Fatah e o Hamas.

<><> Um golpe no acordo de "paz"

No dia 30 de julho, Trump anunciou que seu Conselho de Paz, organismo idealizado pelo presidente para implementar o plano, havia chegado a um acordo para o desarmamento total do Hamas e de outros grupos da Faixa de Gaza, algo que ele classificou como um "acordo histórico" que permitiria avançar para a segunda fase do cessar-fogo.

No dia seguinte, o Hamas anunciou que havia aderido ao plano, mas que sua implementação dependeria de Israel cumprir primeiro seus compromissos.

Esse novo plano, baseado em um roteiro de 15 pontos, tinha como objetivo reativar o plano inicial de "paz" de 20 pontos e obrigava Israel a se comprometer com o que foi assinado em outubro de 2025 durante o Protocolo de Sharm el-Sheikh (Egito), incluindo a "cessação das operações militares" em Gaza.

O documento, etapa final de um cessar-fogo impulsionado pelos Estados Unidos, prevê que o Hamas entregue suas armas a uma autoridade palestina ainda incipiente encarregada de governar o território. 

O plano ainda estabelecia que Israel começaria a retirar suas forças em paralelo ao desarmamento, pelo menos, até o traçado original da chamada "linha amarela", quando Israel controlava militarmente 53% da Faixa de Gaza e não mais do que 65%, como ocorre atualmente.

Operações de Israel em Gaza mataram 1.257 palestinos desde outubro do ano passado, quando as duas partes chegaram a um cessar-fogo respaldado por Trump, segundo o Ministério da Saúde do território, que opera sob autoridade do Hamas e cujos dados são considerados confiáveis pela ONU.

Embora o Hamas tenha aceitado oficialmente o plano de 15 pontos, os líderes islâmicos condicionaram seu desarmamento à retirada total de Israel da Faixa de Gaza e alertaram que, se Israel não cumprisse o acordado, eles também não o fariam.

Esse novo acordo se baseava em uma implementação gradual e recíproca, conforme declarou o presidente Trump, mas no último dia 3 de agosto, após uma reunião entre Netanyahu e o representante do Conselho de Paz, Nikolay Mladenov, o órgão publicou na rede social X que, "ao contrário de relatos imprecisos, a retirada das Forças de Defesa de Israel para além da linha amarela só ocorrerá após a conclusão do desarmamento" do Hamas.

<><> Hamas pede para que Trump pressione Israel

Após a negativa de Netanyahu, o Hamas apelou hoje a Washington para que pressione o primeiro-ministro israelense a rever a rejeição.

"Esperamos que os mediadores e o garantidor americano pressionem Netanyahu e o seu governo para que respeitem o roteiro e não impeçam o processo por razões de política interna ou eleitoral", afirmou um responsável do grupo à agência noticiosa France-Presse (AFP).

O Hamas ainda informou ao Conselho de Paz, liderado por Trump, que continuava comprometido com a última fase do plano, pela qual os membros do grupo entregariam as armas a um comitê de governo palestino no território.

"O Hamas e outras facções confirmaram aos mediadores sua disposição de começar a aplicar o acordo e passar à segunda fase, desde que recebam a aprovação israelense e que Israel comece a implementar o acordo", disse uma autoridade do grupo palestino.

Segundo a mesma fonte, que falou sob condição de anonimato, o grupo islamista "insta a administração americana a exercer pressão sobre Israel para obrigá-lo a cumprir o acordo e passar à segunda fase”.

 

Fonte: DW Brasil

 

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