Lula
X Bolsonaro: em jogo o modo de usar a Petrobras
Peço
licença, caro(a) leitor(a), para fugir do cansativo e estéril Fla X Flu das
narrativas dos candidatos presidenciáveis que passaram os últimos dias trocando
acusações, em vez de apresentarem planos para o Brasil nas cerimônias de
formalização das chapas.
Lembro
que os anos eleitorais de 2022 e de 2026 foram marcados por guerras (iniciadas
em fevereiro) que impactaram os preços do petróleo e derivados, e aceleraram a
inflação dos alimentos, para avaliar a importância estratégica da Petrobras,
sob duas visões antagônicas.
Por
coincidência, a Petrobras divulgou quinta-feira, 6 de agosto, o lucro do
segundo trimestre, o que ajuda a comparar o que fizeram com a empresa os
governos Lula e Bolsonaro (no caso, o pai Jair, que, preso pela tentativa de
golpe e inelegível, indicou o filho, senador Flávio Bolsonaro, do PL-RJ, para
disputar a eleição presidencial).
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Petróleo como segurança nacional
Num
país de dimensões continentais, mas sem ferrovias que interligassem as grandes
capitais ao interior do país (as ferrovias do Império foram feitas para escoar
o café do Vale do Paraíba e Zona da Mata de Minas Gerais, e depois de São Paulo
e Paraná aos portos do litoral, com destino à Europa), as situações extremas de
guerras tornaram a garantia de combustíveis para trens e caminhões questão de
segurança nacional. Hoje, a produção está no Centro-Oeste e os principais
mercados estão na China e na Ásia.
Não foi
à toa que durante a longa Segunda Guerra, criou-se o Conselho Nacional do
Petróleo para assegurar um mínimo de segurança ao abastecimento às grandes
capitais e ao interior. Nasceu, no CNP, junto com a campanha nacionalista “O
Petróleo é Nosso”, a ideia de criar a Petrobras.
A
estatal nasceu pela Lei do Monopólio, de 3 de outubro de 1953, com a
colaboração decisiva do liberal udenista Afonso Arinos de Melo Franco, um dos
autores da Lei 2004. A empresa começa a operar em maio de 1954, já incorporando
a pioneira refinaria Landulpho Alves, em Mataripe (BA), que era da União. A
primeira refinaria própria foi a Presidente Bernardes, em Cubatão, inaugurada
em abril de 1955. Depois veio a Reduc (em Duque de Caxias-RJ -1961).
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Petrobras nas guerras, sem petróleo
Na
primeira crise do petróleo, no rescaldo da guerra entre Israel e Egito, em
setembro de 1973, quando os preços triplicaram, o “milagre brasileiro” quase
foi a pique. O país já tinha as refinarias do RS, PR. MG, e a maior de São
Paulo, a de Paulínia, mas só produzia 15% do petróleo consumido. O óleo
descoberto, na Bacia de Campos, em agosto de 1974, demorou mais de cinco anos
para ser extraído.
A
lavoura do café do Paraná e São Paulo, destruída pela geada de 1975,
desestruturou a agricultura do colonato. O Brasil atravessou duas décadas (1970
e 1980) exposto à escalada do petróleo – em 1979, com a queda do Xá do Irã e a
ascensão dos aiatolás, houve novo choque de preços, agravado pela guerra entre
Iraque e Irã, os maiores fornecedores da Petrobras. Houve hiperinflação e falta
de alimentos. Tudo piorou na crise da dívida externa, em 1982.
Só a
conquista do cerrado no final dos anos 80, gerando excedentes exportáveis de
soja, milho, algodão e carnes (de aves, suínos e de bovinos) e a progressiva
produção de petróleo na Bacia de Campos foram capazes de reequilibrar as contas
externas. E foi possível ao governo FHC estabilizar a inflação com o Plano
Real, lançado por Itamar Franco em julho de 1994 (FHC foi o ministro da Fazenda
de Itamar cuja equipe gestou o plano). Eleito em 1994, além da estabilização,
FHC mudou a Lei do Monopólio de Petróleo, que saiu de direito, mas não de fato,
das mãos da Petrobras.
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Pré-sal gera mudanças
A
descoberta das gigantescas jazidas do pré-sal, em 2006, no primeiro governo
Lula, levou a Petrobras a fazer planos grandiosos de expansão: refinarias (em
Pernambuco, no Ceará, no Maranhão e o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro –
Comperj), gasodutos e novas unidades produtoras de fertilizantes nitrogenados
(amônia e ureia). E ainda a estimular novos estaleiros para produzir
plataformas.
O
barril de petróleo estava em escalada (chegou a US$ 147 em junho de 2008) e era
estimado entre US$ 200 e US$ 300 nas décadas seguintes. Os planos grandiosos
foram vistos pelas empreiteiras como ótimas oportunidades de expansão e
superfaturamento. As folgadas margens de lucro das empreiteiras absorveriam os
tradicionais repasses de pequenas comissões a partidos políticos aliados.
Veio a
crise financeira do “subprime” (o mercado secundário de hipotecas dos Estados
Unidos), que resultou na crise financeira mundial de setembro de 2008. A
economia global entrou em recessão e os preços do petróleo despencaram a menos
de US$ 40. Os planos de expansão da Petrobras (e de várias petroleiras pelo
mundo) ficaram inviáveis e foram motivo de bilionárias baixas contábeis. As
baixas superaram, em muito, o valor dos subornos e corrupções revelados pela
Lava-Jato.
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Duas narrativas e duas estratégias
O
estouro da crise da Lava-Jato no governo Dilma, reeleita em 2014 e afastada por
processo de “impeachment”, em abril de 2016, quando foi substituída pelo vice,
Michel Temer, fez prevalecer a visão de mercado, de que era preciso quebrar o
monopólio de fato da Petrobras, e facilitar a concorrência de petroleiras
internacionais. Para tal, o presidente da Petrobras, Pedro Parente, criou, em
2017, o sistema de paridade de preço internacional. Pelo PPI, os preços dos
combustíveis seriam ajustados aos do mercado internacional, atualizados pela
taxa de câmbio.
Além de
não dar o devido peso ao tamanho do mercado brasileiro, a medida ignora o fato
de ter o Brasil a maior população e o maior consumo de petróleo do Hemisfério
Sul. Em outras palavras, como a população mundial e as maiores economias estão
concentradas no Hemisfério Norte, os preços refletem a demanda dos países,
submetidos ao frio na maior parte do ano, por combustíveis para aquecimento de
residências e locais de trabalho, comércio e lazer.
A
invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022, explodiu os preços
do gás natural, do petróleo e dos combustíveis em pleno inverno do HN. Mas o
governo Bolsonaro (que tomou posse em janeiro de 2019) tinha avançado na
política de reajustes intensos (para cima e para baixo) do PPI, e aprofundou a
disposição de preparar a Petrobras para a privatização, colocando à venda 50%
do parque de refino (as refinarias do RS, PR, MG, BA e PE). Só foram vendidas a
refinaria da Bahia (330 mil barris/dia de refino) para o fundo Mubadala, dos
Emirados Árabes Unidos, e a pequena Reman, de Manaus
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A visão liberal de mercado
A visão
de Jair Bolsonaro sobre a Petrobras pode ser resumida no breve diálogo com o
presidente da Turquia, Recep Erdogan, na reunião do G-20, em outubro de 2021,
em Roma, quando cresciam as rusgas entre a Rússia e a Ucrânia, e os preços do
petróleo disparavam. Erdogan estava preocupado com a alta de preços. A Turquia
produzia menos de 20% do consumo, como o Brasil em 1973, e exclamou admirado
com posição exportadora do Brasil:
- E a Petrobras, hein?, provocou o presidente
turco.
- É um
problema, respondeu Bolsonaro. (Erdogan não entendeu a "tradução").
Bolsonaro
já tinha nomeado dois presidentes da Petrobras, incomodado com os reajustes
constantes da gasolina e do diesel, devido ao PPI (causa da greve dos
caminhoneiros em maio-junho de 2018), que aumentavam sua desaprovação. A
situação piorou após a invasão da Ucrânia pela Rússia (os países da OTAN
fizeram boicote ao gás, petróleo e combustíveis russo), e os preços dispararam
com a saída de cena do segundo exportador mundial.
A
gasolina e o diesel não paravam de subir, assim como os preços dos alimentos. A
inflação do IPCA, que subira 10,06% em 2021, quando a taxa Selic, o piso dos
juros no Brasil, correu o ano inteiro atrás da inflação, fechando dezembro a
9,25% ao ano, disparou no ano eleitoral de 2022, insuflado pelos sucessivos
aumentos da Petrobras.
Temendo
perder a reeleição, Bolsonaro trocou mais três presidentes da estatal até
julho. Mas a inflação acumulava alta de 5,49% e a alimentação mais de 8% no
primeiro semestre. E o Banco Central corria atrás de uma inflação que chegou a
12,8% nos 12 meses até abril, enquanto a Selic só atingia 12,75% em 5 de maio.
Bolsonaro
dobrou o Auxílio Emergencial (o nome do Bolsa Família de Bolsonaro) para R$
600, e criou mesadas de R$ 1 mil para caminhoneiros e taxistas, de 1º de julho
a 31 de dezembro de 2022 (parte dos gastos foi financiado pelo calote dos
precatórios no final de 2021). E o ministro Paulo Guedes decidiu cortar, no
segundo semestre, os impostos federais e estaduais (ICMS) sobre combustíveis,
energia elétrica residencial e comunicações.
Manteve
intacto o lucro da Petrobras. Já o estrago nas finanças de estados e municípios
(recebem cota-parte do ICMS) e da União persistiu até início de 2025, com ICMS
menor que antes. Com a queda da gasolina, houve deflação em julho (-0,68%),
agosto (-0,36%) e setembro (-0,29). o IPCA fechou 2022 em 5,79% (o teto da meta
era 5,50%). Os alimentos subiram 13,23%, e Bolsonaro perdeu a reeleição.
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A visão nacionalista
Lula
adotou como promessa de campanha “abrasileirar” os preços dos combustíveis.
Suspensas as privatizações, a estratégia era usar mais intensamente o parque de
refino e o petróleo mais leve do pré-sal, que a Petrobras extrai a US$ 22 por
barril. Depois de ajustes nas refinarias que operavam a menos de 75% da
capacidade para gerar espaço às importações e cumprir o ideário da privatização
de 50% do parque de refino (os planos eram deixar com a Petrobras apenas as
refinarias do Rio e São Paulo), o PPI foi extinto em maio de 2023, na gestão do
presidente Jean Paul Prates.
Na
guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 28 de fevereiro de 2026, surgiu pressão
inflacionária em todo mundo pela escalada do petróleo, combustíveis e
alimentos, devido às restrições do tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz
(por onde passam de 20% a 25% do petróleo e gás do mundo). Na contramão da
especulação do mercado financeiro, que torce pela inflação e pela alta dos
juros, o governo Lula usou estrategicamente a Petrobras para aumentar a carga
de utilização das refinarias (chegou a 101% no 2º trimestre), e criou subsídios
temporários ao diesel (a safra de soja é escoada de fevereiro a maio), à
gasolina e ao gás de bujão.
O
resultado evitou alta da Selic (antes da guerra estava em 15% ao ano e iria
cair a 12,25% até dezembro). O mercado apostava que iria a 16% com a guerra e a
disparada da inflação). Os subsídios evitaram o duplo contágio e pouparam o
Tesouro Nacional de mais gastos com juros (cada um ponto a mais na Selic custa
R$ 66,1 bilhões ao TN em 12 meses). A inflação desacelerou, a Selic caiu a 14%,
e ganhou espaço a nova queda a 13,75% em setembro.
O IPCA
de julho sai terça-feira (11) e espera-se inflação próxima de zero e deflação
em agosto. Se a paz reinar no Oriente Médio, com nova queda do petróleo, pode
haver baixa da gasolina e deflação em setembro. Tire suas conclusões.
• EUA vão investir US$ 3 bilhões para
reduzir dependência de minerais estrangeiros
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que o governo
norte-americano planeja investir US$ 3 bilhões em projetos ligados a minérios
críticos no país. O anúncio foi feito durante uma mesa redonda com executivos
do setor e reforça a intenção de ampliar a capacidade doméstica de produção
desses materiais.
Segundo
a Casa Branca, a prioridade é fortalecer a base industrial norte-americana em
áreas consideradas essenciais para tecnologia, defesa e energia. A medida se
soma a outras iniciativas recentes de incentivo à produção interna e à retomada
de fábricas e mineradoras em território americano.
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Controle da cadeia e redução da dependência externa
O
secretário do Comércio, Howard Lutnick, afirmou que os Estados Unidos precisam
construir toda a cadeia de produção de minérios dentro do país, da mineração ao
refino. Ele defendeu que a estratégia é necessária para evitar dependência de
fornecedores estrangeiros em materiais essenciais.
Na
mesma linha, o secretário de Estado, Marco Rubio, disse que a iniciativa
ajudará a garantir que nenhum país possa ameaçar os EUA. As autoridades têm
apresentado o movimento como uma forma de proteger a segurança econômica e
ampliar o controle norte-americano sobre cadeias globais de oferta.
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Baterias, chips e o avanço da indústria americana
Além
dos minérios críticos, o governo também destacou investimentos diretos em
participações acionárias e a importância de setores como aço, alumínio e chips.
Trump afirmou que a repatriação de fábricas e mineradoras ocorre no ritmo mais
rápido desde a década de 1950, o que, segundo ele, fortalece a indústria
nacional.
Antes
do evento, o Wall Street Journal informou que a gestão Trump preparava mais de
US$ 2 bilhões em financiamento para fabricantes de baterias e empresas de
minérios críticos. A reportagem citou um empréstimo de US$ 1,4 bilhão para a
Sila Nanotechnologies e acordos com outras companhias, embora os projetos ainda
precisem ser concluídos e possam levar anos para sair do papel.
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Petróleo e a disputa por liderança energética
Durante
a mesma agenda, Trump também comentou brevemente sobre a indústria petrolífera
dos Estados Unidos. Ele disse que o país hoje produz mais petróleo do que
Rússia e Arábia Saudita, mesmo sem contabilizar o volume vindo da Venezuela.
As
declarações reforçam a estratégia do governo de projetar força industrial e
energética ao mesmo tempo em que busca ampliar o domínio sobre matérias-primas
essenciais para a economia do futuro, incluindo baterias avançadas e
infraestrutura para inteligência artificial.
Fonte:
Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB

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