Estudo
começa a desvendar desenvolvimento da fibrose pulmonar idiopática
Há
pouco mais de uma década, receber o diagnóstico de fibrose pulmonar idiopática
significava ter de lidar com uma doença potencialmente letal e sem tratamento
específico. No início dos anos 2010, a chegada ao mercado de medicamentos que
freiam o crescimento da cicatriz nos pulmões mudou o prognóstico dos pacientes
que, pela primeira vez, tinham opções terapêuticas além do manejo dos sintomas,
como falta de ar e tosse seca. Porém, a enfermidade permanece incurável e
de causa desconhecida.
Agora,
cientistas na Austrália acreditam ter descoberto um mecanismo que, se
confirmado em estudos clínicos, poderá representar um avanço promissor para as
cerca de 5 milhões de pessoas que sofrem, globalmente, com a enfermidade. No
Brasil, a estimativa da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT)
é de 14 mil a 18 mil casos.
"Na
fibrose pulmonar, o processo normal de cicatrização de feridas no corpo
falha", explica Gang Liu, professor da Universidade de Tecnologia de
Sydney (UTS) e coautor do estudo publicado na revista Science Advances que
descreve um mecanismo então desconhecido da doença. "Em vez de a cicatriz
reparar o tecido danificado, começa a ser produzido tecido cicatricial nos
pulmões", diz.
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Proteína
O
experimento identificou uma proteína nos pulmões, a vitronectina, que ativa a
cicatrização causadora da fibrose pulmonar. Em ratos, suprimir essa
macromolécula evitou a formação de lesões, mesmo quando os pesquisadores
estimulavam o tecido cicatricial. "Existe um tipo importante de
célula imunológica, conhecida como macrófago, que ajuda a reparar o tecido após
uma lesão. Descobrimos que esses macrófagos às vezes são reprogramados para
produzir cicatrizes em vez de promover a cicatrização normal de feridas",
esclarece Liu.
Katrina
Binger, principal autora e pesquisadora do Departamento de Bioquímica e
Biologia Molecular da Universidade de Monash, criou um sistema de cultura de
tecido tridimensional que imita o ambiente fibrótico e identificou a
vitronectina como causadora do problema. A proteína induz os macrófagos a
causarem a lesão, em vez de promoverem a cicatrização. "Normalmente,
pensamos na vitronectina como uma proteína estrutural que mantém a integridade
de órgãos como os pulmões. Mas descobrimos que ela também pode atuar como um
sinalizador", afirma.
Segundo
Binger, a vitronectina altera a forma como os macrófagos produzem energia, o
que os leva a um estado fibrótico exagerado. A autora afirma que esse é um
mecanismo completamente novo para entender como a fibrose ocorre. "É
importante ressaltar que o que observamos em nossas culturas 3D foi
perfeitamente reproduzido pelos modelos animais conduzidos pela equipe de Liu e
em amostras de tecido de pacientes com fibrose pulmonar idiopática."
Embora
o estudo sobre o mecanismo ainda esteja em fase pré-clínica — testado apenas em
animais e células —, Liu diz que o objetivo da equipe é identificar novos
tratamentos baseados nas descobertas do laboratório para tratar a doença de
forma mais efetiva. "Agora, podemos trabalhar para identificar novos
medicamentos que possam inibir a vitronectina com maior eficácia, para que
possamos traduzir essa pesquisa em prática clínica e ajudar a encontrar uma
nova cura para essa doença debilitante."
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Tabagismo
Como
não se conhece a causa da doença e há pouca opção terapêutica para a fibrose
pulmonar, médicos reforçam a necessidade de se obter diagnóstico precoce e
evitar fatores de risco. O tabagismo é um deles. Segundo Rodrigo Urresti,
pneumologista do Hospital Albert Sabin (HAS), em São Paulo, o cigarro duplica a
probabilidade de se desenvolver a enfermidade. Outros fatores modificáveis
incluem a exposição a poeiras no ambiente de trabalho (como resíduos de
madeira, metal e sílica) e o refluxo gastroesofágico. "Quando o suco
gástrico 'sobe' e é microaspirado para os pulmões, ele causa uma irritação
crônica que pode favorecer a cicatrização", diz.
Embora
submeter pessoas sem sintomas ao exame de tomografia do tórax, uma das
ferramentas de detecção, não seja recomendado pelos médicos, o rastreamento
direcionado a grupos de alto risco é essencial. "Se temos uma pessoa com
parentes de primeiro grau que tiveram a doença, ou se identificamos alterações
cicatriciais 'escondidas' em tomografias feitas por outros motivos, conseguimos
agir antes que o pulmão perca muita capacidade de respiração", afirma o
pneumologista do Hospital Albert Sabin.
Radiologista
especialista em imagem torácica da Fundação Instituto de Diagnóstico por Imagem
(Fidi), a médica Claudia Friedrich explica que, hoje, os exames são capazes de
detectar alterações antes de os sintomas aparecerem. "Isso muda
completamente a condução clínica porque amplia as possibilidades de tratamento,
reduz o risco de evolução silenciosa e ajuda a evitar que muitos pacientes
cheguem aos serviços de saúde em quadros mais graves", observa a
médica.
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"Momento histórico"
O
pneumologista Rodrigo Urresti destaca que, mesmo incurável, a doença pode ser
controlada com muito mais eficácia do que há uma década. "Estamos vivendo
um momento histórico na pneumologia. Os primeiros antifibróticos já haviam
mudado a história da doença, funcionando como um freio de emergência para
desacelerar a cicatrização do pulmão", diz. Ele conta que, recentemente, o
arsenal foi reforçado com uma substância, a nerandomilaste, de uma nova classe
medicamentosa. "Em grandes ensaios clínicos, esse remédio provou que
preserva a capacidade respiratória com excelente tolerabilidade",
descreve.
Porém,
embora aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o
nerandomilaste ainda não está disponível para venda em farmácias nem no Sistema
Único de Saúde (SUS). O medicamento ainda precisa passar por etapas
governamentais obrigatórias: primeiro, a definição do preço pela Câmara de
Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed), depois a avaliação de cobertura
pelos planos pela Agência Nacional de Saúde e, por fim, a análise de
incorporação no SUS. "Trata-se de um avanço científico extraordinário, mas
que ainda exige um tempo de trâmite até chegar efetivamente aos
pacientes", diz Urresti.
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Quatro perguntas para Marcelo Fouad Rabahi, professor de pneumologia da
Universidade Federal de Goiás (UFG), chefe do serviço de pneumologia do
Hospital das Clínicas da UFG e presidente eleito da Sociedade Brasileira de
Pneumologia e Tisiologia (SBPT) para 2027-2028.
- A inibição da
vitronectina, abordagem testada em um estudo com animais, é promissora?
Existe
um espaço entre os alvéolos que a gente chama de matriz extracelular. Uma
proteína, a vitronectina, que fica dentro dessa matriz, influencia o
comportamento dos macrófagos, que são células do sistema imunológico, fazendo
com que haja piora na cicatrização da matriz. Então, o que acontece: vem uma
agressão aos pulmões, às vezes sem causa (como é na fibrose idiopática), e o
processo de reparação acaba sendo exagerado pela vitronectina. No experimento,
os pesquisadores neutralizaram essa proteína. Em camundongos sem a
vitronectina, não houve a formação da fibrose. O estudo é experimental, então é
importante que, agora, haja novos avanços para a gente poder dizer se a
inibição da vitronectina será um alvo terapêutico. Mas é assim que a ciência
caminha, com esse tipo de experimento.
- Nos últimos
anos, houve avanços no tratamento da doença?
O
tratamento mudou drasticamente. Há 10 anos, foram lançados os únicos dois
medicamentos que, até agora, estavam disponíveis no mundo e no Brasil:
nintedanibe e pirfenidona. Antes deles, não existia absolutamente nenhum
tratamento específico para essa doença. Há uma década, nós fazíamos um
diagnóstico, mas tínhamos muito pouco a oferecer. Se esse paciente não pudesse
ser incluído numa fila de transplante, não havia um tratamento direcionado. Com
a introdução dos antifibróticos, a perspectiva desses pacientes mudou muito.
Alguns já usam o antifibróticos há 10 anos: ou seja, estão vivos, fazendo
tratamento. Agora, recentemente, foi aprovado um novo medicamento, o
nerandomilaste, para o tratamento de pacientes com fibrose pulmonar idiopática,
então acredito que eles poderão se beneficiar, tendo uma doença mais controlada
do que há uma década.
- O transplante
pulmonar é a única alternativa para casos avançados?
Não, os
antifibróticos já são para casos avançados. Acontece que, se o paciente tem
indicação de transplante, a resposta à doença é melhor do que a obtida com os
medicamentos. Entretanto, não são todos os pacientes que são candidatos e o
transplante não é acessível na maioria dos estados brasileiros, o que cria um
obstáculo muito grande para os pacientes.
- Há expectativa
de terapias capazes de interromper ou até reverter a fibrose, em vez de
apenas retardar a progressão?
Hoje,
os tratamentos medicamentosos não revertem a fibrose. O que nós temos é o
retardamento da progressão. Mas a nova terapia (nerandomilaste) traz uma
possibilidade de alguns grupos específicos de pacientes com fibrose terem a
doença estabilizada. Então, isso já é um avanço em relação aos anteriores.
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Depoimento
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Uma nova forma de caminhar
Meu
nome é Norma Sônia Fernandes Dias. Sou viúva, mãe de três filhos e avó de uma
neta. Sou de Belo Horizonte e completo 80 anos em 13 de novembro. Sou
pós-graduada em saúde pública, aposentada, religiosa, alegre, vaidosa e sempre
gostei de viajar e de arte.
Sempre
fui uma pessoa saudável, mas, desde criança, tinha crises de tosse que me
tiravam o fôlego. Ninguém imaginava que aquilo fosse algo tão sério. Aos 67
anos, comecei a sentir falta de ar e muito cansaço. Procurei um médico, que
suspeitou de uma doença autoimune e pulmonar e me encaminhou a um
pneumologista.
Minha
vida e a da minha família viraram de ponta-cabeça. Fui internada por três dias,
que viraram 33. E, então, veio o pior momento: o diagnóstico de fibrose
pulmonar intersticial. Falar dessa doença é falar de muitos exames, biópsia de
pulmão, remédios fortes, antibióticos, corticoides, oxigênio 24 horas por dia,
exercícios respiratórios. E ainda vieram outras doenças, como uma miocardite
grave, que me levou a colocar um marca-passo.
Receber
alta foi um presente, mas parecia um presente embrulhado em um papel sem cor,
rasgado e amassado. Mas minha família e meus amigos se uniram e nunca me
deixaram sozinha. A rede de apoio é fundamental.
Aos
poucos, fui recuperando minha autonomia, minha liberdade de ir e vir, de agir,
de pensar. Tive que reconhecer que a doença limita. Tive que aprender
que respirar era difícil, mas possível. Aos poucos, fiz o desmame do oxigênio
e, hoje, não preciso mais desse suporte.
Procuro
ajudar outros pacientes na Associação de Fibrose Pulmonar de Minas, para
desmistificar a doença, porque muitos chegam achando que vão morrer logo.
Todo
meu tratamento é feito pelo Sistema Único de Saúde. O SUS foi
fundamental no acolhimento, no cuidado, no tratamento e nos
medicamentos. A atividade física e o lazer foram essenciais. O cuidado com
as pessoas me mostrou que eu nunca desisti de amar. Voltar às atividades
me deu a certeza de que ainda é possível ser uma pessoa feliz.
A
doença está controlada, mas, é claro, não posso dizer que não tenho mais
nada. Eu não tenho um novo caminho, mas tenho uma nova forma de
caminhar.
Fonte:
Correio Braziliense

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