Maria
da Penha, 20 anos: Alta de feminicídios revela fracasso estatal em proteger
mulheres
O
Brasil segue sendo um país violento, especialmente para as pessoas negras e
para as mulheres. Pelo quarto ano consecutivo, o país registra índices recordes
de feminicídios e tentativas de feminicídio, de acordo com o Anuário Brasileiro
de Segurança Pública 2026. Apenas no ano passado, foram 1.571 vítimas desse
crime, a maioria mulheres negras, assassinadas dentro de casa. A Lei Maria da
Penha completa 20 anos, mas a violência contra as mulheres permanece como um
dos principais desafios na segurança pública.
Nesta
semana, o Pauta Pública recebe Juliana Brandão, advogada e coordenadora de
Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em entrevista a Andrea
Dip, ela analisa os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o impacto
do racismo nas taxas de violência, e defende a importância de políticas
públicas voltadas à prevenção e ao fortalecimento da rede de proteção às
vítimas. “Quando a gente se abstém de pensar em saídas preventivas, a gente
está consentindo com essa escalada”, afirma.
Leia os
principais pontos da conversa:
• Segundo dados do último Anuário
Brasileiro de Segurança Pública, em 2025, o Brasil registrou o maior número de
feminicídios da série histórica iniciada em 2015, quando a tipificação do crime
foi criada no país. De que tipo de violência de gênero estamos falando?
Estamos
falando de uma violência que interrompe a vida das mulheres, uma violência que
pode ser evitada. Porque o feminicídio, na verdade, é o ápice de um ciclo de
violência que se inicia com um empurrão, um tapa, uma humilhação, com a
violência psicológica, patrimonial e perseguição. Essas violências acabam sendo
naturalizadas e desconsideradas como tal. Com isso, a mulher vai se sentindo
cada vez mais enredada nesse ciclo, muitas vezes envergonhada e até se sentindo
culpada por estar nessa situação.
Porque
estamos falando de uma violência que é cometida por alguém que é do círculo
muito próximo dessa mulher. Essa violência do feminicídio, que os dados do
anuário trazem agora, é uma violência que acontece na maior parte das vezes
dentro de casa, entre quatro paredes. Então, o problema está no ambiente
doméstico. O problema está naquilo que acontece quando ninguém vê, quando a
porta está fechada.
Quando
falamos da violência que atinge também crianças e adolescentes, é também
praticada por alguém que é do círculo muito próximo delas e a maior parte das
vítimas são meninas negras, que repetem também o perfil das vítimas de
feminicídio. Então, temos um endereçamento muito certo dessa violência, que já
devia ser um sinal pra gente, um farol para onde a gente tem que olhar se a
gente quer de fato mudar essa essa situação que a gente está vivendo.
• Houve também um número alto de
tentativas de feminicídio. Quer dizer que há falhas na prevenção?
Olhando
para os dados, a gente vê uma escalada. Então, um recrudescimento da violência
contra as mulheres, que não se explica tão só por uma melhora de enquadramento
penal, mas por uma situação mais geral. Um caldo mesmo de violência que é
expresso por um Brasil que é muito inseguro para as mulheres.
É muito
difícil ser mulher no Brasil, porque as mulheres são vítimas de ameaça, as
mulheres são vítimas de agressão, as mulheres são vítimas de perseguição. E se
a gente levar em conta que essa mulher tem denunciado esses preditores de
feminicídio, significa que ela vai e faz um boletim de ocorrência. Ali, por
exemplo, já seria um momento de a gente dizer: “Olha, essa mulher aqui a gente
tem que olhar com mais cuidado, porque ela conseguiu vencer essa barreira, ela
conseguiu entender que não é culpada, ela conseguiu entender que não está
sozinha. E o que acontece dentro do lar dela é algo que importa para o nosso
coletivo. Vamos trazê-la para mais perto, vamos olhar o que está acontecendo,
que rotina é essa, que autonomia ela tem, como é que ela sai desse enredo”, que
é um enredo que vai, de alguma forma, dizimando as possibilidades de a mulher,
de fato, encontrar uma saída.
Mas o
que o direito penal oferece hoje? Oferece a responsabilização do agressor. A
gente não volta ao estado anterior. Um agressor, um feminicida que é condenado,
não traz de volta aquela mulher, não restabelece os laços sociais daqueles que
são também os órfãos do feminicídio, se essa mulher tinha filhos. Não
restabelece as relações das vítimas indiretas, porque essa mulher era mãe, era
avó, era tia. Ela tinha todo um entorno ao lado dela que não vai ser
restabelecido pela chancela da lei penal.
Então,
quando a gente se abstém de pensar em saídas preventivas, a gente está
consentindo com essa escalada. A gente está dando de ombros e está jogando,
muitas vezes, no colo das próprias mulheres a responsabilidade pela proteção
delas, porque significa que elas só viram cidadãs, só começam a importar para o
Estado quando registram um boletim de ocorrência de uma violência que já estão
sofrendo.
• Mas a violência dá sinais. Essa mulher é
assistida por um sistema de saúde, é assistida por um sistema de assistência
social, está imersa em um coletivo. Ninguém viu? Ninguém percebeu um relato
dela dizendo: “Olha, não consegui chegar aqui naquele espaço porque, na
verdade, o meu companheiro embaraçou a minha saída”?
Isso já
é um sinal de alerta. “Olha, não estou conseguindo usar minhas redes sociais”;
“Olha, não estou conseguindo procurar trabalho”; “Olha, não tem quem fique com
os meus filhos”. É muita pista que vai sendo deixada no meio do caminho e a
gente fica, de alguma forma, esperando o pior acontecer para agir.
Então,
acho, sim, que a gente está muito hesitante, de fato, em abraçar um compromisso
maior com estratégias de proteção e de prevenção à violência.
• Tendo em vista que 65,1% das mulheres
que sofreram feminicídio eram negras, por que as políticas de enfrentamento a
esse tipo de violência também precisam considerar os efeitos do racismo?
Quando
a gente olha para os dados, e isso é sempre importante, toda oportunidade que
eu tenho de problematizar isso, eu coloco que o sentimento de insegurança e de
desproteção atinge todas as mulheres brasileiras. Mas, no cotidiano, as
mulheres negras são as que estão na ponta dessa violência.
O
endereçamento da violência é muito certo. E, enquanto a gente não reconhecer
esse atravessamento do racismo, que, de fato, coloca a população negra em uma
condição de subalternidade, em uma condição de não acesso a direitos, a gente
vai continuar vendo esses números se recrudescendo.
Então,
eu preciso, sim, pensar em políticas que sejam mais focalizadas, que levem em
conta a nossa herança, o nosso contexto brasileiro, de um país que foi forjado
na escravização. O lugar da mulher negra sempre foi esse lugar de menosprezo,
esse lugar de desprestígio, esse lugar daquela mulher que pode suportar
qualquer tipo de dor, qualquer tipo de violência, sem que haja qualquer tipo de
interdição quanto a isso.
Então,
quando a gente despreza esse atravessamento do racismo, a gente está, de fato,
consentindo com uma leitura em que não se vê dignidade nessas mulheres. Os
dados são evidências. Eles mostram para a gente como essa ferida do racismo
ainda é uma ferida muito aberta. A gente acha que ela já está cicatrizada, mas
não está.
A gente
precisa continuar falando disso. E não como uma forma de polarizar o debate ou
de dizer: “Olha, mas tem também as mulheres brancas, as mulheres indígenas”.
Sim, isso tudo é muito verdadeiro. Mas os dados nos permitem, de fato,
trabalhar com uma política que considere que esse endereçamento da violência
contra as mulheres negras é, sim, mais severo.
• Por que Justiça voltou a prender o
ex-marido de Maria da Penha
O
ex-marido de Maria da Penha, mulher que inspirou a lei de combate à violência
doméstica no Brasil, foi preso neste domingo (9/8), em Natal, no Rio Grande do
Norte, por descumprimento de medidas preventivas concedidas em favor de sua
ex-esposa e das duas filhas.
O
pedido foi feito pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) porque Marco Antônio
Heredia Viveros deu uma entrevista falando sobre Maria da Penha à TV Record -
reportagem que iria ao ar no programa Domingo Espetacular.
A lei
completou 20 anos na última sexta-feira (7/8) e tem assegurado direitos a
mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.
Em
2024, segundo o MP, o Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher
de Fortaleza, no Ceará, expediu uma medida cautelar contra Viveros, o proibindo
de divulgar informações sobre o processo e de propagar o nome ou a imagem da ex
e filhas em mídias sociais, aplicativos ou qualquer ambiente virtual.
Portanto,
o MPCE entendeu que a entrevista violava esta medida. Segundo o órgão, o juiz
Cesar Morel Alcantara acolheu o pedido e determinou a prisão de Viveros. Ele
foi preso pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas
(Gaeco) do Ministério Público do Rio Grande do Norte.
A
entrevista de Viveros foi anunciada nas redes sociais como parte de uma
reportagem que também teria uma entrevista com Maria da Penha. No trecho
divulgado, o repórter Roberto Cabrini pergunta a Viveros sobre o crime pelo
qual foi condenado. Viveros responde, em trecho editado: "Afirmar é muito
fácil".
Segundo
o MPCE, as chamadas veiculadas estavam sendo divulgadas em plataformas digitais
e redes sociais, caracterizando o descumprimento da determinação judicial.
O órgão
informou que "o investigado foi devidamente notificado das restrições
impostas e das consequências jurídicas em caso de violação da medida".
Além de decretar a prisão preventiva, também foi determinada a retirada
imediata do ar de conteúdos relacionados à entrevista e proibida a veiculação
da reportagem.
A BBC
News Brasil procurou a defesa de Marco Antônio Heredia Viveros, mas até a
publicação desta reportagem não havia manifestação oficial. Um de seus
advogados, Otacilio de Paula, fez postagens nas redes sociais criticando a
prisão: "Por que não podemos ouvir Marcos Heredia? Por que só ela pode
falar?", criticou.
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O crime que deu origem à lei
Resultado
de crescentes demandas por uma forma mais efetiva de combater a violência
doméstica e de anos de preparação e estudo por entidades de defesa das
mulheres, a lei aprovada em 2006 foi batizada em homenagem à farmacêutica
cearense Maria da Penha Fernandes.
Em maio
de 1983, Penha despertou com um estampido agudo dentro do quarto. Tentou se
mexer e não conseguiu. "Puxa, o Marco me matou", pensou ela, segundo
disse em entrevista à BBC News Brasil em 2016.
Viveros
contaria à polícia que acordou no meio da noite com barulho em casa, em
Fortaleza. E que ao chegar à cozinha, deparou-se com uma gangue de quatro
assaltantes. Após uma breve luta, eles teriam lhe acertado um tiro de raspão no
ombro e baleado Maria da Penha, que se encontrava em outro quarto, adormecida.
Penha,
que passaria os quatro próximos meses no hospital, não tinha como questionar
essa versão, mas já tinha dúvidas sobre ela. "Eu raciocinava, como é que
um homem luta com quatro pessoas e não morre, não leva um tiro? E eu, dormindo,
levei um tiro."
Nos
próximos meses, a história de Viveros cairia como um castelo de cartas. Nenhum
vizinho, mesmo os vários que se sobressaltaram com os tiros nas primeiras horas
da manhã do fatídico dia, viu os supostos assaltantes deixando a casa.
As
marcas da entrada na casa da família nunca confirmaram que houve arrombamento.
As empregadas acharam uma espingarda no armário de Viveros da qual ninguém
jamais havia ouvido falar.
O
próprio cairia em contradições ao ser chamado para depor uma segunda vez à
polícia.
Ainda
retomando os movimentos básicos do corpo e reprendendo a viver em cadeira de
rodas, Penha diz que a crueldade continuava. Na volta para casa do hospital,
ainda no carro, Viveros lhe ordenou que não recebesse visitas nem de amigos nem
de parentes
Mas foi
só quando Viveros tentou eletrocutá-la, levando-a para baixo de um chuveiro
elétrico, que Penha decidiu que era hora de abandonar o casamento de vez.
Os
crimes aconteceram em 1983 e Maria da Penha passou 19 anos apresentando provas
à Justiça brasileira que comprovavam a tentativa de homicídio, mas a Justiça
Brasileira só condenou seu ex-marido em 2002.
Ele
cumpriu apenas 2 anos da pena de 6 anos na prisão.
O caso
foi apresentado em 2001 à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH)
que condenou o estado brasileiro por negligência e fez uma série de
recomendações de para evitar que outras brasileiras sofram tragédias como a de
Maria da Penha.
Viveros
segue até hoje insistindo na versão do assalto. Num recente documentário da
produtora Brasil Paralelo, ele alegava que o casal tinha sido vítima de
assaltantes, e que a luta corporal com bandidos teria provocado o disparo de
tiro em Maria da Penha e lesões no queixo, mão e no pescoço dele.
Segundo
o MPCE, essa produção usou um laudo adulterado de um exame de corpo de delito
de Vivero e, por isso, entrou com uma denúncia, posteriormente aceita pela
Justiça. O órgão argumenta que Viveros segue fazendo uma "campanha de
ódio" contra Maria da Penha.
A lei,
criada há 20 anos e classificada pelo ONU como pioneira no mundo na defesa da
mulher, tem sido alvo de uma campanha de desinformação nos últimos anos, como
mostrou reportagem da BBC News Brasil em 2023.
Nos
últimos anos, a lei já foi ampliada para além da mulher cis em relações
heterossexuais, alcançando casais LGBTs e mulheres trans. Atualmente, o Supremo
Tribunal Federal (STF) discute se as medidas protetivas podem ser utilizadas
mesmo quando não existe relação doméstica, familiar ou afetiva entre vítima e
agressor.
Fonte:
Por Andrea DiP, Sofia Amaral, Ricardo Terto, Stela Diogo e Natália Alana, da
Agencia Pública/BBC News Brasil

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