Qual
o risco do investimento "circular" entre empresas de IA
Relatos
de que a Nvidia negocia oferecer apoio financeiro de quase 250 bilhões de
dólares à OpenAI para um gigantesco projeto de data centers revelam os dois
lados do boom da inteligência artificial (IA).
Por um
lado, isso mostra a dimensão colossal dos recursos financeiros e do potencial
da IA. Por outro, expõe os riscos de um sistema de financiamento chamado
"circular", que está no coração do ecossistema da IA. A pergunta é:
se uma peça de dominó cair, as outras cairão junto?
"A
natureza interconectada do ecossistema de IA é real", afirma Gary Tan,
gestor de portfólio da Allspring Global Investments. "Mas os riscos no
curto prazo são mitigados por sólidos balanços patrimoniais, fluxos de caixa e
qualidade de crédito dos principais atores que financiam a expansão."
Jan
Frederik Slijkerman, estrategista de tecnologia do ING, afirma que a robustez
financeira de empresas como Nvidia, Microsoft, Amazon e Alphabet (dona do
Google) ajuda a mitigar esses riscos. Ele ressalta que o grau de colaboração no
que diz respeito à IA é "fascinante", mas não vê um risco sistêmico
devido a esse tipo de interdependência.
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O modelo circular
O
financiamento circular geralmente funciona da seguinte forma: uma empresa paga
outra por um produto ou serviço, faz um investimento nela ou concede um
empréstimo ou contrato de leasing. Em seguida, essa empresa que recebeu os
aportes passa a comprar produtos ou serviços da primeira companhia. Essa
alternativa é observada em diversos negócios ligados à IA.
Para
muitos, a revolução da IA começou com o lançamento do ChatGPT, desenvolvido
pela OpenAI, em novembro de 2022. As capacidades do chatbot levaram a
inteligência artificial ao grande público. Seu sucesso rapidamente atraiu um
investimento de 10 bilhões de dólares da Microsoft, o que permitiu à empresa
desenvolver modelos ainda mais poderosos.
Em
contrapartida, a OpenAI tornou-se uma cliente estratégica dos serviços de nuvem
da Microsoft, área na qual a empresa vem aumentando continuamente seus
investimentos à medida que o boom da inteligência artificial ganha força.
Esse
acordo acabou servindo de modelo para negociações futuras. Amazon e Alphabet
passaram a investir bilhões de dólares na Anthropic, rival da OpenAI e criadora
do bem-sucedido chatbot Claude. Em troca, a Anthropic utiliza os serviços de
nuvem da Amazon e do Google, além de comprar chips dessas empresas.
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Nvidia, a "rainha da selva"
Ainda
assim, tudo isso é peixe pequeno diante do que a Nvidia trouxe para a mesa.
"A Nvidia está no centro do ecossistema da IA, atuando não apenas como
fornecedora de tecnologia, mas também como investidora estratégica que ajuda a
acelerar a adoção de sua plataforma", afirma Tan.
Segundo
Slijkerman, a Nvidia desempenha um papel fundamental ao contribuir para o
desenvolvimento de uma ampla gama de novos negócios, da área da saúde à direção
autônoma. "Seus investimentos ajudam a impulsionar o crescimento do
ecossistema de IA como um todo, ao mesmo tempo que facilitam a implantação da
infraestrutura necessária para a inteligência artificial", afirma.
A
notícia de que a Nvidia negocia fornecer 250 bilhões de dólares à OpenAI,
revelada inicialmente pelo Wall Street Journal, seria apenas o mais recente
megainvestimento financiado pela empresa, avaliada em 4,6 trilhões de dólares.
A
empresa de Jensen Huang está no centro do boom da IA graças aos seus chips,
líderes de mercado. Desde 2024, a Nvidia tem investido pesadamente em diversas
startups de IA, incluindo OpenAI, Mistral e aSpaceX, de Elon Musk. Em
contrapartida, todas essas empresas se comprometem a usar chips da Nvidia.
A
companhia também passou a investir fortemente nas chamadas
"neoclouds", como CoreWeave e Nebius. Essas startups alugam
capacidade de armazenamento em nuvem voltada para aplicações de IA. Além de
investir nelas, a própria Nvidia também contrata serviços de nuvem.
Neste
ano, a Nvidia aumentou os investimentos e fez novos acordos. Recentemente, a
empresa fechou uma parceria com o conglomerado sul-coreano SK Group no valor de
até 500 bilhões de dólares.
Ao
longo de 2026, esse tipo de negociação circular tornou-se ainda mais evidente
em todo o setor. A OpenAI fechou acordos que somam quase 1 trilhão de dólares
com empresas como Microsoft e a fabricante de chips Advanced Micro Devices
(AMD), chegando se tornar uma das maiores acionistas da AMD.
Microsoft
e Nvidia também fizeram investimentos significativos na Anthropic, e a
Anthropic comprometeu-se a ampliar compras de armazenamento em nuvem e chips
fornecidos por ambas.
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Vantagens – e riscos
A
dimensão dessa simbiose tem vantagens. "Ecossistemas interligados podem
acelerar a inovação ao alinhar os incentivos de fornecedores de infraestrutura,
desenvolvedores de modelos, empresas de aplicações e usuários finais, ajudando
novas tecnologias a ganhar escala mais rapidamente", afirma Gary Tan.
Slijkerman
diz não considerar essa tendência de financiamento circular uma forma de
"engenharia financeira". "Essas relações fazem sentido do ponto
de vista estratégico porque ajudam os participantes a ampliar seu alcance de
mercado e acelerar a adoção de novas tecnologias", afirma. "Além
disso, elas podem gerar benefícios financeiros mútuos."
Mas há
riscos. Os temores de uma possível "bolha da IA" continuam pairando
sobre os mercados globais. As ações de empresas de tecnologia e de fabricantes
de semicondutores caíram vertiginosamente na semana passada, em meio a dúvidas
sobre a rentabilidade do setor diante das quantias gigantescas investidas em
data centers e em outras frentes ligadas à IA.
Se as
receitas geradas pela inteligência artificial não crescerem o suficiente,
empresas que receberam aportes dos grandes grupos do setor poderão enfrentar
dificuldades financeiras. Nesse cenário, elas podem reduzir ou interromper a
compra de produtos dessas mesmas empresas que as financiaram, enquanto suas
avaliações de mercado tendem a cair.
Alguns
analistas têm traçado paralelos com a bolha das empresas de internet e o
colapso que se seguiu, depois que as avaliações dessas companhias dispararam
nos primeiros anos da web, na década de 1990. O financiamento circular também
desempenhou um papel naquela crise. Ainda assim, muitos observadores acreditam
que o boom da IA está apoiado em fundamentos mais sólidos.
"Embora
algumas empresas ou modelos de negócio específicos possam acabar decepcionando,
o ciclo mais amplo de investimentos parece ser sustentado por uma demanda real
e pela efetiva geração de valor econômico", afirma Slijkerman.
Tan
concorda e afirma que um risco ainda maior para o setor no futuro está ligado
aos juros. Na avaliação dele, uma alta das taxas de juros poderia ter um
impacto significativo sobre muitas empresas de IA, já que elas levarão anos
para se tornar lucrativas e tendem a ser mais penalizadas nesse cenário.
"Os
fluxos de caixa da inteligência artificial estão projetados para um horizonte
de longo prazo. Por isso, a trajetória da curva de juros talvez acabe sendo
mais importante do que a própria disponibilidade de capital", finaliza o
gestor da Allspring Global Investments.
Fonte:
DW Brasil

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