Ser
“progressista” é um atraso
“A
tecnologia não é neutra”. Quanto mais escuto essa frase, mais ela vem junto com
exemplos que acabam dizendo o contrário. O modo como o senso comum entende a
não neutralidade implica, efetivamente, na neutralidade. Fala-se do compromisso
da tecnologia com o dinheiro capitalista e, em seguida, paradoxalmente
aponta-se para supostas situações em que se poderia ir com o modo de produção
para um lado e a tecnologia para outro.
É como
se a acumulação do capital pudesse ter gerado outra coisa que não a ciência e a
tecnologia de nossa época. Ou seja, acredita-se em um vínculo entre a
maquinaria e as formas da economia de uma época, mas esse vínculo é assumido
como exterior a ambos os elementos envolvidos.
A tese
que aponta para um vínculo interno entre modo de produção e tecnologia de uma
época não tem o mesmo êxito historiográfico quanto a tese do vínculo externo. O
fetiche da tecnologia se amplia justamente quando é denunciado! A maior parte
das pessoas acredita que a tecnologia tem suas próprias pernas.
A
construção do socialismo da União Soviética se fez sob essa ideia do vínculo
apenas exterior. A fórmula de Vladímir Lênin foi glorificada, aplaudida e
lambuzada no rosto bobamente alegre dos “progressistas”: comunismo = poder dos
sovietes + eletrificação. Deu no que deu: em pouco tempo o stakonovismo foi
glorificado, mas ele era apenas a versão taylorista do trabalho capitalista,
então no reino do paraíso socialista. Nada além disso. O mundo soviético se
tornou o mundo da apologia do trabalho extenuante e não o mundo da vida feliz.
E com KGB para imitar a CIA.
O Maio
de 1968 apontou para o problema do industrialismo socialista como sendo uma
imitação do industrialismo em geral. Todavia, a denúncia veio tarde. Antes
mesmo de Herbert Marcuse fazer sucesso já se sabia que alguma coisa havia dado
errado. Mas, enfim, quem teria a coragem de dizer que o erro era a
“eletrificação”?
A URSS
já nasceu sob o senso comum gerado no século XIX, a defesa da necessidade do
“progresso”, e este se fundiu com a ideia de que todos os ganhos científicos e
tecnológicos do mundo moderno, ou seja, do capitalismo, deveriam contar como
fundamentais para o estado socialista. Eram “conquistas da humanidade”! Ou
seja, a “pátria do socialismo” endossou a tese mais fácil: a tecnologia poderia
mudar seu rosto e sua alma ao sair das mãos da “burguesia” para ficar nas mãos
do “proletariado”. Mãos santas do operariado. Glória a Deus!
Diante
do desastre do Estado soviético, que se fez muito antes dos episódios da queda
do Muro de Berlim, alguns explicaram o fracasso ̶ cujo fenômeno
da falta de liberdade era um sinal importante ̶ por
meio de uma narrativa que, no decorrer do século XX, se tornou
corriqueira. Remediava-se o fracasso através de um mantra: o
estado socialista não havia de fato se encaminhado para o socialismo, e isso
porque os trabalhadores não vieram efetivamente a controlá-lo.
O
Estado havia se “burocratizado” justamente com a “burocratização do partido”.
Uma “nova classe social” teria emergido entre o estado e o povo: os
profissionais do partido. Isso teria impedido os céus de serem construídos na
Terra. O satanás Stalin havia estragado tudo! Ah! Que pena que o Santo Trotsky
não venceu!
Quando
escuto essas conversas, caio em modorra!
Talvez
essa história da burocratização tenha sido apenas uma desculpa esfarrapada para
não tentar responder outras questões, uma delas sendo de importância
fundamental, a saber: a tecnologia é transferível? Falamos muito em
transferência de tecnologia entre países. Todos capitalistas. Não sabemos se
isso poderia ocorrer entre modos de produção.
Só os
que acreditam no vínculo externo entre tecnologia e modo de produção confiam,
sem qualquer discussão, na possibilidade da transferência. A tecnologia é
assumida como uma prostituta que segue o fluxo de qualquer paredão de cemitério
dos anos oitenta. A tecnologia fica ali, paradinha, esperando o cliente.
Quando
olhamos para determinadas tecnologias no decorrer de modos de produção
distintos, a dúvida sobre a transferência torna-se mais palpável. Dá mais
coceira no olho. Todos os poros da pele se abrem para informação nova.
Uma
série de ganhos tecnológicos do Império Romano em sua época áurea não se
perpetuaram no âmbito do mundo medieval. O saber arquitetônico do Império se
perdeu. Até mesmo o sistema de esgoto não se perpetuou. Os medievais olhavam
para os restos do Império e não lhe davam crédito. Não é que não o entendiam.
Não viam nele qualquer utilidade. O mundo havia mudado o seu modo de se
organizar em sua produção e reprodução, e a tecnologia do mundo antigo ficou no
mundo antigo. Deveríamos prestar atenção nisso. Mas a historiografia não
explora esse filão com afinco.
Uma boa
parte dos historiadores prefere dizer que os medievais caíram em noite escura
do ponto de vista científico, por isso deixaram as conquistas tecnológicas
antigas de lado. Evitam a pergunta incômoda: será mesmo que os homens do
feudalismo eram simplesmente ignorantes, e jogaram tudo fora? Ou, na verdade,
eles não conseguiam completar a sua concepção de mundo e o modo de produção
feudal com aquilo que havia dado vida para as cidades do Império Romano?
O
artigo de Liszt Vieira, publicado no site A Terra é Redonda, parece
acreditar na hipótese corriqueira: podemos alterar nosso modo de conduzir a
economia e a política e, com isso, mantermos a tecnologia, apenas reordenando-a
para objetivos favoráveis à nossa felicidade. Todavia, para acreditar nisso é
necessário acreditar que se pode mexer na alma da Inteligência artificial e
também com a carne dos algoritmos e das Big Techs associadas ao mercado
financeiro.
Será
que alguma Inteligência artificial ou alguma Big Tech pode continuar
funcionando sem que seu objetivo seja o da acumulação do capital? Repito à
exaustão: tenho dúvidas sobre o vínculo apenas externo entre tecnologia e modo
de produção, e que, justamente por ser externo, poderia se abolido.
Por
todos os lados que examino a Internet, as Big Techs, os modelos de Inteligência
artificial e suas nutrições ao mercado financeiro e vice versa, não consigo ver
uma pista que nos diga que é possível rearranjar o modus operandi dessa
parafernália toda, redirecionando-a para a felicidade de muitos. Esse sistema
que está aí nasceu com o objetivo de potencializar o crescimento do capitalismo
financeiro, especialmente por conta da decadência do modelo de capitalismo
industrial vigente nos chamados anos de ouro do pós-Guerra.
O que
noto é que o DNA do capitalismo e da tecnologia é o mesmo. A parafernália
centralizada nas Big Techs é inteira voltada para a produção do
sensacionalismo, para o crescimento das bets, para a produção de armas e
destruição da natureza, para a geração de dissimulações e espetáculos de
ostentação, inclusive os de ordem religiosa.
Desmontar
os processos algoritmos que funcionam com esse objetivo é destruir os
algoritmos em sua formulação computadorizada e em rede. Fazer essa tecnologia
funcionar com outros propósitos é como que obrigar um peixe a respirar fora
d’água. Vale por poucos minutos, logo o animal fica sufocado. Dá para servi-lo
no jantar. Mas eu não como carne, nem de peixe.
Reaproveitar
essa tecnologia da atualidade é difícil, pois ela é inerente às formas mais
perversas de acumulação do capital. O capitalismo financeiro roda sobre os
trilhos da tecnologia da Internet e da Inteligência artificial. Aprendemos com
Gilles Deleuze que nosso mundo não é mais disciplinar, mas funciona por fluxos
e modulações de fluxos.
Estamos
em um mundo de fluxos de dinheiro, trabalho e linguagem, e o canal dessa
correnteza é a Internet e sua crescente fusão com a Inteligência artificial.
Por sua vez, a Inteligência artificial é a menina dos olhos do capitalismo
financeiro atual. São irmãos siameses. Nem todos os siameses são possíveis de
serem separados, nem por cirurgiões cósmicos. Muito menos por raio.
Enquanto
reclamo disso tudo, este mesmo texto só pode chegar a outras pessoas pela via
da Internet, e logo a Inteligência artificial o estará copiando, fornecendo-o a
terceiros de modo torto, abobalhado.
Quem
pensa que os modelos de Inteligência Artificial – todos eles – podem se
desenvolver sem promover o que promovem, sem nos trazer as delícias do
subemprego e um certo patamar de prazerosa estupidez generalizada, não quis dar
atenção a Karl Marx quando este colocou os temas da redução do tempo.
O
capitalismo visa encurtar o tempo, e toda a parafernália das Big Techs, elas
próprias vinculadas ao mercado financeiro, também possuem esse objetivo. Essas
coisas nasceram juntas e, em vários casos, vieram do mesmo ventre e até
passaram pelo mesmo canal vaginal. Há quem diga que a teoria aí deve levar em
conta as crianças: elas acreditam que o nascimento é pelo ânus. Olha, nesse
caso, dou razão a elas.
Eis
como funciona o sistema de uso do tempo, de maneira crua. A notícia é da Folha
de S. Paulo: “O Trump Media & Technology Group, empresa de mídia
de Donald Trump, lançou oficialmente
neste sábado (1º) um serviço de dados por
assinatura que
possibilita a bancos e empresas de trading o ‘acesso mais rápido’ às postagens
de contas influentes do Truth Social, como a do próprio presidente dos Estados Unidos”.
“Segundo
o Washington Times, operadores de Wall Street que pagarem uma taxa
superior a US$ 100 mil mensais poderão acessar a Truth API, uma interface de
programação de aplicações, para acompanhar as postagens”.
Preciso
dizer mais? Pode ser que não! Mas sou uma tagarela, vou dizer mais.
Essa
minha tese sobre o vínculo interno entre tecnologia e capitalismo não é para
ser lida sem cuidado. Não estou tentando empurrar as pessoas para a idiotice
que, não raro, escuto por aí. Por exemplo: já ouvi um bobo dizer que nunca viu
qualquer tecnologia fazer bem para a “classe trabalhadora”. É um rapaz que se
acha de esquerda e que pensa que tecnologia é a Inteligência artificial e o
automóvel, e não a geladeira ou a roda. Também há o pimpolho de direita que
pergunta “há socialista de IPhone?”. Esses posicionamentos refletem apenas
pessoas que vomitam até mesmo sem ter comido qualquer coisa estragada. Elas são
frutos, na cabeça dessa gente, de disfunção hormonal e falta de nutrição na
infância.
A
questão do vínculo interno entre tecnologia atual e capitalismo financeirizado
diz respeito a algo mais complexo que aquilo que era colocado no século XX, do
tipo, “reforma ou revolução?”. A questão que ponho na mesa é bem outra: como
podemos entender cada função do que criamos ao fazermos a ciência moderna gerar
sua tecnologia? Ou ainda, a la Heidegger: não é a ciência moderna um canal de
mão única para a expressão em forma de tecnologia?
Um
exemplo claro de nossos impasses: conheço pessoas que são capazes de lutar de
modo sincero, e realmente poderoso, para regrar as Big Techs, mas ao mesmo
tempo são pessoas que acham uma maravilha que Data Centers estrangeiros sejam
instalados no Brasil, pois vivemos no Eden da “energia limpa renovável”. Ora,
hidrelétrica não é energia limpa renováve e Data Center é motel de geringonça
computacional que tem tudo para gerar elefantes brancos. Tudo isso torna as Big
Techs mais poderosas e, de certo modo, inimputáveis.
Todas
as vezes que podemos colocar tais questões, aparecem os que dizem que estamos
no neoludismo, que nossa proposta é quebrar máquinas. Outros dizem que estamos
sonhando com o fim do capitalismo para, então, mudarmos a tecnologia de mão de
modo a fazê-la nos ajudar a construir o Paraíso na Terra. Esses modos de nos
responder me parecem imediatistas. Deseja-se resolver tudo sem que tenhamos que
pensar caso a caso.
Creio
que separar os siameses aqui apontados não é da competência da sociologia. E
nossa política não dá conta disso. Atualmente impera na esquerda o programa que
restou da social democracia banhado em um liberalismo mitigado. Estamos de mão
atadas nas duas frentes: sociologia e política. Mas enquanto a sociologia e a
política são instâncias do fazer, a filosofia é a instância do pensar.
Quem
não abandonou a filosofia, vai ter que pensar. A cada proposta tecnológica a
última coisa que podemos fazer é deixar que o pensar seja o pensar só do
jurista ou do parlamentar. A filosofia tem raízes na utopia, e sem o exercício
de energizar projetos utópicos corremos o risco de acharmos que nós, humanos,
fazemos fotossíntese, ficaremos como plantas abestalhadas.
Temos a
dificuldade de pensar no problema por uma razão simples: o imperativo é
consertar o buraco no casco do navio enquanto estamos em alto mar e não há ilha
nenhuma no horizonte.
Podemos
continuar a fazer leis para regrar a parafernália do mundo das Big Techs. Quem
diria que não? Mas precisamos fazer mais. Vamos ferver os neurônios para dar
golpes que não sejam exclusivamente da ordem da legislação. A cada passo das
Big Techs em associação com o mercado financeiro teremos de preparar para dar
dois passos em outra direção.
Claro
que, no cotidiano, agimos como médicos, temos que fazer opções pelo menor
prejuízo. Mas em determinados momentos não teremos outra saída pela esquerda
senão o de darmos um basta no tal de “progresso”. Penso que temos de encontrar
uma frase diferente daquela da última entrevista de Martin Heidegger: “só um
deus pode nos salvar”.
Fonte:
Por Paulo Ghiraldelli, em A Terra é Redonda

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