segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Ser “progressista” é um atraso

“A tecnologia não é neutra”. Quanto mais escuto essa frase, mais ela vem junto com exemplos que acabam dizendo o contrário. O modo como o senso comum entende a não neutralidade implica, efetivamente, na neutralidade. Fala-se do compromisso da tecnologia com o dinheiro capitalista e, em seguida, paradoxalmente aponta-se para supostas situações em que se poderia ir com o modo de produção para um lado e a tecnologia para outro.

É como se a acumulação do capital pudesse ter gerado outra coisa que não a ciência e a tecnologia de nossa época. Ou seja, acredita-se em um vínculo entre a maquinaria e as formas da economia de uma época, mas esse vínculo é assumido como exterior a ambos os elementos envolvidos.

A tese que aponta para um vínculo interno entre modo de produção e tecnologia de uma época não tem o mesmo êxito historiográfico quanto a tese do vínculo externo. O fetiche da tecnologia se amplia justamente quando é denunciado! A maior parte das pessoas acredita que a tecnologia tem suas próprias pernas.

A construção do socialismo da União Soviética se fez sob essa ideia do vínculo apenas exterior. A fórmula de Vladímir Lênin foi glorificada, aplaudida e lambuzada no rosto bobamente alegre dos “progressistas”: comunismo = poder dos sovietes + eletrificação. Deu no que deu: em pouco tempo o stakonovismo foi glorificado, mas ele era apenas a versão taylorista do trabalho capitalista, então no reino do paraíso socialista. Nada além disso. O mundo soviético se tornou o mundo da apologia do trabalho extenuante e não o mundo da vida feliz. E com KGB para imitar a CIA.

O Maio de 1968 apontou para o problema do industrialismo socialista como sendo uma imitação do industrialismo em geral. Todavia, a denúncia veio tarde. Antes mesmo de Herbert Marcuse fazer sucesso já se sabia que alguma coisa havia dado errado. Mas, enfim, quem teria a coragem de dizer que o erro era a “eletrificação”?

A URSS já nasceu sob o senso comum gerado no século XIX, a defesa da necessidade do “progresso”, e este se fundiu com a ideia de que todos os ganhos científicos e tecnológicos do mundo moderno, ou seja, do capitalismo, deveriam contar como fundamentais para o estado socialista. Eram “conquistas da humanidade”! Ou seja, a “pátria do socialismo” endossou a tese mais fácil: a tecnologia poderia mudar seu rosto e sua alma ao sair das mãos da “burguesia” para ficar nas mãos do “proletariado”. Mãos santas do operariado. Glória a Deus!

Diante do desastre do Estado soviético, que se fez muito antes dos episódios da queda do Muro de Berlim, alguns explicaram o fracasso  ̶ cujo fenômeno da falta de liberdade era um sinal importante  ̶  por meio de uma narrativa que, no decorrer do século XX, se tornou corriqueira. Remediava-se o fracasso através de um mantra: o estado socialista não havia de fato se encaminhado para o socialismo, e isso porque os trabalhadores não vieram efetivamente a controlá-lo.

O Estado havia se “burocratizado” justamente com a “burocratização do partido”. Uma “nova classe social” teria emergido entre o estado e o povo: os profissionais do partido. Isso teria impedido os céus de serem construídos na Terra. O satanás Stalin havia estragado tudo! Ah! Que pena que o Santo Trotsky não venceu!

Quando escuto essas conversas, caio em modorra!

Talvez essa história da burocratização tenha sido apenas uma desculpa esfarrapada para não tentar responder outras questões, uma delas sendo de importância fundamental, a saber: a tecnologia é transferível? Falamos muito em transferência de tecnologia entre países. Todos capitalistas. Não sabemos se isso poderia ocorrer entre modos de produção.

Só os que acreditam no vínculo externo entre tecnologia e modo de produção confiam, sem qualquer discussão, na possibilidade da transferência. A tecnologia é assumida como uma prostituta que segue o fluxo de qualquer paredão de cemitério dos anos oitenta. A tecnologia fica ali, paradinha, esperando o cliente.

Quando olhamos para determinadas tecnologias no decorrer de modos de produção distintos, a dúvida sobre a transferência torna-se mais palpável. Dá mais coceira no olho. Todos os poros da pele se abrem para informação nova.

Uma série de ganhos tecnológicos do Império Romano em sua época áurea não se perpetuaram no âmbito do mundo medieval. O saber arquitetônico do Império se perdeu. Até mesmo o sistema de esgoto não se perpetuou. Os medievais olhavam para os restos do Império e não lhe davam crédito. Não é que não o entendiam. Não viam nele qualquer utilidade. O mundo havia mudado o seu modo de se organizar em sua produção e reprodução, e a tecnologia do mundo antigo ficou no mundo antigo. Deveríamos prestar atenção nisso. Mas a historiografia não explora esse filão com afinco.

Uma boa parte dos historiadores prefere dizer que os medievais caíram em noite escura do ponto de vista científico, por isso deixaram as conquistas tecnológicas antigas de lado. Evitam a pergunta incômoda: será mesmo que os homens do feudalismo eram simplesmente ignorantes, e jogaram tudo fora? Ou, na verdade, eles não conseguiam completar a sua concepção de mundo e o modo de produção feudal com aquilo que havia dado vida para as cidades do Império Romano?

O artigo de Liszt Vieira, publicado no site A Terra é Redonda, parece acreditar na hipótese corriqueira: podemos alterar nosso modo de conduzir a economia e a política e, com isso, mantermos a tecnologia, apenas reordenando-a para objetivos favoráveis à nossa felicidade. Todavia, para acreditar nisso é necessário acreditar que se pode mexer na alma da Inteligência artificial e também com a carne dos algoritmos e das Big Techs associadas ao mercado financeiro.

Será que alguma Inteligência artificial ou alguma Big Tech pode continuar funcionando sem que seu objetivo seja o da acumulação do capital? Repito à exaustão: tenho dúvidas sobre o vínculo apenas externo entre tecnologia e modo de produção, e que, justamente por ser externo, poderia se abolido.

Por todos os lados que examino a Internet, as Big Techs, os modelos de Inteligência artificial e suas nutrições ao mercado financeiro e vice versa, não consigo ver uma pista que nos diga que é possível rearranjar o modus operandi dessa parafernália toda, redirecionando-a para a felicidade de muitos. Esse sistema que está aí nasceu com o objetivo de potencializar o crescimento do capitalismo financeiro, especialmente por conta da decadência do modelo de capitalismo industrial vigente nos chamados anos de ouro do pós-Guerra.

O que noto é que o DNA do capitalismo e da tecnologia é o mesmo. A parafernália centralizada nas Big Techs é inteira voltada para a produção do sensacionalismo, para o crescimento das bets, para a produção de armas e destruição da natureza, para a geração de dissimulações e espetáculos de ostentação, inclusive os de ordem religiosa.

Desmontar os processos algoritmos que funcionam com esse objetivo é destruir os algoritmos em sua formulação computadorizada e em rede. Fazer essa tecnologia funcionar com outros propósitos é como que obrigar um peixe a respirar fora d’água. Vale por poucos minutos, logo o animal fica sufocado. Dá para servi-lo no jantar. Mas eu não como carne, nem de peixe.

Reaproveitar essa tecnologia da atualidade é difícil, pois ela é inerente às formas mais perversas de acumulação do capital. O capitalismo financeiro roda sobre os trilhos da tecnologia da Internet e da Inteligência artificial. Aprendemos com Gilles Deleuze que nosso mundo não é mais disciplinar, mas funciona por fluxos e modulações de fluxos.

Estamos em um mundo de fluxos de dinheiro, trabalho e linguagem, e o canal dessa correnteza é a Internet e sua crescente fusão com a Inteligência artificial. Por sua vez, a Inteligência artificial é a menina dos olhos do capitalismo financeiro atual. São irmãos siameses. Nem todos os siameses são possíveis de serem separados, nem por cirurgiões cósmicos. Muito menos por raio.

Enquanto reclamo disso tudo, este mesmo texto só pode chegar a outras pessoas pela via da Internet, e logo a Inteligência artificial o estará copiando, fornecendo-o a terceiros de modo torto, abobalhado.

Quem pensa que os modelos de Inteligência Artificial – todos eles – podem se desenvolver sem promover o que promovem, sem nos trazer as delícias do subemprego e um certo patamar de prazerosa estupidez generalizada, não quis dar atenção a Karl Marx quando este colocou os temas da redução do tempo.

O capitalismo visa encurtar o tempo, e toda a parafernália das Big Techs, elas próprias vinculadas ao mercado financeiro, também possuem esse objetivo. Essas coisas nasceram juntas e, em vários casos, vieram do mesmo ventre e até passaram pelo mesmo canal vaginal. Há quem diga que a teoria aí deve levar em conta as crianças: elas acreditam que o nascimento é pelo ânus. Olha, nesse caso, dou razão a elas.

Eis como funciona o sistema de uso do tempo, de maneira crua. A notícia é da Folha de S. Paulo: “O Trump Media & Technology Group, empresa de mídia de Donald Trump, lançou oficialmente neste sábado (1º) um serviço de dados por assinatura que possibilita a bancos e empresas de trading o ‘acesso mais rápido’ às postagens de contas influentes do Truth Social, como a do próprio presidente dos Estados Unidos”.

“Segundo o Washington Times, operadores de Wall Street que pagarem uma taxa superior a US$ 100 mil mensais poderão acessar a Truth API, uma interface de programação de aplicações, para acompanhar as postagens”.

Preciso dizer mais? Pode ser que não! Mas sou uma tagarela, vou dizer mais.

Essa minha tese sobre o vínculo interno entre tecnologia e capitalismo não é para ser lida sem cuidado. Não estou tentando empurrar as pessoas para a idiotice que, não raro, escuto por aí. Por exemplo: já ouvi um bobo dizer que nunca viu qualquer tecnologia fazer bem para a “classe trabalhadora”. É um rapaz que se acha de esquerda e que pensa que tecnologia é a Inteligência artificial e o automóvel, e não a geladeira ou a roda. Também há o pimpolho de direita que pergunta “há socialista de IPhone?”. Esses posicionamentos refletem apenas pessoas que vomitam até mesmo sem ter comido qualquer coisa estragada. Elas são frutos, na cabeça dessa gente, de disfunção hormonal e falta de nutrição na infância.

A questão do vínculo interno entre tecnologia atual e capitalismo financeirizado diz respeito a algo mais complexo que aquilo que era colocado no século XX, do tipo, “reforma ou revolução?”. A questão que ponho na mesa é bem outra: como podemos entender cada função do que criamos ao fazermos a ciência moderna gerar sua tecnologia? Ou ainda, a la Heidegger: não é a ciência moderna um canal de mão única para a expressão em forma de tecnologia?

Um exemplo claro de nossos impasses: conheço pessoas que são capazes de lutar de modo sincero, e realmente poderoso, para regrar as Big Techs, mas ao mesmo tempo são pessoas que acham uma maravilha que Data Centers estrangeiros sejam instalados no Brasil, pois vivemos no Eden da “energia limpa renovável”. Ora, hidrelétrica não é energia limpa renováve e Data Center é motel de geringonça computacional que tem tudo para gerar elefantes brancos. Tudo isso torna as Big Techs mais poderosas e, de certo modo, inimputáveis.

Todas as vezes que podemos colocar tais questões, aparecem os que dizem que estamos no neoludismo, que nossa proposta é quebrar máquinas. Outros dizem que estamos sonhando com o fim do capitalismo para, então, mudarmos a tecnologia de mão de modo a fazê-la nos ajudar a construir o Paraíso na Terra. Esses modos de nos responder me parecem imediatistas. Deseja-se resolver tudo sem que tenhamos que pensar caso a caso.

Creio que separar os siameses aqui apontados não é da competência da sociologia. E nossa política não dá conta disso. Atualmente impera na esquerda o programa que restou da social democracia banhado em um liberalismo mitigado. Estamos de mão atadas nas duas frentes: sociologia e política. Mas enquanto a sociologia e a política são instâncias do fazer, a filosofia é a instância do pensar.

Quem não abandonou a filosofia, vai ter que pensar. A cada proposta tecnológica a última coisa que podemos fazer é deixar que o pensar seja o pensar só do jurista ou do parlamentar. A filosofia tem raízes na utopia, e sem o exercício de energizar projetos utópicos corremos o risco de acharmos que nós, humanos, fazemos fotossíntese, ficaremos como plantas abestalhadas.

Temos a dificuldade de pensar no problema por uma razão simples: o imperativo é consertar o buraco no casco do navio enquanto estamos em alto mar e não há ilha nenhuma no horizonte.

Podemos continuar a fazer leis para regrar a parafernália do mundo das Big Techs. Quem diria que não? Mas precisamos fazer mais. Vamos ferver os neurônios para dar golpes que não sejam exclusivamente da ordem da legislação. A cada passo das Big Techs em associação com o mercado financeiro teremos de preparar para dar dois passos em outra direção.

Claro que, no cotidiano, agimos como médicos, temos que fazer opções pelo menor prejuízo. Mas em determinados momentos não teremos outra saída pela esquerda senão o de darmos um basta no tal de “progresso”. Penso que temos de encontrar uma frase diferente daquela da última entrevista de Martin Heidegger: “só um deus pode nos salvar”.

 

Fonte: Por Paulo Ghiraldelli, em A Terra é Redonda

 

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