Por
que o Sul é a região mais propensa a tornados no Brasil?
Excepcionalmente
rápidos, altamente destrutivos e mais comuns do que podem parecer. Assim são os
tornados que ameaçam sobretudo a região Sul, a mais propensa no
país a este fenômeno meteorológico severo, tal como o que arrasou a cidade de Rio Bonito do
Iguaçu,
no Paraná, em novembro do ano
passado, ou o que atingiu o município de Pedro Osório, no sul do Rio Grande do
Sul, nesta quinta-feira (06/08).
Um
levantamento da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)
contabilizou 23 tornados no Sul em 2024, dentre 28 em todo o Brasil.
Paraná e Rio Grande do Sul tiveram dez
casos cada, e Santa Catarina registrou três
ocorrências. Mais três casos aconteceram na Bahia, além de um em Alagoas e
outro no Pará.
Os
mesmos pesquisadores já estimaram que 70% dos tornados em solo brasileiro se
passem no Sul – dentre 581 tornados no país estudados entre 1975 e 2018, 411
foram na região.
A
suscetibilidade do Sul se explica pela sua posição geográfica, que faz dele um
corredor atmosférico. Lá passam tanto ventos quentes e carregados de umidade
vindos da Amazônia quanto massas polares oriundas do Sul-Sudoeste. O
encontro entre as duas correntes favorece a formação de tempestades severas com
movimentos giratórios, que são os tornados.
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Como se formam os tornados?
O tornado
em Rio Bonito do Iguaçu se originou a partir de uma supercélula, ou seja, uma
tempestade severa formada num ambiente de instabilidade, com uma importante
variação na velocidade dos ventos correndo em diferentes altitudes – é o que
especialistas chamam de "cisalhamento vertical do vento".
Uma
corrente de ar fria descendente e outra ascendente entram em rotação e
formam uma coluna de ar giratória, chamada de mesociclone. A partir daí, se
forma o tornado, que se desloca de 30 a 60 km/h, com velocidade de giro que
pode ultrapassar os 400 km/h.
De
junho de 2018 a julho de 2026, 511 tornados atingiram o Brasil, conforme
registrado pela Plataforma de Registros de Tempo Severo (PRETS), base de dados
mantida por uma iniciativa de meteorologistas.
O
número inclui tornados que se formam sobre a água, sem a presença de
tempestades, e eventualmente diversos pontos onde uma mesma tempestade provocou
danos. O Sul foi, também nesta contagem, a região mais afetada.
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América do Sul é foco no planeta
Os
Estados Unidos são os campeões mundiais de tornados registrados – são em média
1.225 ao ano –, e pesquisas já apontaram a América do Sul como o segundo
lugar do mundo mais propício à sua ocorrência. A área de maior potencial inclui
Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai e Bolívia.
O
cálculo, entretanto, é dificultado pelo fato de que, ao contrário de
fenômenos meteorológicos que podem ser medidos com instrumentos fixos, os
tornados precisam ser observados por seres humanos.
"A
defesa civil registra os casos em que ela é chamada. Mas muitos tornados
acontecem sem que ela seja acionada. Às vezes, em comunidades rurais e
distantes, as pessoas resolvem os problemas que resultam dos tornados por conta
própria", explica a professora Karin Linete Hornes, do
Departamento de Geociências da UEPG.
Quando
eles se manifestam em lugares nada ou pouco povoados, o mais provável é que não
sejam documentados. No Sul brasileiro, este é caso frequente dos tornados em
zonas rurais, podendo gerar danos para plantações.
O
tornado em Rio Bonito do Iguaçu foi excepcional também pela velocidade dos
ventos, estimados entre 300 km/h e 330 km/h pelo Sistema de Tecnologia e
Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). Outros dois tornados menores
foram registrados no Paraná com ventos entre 200 km/h e 250 km/h.
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Aumento de registros
Nas
últimas décadas, o crescimento da população em áreas suscetíveis e o
desenvolvimento de tecnologias e iniciativas para rastreá-los tem feito
aumentar a incidência conhecida dos tornados e dos danos provocados, tanto no
Brasil quanto nos Estados Unidos. Falta ainda, entretanto, um registro
oficial e unificado para o Brasil.
"As
pessoas costumam usar mais o termo 'redemoinho'. Muitas acham até que é mentira
que temos tornados no Brasil. Mas, infelizmente, cada vez mais nós vemos este
fenômeno," diz Hornes. "A falta de informação faz com que pessoas vão
de encontro ao tornado, por exemplo, porque não sabem que não dá para
passar."
Para
ela, maiores esforços de registro de tornados são importantes para moldar
políticas públicas, redesenhar as normas para construções e tornar as
cidades resilientes a desastres naturais.
Especialistas
alertam que as mudanças climáticas poderão torná-los ainda mais
frequentes. "A possibilidade de eventos extremos como
esse aumenta," afirmou Michel Mahiques, professor da Universidade de
São Paulo, à Agência Brasil, sobre o tornado recente no Paraná.
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Difíceis de detectar
A
detecção de tornados iminentes e o aviso à população a tempo, entretanto, são
um desafio para meteorologistas e órgãos de defesa civil. Em geral, só é
possível emitir alertas poucos minutos antes de os tornados atingirem áreas
habitadas.
O ideal
para se proteger dos tornados são os porões ou ambientes de segurança, incomuns
no Brasil. A recomendação para tempestades severas, portanto, inclui
procurar um local com estrutura de concreto, laje e ferro — em geral, os
banheiros dentro de uma casa.
Para
quem se encontra em construções frágeis, é indicado se enrolar em cobertores e
colchões. Devem ser evitados árvores, postes e campos abertos, bem como
estruturas de vidro ou portas em interiores, que podem facilmente colapsar.
Nos
Estados Unidos, o governo mantém uma contagem oficial de tornados registrados
desde 1950. O ano de 2024 teve o segundo maior número, com 1.791 episódios
contabilizados.
O
recorde é de 2004, quando houve 1.813 casos reportados, e o tornado mais fatal
aconteceu em 18 de março de 1925, quando 695 pessoas morreram nos estados de
Missouri, Illinois e Indiana.
Fonte:
DW Brasil

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