PL
de minerais críticos avança sem considerar riscos, alertam especialistas
Em maio
de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei (PL) que institui a
Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). A proposta, que
agora tramita no Senado Federal, é o primeiro marco regulatório específico para
o setor no Brasil. O país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras
— um dos chamados minerais críticos —, com cerca de 21 milhões de toneladas. A
quantidade equivale a 23% do total global, segundo o Serviço Geológico dos
Estados Unidos.
No
entanto, pesquisadores argumentam que o PL 2780/2024 apresenta diversos
problemas em sua concepção. Especialistas consultados pela Mongabay entendem
que o projeto amplia os incentivos à extração mineral sem fortalecer mecanismos
efetivos de proteção à natureza.
Os
debates surgem em meio à febre global por minerais críticos. A tendência ganha
força à medida que elementos como lítio, níquel e cobre, entre outros,
tornam-se indispensáveis à produção de baterias, painéis solares e turbinas
eólicas, estruturas centrais para a transição energética. Equipamentos
militares e semicondutores (atualmente em evidência pelo ‘boom’ da inteligência
artificial) também entram nessa conta.
Ricardo
Assis Gonçalves, professor de geografia e pesquisador em temas de mineração da
Universidade Estadual de Goiás (UEG), vê com preocupação o avanço do projeto
sem a criação de contrapartidas ambientais.
“O
Brasil é marcado por um modelo de mineração predatório das águas, dos
ecossistemas, das paisagens e da saúde dos trabalhadores. Trata-se de uma
atividade intensiva no consumo de energia e água, voltada fundamentalmente para
a exportação de minerais, aprofundando a condição do país como uma periferia
extrativista global, exposta ao imperialismo extrativo ou a uma apropriação
‘colonial’ da natureza”, disse. “No caso dos minerais críticos, essa situação
se aprofunda — e é nesse contexto que o PL está inserido.”
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Licenciamento ambiental acelerado traz novos riscos
Representantes
do setor mineral brasileiro defendem, há anos, a adoção de medidas que acelerem
o processo de licenciamento ambiental, alegando que a demora e a burocracia
reduzem a competitividade do Brasil em relação a outros produtores de minério,
como a China.
Em
resposta, a classe científica defende que o avanço dos licenciamentos sem
fiscalização acarreta diversos riscos ao meio ambiente. Segundo os estudiosos
consultados pela Mongabay, além de pressionar territórios indígenas,
comunidades rurais e áreas preservadas, a extração de terras raras pode gerar
resíduos tóxicos.
“As
questões socioambientais não são tratadas adequadamente no PL [dos minerais
críticos]. Existe uma conexão preocupante com a lei do licenciamento ambiental
especial, que exige a conclusão do processo [licenciatório] em até 12 meses. Na
prática, isso reduz as garantias socioambientais”, disse Bruno Milanez,
professor no Departamento de Engenharia de Produção e Mecânica da Universidade
Federal de Juiz de Fora (UFJF). Ele também é o autor de uma nota técnica do
Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) que critica o projeto de lei.
Na
visão de Milanez, na medida em que se aceleram os processos de licenciamento —
uma etapa obrigatória para garantir a extração mineral de forma equilibrada —,
as garantias de proteção à natureza podem enfrentar ainda mais etapas de
precarização.
Já
segundo Gonçalves, o texto do PL é vago e foi elaborado com o objetivo de
beneficiar as mineradoras: “[Este] pode ser considerado o ‘PL das mineradoras’,
pois mantém os privilégios históricos dessas corporações no Brasil. Não há
contrapartidas reais para os territórios, não há participação popular, não há
mecanismos de controle sobre o destino dos minerais.”
“Não
houve um processo transparente e democrático diante de uma conjuntura que
fomenta a expansão do setor extrativo e aprofunda as ameaças aos territórios, à
sociobiodiversidade e aos sistemas biogeográficos brasileiros, como a Amazônia
e o Cerrado. O projeto fala em transformação mineral nacional — mas sem
discutir os impactos e as ameaças ambientais que essa etapa da cadeia produtiva
pode provocar”, disse o professor da UEG à Mongabay.
Outros
alertas são feitos por Diógenes Moura Breda, economista e professor do
Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de
Uberlândia (UFU). “O PL prevê sua aceleração num país que foi palco de dois dos
maiores crimes ambientais da mineração no mundo: os [rompimentos de barragens]
de Mariana e Brumadinho. A resposta a eles deveria ser o reforço dos controles,
não a flexibilização”, disse.
Daniel
Pimenta, especialista em conservação de solos e águas e professor no
Departamento de Engenharia Civil da Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais (PUC-MG), por sua vez, cita um histórico favorável à mineração em todo o
estado sudestino. “A história das ‘cidades mineradoras’ de Minas Gerais revela
um padrão preocupante: a empresa chega [ao município], injeta muito dinheiro,
cria uma dependência econômica local e, quando vai embora, deixa um passivo
ambiental e uma população sem alternativas”, disse.
O
conservacionista completou: “[O município de] Congonhas [onde laudos técnicos
de 2026 confirmaram danos ambientais causados pela mineração] é um exemplo
doloroso disso: o PIB cresce, a arrecadação aumenta, mas os ganhos para a
qualidade de vida da população permanecem muito baixos.”
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Possível uso na indústria bélica
A
possível destinação de recursos do Fundo Clima — um mecanismo de financiamento
voltado para projetos de enfrentamento às mudanças climáticas, operado pelo
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) — para o
estabelecimento da PNMCE também preocupa os especialistas.
Segundo
eles, na ausência de regras claras para o uso da verba, os recursos minerais
poderiam financiar cadeias ligadas à indústria bélica ou à infraestrutura
digital, dois setores que não estão necessariamente vinculados a iniciativas de
descarbonização.
“Estima-se
que cerca de 60% da mineração de terras raras no mundo seja destinada à
indústria armamentista (drones, satélites de precisão e armas hipersônicas).
Fala-se em ‘Fundo Clima e transição energética’, mas, no fim, o material
abastece a indústria bélica”, disse Pimenta.
De
acordo com Milanez, a atual estrutura do PL estabelece que os recursos do Fundo
Clima podem financiar o beneficiamento e a transformação mineral. Ele cita o
caso do lítio, extraído em terras do norte mineiro. “Como o minério segue para
a China sem um sistema de rastreabilidade, não há garantia de que será usado em
carros elétricos — pode virar bateria para drones, [itens de] data centers ou
até material bélico. O recurso não reduz as emissões do Brasil e ainda financia
uma atividade cujo destino final é desconhecido.”
Milanez,
da UFJF, também destaca uma chamada pública de 2025 do BNDES e da Financiadora
de Estudos e Projetos (Finep), que destinaria até R$ 5 bilhões em fomento a
projetos de transformação de minerais estratégicos. Ao todo, foram selecionados
56 projetos, cuja soma de investimentos previstos alcança R$ 45,8 bilhões.
“Ao
mesmo tempo, o BNDES tem a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para
a Transformação Ecológica (BIP), instrumento de atração de fundos de
investimento”, disse. O especialista cita a captação de recursos para projetos
como o da mineradora Serra Verde, localizada no estado de Goiás. A empresa é
considerada a única fora da Ásia a produzir, em escala comercial, uma gama de
elementos de terras raras. Em 2026, a firma foi adquirida pela empresa USA Rare
Earth, dos Estados Unidos.
“Isso
mostra que existe um discurso [de garantias ambientais], mas os recursos
continuam indo para onde sempre foram”, alertou Milanez.
O PL
também prevê a criação do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais
Críticos e Estratégicos (Cimce). Vinculado à Presidência da República, o órgão
terá a prerrogativa de formular diretrizes, coordenar políticas públicas e
supervisionar o setor e seus impactos. O conselho deverá selecionar (e,
eventualmente, intervir) reorganizações societárias que envolvam reservas
minerais de interesse estratégico, além de acompanhar contratos internacionais
que possam afetar a segurança econômica ou geopolítica brasileira.
Segundo
os pesquisadores, a compra da Serra Verde pela empresa norte-americana é um dos
exemplos de negociações que poderão passar pela avaliação do Cimce.
Ao
falar do tema, Breda, da UFU, questiona qual caminho será seguido caso o Cimce
eventualmente vete a aquisição de uma mineradora brasileira por uma empresa
estrangeira — no cenário em que sejam apontadas operações contrárias aos
interesses nacionais. Ele também argumenta que as lacunas jurídicas, somadas à
fragilidade de garantias ambientais, reforçam o caráter predominantemente
econômico do PL em debate no Senado.
Na
interpretação dos especialistas ouvidos pela Mongabay, o Brasil corre o risco
de repetir, agora sob a roupagem da transição energética, um modelo
extrativista já conhecido.
Fonte:
Mongabay

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