terça-feira, 11 de agosto de 2026

Negociações com EUA expõem disputa de poder no Irã

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou no início da semana que mantém negociações com o Irã sobre o Estreito de Ormuz, acrescentando que é a "última chance" da República Islâmica "antes da decapitação".

Trump disse a repórteres na Casa Branca que concordou em continuar buscando conversas com o Irã a pedido da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, do Catar e de outros países.

Suas declarações parecem contradizer as posições públicas de Teerã, que até agora negou que negocie com Washington.

Por outro lado, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, confirmou conversas com Omã sobre a hidrovia estratégica.

Os dois lados podem, portanto, estar descrevendo o mesmo canal diplomático com termos diferentes, cada um usando uma linguagem voltada para seu próprio público interno: Washington descreve a mediação de Omã como negociações com o Irã; Teerã a apresenta como uma discussão técnica com Omã sobre a navegação pelo estreito.

<><> Ormuz continua sendo o principal obstáculo

O Estreito de Ormuz é o principal ponto de impasse. O tráfego comercial por essa importante rota marítima continua severamente restrito, enquanto embarcações seguem sofrendo ataques nas proximidades do estreito.

Apenas seis navios comerciais passaram pela rota na segunda-feira (03/08), contra sete no dia anterior, segundo dados da empresa de análise marítima Kpler citados pela agência de notícias Reuters.

A incerteza em torno dessa via estratégica também afetou os mercados globais. As expectativas de progresso diplomático recentemente pressionaram os preços do petróleo para baixo e ajudaram as bolsas de valores a subir. Mas esses movimentos não são evidências de que a crise tenha sido resolvida, e sim reflexo de que os mercados permanecem sensíveis a qualquer notícia sobre o estreito.

O Irã quer manter algum grau de controle sobre as embarcações que entram no Golfo Pérsico. Os EUA querem a reabertura total do estreito para a navegação internacional, sem restrições.

"Essas posições não podem ser facilmente conciliadas", observa Babak Dorbeiki, analista político baseado em Londres e ex-integrante do Centro de Pesquisas Estratégicas do Irã.

A divergência entre os dois, pontua, já não se resume à questão de saber se os dois lados estão conversando. "A questão é como chamar essas conversas e o que cada lado espera obter com elas".

Trump descreve o canal indireto como negociações porque precisa mostrar que a pressão militar e econômica sobre Teerã surtiu efeito, diz Dorbeiki.

Segundo ele, o Irã evita usar a mesma terminologia porque reconhecer negociações com Washington poderia ser visto pelos opositores internos como uma rendição.

<><> Divisões dentro do Irã

As mensagens contraditórias também refletem divisões entre facções políticas rivais dentro do Irã. Dorbeiki identifica dois grandes grupos.

"O primeiro, que poderia ser descrito como o grupo da 'reconstrução e do desenvolvimento por meio de um acordo', acredita que, sem o alívio das sanções e a reabertura de Ormuz, a economia iraniana não pode se recuperar nem sequer se sustentar", diz ele à DW.

Segundo Dorbeiki, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e algumas figuras da Guarda Revolucionária com interesses econômicos podem estar mais próximos dessa posição.

O grupo oposto, que inclui a Frente Paydari, um pequeno partido ultraconservador, "vê um acordo com os Estados Unidos como uma derrota ideológica" e defende a continuidade da resistência.

<><> Vácuo de liderança aumenta a incerteza

A falta de uma liderança clara no Irã aumenta a incerteza. Desde que o então líder supremo do país Ali Khameneifoi morto em um ataque aéreo em 28 de fevereiro, nas primeiras horas da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, o poder se tornou mais fragmentado.

Seu filho Mojtaba Khamenei foi nomeado novo líder supremo, mas seu papel continua indefinido e ele não aparece em público desde o início da guerra, em meio a especulações de que tenha ficado gravemente ferido no ataque.

Dorbeiki afirma que isso permitiu que grupos rivais alegassem falar em nome da liderança.

Quanto ao presidente Masoud Pezeshkian, o analista acredita que ele "continuará sob pressão, mas dificilmente será removido por enquanto, porque os custos políticos internos e internacionais seriam elevados". Mantê-lo no cargo, diz, deixa aberta a possibilidade de responsabilizá-lo caso as negociações fracassem.

"As conversas indiretas por meio de Omã provavelmente continuarão", diz ele à DW. 

<><> Três grupos rivais dentro do Irã

Hassan Asadi Zeidabadi, analista político iraniano baseado em Teerã, acredita que os principais tomadores de decisão no país já aceitaram a necessidade de negociações. No entanto, ele afirma que existem três grupos principais dentro do establishment iraniano.

O primeiro é formado por autoridades do governo que lidam com os efeitos econômicos da guerra e do bloqueio, o que as torna mais inclinadas a negociar.

"O segundo grupo é composto principalmente por militares que querem melhorar sua posição no conflito antes de negociar e permanecem céticos em relação às intenções dos Estados Unidos", explica Zeidabadi.

Já o terceiro grupo é formado por setores ideológicos linha-dura que acreditam que chegar a um acordo com Washington após a guerra e a morte do líder supremo do Irã significaria o fim da identidade tradicional da República Islâmica, baseada na oposição ao Ocidente.

"Eles temem o dia seguinte a um acordo", afirma Asadi Zeidabadi. "Para eles, um acordo com os Estados Unidos significaria o fim da era ideológica que representam e, em última instância, sua própria remoção."

Esses setores linha-dura, acrescenta o analista iraniano, temem que um acordo os faça perder influência no Parlamento, no aparato de segurança e na máquina de propaganda do Estado.

O futuro das negociações, portanto, pode depender menos de Omã ou dos EUA do que de quais facções conseguirão prevalecer em Teerã.

Se os defensores de um acordo convencerem a liderança de que o isolamento contínuo ameaça a reconstrução, a economia e, em última instância, a sobrevivência do próprio sistema, a diplomacia poderá avançar.

Por outro lado, se os linha-dura conseguirem apresentar qualquer concessão como rendição, até mesmo as conversas indiretas poderão fracassar.

¨      Reza Pahlavi perde espaço como alternativa ao regime no Irã

Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, derrubado em 1979, vem fazendo campanha nos Estados Unidos e na Europa para liderar uma transição de regime após a morte das principais lideranças da República Islâmica por ataques dos EUA e de Israel.

"O povo iraniano me pediu para liderar a transição após a queda do regime", declarou em suas redes sociais logo após o início da guerra, em fevereiro. "Eu aceitei essa responsabilidade."

Pahlavi, que mora em Washington e não pisa em seu país de origem há quase meio século, teve algum sucesso na sua campanha internacional à sucessão iraniana. Ele contou com o apoio, inclusive financeiro, de pessoas próximas ao presidente Donald Trump, que, no início da guerra, exortou o povo iraniano a se levantar e tomar o poder.

Mas, apesar de um ataque aéreo que matou o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, o governo teocrático sobrevive. Ao mesmo tempo, não estão claras quais são as ambições dos EUA para o país persa, e a guerra perdura.

Nesse contexto, a campanha de Pahlavi vem "perdendo força". Segundo reportagem da Reuters, a figura mais proeminente da oposição iraniana no exterior perdeu credibilidade e influência entre formuladores de políticas dentro e fora do país.

Embora tenha declarado repetidamente estar pronto para liderar o Irã durante um período de transição, altos funcionários do governo americano se distanciaram publicamente da perspectiva de uma ação apoiada por Washington para levá-lo ao poder no caso de uma queda do regime iraniano.

A reportagem da Reuters observa que críticos acusam Pahlavi de depender excessivamente de intervenção militar estrangeira e de não conseguir construir uma coalizão política duradoura.

<><> Mudança no discurso de Pahlavi

Em momentos de maior tensão, Pahlavi defendeu o aumento da pressão internacional sobre a República Islâmica.

Em janeiro de 2026, ele disse aos iranianos que a comunidade internacional havia entrado na fase de ação e ecoou a mensagem do presidente Trump de que a ajuda estava "a caminho".

"Grande nação do Irã, os olhos do mundo estão voltados para vocês. Saiam às ruas e, como uma frente unida, façam ouvir suas reivindicações", escreveu Pahlavi no X.

Depois que o conflito militar não levou ao colapso do governo iraniano e as críticas às consequências da guerra aumentaram, Pahlavi afirmou que "a vitória final ainda será forjada por nossas mãos" e que caberia ao povo iraniano "concluir o trabalho".

A principal responsabilidade, disse ele, continuava sendo dos próprios iranianos. Alguns críticos argumentaram que essa ênfase no papel do povo iraniano representava um recuo em relação à sua mensagem anterior sobre ajuda internacional.

<><> Como o Ocidente vê Pahlavi

Mojtaba Najafi, pesquisador dedicado aos movimentos políticos e sociais no Irã, argumenta que os governos ocidentais nunca consideraram Pahlavi uma alternativa realmente viável.

"Uma alternativa séria precisaria ter capacidade para conquistar e administrar o poder, influenciar as estruturas de poder existentes e oferecer uma perspectiva realista de mudança política estrutural", afirmou Najafi. "Os governos ocidentais nunca consideraram que Pahlavi atendesse a esses critérios."

Najafi distingue a postura da Europa da adotada pelos EUA.

"Os governos europeus abordam o Irã principalmente a partir da perspectiva da estabilidade", disse ele, citando preocupações relacionadas à migração, à geopolítica, à segurança e à contenção do radicalismo e do terrorismo.

O pesquisador argumenta que, nos EUA, setores pragmáticos defendem uma acomodação com elementos da República Islâmica.

"A principal preocupação deles é encerrar a postura antiamericana do regime e proteger os interesses dos EUA", disse Najafi. "Sob essa perspectiva, Washington não está necessariamente buscando uma transição liderada por uma figura como Pahlavi."

<><> Posição de Israel 

A abordagem de Israel difere da adotada pelos EUA e pela Europa porque Israel e a República Islâmica são adversários há décadas.

Najafi argumenta que alguns integrantes do governo israelense podem enxergar um movimento de oposição como o de Pahlavi como uma fonte útil de pressão sobre a República Islâmica.

Arash Azizi, pesquisador da Universidade de Boston, é mais crítico. "Pahlavi não conseguiu demonstrar as habilidades políticas necessárias para as ambições que estabeleceu para si", afirmou. "Sua estratégia dependeu fortemente de potências estrangeiras que demonstraram pouca disposição para apoiá-lo de forma decisiva."

"Pahlavi cultivou relações com figuras ocidentais e, mais recentemente, israelenses, mas esses esforços não se traduziram em apoio político decisivo", acrescentou Azizi.

<><> Washington permanece dividido

Amir Taheri, ativista político radicado em Paris e defensor da monarquia constitucional, oferece uma avaliação mais favorável ao príncipe exilado. Ele argumenta que Pahlavi lidera um movimento que conseguiu conectar diferentes grupos e tem sido a figura da oposição iraniana mais visível no exterior ao longo do último ano.

Ao mesmo tempo, Taheri reconhece que a posição de Washington está dividida. Enquanto partes do Partido Republicano apoiam Pahlavi, outra corrente defende aceitar a realidade política existente no Irã e buscar uma nova ordem a partir do sistema atual.

Taheri também considera um erro estratégico as reuniões de Pahlavi com políticos de direita nos Estados Unidos e na Europa. Segundo ele, esses contatos não foram bem recebidos por governos e forças políticas tradicionais.

<><> Popularidade no Irã incerta

A popularidade de Pahlavi dentro do Irã é difícil de medir com confiabilidade. A sociedade iraniana continua altamente volátil, com muitos cidadãos enfrentando repressão, dificuldades econômicas e inflação.

Para Najafi, a guerra evidenciou os riscos de apostar em mudanças políticas por meio de intervenções externas, já que a população iraniana acabou arcando com os custos do conflito. Se não houver mudança política, Pahlavi poderá sofrer um forte desgaste.

<><> Falta de alternativas claras

Os especialistas não apresentam uma resposta unificada sobre quem poderia substituir Pahlavi caso sua posição política continue enfraquecendo.

Azizi e Najafi enfatizam as limitações de seu movimento e a postura cautelosa dos governos ocidentais. Nenhum dos dois identifica uma alternativa específica, preferindo destacar a importância da sociedade civil e das forças internas do Irã.

Mehrdad Bozorg, analista político radicado na Alemanha e apoiador de Reza Pahlavi, argumenta que a credibilidade de Pahlavi entre os iranianos aumentou, especialmente após uma repressão violenta a manifestantes contrários ao governo.

"Após essa repressão, os iranianos compreenderam mais claramente do que nunca que a República Islâmica precisa deixar o poder", disse Bozorg. "Ao mesmo tempo, Reza Pahlavi tem sido a única figura da oposição que trabalhou de forma sincera e consistente para alcançar uma transição para além da República Islâmica."

Bozorg afirmou que a legitimidade de Pahlavi decorre da confiança do povo iraniano, e não de outros países, e argumentou que a hesitação do Ocidente em reconhecer isso dificulta as aspirações dos iranianos por liberdade.

"Israel, por várias razões, compartilha a visão do povo iraniano e, pelo menos no que diz respeito à necessidade de a República Islâmica deixar o poder, está alinhado ao movimento da revolução nacional", afirmou Bozorg.

"Por isso, vê a realidade no terreno e entende que o povo iraniano escolheu Reza Pahlavi como líder da transição. Por essa razão, é realista que Israel veja Reza Pahlavi como a única alternativa."

Taheri argumenta que o Irã deveria superar uma política centrada em personalidades e avançar para uma "alternativa sistêmica". Em sua avaliação, a transferência de poder para uma única figura, o aiatolá Ruhollah Khomeini, durante a Revolução de 1979, não deve ser repetida.

Reza Pahlavi continua sendo a figura da oposição iraniana mais conhecida, segundo muitos analistas. Ainda assim, não há consenso sobre sua influência política nem sobre sua capacidade de unir os opositores da República Islâmica.

Se Pahlavi recuperará influência política ou perderá ainda mais espaço dependerá, em grande medida, da evolução do cenário político iraniano e da posição adotada pelas potências internacionais.

 

Fonte: DW Brasil

 

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