Escassez
de petróleo – sem sinais de alívio
A crise
energética global desencadeada por duas guerras deverá agravar-se, visto que a
Ucrânia golpeia a indústria de refino russa e prosseguem os ataques iranianos à
produção e refino de petróleo no Oriente Médio. Além disso, a natureza da
destruição e o número crescente de frentes e partes beligerantes envolvidas
podem anunciar uma nova era de vulnerabilidade prolongada para os países que
dependem de importações para seu abastecimento energético.
Ao
longo da maior parte da história moderna, as guerras tiveram como alvo as
infraestruturas de energia, incluindo poços de petróleo, refinarias, oleodutos,
terminais de exportação e centrais elétricas. Contudo, as mais recentes
tecnologias de armamento – drones autônomos e embarcações marítimas
automatizadas – estão superando os sistemas de defesa existentes.
Os
danos resultantes estão aumentando o risco de que as rotas marítimas cruciais
para o transporte de petróleo em todo o mundo possam ser reduzidas ou
interrompidas por longos períodos, e não apenas no Estreito de Ormuz e no
Estreito de Bab el-Mandeb, na entrada sul do Mar Vermelho.
O mundo
foi capaz de safar-se nos primeiros meses da guerra com o Irã, mas as
tentativas iniciais de manter os mercados petrolíferos equilibrados estão se
esgotando. Em primeiro lugar, houve carregamentos de petróleo do Oriente Médio
que já tinham atravessado o Estreito de Ormuz antes de seu fechamento, tendo
chegado a portos de todo o mundo em março e abril de 2026. Em seguida, um grupo
de governos liberou reservas estratégicas de petróleo para o mercado, enquanto
alguns países adotaram políticas para poupar petróleo, como a adoção do
trabalho remoto.
Ao
mesmo tempo, a capacidade de refino – as instalações que convertem o petróleo
bruto em produtos como diesel e gasolina – ficou extremamente comprometida. O
Goldman Sachs estima que, globalmente, o déficit de refino – incluindo as
refinarias russas bombardeadas e os produtos que não conseguem sair do Estreito
de Ormuz ou do Mar Negro – totalize 6,5 milhões de barris por dia. Agora, à
medida que mais infraestruturas energéticas são destruídas, será mais difícil
evitar uma crise ainda mais grave. E o inverno já não está tão distante.
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A escalada da guerra
Os
ataques perpetrados pelo Irã e por seus aliados, recorrendo muitas vezes a
drones aéreos, causaram danos generalizados e duradouros às infraestruturas
energéticas do Oriente Médio. Por exemplo, segundo o J.P. Morgan, mais de 1,2
milhão de barris por dia de capacidade de refino de petróleo em toda a região
estão fora de serviço devido a danos físicos.
O
conflito continua agravando-se. Por exemplo, em 27 de julho, drones
supostamente lançados do sul do Iraque por militantes alinhados com os
iranianos atingiram torres de processamento de petróleo bruto no importante
centro de produção petrolífera saudita de Abqaiq. Ataques semelhantes
realizados pelo Irã em 2019 reduziram drasticamente a capacidade de produção de
petróleo da Arábia Saudita.
As
exportações de petróleo bruto e de produtos petrolíferos refinados da Arábia
Saudita também são prejudicadas por ataques à navegação nos estreitos de Ormuz
e de Bab el-Mandeb. Uma resposta militar conjunta dos EUA e da Arábia Saudita
contra milícias iraquianas aumentou os receios de que a guerra pudesse
espalhar-se.
E, em
30 de julho, ataques com drones a um porto egípcio no mar Mediterrâneo
indicaram que outra área poderia estar vulnerável à ampliação da guerra. Desde
o início da guerra, a Arábia Saudita depende do Mediterrâneo para suas
exportações de petróleo, enviando 5 milhões de barris por dia através do Canal
de Suez e do oleoduto SUMED do Egito.
Em sua
guerra contra a Rússia, a expertise da Ucrânia com drones de longo alcance
resultou no bombardeio bem-sucedido de mais de 11 grandes complexos de refino
de petróleo russos, neutralizando uma parte significativa da capacidade de
produção de combustível da Rússia. As estimativas variam algo entre 30% e 50%,
podendo chegar a até 60% da capacidade de refino do país.
Os
ataques ucranianos com drones ao sistema de refinarias russo têm como principal
objetivo prejudicar o esforço de guerra de Moscou, limitando o abastecimento de
combustível militar e o financiamento da guerra proveniente das exportações de
produtos refinados. No entanto, imagens divulgadas online mostram motoristas
russos sentados em seus carros durante horas, à espera da obtenção de alguns
galões de combustível.
Os
ataques também levaram a Rússia a proibir as exportações de diesel – que, antes
de 2022, forneciam a metade desse combustível para a Europa.
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Efeitos em cadeia, incluindo a fome
Além de
bloquear os embarques de petróleo bruto, o fechamento do Estreito de Ormuz
interrompeu o fluxo de cerca de 20% do abastecimento mundial de gás liquefeito
de petróleo. Trata-se de um combustível para cozinhar difícil de substituir e
amplamente utilizado na Índia e na China, entre outros países.
Já em
abril de 2026, as pessoas da Índia enfrentavam dificuldades em encontrar e
pagar o gás para cozinhar, forçando-as a pular refeições. A Índia pretende
aumentar o volume de gás liquefeito de petróleo que adquire dos EUA para
atenuar a escassez.
Outras
pressões também estão afetando o abastecimento mundial de petróleo a partir de
outras direções.
Os
drones marítimos lançados pela Ucrânia no Mar Negro bloquearam, ao menos
temporariamente, a maior parte das exportações de petróleo bruto do
Cazaquistão, que necessita dessa via navegável para transportar seu petróleo
até o Mar Mediterrâneo e para além dele.
Os
separatistas houthis no Iêmen utilizaram drones aéreos para bloquear a
extremidade sul do Mar Vermelho no início dos anos 2020, impedindo o acesso a
uma rota alternativa fundamental para o transporte de petróleo em torno do
Estreito de Ormuz. Segundo relatos, eles pretendem fazer isso novemente.
Essas
tecnologias e táticas estão espalhando-se para outras regiões do mundo ricas em
petróleo. Por exemplo, separatistas na Colômbia utilizaram drones para atacar
equipamentos de produção de petróleo no final de julho.
Desde o
início da guerra no Irã, as importações chinesas de petróleo bruto e de
produtos derivados do petróleo diminuíram cerca de 3,6 milhões de barris por
dia, o que corresponde aproximadamente a um terço das importações anteriores à
guerra. Na verdade, as refinarias chinesas começaram a revender petróleo bruto
nos mercados globais para obter receitas que compensassem a redução da
atividade nas refinarias do país.
Uma
explicação é que a China está recorrendo às suas reservas estratégicas de
petróleo, mas também é possível que uma desaceleração econômica, combinada com
a expansão em grande escala do país na utilização de combustíveis alternativos
e de energias renováveis, esteja reduzindo a necessidade de importação de
combustíveis derivados do petróleo. As empresas petroquímicas chinesas também
estão comprando etano dos EUA para substituir os fornecimentos interrompidos
provenientes do Oriente Médio.
Do lado
da oferta, no Brasil, a produção da petrolífera estatal Petrobras aumentou 14%
em relação aos níveis de 2025 e as refinarias estão operando em plena
capacidade. Consequentemente, suas necessidades de importação diminuíram
substancialmente, proporcionando algum alívio aos mercados das Américas.
A
produção petrolífera venezuelana aumentou de 937.000 barris por dia em 2025
para 1,2 milhão de barris por dia em meados de 2026. A maior parte desse
aumento deve-se às empresas petrolíferas que já operavam na Venezuela antes dos
EUA terem destituído o ex-presidente Nicolás Maduro. Foram assinados alguns
novos acordos para a compra de petróleo venezuelano, mas a onda de investimento
que a administração de Donald Trump esperava ainda não se concretizou. A
legislação venezuelana e a instabilidade política estão tornando as empresas
cautelosas, e algumas continuam exigindo o reembolso dos montantes
correspondentes a seus ativos, que foram confiscados pelo então presidente Hugo
Chávez em 2009.
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Riscos de inflação e vulnerabilidade a longo prazo
Por
enquanto, o aumento da produção de petróleo e gás e da produção das refinarias
nos Estados Unidos tem protegido os americanos de uma escassez significativa de
petróleo.
Contudo,
há muitas formas pelas quais essa situação pode mudar. O agravamento das
perturbações no abastecimento global poderá, eventualmente, traduzir-se em
preços de mercado mais elevados para uma vasta gama de bens e matérias-primas,
o que faria subir as taxas de inflação nos EUA.
Em
última análise, os novos métodos de guerra baseados na utilização de drones
contra instalações energéticas e o transporte marítimo constituem uma grande
preocupação de segurança nacional para os EUA e para todas as principais
economias que dependem do transporte de energia e da importação de outros bens
para sustentar suas economias.
Os
países terão agora que trabalhar no sentido de garantir a segurança energética
num mundo marcado por rotas marítimas globais inseguras, fenômenos
meteorológicos mais extremos e conflitos geopolíticos mais extensos.
Tendo
pesquisado e acompanhado a geopolítica dos mercados energéticos globais durante
décadas, acredito que esses esforços se concentrarão em determinar quais as
fontes de energia de que cada país dispõe dentro de suas próprias fronteiras.
E, levando em consideração os limites geográficos e geológicos dos combustíveis
fósseis, posso antecipar que mais países procurarão acelerar o desenvolvimento
das energias renováveis, que já é bem rápido, como a eólica e a solar, para
minimizar os riscos de guerras que possam interromper seu abastecimento
energético.
Fonte: Por Amy Myers Jaffe, para The Conversation

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