Assistir
muita televisão faz mal para o cérebro? Possivelmente
Você
suspeita que passar horas todos os dias em frente à televisão não está fazendo
nenhum bem ao seu cérebro? Um novo estudo sugere que você pode estar certo.
Pesquisadores
descobriram que pessoas que relataram assistir televisão com mais frequência na
meia-idade apresentavam volumes cerebrais menores décadas depois em áreas
envolvidas na linguagem e no pensamento. Por outro lado, passar muito tempo
sentado no trabalho foi associado a medidas cerebrais mais saudáveis.
O que
as pessoas devem pensar dessas descobertas? Isso significa que chegou a hora de
desligar a televisão de vez? Para ajudar a responder a essas perguntas,
conversei com a Dra. Leana Wen, especialista em bem-estar da CNN, médica de
emergência e professora associada clínica da Universidade George Washington.
Ela já atuou como comissária de saúde de Baltimore.
LEIA A
ENTREVISTA:
• Assistir televisão está realmente
associado a mudanças no cérebro anos depois?
Dra.
Leana Wen: Foi isso que este estudo descobriu, embora seja importante entender
exatamente o que os pesquisadores mediram e quais conclusões podemos tirar
disso.
Investigadores
analisaram dados de mais de 1.700 participantes em um estudo de longa duração
financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). Os participantes, de
meia-idade, relataram com que frequência assistiam à televisão e quanto tempo
passavam sentados no trabalho durante o ano anterior. Em relação ao tempo gasto
assistindo à televisão, eles responderam a um questionário padronizado,
classificando seus hábitos em cinco categorias: nunca, raramente, às vezes,
frequentemente ou muito frequentemente. Os participantes tinham entre 45 e 64
anos no início do estudo, com uma média de 53 anos. Mais de duas décadas
depois, eles foram submetidos a exames de ressonância magnética cerebral.
Pessoas
que relataram assistir televisão "com muita frequência" apresentavam
volumes menores em diversas regiões cerebrais, incluindo áreas envolvidas no
controle cognitivo e na linguagem, bem como áreas especialmente vulneráveis nos
estágios iniciais da doença de Alzheimer. Esses telespectadores também
apresentavam mais hiperintensidades da substância branca, alterações observadas
em ressonância magnética que refletem lesões nos pequenos vasos sanguíneos do
cérebro e têm sido associadas ao declínio cognitivo e à demência.
• Uma das descobertas mais surpreendentes
foi que a atividade sedentária em outro contexto — no trabalho — não estava
ligada às mesmas alterações cerebrais. Por que assistir televisão seria
diferente de ficar sentado no trabalho?
Wen:
Essa descoberta interessante sugere que nem todas as atividades sedentárias são
iguais. Assistir à televisão é uma atividade cognitivamente passiva, porque os
telespectadores estão principalmente recebendo informações em vez de
processá-las ativamente. Ficar sentado no trabalho geralmente envolve demandas
mentais muito diferentes. Você pode estar respondendo a e-mails, trabalhando em
projetos e interagindo com colegas. Essas atividades ativam múltiplas redes
cerebrais, mesmo que você esteja sentado.
O
estudo não prova que atividades mentalmente estimulantes protegem o cérebro,
mas as descobertas estão de acordo com um crescente corpo de pesquisas que
sugerem que o envolvimento cognitivo ajuda a reduzir o risco de demência.
Estudos anteriores também encontraram diferenças entre comportamentos
sedentários passivos, como assistir televisão, e comportamentos mais
mentalmente ativos, incluindo resolver quebra-cabeças e manter-se mentalmente
engajado durante o trabalho.
• Este estudo comprova que assistir
televisão causa alterações cerebrais negativas?
Wen:
Não. Este foi um estudo observacional, o que significa que pode identificar
associações, mas não pode estabelecer causa e efeito.
É
possível que as pessoas que assistiam mais televisão diferissem daquelas que
assistiam menos em aspectos que os pesquisadores não conseguiram explicar
completamente, apesar de já terem ajustado diversos fatores, incluindo idade,
escolaridade, atividade física, tabagismo, consumo de álcool, diabetes,
hipertensão e índice de massa corporal.
É
possível também que alterações sutis na saúde cerebral tenham influenciado os
hábitos das pessoas anos antes da realização dos exames de ressonância
magnética, de modo que pessoas com alterações na substância cerebral fossem
mais propensas a passar seus dias assistindo televisão do que os participantes
que não apresentavam tais alterações.
Ainda
assim, este foi um estudo bem conduzido que acompanhou os participantes por
mais de duas décadas e utilizou exames detalhados de ressonância magnética
cerebral em vez de testes subjetivos. Embora as conclusões não devam ser
interpretadas como prova de que a televisão prejudica o cérebro, elas
corroboram as crescentes evidências de que o comportamento passivo e sedentário
prolongado não é ideal para a saúde cerebral a longo prazo.
• Os pesquisadores ajustaram os dados
levando em consideração a atividade física. Isso significa que ir à academia
não é suficiente para compensar as horas gastas assistindo à televisão?
Wen: É
um ponto interessante, porque sabemos que manter-se fisicamente ativo ajuda a
reduzir o risco de demência. Mas o exercício regular não elimina todos os
outros fatores de risco.
Neste
estudo, a associação entre assistir muita televisão e alterações cerebrais
persistiu mesmo após os pesquisadores considerarem a atividade física. Em
outras palavras, alguém que se exercita regularmente, mas também passa muitas
horas por dia assistindo televisão, ainda apresenta riscos adicionais de piora
da saúde cognitiva devido ao seu comportamento sedentário passivo. Manter-se
fisicamente ativo e limitar esse tipo de comportamento sedentário passivo
prolongado parecem ser medidas importantes.
• As pessoas deveriam parar de assistir
TV? E quanto a outras formas de uso passivo de telas, como navegar em um
celular ou tablet?
Wen:
Não acho que este estudo signifique que as pessoas devam parar completamente de
usar telas. Assistir a um evento esportivo, acompanhar uma série favorita ou ir
ao cinema pode ser divertido e relaxante, e esses passatempos nos ajudam a nos
conectar com a família e os amigos, o que é bom para a nossa saúde em muitos
níveis.
Na
minha opinião, a principal lição é refletir sobre quanto tempo é gasto em
atividades passivas em frente a telas e o que essas atividades podem estar
substituindo. Se várias horas de televisão ou navegando em redes sociais estão
substituindo exercícios físicos, interações sociais presenciais, leitura ou
outras atividades mentalmente estimulantes , isso não é ideal para a saúde do
cérebro.
É
importante lembrar que nem todo tempo gasto em frente à tela é igual. Por
exemplo, participar de uma aula de idiomas online, na qual você aprende uma
nova habilidade e se comunica ativamente com outras pessoas, estimula o cérebro
de maneira diferente de assistir passivamente a programas de TV ou navegar sem
rumo pela internet. Além disso, é sempre uma boa ideia evitar ficar sentado por
longos períodos sem interrupção, levantando-se periodicamente para alongar e
caminhar um pouco.
• Além de reduzir o tempo passivo gasto em
frente às telas, quais são as maneiras comprovadas de proteger a saúde do
cérebro à medida que envelhecemos?
Wen: A
atividade física regular é uma das intervenções mais eficazes comprovadas por
pesquisas. O mesmo se aplica ao controle da pressão arterial, ao tratamento de
doenças crônicas como o diabetes, a evitar o tabagismo, à limitação do consumo
excessivo de álcool, a uma boa noite de sono e à manutenção de um peso
saudável. Uma alimentação ao estilo mediterrâneo, rica em frutas, verduras,
grãos integrais, leguminosas, nozes, peixes e gorduras saudáveis, também tem
sido associada a uma melhor saúde cerebral.
Manter
o contato social também é essencial, assim como tratar a perda auditiva, a
depressão e outros fatores que podem impedir as pessoas de passar tempo com
seus entes queridos. Nenhuma atividade isolada pode garantir proteção contra a
demência, mas a combinação de escolhas cotidianas, incluindo como passamos
nosso tempo livre , pode fazer a diferença ao longo de décadas.
Fonte:
CNN Brasil

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