quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Planalto descarta ação direta dos EUA contra Lula, mas prevê pressão até as eleições

O Palácio do Planalto não considera provável uma ação direta ou uma “medida de força” dos Estados Unidos contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora integrantes do governo brasileiro avaliem que a pressão de Washington deverá continuar até as eleições de outubro. Entre as preocupações está uma possível tentativa de influenciar o ambiente eleitoral por meio das redes sociais. As avaliações foram relatadas pela jornalista Daniela Lima, do UOL, nesta terça-feira (11).

Auxiliares de Lula atribuem ao atual cenário de deterioração política uma postagem feita por um parlamentar republicano dos Estados Unidos com uma montagem na qual o presidente brasileiro aparece preso por americanos.

“O Lula não é o Maduro”, afirmou um auxiliar direto do presidente que atua na área internacional.

A declaração sintetiza a leitura feita no Planalto de que, apesar do agravamento das tensões com o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não haveria perspectiva de uma iniciativa drástica contra Lula.

<><> Planalto acompanha movimentos de Trump

O governo brasileiro, contudo, continua acompanhando atentamente as movimentações da Casa Branca. A avaliação é que a ausência de risco de uma ação direta não significa uma redução da pressão política e econômica exercida sobre o Brasil.

Nesse cenário, integrantes do Planalto consideram praticamente inexistentes as possibilidades de uma renegociação do chamado “tarifaço” antes das eleições brasileiras de outubro. A percepção se estenderia inclusive às iniciativas conduzidas no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Ao mesmo tempo, Lula recebeu nas últimas semanas manifestações de aproximação de dois importantes atores internacionais que mantêm relações de antagonismo e competição com Washington.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, conversou por telefone com Lula e enviou ao Brasil um de seus assessores de alto escalão da área militar para tratar de cooperação envolvendo a indústria bélica naval brasileira.

O presidente da China, Xi Jinping, também manteve contato telefônico com Lula e reafirmou parcerias comerciais consideradas estratégicas entre Brasil e China.

Dentro da diplomacia, esses movimentos ganham relevância adicional diante das dificuldades enfrentadas atualmente na relação entre Brasília e o governo Trump. Os contatos mostram que o Planalto procura preservar e aprofundar canais com outras potências enquanto administra o período de tensão com Washington.

<><> Governo teme pressão sobre eleição de outubro

Embora não enxergue uma ameaça direta à integridade de Lula, o Planalto trabalha com a possibilidade de que atores ligados ao campo político de Trump tentem exercer influência sobre a disputa presidencial brasileira.

Um dos focos de atenção está nas redes sociais. Auxiliares presidenciais avaliam que essas plataformas podem ser utilizadas para interferir no debate político brasileiro e influenciar a opinião pública durante a campanha.

A publicação envolvendo uma montagem de Lula preso foi interpretada nesse contexto. Para integrantes do governo, o episódio reflete o grau de deterioração alcançado pelo ambiente político e pelas relações entre setores ligados aos dois países.

<><> Milei é visto de maneira diferente pelo Planalto

A análise feita por auxiliares de Lula sobre o presidente argentino, Javier Milei, é distinta. Apesar da proximidade política do argentino com o campo adversário do petista, integrantes do governo brasileiro avaliam que sua participação no debate eleitoral pode acabar favorecendo Lula politicamente.

Na interpretação apresentada ao UOL, Milei teria pouca capacidade de conquistar eleitores brasileiros moderados ou de centro para a oposição. Sua presença ao lado do campo de Flávio Bolsonaro, segundo essa leitura, poderia ainda contribuir para associar esse grupo a posições consideradas extremistas pelos governistas.

O Planalto também não identifica capacidade de Milei provocar danos econômicos significativos ao Brasil. Um dos motivos apontados é a importância brasileira para a própria economia argentina, já que o Brasil figura entre os principais parceiros comerciais do país vizinho.

Um auxiliar de Lula resumiu a avaliação: “Para nós, ter o Milei do lado de lá não é ruim. No fundo, ele não está preocupado com o Flávio, mas com a própria reeleição. Ele sabe o efeito sistêmico que uma vitória do Lula teria na América Latina e na Argentina, onde a oposição segue com laços bem fortes com a população”

•        Truculência inédita dos EUA exige resposta à altura do Brasil, diz fonte. Por Priscila Yazbek

Em resposta às críticas feitas à CNN Brasil por alguns diplomatas do governo, que enxergam politização da política externa diante da crise EUA-Brasil, uma fonte do Itamaraty afirmou que, se a defesa diante dos ataques dos Estados Unidos não tem precedentes, é porque “a truculência dos ataques, das ameaças e da agressão à democracia e à soberania também não têm precedentes”.

O integrante do Ministério das Relações Exteriores, que acompanha as discussões de perto, negou que haja politização interna. A fonte relatou à CNN que isso não é politização, mas sim defesa do interesse nacional em tempos de conflito, no qual a administração Trump decidiu alinhar-se com o que classificou como golpistas.

Ele diz ainda que a linha do tempo das medidas adotadas pelos Estados Unidos em relação ao Brasil desde julho de 2025, quando foi anunciado o tarifaço, deixa clara a falta de disposição do governo de Donald Trump para o diálogo.

A fonte ouvida pela CNN diz ter tentado a via da negociação há mais de um ano e, nos últimos meses, ficou claro que o outro lado não quer negociar, mas prefere atacar o Brasil na tentativa de impor sua vontade na eleição presidencial.

O diplomata procurou a CNN Brasil para rebater as críticas feitas por outros integrantes do Itamaraty, que avaliam que as respostas do governo brasileiro extrapolaram o campo da diplomacia e entraram no terreno político.

Eles argumentam que a negativa de vistos a autoridades americanas, por exemplo, foi uma reação exagerada e contribuiu para escalar a crise entre os dois países. E também consideram que as respostas do Itamaraty e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, evocando a defesa da soberania nacional, assumiram um tom eleitoral que foge da tradicional postura adotada pela diplomacia brasileira.

Ao defender a posição do governo, o diplomata afirmou que a ingerência atual dos Estados Unidos não tem precedentes, por isso a resposta tem que ser proporcional e rápida, segundo ele. O diplomata acrescendo que isso não é politização, é profissionalismo e saber ler a realidade. Relatou também que não adianta pensar em respostas convencionais para desafios sem precedentes.

Na avaliação do diplomata, diversas autoridades brasileiras continuam sem visto por ter cumprido sua função, julgar e condenar os golpistas. O diplomada afirmou também que não tem precedentes, nem mesmo para o padrão do que chamou de "intervencionismo deles".

A fonte faz referência a vistos de ministros e autoridades brasileiras cassados pelo governo Trump. Em julho de 2025, os Estados Unidos anunciaram a revogação do visto do ministro Alexandre de Moraes e de outros sete integrantes do Supremo Tribunal Federal (Cármen Lúcia, Cristiano Zanin, Dias Toffoli, Edson Fachin, Flávio Dino, Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso) em retaliação ao que classificou como uma “caça às bruxas política” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

No mês seguinte, em agosto de 2025, o governo Trump estendeu a medida ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, além de integrantes de sua família. Como o visto de Padilha já estava vencido, a decisão não teve efeito prático sobre ele naquele momento, mas atingiu sua mulher e sua filha. Funcionários e ex-funcionários do governo brasileiro, ex-integrantes da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e familiares também foram afetados.

E em abril deste ano, o Gabinete de Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo dos Estados Unidos pediu que o delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo deixasse o território americano. O delegado atuava em Miami, na investigação da "Abin Paralela" e de planos de golpe, e foi responsável pela prisão de Alexandre Ramagem no país, aliado da família Bolsonaro.

O ex-deputado foi solto dois dias depois, mas a atuação de Ivo incomodou as autoridades americanas. Em resposta, o governo brasileiro usou o princípio da reciprocidade e expulsou do Brasil um oficial de imigração dos EUA (do órgão Homeland Security), cassando suas credenciais de trabalho.

•        Lula evita acirrar tensão com Milei

O governo brasileiro decidiu adotar uma estratégia de contenção diante dos reiterados ataques do presidente da Argentina, Javier Milei, a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A informação foi apurada pela analista de Política da CNN Clarissa Oliveira, ao Bastidores CNN.

A avaliação do Palácio do Planalto é de que responder às provocações seria cair em uma armadilha narrativa, desgastando desnecessariamente a imagem de Lula no cenário internacional.

•        Lula é aconselhado a ignorar críticas de Milei

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi aconselhado e decidiu, a partir de agora, ignorar as críticas do presidente da Argentina, Javier Milei.

A avaliação no governo federal é de que os reiterados ataques, mesmo após a convocação do embaixador brasileiro, têm motivação eleitoral.

As críticas fazem parte tanto de uma tentativa de ajudar na candidatura de Flávio Bolsonaro, do PL, como no esforço de Javier Milei de engajar o eleitorado conservador argentino.

Por isso, dizem assessores do governo, responder às reiteradas críticas teriam como efeito prático apenas dar maior visibilidade ao presidente argentino, que tem enfrentado queixas internas à condução da economia do país sul-americano.

O chanceler brasileiro Mauro Vieira já disse em entrevista que a normalização das relações bilaterais entre Brasil e Argentina depende da interrupção das "agressões verbais e recorrentes” do presidente argentino.

A crise diplomática ganhou novos desdobramentos neste domingo (9) com a saída de Brasília do embaixador argentino, Daniel Raimondi.

A saída ocorre após o Palácio do Itamaraty decidir rebaixar o nível das relações diplomáticas entre os dois países para o patamar de encarregados de negócios.

A ruptura teve início após Milei participar da Convenção Nacional do Partido Liberal — evento que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência —, ocasião em que chamou Lula de "presidiário" e Alexandre de Moraes de "lixo careca".

No dia seguinte, o Itamaraty convocou o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para consultas e pediu explicações ao embaixador argentino em Brasília.

Mesmo diante das medidas adotadas pelo governo brasileiro, Milei continuou concedendo entrevistas na Argentina e intensificando os ataques.

<><> Estratégia de silêncio e diplomacia

A decisão de ignorar Milei está inserida em um contexto mais amplo, que envolve também a relação do Brasil com os Estados Unidos e o governo de Donald Trump.

Segundo apuração da CNN, a equipe de Lula entende que qualquer tipo de resposta ao presidente argentino deve ficar nas mãos da diplomacia brasileira, especialmente do chanceler Mauro Vieira, que concedeu entrevista no fim de semana rebatendo os ataques de Milei e afirmando que eles precisam cessar.

A lógica da estratégia é desacoplar a atuação política de Lula do embate com Milei. O objetivo é preservar a imagem de Lula como um líder respeitado no cenário internacional, que mantém diálogo direto com Donald Trump, ao mesmo tempo em que se evita alimentar o confronto com o presidente argentino.

Auxiliares de Lula avaliam que Milei utiliza a figura do presidente brasileiro para obter projeção internacional, e que a melhor resposta é esvaziar essa estratégia, deixando-o "falando sozinho".

<><> Relações diplomáticas e comerciais preservadas

Dentro do governo brasileiro, há um entendimento de que as relações diplomáticas e comerciais entre Brasil e Argentina estão preservadas. O que existe, na avaliação dos auxiliares de Lula, é um jogo político de Milei, que busca usar o confronto com Lula para se projetar internacionalmente.

A estratégia brasileira é, portanto, fazer uma distinção clara entre a relação pessoal Lula-Milei e a relação institucional entre os dois países.

 

Fonte: Brasil 247/CNN Brasil

 

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