O
que está em jogo nas eleições de 2026?
Frente
aos efeitos da sua crise, o capitalismo tem se reorganizado para recompor as
taxas de acumulação do capital e reproduzir as relações de poder da classe
dominante. Isso, evidentemente, não se dá de forma descolada da política, já
que é através do Estado que se articulam e se legitimam as condições
necessárias para a reprodução da acumulação capitalista e a dominação de
classe.
Como
parte desse processo de reorganização e de busca pela saída da crise,
observamos, no último período, o aprofundamento da agenda neoliberal através
das políticas de austeridade, das privatizações e precarização dos serviços
públicos, da retirada de direitos historicamente conquistados pelas classes
trabalhadoras, da intensificação da exploração predatória dos recursos naturais
e do alto investimento em conflitos militares – como é o caso das guerras em
andamento na Ucrânia e no Irã, para além do genocídio em Gaza.
Por
conta das contradições e dos limites do próprio processo de acumulação
capitalista, sua reorganização demanda o aprofundamento de relações
imperialistas. Desta forma, “mais capitalismo” equivale a “mais imperialismo”:
é necessário que um Estado subjugue outras nações e povos, do ponto de vista
econômico, político e militar, para garantir a manutenção dos interesses
econômicos da burguesia monopolista. Essa expansão exige a abertura de novos
mercados, acesso a recursos naturais e matérias-primas e intensificação da
exploração da força de trabalho.
A perda
de hegemonia do imperialismo estadunidense frente a ascensão do bloco liderado
pela China, faz com que a sua atuação externa se torne ainda mais agressiva,
voltando os olhos aos países da América Latina, historicamente considerada o
seu quintal. A força do imperialismo estadunidense sobre a América Latina se
coloca de diferentes formas, tanto dentro quanto fora da ordem. Ilustram essa
afirmação as declarações e ameaças contra a soberania nacional; a imposição de
taxas abusivas e unilaterais; as pressões por flexibilizações legislativas; o
financiamento de organizações, agentes e processos de mobilização política
interna; o monitoramento de dados e a perseguição de lideranças políticas; e as
fraudes em processos eleitorais. São inúmeros os exemplos que poderíamos citar,
nos últimos anos, de situações que expressam essa forma de controle – não
apenas no caso brasileiro, mas também dos países vizinhos. Mais recentemente, o
sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores,
além das ameaças de invasão à Cuba, aprofundando os efeitos do embargo que já
dura seis décadas, são duros exemplos da ofensiva imperialista perante a
soberania dos povos latinoamericanos.
Na
busca por recompor a hegemonia, a influência sobre os processos eleitorais na
América Latina tornou-se uma tática central. Aquilo que restou da onda dos
governos progressistas, eleitos na década de 2000, tem sido devastado diante da
vitória de governos alinhados aos interesses dos Estados Unidos. Atualmente, a
direita e a extrema-direita governam sobre a Argentina, Bolívia, Chile,
Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, Panamá,
Paraguai e Peru, com alinhamento e apoio político direto ou indireto de Trump e
seus aliados.
O
processo eleitoral no Brasil não está ileso. O país desempenha um papel
geopolítico fundamental na América Latina e no bloco BRICS, apresenta um
mercado consumidor e industrial relevante, e detém recursos naturais
estratégicos para o desenvolvimento econômico e tecnológico. Por conta disso,
ao ter um governo que seja subserviente aos interesses do imperialismo, o
Brasil contribui para que os Estados Unidos tenham melhores condições em sua
disputa mundial.
Mesmo
não propondo um rompimento profundo – seja no plano programático, ou mesmo no
âmbito das articulações políticas –, Lula da Silva, do Partido dos
Trabalhadores (PT), é o candidato que representa o principal polo de
resistência, no campo institucional brasileiro, aos interesses da Casa Branca.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), personifica o campo
neofascista e conta com o apoio direto de Donald Trump e de setores da direita
estadunidense, além de não esconder sua disposição de subordinar os interesses
nacionais aos Estados Unidos.
O
neofascismo pode ser funcional à reorganização do capitalismo e à viabilização
de interesses imperialistas. Afinal, se ambos convergem para a intensificação
dos processos de exploração e expropriação, a ascensão de regimes e governos
mais autoritários pode contribuir decisivamente para o controle da insatisfação
e da resistência popular, ao mesmo tempo em que favorece a difusão de uma
ideologia que naturaliza as desigualdades. Nessa perspectiva, a reorganização
do capitalismo, o avanço do imperialismo e a consolidação do neofascismo
articulam-se e retroalimentam-se, conformando um quadro particularmente
complexo para a atuação da esquerda e das forças populares.
As
pesquisas eleitorais mais recentes apontam que Lula lidera a intenção de votos
sobre Flávio Bolsonaro – com uma margem estreita de diferença, embora ampliada
nas últimas semanas –, assim como com todos os demais candidatos da direita,
que tentam se colocar como uma via alternativa. Os números, no entanto, não
podem nos iludir nem no sentido de acreditar que a vitória nas urnas está dada,
e nem de considerar que o campo neofascista está enfraquecido.
Mesmo
sofrendo alguns reveses – como a derrota na eleição presidencial de 2022, a
tentativa frustrada de golpe em 2023, a prisão preventiva de Jair Bolsonaro e
sua impossibilidade de aparição pública desde 2025, e as recentes denúncias de
corrupção envolvendo Flávio –, o campo neofascista não perdeu sua capacidade de
iniciativa e coesão. O projeto encampado pelo neofascismo têm sido construído
cotidianamente através da disputa ideológica, da atuação e expansão nos espaços
institucionais, do trabalho de organização política junto às massas populares e
classes médias, da articulação internacional, da influência sobre as polícias e
milícias e, não menos importante, da aproximação com os interesses da burguesia
a partir do programa neoliberal.
Observamos
que desde a eleição de 2022, o conjunto da esquerda tem avançado muito pouco do
ponto de vista do fortalecimento da organização popular, da elevação no nível
de consciência e educação política das massas e da construção de um projeto
político que coloque a classe trabalhadora em melhores condições para enfrentar
o neofascismo e o imperialismo. Ao contrário, vemos que a atuação hegemônica da
esquerda se mantém restringida em propostas e saídas reformistas.
Nesse
complexo quadro, com efeitos duradouros e inimigos poderosos, cabe refletir
quais devem ser nossas tarefas mais imediatas, a curto prazo, que possibilitam
acúmulos durante o processo eleitoral e que colocam o campo progressista em
melhores condições para atuar no momento posterior às eleições.
A
primeira tarefa é colocar o tema do imperialismo e do neofascismo no processo
de campanha, traduzindo esses conceitos no diálogo com as massas populares e
debatendo com o conjunto das organizações situadas no campo progressista a
centralidade dessas dimensões na atual conjuntura. De modo geral, imperialismo
e neofascismo são conceitos com pouca repercussão no conjunto da esquerda, o
que traz efeitos políticos diretos e profundos: sem a apropriação conceitual,
não há compreensão da gravidade dos problemas e desafios que enfrentamos, e nem
da necessidade e urgência de se debater, apropriar e elaborar as saídas
corretas para esses problemas e desafios.
O uso
dos termos, no entanto, não deve ser puramente mecânico. Deve ser acompanhado
da articulação de uma perspectiva crítica, capaz de superar os limites do
reformismo. A compreensão da gravidade das ameaças de Trump à soberania
nacional, como parte de um projeto imperialista, deve vir acompanhada da defesa
de um projeto nacional de desenvolvimento; assim como a compreensão da
gravidade do discurso de ódio propagado pela família Bolsonaro, enquanto
expressão do neofascismo, deve vir acompanhada da defesa da democracia, dos
direitos sociais e da organização e mobilização popular. Em ambos os casos,
trata-se de não restringir a crítica àquilo que se coloca como ameaça mais
imediata, mas de articulá-la à construção de um projeto alternativo de
sociedade.
A
campanha eleitoral não deve ser resumida à distribuição de panfletos com
pedidos de voto, e nem ao mero esforço cotidiano, desprovido de formação e
articulação política, realizado por centenas de militantes e ativistas
voluntários. A segunda tarefa fundamental trata justamente de se fortalecer a
organização e o trabalho popular, contribuir para a formação de militantes e
elevar o nível de consciência política dos diferentes sujeitos envolvidos. O
período eleitoral abre uma janela de oportunidades para inserção nos
territórios, realização de discussões cotidianas sobre a política e articulação
com lideranças e pessoas engajadas. Trata-se, portanto, de aproveitar esse
momento para avançar na ação, organização e formação política, criando
condições para a continuidade e o fortalecimento do trabalho no período
posterior às eleições.
Por
fim, num âmbito mais institucional, temos como tarefa articular a denúncia dos
nossos inimigos com a apresentação das candidaturas que identificamos serem
capazes de contribuir com o avanço de um projeto alternativo, que tenha os
interesses das classes trabalhadoras como centralidade. Ao mesmo tempo, é
necessário dar visibilidade às demandas identificadas nos territórios e
articulá-las às campanhas das candidaturas majoritárias e proporcionais em
níveis federal e estaduais. A disputa eleitoral, portanto, deve ser
compreendida não somente como um momento de conquistar votos, mas como uma
oportunidade de se articular a disputa institucional à organização, à formação
política e à mobilização popular.
A
campanha em torno da candidatura de Lula da Silva é imperativa. Sua vitória,
embora incerta, poderá nos proporcionar melhores condições de luta e atuação
política diante de inimigos cada vez mais fortalecidos e de um cenário que
gradualmente se apresenta mais hostil e violento. No entanto, a manutenção da
frente ampla que sustenta o governo, sem a constituição de um polo de esquerda
capaz de disputá-la – mesmo diante do desembarque de alguns atores –, somada à
consolidação do neofascismo, indicam que muitas das contradições que
enfrentamos atualmente tendem a permanecer e, inclusive, se aprofundar,
caracterizando um cenário de grandes desafios às organizações políticas
comprometidas com a transformação da sociedade. Nesse quadro, o fortalecimento
da organização popular torna-se imprescindível.
¨ Fascismo não elegerá
senadores suficientes para atacar democracia
Um dos
objetivos da extrema direita nestas eleições é eleger um número de senadores e
senadoras suficiente para aprovar processos de impeachment de ministros
do Supremo Tribunal Federal e promover mudanças constitucionais que enfraqueçam
o regime democrático, abrindo caminho para suas teses obscurantistas.
Mas, as
últimas pesquisas indicam que esses planos autoritários caminham para o revés
em 4 de outubro.
Podem
até fazer a maior bancada e, em aliança com todo o bloco oposicionista, chegar
a formar maioria entre os 81 senadores. Com isso, ocupariam as comissões
mais importantes e disputariam a presidência da Casa.
Contudo,
ficarão distantes não só dos dois terços de senadores (54) exigidos para
admissibilidade de processos de impeachment de ministros do STF, o sonho
dourado de todo bolsorarista, como também dos três quintos (49) para mudar a
Constituição através Propostas de Emenda Constitucional (PECs).
É que
dessa vez as forças progressistas capricharam na escolha de seus candidatos,
indicando nomes com mais densidade eleitoral do que em eleições anteriores.
A conta
é simples: a extrema direita já tem 14 senadores que não precisam disputar essa
eleição, já que estão em meio de mandatos. Pelos levantamentos mais recentes,
os extremistas de direita do PL e o Centrão devem eleger entre 25 e 28
senadores, mas apenas nove do PL.e um ou dois do Novo. E, como não há unidade
no Centrão e nem todos topariam aventuras antidemocráticas, fica mais difícil
ser atingido o número capaz de ameaçar a democracia.
Já o
campo de apoio ao presidente Lula pode conquistar entre 23 e 26 das 54 vagas em
disputa. Cabe lembrar que a renovação será de dois terços, ou seja, dois
senadores por estado.
O que
mostram as pesquisas, estado por estado:
Acre : Gladson
Cameli (PP) em primeiro e Jorge Viana (PT) em segundo.
Alagoas : Renan
Calheiros (MDB) e Arthur Lira (PP).
Amapá: Raíssa Furlan
(Podemos); Lucas Barreto (PSD) e Randolfe Rodrigues (PT) estão empatados em
segundo.
Amazonas: Eduardo Braga
e Alberto Neto (PL).
Bahia: Rui Costa (PT) e
Jaques Wagner (PT).
Brasília: Leila do Vôlei
(PDT) e Michele Bolsonaro (PL)
Ceará : Cid
Gomes (PSB) e Capitão Wagner (União Brasil),
Espírito
Santo –
Renato Casagrande (PSB) e Paulo Hartung (PSD).
Goiás – Gracinha
Caiado (União Brasil) e Gustavo Gayer (PL).
Maranhão – Carlos
Brandão (PSB) e Roseana Sarney (MDB).
Mato
Grosso –
Mauro Mendes (União Brasil) e Janaína Riva (MDB).
Mato
Grosso do Sul:
Reinaldo Azambuja (PL) e Capitão Contar (PL).
Minas
Gerais:
Marília Campos (PT) e Marcelo Aro (PP).
Pará: Helder Barbalho
(MDB) e Celso Sabino (PDT).
Paraná: Alexandre Curi
(Republicanos) e Gleisi Hoffmann (PT).
Paraíba : Veneziano
Vital (MDB) e João Azevedo (PSB).
Pernambuco: Marília Arraes
(PDT) e Humberto Costa (PT).
Piauí : Marcelo
Castro (MDB) e Ciro Nogueira (PP).
Rio
de Janeiro ;
Benedita da Silva (PT) e Marcelo Crivella (Republicanos).
Rio
Grande do Norte:
Styvenson Valentim (Podemos) e Samanda Alves (PT).
Rio
Grande do Sul :
Manuela D’Ávila (PSOL) e Marcelo Van Hattem (Novo).
Rondônia: Fernando Máximo
(PL) e Sílvia Cristina (PP).
Roraima : Teresa Surita
(MDB) e Antônio Denarium (PP).
Santa
Catarina:
Carlos Bolsonaro (PL) e Carolina de Toni (PL).
São
Paulo:
Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede)
Sergipe
: Fábio
Mitidieri (PSD) e Valmir de Francisquinho (Republicanos)
Tocantins: Eduardo Gomes (PL)
e Alexandre Guimarães (MDB).
Claro
que muita coisa ainda pode mudar, afinal pesquisa é pesquisa, eleição é
eleição. E a campanha só começa oficialmente no próximo dia 16. Mas essas
sondagens servem para dar uma ideia geral da disputa.
Fonte:
Por Barbara Pontes e Eduardo Rezende Pereira, em Outras Palavras/Brasil 247

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