Fascismo
em rede: por que o conhecimento se tornou alvo de ataques?
As
invasões à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP,
registradas ao longo de 2025, são o ponto de partida de um estudo que investiga
como grupos da extrema-direita brasileira utilizam discursos ódio,
desinformação e performances políticas nas redes sociais para atacar
instituições de produção de conhecimento científico. Publicado na Revista
Brasileira de Sociologia, o artigo derivado do estudo analisa por que a
unidade, reconhecida por sua trajetória de resistência política e pela
relevância nas ciências humanas, tornou-se alvo desses ataques. Os autores
defendem que essas estratégias configuram uma nova forma de “fascismo em rede”,
baseada na circulação digital de narrativas de ódio ao conhecimento crítico e
de resistência à democracia.
“As
instituições de ensino superior, especialmente aquelas voltadas às ciências
humanas, vêm sendo, há décadas, alvo de discursos que as acusam de promover
doutrinação ideológica de esquerda”, afirma Marcelo de Trói, professor da
Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e primeiro autor do
artigo. Segundo o pesquisador, esse tipo de narrativa procura deslegitimar a
produção do conhecimento científico ao apresentar universidades, professores e
pesquisadores como agentes de um projeto político-partidário. Na avaliação de
Trói, esse discurso ganhou força nos últimos anos com a ampliação das redes
sociais e passou a alimentar ações de confronto contra instituições acadêmicas,
transformando os campi universitários em alvos de mobilizações de grupos de
extrema-direita.
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Características do fascismo em rede
Segundo
o professor Trói, as transformações provocadas pelas plataformas digitais
exigem que as ciências sociais ampliem suas formas de análise para compreender
como fenômenos políticos contemporâneos se organizam. Se antes os estudos se
concentravam em estruturas como Estado, família e sociedade, hoje é necessário
considerar também o ambiente tecnopolítico, onde parte significativa da
mobilização política acontece.
Nesse
contexto, Trói define o chamado fascismo em rede como uma forma de organização
política baseada nas novas tecnologias de comunicação. “Embora utilize
linguagens, códigos e ferramentas próprias do universo digital, o fenômeno
mantém vínculos com o fascismo histórico”, ressalta.
O
fascismo em rede não surgiu com a internet. Segundo o professor, o fascismo do
século 20 também se organizava por meio de redes de articulação política entre
diferentes países. Um exemplo foi a aliança formada entre a Alemanha nazista, a
Itália fascista e o Japão imperial — conhecida como eixo Berlim-Roma-Tóquio —,
que compartilhava estratégias, ideologias e apoio político. Essas conexões
também alcançaram outros países, como o Brasil, onde o integralismo incorporou
elementos inspirados nos regimes fascistas europeus.
A
principal diferença, explica o professor, está no ambiente em que essa
articulação ocorre. “No fascismo em rede, a mobilização política se desloca
para plataformas digitais, onde vídeos, memes, influenciadores e algoritmos
potencializam a circulação de discursos autoritários, antidemocráticos e
anti-intelectuais, ampliando seu alcance e capacidade de engajamento”, diz.
Os
participantes das ações gravam os ataques, editam os vídeos e os publicam nas
redes sociais para reforçar a narrativa de combate ao que chamavam de
“doutrinação esquerdista” nas universidades. “As agressões vão além do
discurso: são encenações planejadas para produzir conteúdo, ampliar o
engajamento e conquistar visibilidade no ambiente digital”, diz Bruno Ciorlia
Nascimento, segundo autor do artigo e estudante de Gestão de Políticas
Públicas, também na EACH.
O
artigo aponta que a extrema-direita se apropriou de estratégias de mobilização
tradicionalmente associadas a movimentos de esquerda, como ocupações,
confrontos simbólicos e ações voltadas à ampla repercussão pública. Segundo os
autores, essas táticas, historicamente ligadas a movimentos estudantis e
sociais, foram ressignificadas e passaram a ser utilizadas em torno de pautas
como o combate ao “sistema”, à corrupção e em defesa da liberdade de expressão.
No caso brasileiro, os pesquisadores afirmam que essa apropriação se manifesta
em ocupações de espaços públicos, transmissões ao vivo de manifestações e na
retórica de “reconquista do povo”.
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FFLCH: símbolo da produção do pensamento crítico
Para
Nascimento, a FFLCH tornou-se alvo de grupos de direita por ocupar um lugar de
destaque na produção de conhecimento e na formação do pensamento crítico no
Brasil. Segundo o pesquisador, a faculdade acumulou, ao longo de sua história,
um forte capital simbólico e passou a ser identificada como um espaço de
intensa participação política e de debate público, especialmente desde o
período da ditadura militar.
O autor
explica que os ataques à FFLCH não podem ser compreendidos de forma isolada.
Eles fazem parte de um movimento mais amplo de contestação às ciências humanas
e aos referenciais teóricos dessas áreas. Como exemplo, ele cita as mudanças
promovidas pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, que reduziram o
espaço de disciplinas das ciências humanas no ensino médio. Para o pesquisador,
essas iniciativas dialogam com discursos que colocam em dúvida a legitimidade
da produção científica e do conhecimento acadêmico.
Nascimento
afirma que esse cenário também se relaciona à difusão de narrativas como a
suposta falta de neutralidade do ensino, as propostas defendidas pelo movimento
Escola sem Partido e a ideia de uma ameaça comunista nas universidades. “Essas
narrativas têm caráter ideológico e não encontram respaldo em evidências, mas
contribuem para alimentar ataques às instituições de ensino superior e à
produção de conhecimento científico”, diz.
O autor
ressalta, ainda, que o discurso sobre uma suposta doutrinação ideológica nas
escolas brasileiras foi fortemente influenciado pelos escritos de Olavo de
Carvalho – autoproclamado filósofo brasileiro e guru intelectual do
bolsonarismo e da nova direita brasileira. Segundo o pesquisador, essas ideias
difundem a percepção de que o sistema educacional promove uma agenda política
de esquerda e colocam em xeque o conhecimento produzido e ensinado nas
instituições de ensino. Em sua avaliação, esse tipo de narrativa extrapola a
crítica ao conteúdo escolar e busca gerar desconfiança entre as famílias em
relação ao trabalho de professores e pesquisadores. Como exemplo, ele cita
afirmações presentes nos escritos de Olavo de Carvalho que alertavam pais para
a possibilidade de seus filhos retornarem da escola acreditando em
interpretações sem respaldo no currículo escolar, como a de que Jesus seria
gay.
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Sequência de invasões e ataques
Embora
a FFLCH tenha sido palco de manifestações e disputas políticas envolvendo
diferentes grupos, o estudo identifica uma escalada de ações promovidas por
grupos de direita ao longo de 2025. Ao todo, os pesquisadores registraram oito
episódios de invasões e confrontos envolvendo influenciadores digitais
conservadores, estudantes e agentes políticos.
O
primeiro caso ocorreu em maio, quando um ex-candidato a vereador pelo Partido
Liberal (PL) entrou no vão livre da faculdade, rasgou cartazes e confrontou
estudantes. Dias depois, ele retornou ao local e repetiu as provocações. Em
agosto, uma nova invasão interrompeu a 1ª Olimpíada de Xadrez da FFLCH, com
destruição de faixas e intimidação dos participantes. Em setembro, um novo
episódio mobilizou ativistas de direita, que invadiram novamente a unidade.
Durante a ação, um estudante e um professor foram agredidos. Para os autores do
estudo, a sucessão desses episódios evidencia uma estratégia de confrontação
voltada à ocupação de espaços universitários e à amplificação dos conflitos nas
redes sociais.
Embora
as ações tenham se concentrado na FFLCH, o diretor da unidade, o professor
Adrián Pablo Fanjul, afirma que o alvo é a USP como instituição, a fim de
desacreditá-la como universidade pública, como espaço de produção de
conhecimento, autonomia intelectual e resistência democrática.
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Medidas protetivas
A
direção da faculdade adotou medidas jurídicas, institucionais e políticas para
enfrentar os ataques. Segundo o professor Fanjul, a resposta da unidade à série
de invasões registradas em 2025 foi estruturada em diferentes frentes. Entre as
primeiras medidas, estiveram a elaboração de orientações para a comunidade
acadêmica sobre como agir durante as invasões e o acompanhamento das pessoas
afetadas para o registro de Boletins de Ocorrência.
No
âmbito institucional, a direção encaminhou à Reitoria da USP pedidos para
adoção de medidas judiciais e de segurança. De acordo com Fanjul, essas
iniciativas resultaram no acionamento da Secretaria da Segurança Pública do
Estado pela Administração Central da Universidade. Paralelamente, a FFLCH
passou a atuar em conjunto com outras instituições de ensino superior que
também relataram episódios semelhantes, como o Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o
campus Guarulhos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em
articulações com o Ministério Público e o Ministério da Educação.
O
diretor afirma que, além das medidas administrativas e jurídicas, a faculdade
investiu em uma resposta política e institucional, com o lançamento da campanha
Em Defesa da FFLCH, que reuniu manifestações de apoio de pesquisadores,
entidades científicas e representantes da sociedade civil. Segundo ele, a
iniciativa buscou reafirmar o papel da universidade pública e destacar a
ampliação do acesso ao ensino superior, evidenciada pela crescente diversidade
social do corpo discente.
“Os
ataques às universidades fazem parte de um projeto político mais amplo de
deslegitimação da produção científica e das instituições públicas de ensino”,
avalia Fanjul ao Jornal da USP. O diretor defende que a Universidade mantenha
ações permanentes de esclarecimento à sociedade e de fortalecimento da
pesquisa, da ciência e da educação pública como formas de enfrentar esse tipo
de mobilização.
Fonte:
Por Ivanir Ferreira, em Jornal da USP

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