Terras
raras e pragmatismo estratégico: o fim da neutralidade ingênua?
Algumas
rupturas nos deixam em alerta, interrompendo a progressão constante da vida
diária, acelerando abruptamente e, com frequência, em direção à catástrofe. Foi
o que aconteceu nas últimas semanas em mais um episódio desta vertigem moderna:
o uso, mais uma vez, pelo governo dos EUA, do pretexto de “segurança nacional”
para restaurar uma política unilateral de sanções e barreiras comerciais.
Embora seu objetivo inicial vise a supremacia tecnológica da China, os
estilhaços desta granada diplomática caem invariavelmente sobre países da
periferia e nações emergentes, a América Latina. Um Brasil encurralado, no
contexto de um conflito pelo fornecimento exclusivo de minerais críticos e, ao
mesmo tempo, de infraestrutura de telecomunicações de próxima geração (5G e 6G)
e o sucesso do sistema de pagamentos Pix, percebe o ultimato que desmascara
quaisquer ilusões remanescentes sobre a neutralidade do comércio mundial de
forma tão clara quanto a luz do dia.
E o
indivíduo que ainda fantasia com o doce idílio do mercado liberal globalizado
está sonhando com um mundo que deixou de existir (ou existiu em forma de
simulacro) desde que os sistemas de produção mundiais se tornaram sistemas de
conversão em armas de chantagem. Esta é uma fantasia ingênua. Acontece que a
ideia de que o comércio irrestrito geraria espontaneamente a convergência de
interesses necessária para apaziguar a rivalidade entre grandes potências, uma
ideia sobre o “comércio suave” internacional de Montesquieu no século XVIII,
que os formuladores de políticas de Washington desenterraram nos anos 90, foi
sepultada, sem chance de reavivamento, no cemitério das utopias liberais. O que
testemunhamos no cenário internacional é o choque do capital geopolítico com a
integração pacífica e a reconciliação dos povos.
O
estudioso, para compreender os fundamentos deste século XXI, não é um teórico
da economia, mas o cientista político americano Henry Farrell e o cientista
político israelense Abraham Newman. A dupla foi responsável por cunhar o
conceito de “interdependência armada”. Sua premissa é tão simples quanto
aterrorizante: a Globalização não levou à criação de uma rede de ligações
descentralizada ou simétrica, mas a um ponto de concentração, repleto de pontos
de estrangulamento. É precisamente aqui que dados, recursos energéticos,
tecnologias de ponta e fluxos de capital são trocados. “Quem controla os
gargalos”, observam os dois em seu renomado ensaio, “pode observar, ameaçar ou
paralisar rivais”. Estas são hoje as artérias cruciais de um novo século, do
sistema de pagamentos SWIFT aos cabos de fibra óptica submarinos, à fabricação
de chips em Taiwan e ao monopólio sobre o processamento de terras raras.
A
pretensão de um governo brasileiro que pode gerir suas relações através de seu
torpor diplomático e de um simples apelo romântico ao “direito internacional”,
que é coisa de samba, coloca o país no caminho da catástrofe. Falo com
desconforto intelectual, pois eu mesmo, vale a pena mencionar, acreditei em boa
medida no multilateralismo institucional pós-Guerra Fria. A realidade é que,
quando a Casa Branca exerce pressão sobre o Brasil para impedir os
investimentos da empresa chinesa de telecomunicações Huawei para nossas redes
5G e futuras 6G ou quando o Departamento de Estado ameaça com sanções se o
Brasil mantiver seus laços econômicos com Moscou sobre o fornecimento de
fertilizantes para a agroindústria brasileira, não se trata de defender a
democracia vis-à-vis o autoritarismo, mas de uma aplicação flagrante do
conhecido teorema do realismo ofensivo nas relações internacionais. Em um
contexto global desprovido de uma autoridade superior (anarquia), os estados, e
especificamente as grandes potências, se esforçam para dominar seus vizinhos e
aumentar seu poder individual em relação ao resto do mundo, dando pouca
importância aos danos colaterais infligidos a outros países menores.
No que
diz respeito aos principais dados do comércio exterior brasileiro, não nos
surpreende que os fatos sejam urgentes. Como mostram os dados da Secretaria de
Comércio Exterior (SECEX), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento,
Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), consolidados a partir das importações e
exportações nacionais, a China continua sendo de longe nosso maior parceiro
comercial, recebendo cerca de 30% de todas as nossas exportações, em grande
parte soja, minério de ferro e petróleo bruto. Atrás dela vêm os EUA como o
segundo maior, mas com uma diferença substancial: eles levam produtos
manufaturados de maior valor e respondem por mais do que seu peso devido na
matriz de investimento direto do Brasil e no financiamento do nosso mercado de
capitais. De um ponto de vista puramente estatístico, confrontar uma dessas
potências, romper relações com elas, é o tipo de suicídio econômico programado.
No
entanto, a reação da elite empresarial e da mídia corporativa doméstica a este
cenário mostra uma surpreendente falta de base histórica. Existe um segmento no
debate público brasileiro que defende veementemente que o Brasil mantenha um
alinhamento automático com as potências ocidentais, como se ainda fosse 1947 e
o mundo estivesse às vésperas do Plano Marshall e da Doutrina Truman. Eles
sustentam, com todo o fervor de cruzados moralistas recém-convertidos, que o
Brasil é “um dos países do mundo livre” e, por esta razão, deve capitular, sem
hesitação, aos ditames de Washington sobre o bloqueio de semicondutores e a
reserva do mercado para minerais estratégicos. Essa é uma vassalagem voluntária
que confunde pertencimento cultural com subserviência geoestratégica. Esses
analistas esquecem que, nas grandes potências, aliados que não possuem o poder
militar ou industrial necessário não são parceiros estrategicamente valiosos,
mas apenas dependências fracas condenadas ao esquecimento.
Devemos
primeiro olhar no espelho sobre nossa própria dotação de minerais e indústrias.
O Brasil possui algumas das maiores reservas mundiais de lítio, nióbio, níquel
e terras raras – todos insumos vitais para a transição energética, veículos
elétricos e a (eterna) futura indústria militar. De acordo com relatórios de
mapeamento recentemente divulgados pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM),
o potencial do subsolo brasileiro no Vale do Jequitinhonha e em várias regiões
de mineração do Centro-Oeste do Brasil está prestes a mudar dramaticamente a
dinâmica da oferta global nas próximas décadas. Conceder acesso preferencial ou
exclusivo a essas reservas em troca de um tapinha nas costas em cúpulas
internacionais ou de vagos acordos de livre comércio com contrapartes não
confiáveis constituiria uma traição ao país e um ato criminoso contra o futuro
nacional.
A
verdadeira questão em jogo, portanto, não é tanto se o Brasil deve se alinhar
com Pequim ou Washington, mas como pode recusar tal escolha binária sem se
condenar a um isolamento evitável. A diplomacia da “equidistância pragmática”,
como elegantemente elaborada por San Tiago Dantas na década de 1960 e
reconfirmada no governo brasileiro, necessita urgentemente de uma genuína
atualização ideológica. A equidistância não deve mais significar inação bovina
ou ingenuidade para ocultar de si mesmo as reais ameaças apresentadas pelas
potências concorrentes. Em uma era de interdependência sob forças armadas, o
neutralismo só tem influência quando violar tal postura resulta caro para a
potência ofensora.
Isso
significa algo que chamo de “pragmatismo estratégico”. Em vez de permanecer
passivo e equidistante, o Brasil deve praticar o “Não-Alinhamento Ativo”
baseado na sua forma de realizar comércio focada na construção de sua própria
capacidade. Se os EUA querem preservar o acesso exclusivo aos nossos minerais
raros, que se comprometam a transferir tecnologia em larga escala, financiar o
desenvolvimento de plantas de processamento mineral e fábricas localizadas no
Brasil, em vez de condenar o Brasil ao destino eterno de fornecedor de
matéria-prima para a grande potência. Se a China quer assegurar a estabilidade
do fornecimento de alimentos e energia que necessita para seus propósitos
econômicos, que invista na melhoria da logística ferroviária brasileira e no
financiamento da indústria farmacêutica e de microeletrônica.
Ninguém
acusaria o país que mais tempo passa pontificando sobre o anti-imperialismo
contra o Ocidente de manter sua subserviência financeira com os bancos estatais
de Pequim. O Sul Global, esse mosaico geopolítico de lugares tão variados como
o complexo democrático da Índia e as autocracias do Golfo, só importa nos
assuntos internacionais na medida em que é capaz de formar alianças temáticas e
mudar seus alinhamentos políticos conforme necessário. Não pode haver
inteligência diplomática para o século XXI baseada em lealdade inabalável ao
Bloco Oriental, apenas na flexibilidade de várias formas de cooperação: forjar
laços com os BRICS para transformar a arquitetura financeira internacional,
incluindo o estabelecimento de meios de pagamento com moedas locais, enquanto
simultaneamente forma parcerias com a UE em questões sociais e ambientais e se
engaja com os EUA na preservação dos princípios de cibersegurança.
No
entanto, ninguém deve ignorar os desafios internos desta agenda de política
externa. O pragmatismo estratégico nos assuntos externos não pode sobreviver
sem um projeto de desenvolvimento nacional que o apoie. Uma nação não pode
manter uma política externa “ativa e altiva” – como diz Celso Amorim – na arena
global quando permite que a desindustrialização chegue a um ponto sem retorno,
destrói suas universidades públicas e enfraquece suas Forças Armadas, que são
relegadas a orçamentos miseráveis e a distorções orçamentárias ao longo de
décadas, tornando-as assim instrumentos subservientes de tutela doméstica.
Defender a soberania começa na indústria, no laboratório de pesquisa e no
estaleiro naval, não no palanque de algum encontro político.
Como o
grande Celso Furtado escreveu em seus escritos sobre o subdesenvolvimento, a
maior dependência não vem como uma imposição externa, mas como um ato de elites
locais dispostas a se tornarem parceiros em empreendimentos estrangeiros em vez
de assumir os riscos que levariam à construção de uma nação autônoma. Embora o
atual período geopolítico seja temível, é também uma abertura sem precedentes
na história. À medida que o mundo unipolar cede e o novo arranjo multipolar se
arma até os dentes, o espaço de manobra para as economias intermediárias
aumenta, a menos que sejam covardes intelectuais e simplórios políticos
incapazes de operar em um espaço que exige pragmatismo implacável.
Não
pode haver a crença ingênua de que a turbulência da política internacional
contornará nossas costas sem nos impor definições estruturais. Pensar assim é
de um nível de ingenuidade que a história não tolera gentilmente. O Brasil não
pode ser um mero espectador no grande banquete dos impérios. O neutralismo
ingênuo não é mais uma opção. A menos que o Brasil aprenda a usar seus ricos
recursos, grande população e vasto território como fontes de poder para a
barganha soberana, ele estará condenado mais uma vez ao papel nefasto de um
ator coadjuvante nos dramas de outros povos. E o tempo para tomar esta decisão
se esvai tão rapidamente quanto as profundas mudanças que ocorrem na dinâmica
global. A hora é agora!
Fonte:
Por Gustavo Guerreiro, em Brasil 247

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