quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O que é o Eixo da Resistência

Com a guerra envolvendo o Irã, a imprensa passou a mencionar com mais frequência o termo “Eixo da Resistência”. A expressão se refere a uma aliança informal articulada pelo Irã no Oriente Médio, que reúne grupos, movimentos, milícias e organizações que controlam partes de territórios em diferentes países da região.

A origem do conceito remonta ao jornal líbio Al-Zahf Al-Akhdar, que publicou um artigo quando os Estados Unidos ainda eram governados por George W. Bush. O presidente norte-americano e outros integrantes de seu governo utilizavam a expressão “eixo do mal” para se referir a países como Iraque, Irã e Coreia do Norte. O termo chegou, inclusive, a ser incorporado à Política de Defesa encaminhada por Bush ao Congresso dos Estados Unidos.

Ao contestar o conceito formulado pelo governo norte-americano, o jornal líbio publicou um artigo com o título “Eixo do mal ou Eixo da Resistência?”. A partir de então, o conceito de “Eixo da Resistência” passou a ser adotado pelo Irã, pela Síria e por outros movimentos do Oriente Médio. O Irã assumiu a articulação dessa aliança, que conferiu ao país um significativo poder geopolítico. O objetivo do Eixo da Resistência consiste em combater a influência de Israel e dos Estados Unidos na região.

O Eixo da Resistência é composto pelo Irã, Hezbollah, Hamas e outros grupos palestinos, Houthis e milícias que atuam no Iraque e na Síria. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, essa aliança não possui unidade religiosa ou ideológica, e seus integrantes não são meras marionetes do Irã. Trata-se de uma aliança de natureza política e estratégica: seus integrantes consideram Israel um Estado sionista ilegítimo, apoiam a causa palestina e defendem a redução ou o fim da influência dos Estados Unidos na região.

Na atual guerra, o Irã surpreendeu os Estados Unidos e o mundo não apenas por sua capacidade de resistência, mas também pelo poder de contra-ataque, infligindo pesada destruição às bases norte-americanas localizadas em países vizinhos. Analistas militares de grande projeção consideram que conquistar militarmente o Irã seria uma missão quase impossível.

Entre os fatores que pesam em favor do país estão sua geografia, marcada por montanhas e desertos; sua localização estratégica, conectando três continentes; seus recursos estratégicos, como fontes de energia, minérios e gás; o Estreito de Ormuz, por onde flui 17% do petróleo mundial; o acesso a três mares; e sua história e cultura, fatores que contribuem para garantir a unidade nacional.

As forças militares do Irã são constituídas por dois pilares principais e reúnem cerca de 650 mil soldados. O primeiro é o Exército Regular, o Artesh, organizado nos moldes tradicionais, com forças terrestres, aéreas e marítimas orientadas para a proteção das fronteiras do país. O segundo é o Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana, uma força político-militar encarregada de proteger o regime.

Depois da decapitação das lideranças políticas e militares nos ataques de Israel e dos Estados Unidos em 2025, especula-se que atualmente o poder seja exercido pela Guarda Revolucionária.

Existe ainda a Força Quds, divisão encarregada de operações especiais no exterior, além da milícia paramilitar voluntária Basij, integrada por cerca de 90 mil homens na ativa e com capacidade de mobilização estimada entre 5 milhões e 10 milhões de pessoas.

A segunda principal força do Eixo da Resistência são os Houthis, grupo xiita dissidente que, do ponto de vista doutrinário e jurídico, está mais distante dos xiitas do Irã e mais próximo dos sunitas. Os Houthis possuem uma história que remonta às origens do islamismo. Controlam uma parcela importante do território do Iêmen, incluindo a capital, e são combatidos pela Arábia Saudita e pelas monarquias do Golfo, além de estarem envolvidos em uma guerra civil.

Seu poder de fogo é considerável. Com cerca de 350 mil combatentes, demonstraram capacidade de atingir o território de Israel e navios militares dos Estados Unidos que operam na região. Suas forças armadas têm caráter misto, combinando estruturas institucionais e milícias armadas. Possuem um Exército terrestre, uma Força Aérea não tripulada, organizada em uma Divisão de Drones, além de Força Aérea, Defesa Aérea e Guarda Costeira.

Os Houthis adotam táticas de guerra irregular e possuem capacidade de fabricação de mísseis balísticos de precisão, drones kamikazes e mísseis de cruzeiro destinados a ataques contra navios. Também têm capacidade de paralisar a navegação pelo estratégico Estreito de Bab el-Mandab, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao Oceano Índico.

A terceira força militar em importância é o Hezbollah, que trava uma violenta guerra contra Israel no sul do Líbano. Depois de ter sua liderança decapitada pelos serviços de inteligência israelenses em 2025, o Hezbollah, que também possui um braço político atuante no Parlamento libanês, passou por um processo de reorganização que ampliou sua capacidade de resistência ao Exército de Israel.

Essa reorganização teria ocorrido sob supervisão direta do Irã e estaria assentada em três pilares. O primeiro é a descentralização, com células autônomas e independentes e unidades móveis de assalto, ampliando a capacidade para a guerra assimétrica. O segundo seria o controle direto do Irã após a decapitação da liderança. O terceiro é o abandono de tecnologias eletrônicas, reduzindo a capacidade de monitoramento por parte dos serviços de inteligência de Israel e aumentando a letalidade dos ataques com drones kamikazes, os UAVs.

Estimativas indicam que o Hezbollah teria cerca de 50 mil combatentes na ativa e outros 30 mil na reserva.

No Iraque, operam pelo menos cinco milícias paramilitares armadas agrupadas nas Forças de Mobilização Popular (FMP). Elas são treinadas e armadas pela Guarda Revolucionária do Irã. Estimativas indicam que as FMP contam com cerca de 140 mil pessoas envolvidas em suas organizações, 238 mil membros e aproximadamente 50 mil combatentes.

Além das milícias armadas, as FMP são integradas por organizações civis e políticas e possuem reconhecimento legal concedido pelo Parlamento iraquiano.

Na Síria, operam duas milícias pró-Irã: a Fatemiyoun, composta por afegãos xiitas, e a Zainabiyoun, integrada por combatentes xiitas paquistaneses. Tanto as FMP quanto o Hezbollah também realizam incursões armadas em território sírio.

Com o genocídio e a destruição de Gaza por parte de Israel, o Hamas sofreu perdas extremas, com milhares de combatentes mortos. O grupo dissolveu o governo e aceitou um acordo de desarmamento. Os dois processos ainda não foram concluídos e permanecem envolvidos em uma série de impasses. Hamas e Jihad Islâmica ainda teriam entre 10 mil e 25 mil combatentes em Gaza.

O Eixo da Resistência confere ao Irã uma extraordinária projeção de poder político e militar no Oriente Médio. O alcance geopolítico desse poder se estende da Ásia Central ao Mediterrâneo e ao Mar Vermelho. Trata-se de uma rede descentralizada formada por atores estatais e não estatais, que possuem um objetivo comum e, ao mesmo tempo, objetivos específicos, reunidos em uma aliança colaborativa.

A estratégia do Irã é baseada na defesa ativa, com forte influência em áreas extraterritoriais. A doutrina iraniana nunca teria sido a de iniciar uma guerra, mas a de saber defender-se atacando. Até agora, o Irã e seus aliados estão conseguindo obter uma vitória relativa significativa. Israel e os Estados Unidos estão pagando o preço de terem iniciado uma guerra criminosa e injustificável.

¨      Peritos da ONU desmontam a versão oficial de Teerã. Por Washington Araújo

Foi em Genebra, no dia 29 de julho, que treze relatores especiais e peritos independentes das Nações Unidas assinaram um comunicado que rompe qualquer ambiguidade sobre o que acontece com a comunidade bahá’í no Irã: prisões arbitrárias, desaparecimentos forçados, tortura e um padrão de repressão que se intensifica desde a revolução de 1979 e ganhou nova violência depois da recente guerra. 

Entre os signatários estão Mai Sato, relatora especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos no Irã, Nazila Ghanea, relatora especial sobre liberdade de religião ou crença, Alice Jill Edwards, relatora especial sobre tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, além de Gabriella Citroni e Matthew Gillett, respectivamente presidentes-relatores dos Grupos de Trabalho da ONU sobre Desaparecimentos Forçados e sobre Detenção Arbitrária. Segundo o comunicado, 57 bahá’ís permanecem detidos ou presos no país, alguns deles submetidos a execuções simuladas para arrancar confissões falsas — o caso de Peyvand e Borna Naimi, mantidos em prisão preventiva sob risco declarado à saúde física e mental.

Vesagh Sanaei, porta-voz da Comunidade Internacional Bahá’í em Sydney, descreveu esse mecanismo em entrevista ao canal Iran International, principal emissora internacional em língua persa: cada crise iraniana — social, econômica, política — produz o mesmo roteiro de culpabilização. 

As autoridades escolhem um alvo disponível e o expõem à fúria pública por meio de difamação organizada; os bahá’ís ocupam esse papel desde 1979, e a hostilidade ganhou fôlego renovado nos últimos meses, alimentada por acusações infundadas e pela promoção deliberada do ódio religioso. Trata-se de política de Estado deliberada, sustentada por financiamento, aparato jurídico e cobertura constitucional que atravessa o texto legal do país.

<><> A engrenagem jurídica

Cada medida do governo iraniano contra esses cidadãos rompe compromissos internacionais assumidos pelo próprio país, a começar pelos artigos centrais da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. 

A Human Rights Watch já demonstrou, em relatórios sucessivos, que Teerã atua a partir de listas pré-definidas de alvos religiosos, método que expõe a intenção deliberada por trás de cada prisão. 

O sistema judicial iraniano, que deveria funcionar como salvaguarda contra o abuso de poder, tornou-se sua principal engrenagem: a soberania religiosa inscrita na Constituição de 1979 confere às instituições jurídicas um mandato ideológico incompatível com qualquer pretensão de imparcialidade.

<><> Nomes por trás dos números

O caso de Moein Mohammadi-Dehaj ilustra essa engrenagem em detalhe. Bahá’í de 39 anos, morador de Yazd, ele foi preso em sua própria residência em 5 de janeiro de 2026 — a terceira detenção de sua vida — e teve a sentença comunicada em 6 de agosto: dezesseis anos, sete meses e dezoito dias de prisão, decretados pela Vara 1 do Tribunal Revolucionário de Yazd e reduzidos a doze anos, seis meses e um dia de cumprimento efetivo pela regra de acúmulo de penas do artigo 134 do Código Penal Islâmico. As acusações — propaganda contra o regime, propaganda desviante por meio da promoção da fé bahá’í e atividades de mídia contra a segurança nacional — resumem o vocabulário jurídico que Teerã emprega para converter fé em crime.

Em Isfahan, dez mulheres bahá’ís foram presas em 23 de outubro de 2023 e condenadas, em outubro de 2024, a um total de noventa anos de prisão pelo Tribunal Revolucionário local, sentença confirmada em recurso pela Vara 47 em 28 de setembro de 2025. Negin Khademi, Shana Shoughifar, Yeganeh Agahi, Parastoo Hakim, Mojgan Shahrezaei, Yeganeh Rouhbakhsh e Arezoo Sobhanian, além de Neda Badakhsh, hoje com 62 anos, receberam dez anos cada; Bahareh Lotfi e Neda Emadi, cinco anos cada.

Padideh Sabeti, porta-voz em língua persa da Comunidade Internacional Bahá’í, relatou o caso também ao canal Iran International: o processo apontou como prova de propaganda desviante as aulas de inglês, arte, música e ioga, além dos passeios pela natureza que essas mulheres organizavam para crianças e adolescentes iranianos e afegãos, muitos deles órfãos ou em situação de vulnerabilidade. 

Presa em Dolatabad, Neda Badakhsh convive com diabetes e outras condições de saúde graves sem acesso a tratamento médico especializado, segundo denúncias registradas em julho de 2026 — o corpo doente somando-se à liberdade confiscada, numa dupla punição que nenhuma ordem jurídica minimamente decente toleraria.

<><> Um padrão que atravessa continentes

O Irã aperfeiçoou um repertório que já circula em outras geografias. 

Em Mianmar, mais de um milhão de rohingyas seguem exilados em campos superlotados, à espera de medidas que o próprio Tribunal Internacional de Justiça ordenou e que o governo birmanês ainda não cumpriu integralmente. 

Na Índia, a Human Rights Watch documentou, em seu Relatório Mundial de 2026, um governo que passou a normalizar a violência contra minorias religiosas por meio de discurso de ódio e perseguição judicial seletiva — para Elaine Pearson, diretora da organização para a Ásia, o país transformou hostilidade em política pública. 

No Afeganistão, o regime talibã mantém meninas afastadas da escola secundária e mulheres proibidas de circular sem acompanhante masculino, numa segregação que a própria ONU já classificou como apartheid de gênero. 

Na Nicarágua, o governo de Daniel Ortega segue prendendo padres, fechando universidades católicas, confiscando bens da Igreja e cassando a nacionalidade de opositores e jornalistas, com organizações internacionais e episcopais denunciando perseguição religiosa e política sistemática no país centro-americano. 

Regimes diferentes, geografias distantes, mesma gramática: escolher um grupo, atribuir-lhe a culpa coletiva por crises que não criou e transformar sua fé, sua etnia, seu gênero ou sua origem em delito administrativo.

<><> A árvore que ainda não deu fruto

Essa é a arquitetura que também precisa ser reexaminada: o sistema internacional de direitos humanos funciona, em boa medida, como uma árvore. 

O tronco são os tratados e declarações que os Estados assinam; os galhos, os mecanismos — relatores, grupos de trabalho, comissões de inquérito; as folhas, os relatórios e comunicados que se multiplicam a cada ano; a chuva, o financiamento diplomático; o sol, a pressão da sociedade civil e o testemunho de vítimas e familiares. 

O risco é cultivar a maior árvore possível, com mais relatores, mais resoluções, mais páginas, sem que ela produza o único fruto que importa: a libertação de quem está preso por acreditar, a proteção de quem está exilado por sobreviver, a responsabilização de quem tortura em nome do Estado.

O que une essas tragédias distintas é a mesma recusa histórica: reconhecer que a diversidade religiosa, étnica e cultural sustenta a coesão de um país, em vez de fragilizá-la. Enquanto Teerã tratar a Fé Bahá’í como crime de Estado, cada relatório assinado em Genebra, cada nome pronunciado numa entrevista, cada sentença registrada terá de cumprir o mesmo propósito: impedir que o mundo esqueça. 

A memória, aqui, funciona como resistência ativa — a única fronteira que ainda separa a impunidade da justiça.

¨      Irã afirma que os EUA impõem sanções quando não conseguem usar a diplomacia

Os EUA recorrem a sanções econômicas quando são incapazes de usar a diplomacia, isso tornou-se um hábito e uma dependência, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei.

"O secretário do Tesouro dos EUA [Scott Bessent] gabava-se de 'estrangulamento' do Irã através de sanções econômicas. Para além do pura ênfase, essa afirmação é um testemunho claro da dependência obsessiva dos EUA relativamente às sanções. Sempre que Washington é incapaz de usar a diplomacia, recorre às sanções; e sempre que essas sanções falham, apenas aumenta a dose. Não é mais 'política' – é um 'hábito'; e o que é ainda mais perigoso é o vício que suplantou o próprio pensamento", escreveu Baghaei na rede social X.

Ele acrescentou que o Irã tinha demonstrado durante décadas que não se podia sufocá-lo com tais medidas, e advertiu os governantes dos EUA de que, ao aderirem a esse hábito, poderiam, em vez disso, sufocar as suas "hipóteses remanescentes de uma saída menos humilhante da crise que eles próprios criaram".

O presidente dos EUA, Donald Trump, tinha anunciado anteriormente que tinha cancelado os ataques ao Irã à luz de um possível acordo que incluía a abertura do estreito de Ormuz e acordos relacionados com o programa nuclear. A chancelaria iraniana informou que o Irã e Omã concordaram com as nuances geográficas da rota para a passagem de navios no estreito de Ormuz.

 

Fonte: Por Aldo Fornazieri, em Brasil 247/Sputnik Brasil

 

Nenhum comentário: