O
que é o Eixo da Resistência
Com a
guerra envolvendo o Irã, a imprensa passou a mencionar com mais frequência o
termo “Eixo da Resistência”. A expressão se refere a uma aliança informal
articulada pelo Irã no Oriente Médio, que reúne grupos, movimentos, milícias e
organizações que controlam partes de territórios em diferentes países da
região.
A
origem do conceito remonta ao jornal líbio Al-Zahf Al-Akhdar, que publicou um
artigo quando os Estados Unidos ainda eram governados por George W. Bush. O
presidente norte-americano e outros integrantes de seu governo utilizavam a
expressão “eixo do mal” para se referir a países como Iraque, Irã e Coreia do
Norte. O termo chegou, inclusive, a ser incorporado à Política de Defesa
encaminhada por Bush ao Congresso dos Estados Unidos.
Ao
contestar o conceito formulado pelo governo norte-americano, o jornal líbio
publicou um artigo com o título “Eixo do mal ou Eixo da Resistência?”. A partir
de então, o conceito de “Eixo da Resistência” passou a ser adotado pelo Irã,
pela Síria e por outros movimentos do Oriente Médio. O Irã assumiu a
articulação dessa aliança, que conferiu ao país um significativo poder
geopolítico. O objetivo do Eixo da Resistência consiste em combater a
influência de Israel e dos Estados Unidos na região.
O Eixo
da Resistência é composto pelo Irã, Hezbollah, Hamas e outros grupos
palestinos, Houthis e milícias que atuam no Iraque e na Síria. Ao contrário do
que muitas vezes se pensa, essa aliança não possui unidade religiosa ou
ideológica, e seus integrantes não são meras marionetes do Irã. Trata-se de uma
aliança de natureza política e estratégica: seus integrantes consideram Israel
um Estado sionista ilegítimo, apoiam a causa palestina e defendem a redução ou
o fim da influência dos Estados Unidos na região.
Na
atual guerra, o Irã surpreendeu os Estados Unidos e o mundo não apenas por sua
capacidade de resistência, mas também pelo poder de contra-ataque, infligindo
pesada destruição às bases norte-americanas localizadas em países vizinhos.
Analistas militares de grande projeção consideram que conquistar militarmente o
Irã seria uma missão quase impossível.
Entre
os fatores que pesam em favor do país estão sua geografia, marcada por
montanhas e desertos; sua localização estratégica, conectando três continentes;
seus recursos estratégicos, como fontes de energia, minérios e gás; o Estreito
de Ormuz, por onde flui 17% do petróleo mundial; o acesso a três mares; e sua
história e cultura, fatores que contribuem para garantir a unidade nacional.
As
forças militares do Irã são constituídas por dois pilares principais e reúnem
cerca de 650 mil soldados. O primeiro é o Exército Regular, o Artesh,
organizado nos moldes tradicionais, com forças terrestres, aéreas e marítimas
orientadas para a proteção das fronteiras do país. O segundo é o Corpo da
Guarda Revolucionária Iraniana, uma força político-militar encarregada de
proteger o regime.
Depois
da decapitação das lideranças políticas e militares nos ataques de Israel e dos
Estados Unidos em 2025, especula-se que atualmente o poder seja exercido pela
Guarda Revolucionária.
Existe
ainda a Força Quds, divisão encarregada de operações especiais no exterior,
além da milícia paramilitar voluntária Basij, integrada por cerca de 90 mil
homens na ativa e com capacidade de mobilização estimada entre 5 milhões e 10
milhões de pessoas.
A
segunda principal força do Eixo da Resistência são os Houthis, grupo xiita
dissidente que, do ponto de vista doutrinário e jurídico, está mais distante
dos xiitas do Irã e mais próximo dos sunitas. Os Houthis possuem uma história
que remonta às origens do islamismo. Controlam uma parcela importante do
território do Iêmen, incluindo a capital, e são combatidos pela Arábia Saudita
e pelas monarquias do Golfo, além de estarem envolvidos em uma guerra civil.
Seu
poder de fogo é considerável. Com cerca de 350 mil combatentes, demonstraram
capacidade de atingir o território de Israel e navios militares dos Estados
Unidos que operam na região. Suas forças armadas têm caráter misto, combinando
estruturas institucionais e milícias armadas. Possuem um Exército terrestre,
uma Força Aérea não tripulada, organizada em uma Divisão de Drones, além de
Força Aérea, Defesa Aérea e Guarda Costeira.
Os
Houthis adotam táticas de guerra irregular e possuem capacidade de fabricação
de mísseis balísticos de precisão, drones kamikazes e mísseis de cruzeiro
destinados a ataques contra navios. Também têm capacidade de paralisar a
navegação pelo estratégico Estreito de Bab el-Mandab, que liga o Mar Vermelho
ao Golfo de Áden e ao Oceano Índico.
A
terceira força militar em importância é o Hezbollah, que trava uma violenta
guerra contra Israel no sul do Líbano. Depois de ter sua liderança decapitada
pelos serviços de inteligência israelenses em 2025, o Hezbollah, que também
possui um braço político atuante no Parlamento libanês, passou por um processo
de reorganização que ampliou sua capacidade de resistência ao Exército de
Israel.
Essa
reorganização teria ocorrido sob supervisão direta do Irã e estaria assentada
em três pilares. O primeiro é a descentralização, com células autônomas e
independentes e unidades móveis de assalto, ampliando a capacidade para a
guerra assimétrica. O segundo seria o controle direto do Irã após a decapitação
da liderança. O terceiro é o abandono de tecnologias eletrônicas, reduzindo a
capacidade de monitoramento por parte dos serviços de inteligência de Israel e
aumentando a letalidade dos ataques com drones kamikazes, os UAVs.
Estimativas
indicam que o Hezbollah teria cerca de 50 mil combatentes na ativa e outros 30
mil na reserva.
No
Iraque, operam pelo menos cinco milícias paramilitares armadas agrupadas nas
Forças de Mobilização Popular (FMP). Elas são treinadas e armadas pela Guarda
Revolucionária do Irã. Estimativas indicam que as FMP contam com cerca de 140
mil pessoas envolvidas em suas organizações, 238 mil membros e aproximadamente
50 mil combatentes.
Além
das milícias armadas, as FMP são integradas por organizações civis e políticas
e possuem reconhecimento legal concedido pelo Parlamento iraquiano.
Na
Síria, operam duas milícias pró-Irã: a Fatemiyoun, composta por afegãos xiitas,
e a Zainabiyoun, integrada por combatentes xiitas paquistaneses. Tanto as FMP
quanto o Hezbollah também realizam incursões armadas em território sírio.
Com o
genocídio e a destruição de Gaza por parte de Israel, o Hamas sofreu perdas
extremas, com milhares de combatentes mortos. O grupo dissolveu o governo e
aceitou um acordo de desarmamento. Os dois processos ainda não foram concluídos
e permanecem envolvidos em uma série de impasses. Hamas e Jihad Islâmica ainda
teriam entre 10 mil e 25 mil combatentes em Gaza.
O Eixo
da Resistência confere ao Irã uma extraordinária projeção de poder político e
militar no Oriente Médio. O alcance geopolítico desse poder se estende da Ásia
Central ao Mediterrâneo e ao Mar Vermelho. Trata-se de uma rede descentralizada
formada por atores estatais e não estatais, que possuem um objetivo comum e, ao
mesmo tempo, objetivos específicos, reunidos em uma aliança colaborativa.
A
estratégia do Irã é baseada na defesa ativa, com forte influência em áreas
extraterritoriais. A doutrina iraniana nunca teria sido a de iniciar uma
guerra, mas a de saber defender-se atacando. Até agora, o Irã e seus aliados
estão conseguindo obter uma vitória relativa significativa. Israel e os Estados
Unidos estão pagando o preço de terem iniciado uma guerra criminosa e
injustificável.
¨
Peritos da ONU desmontam a versão oficial de Teerã. Por
Washington Araújo
Foi em
Genebra, no dia 29 de julho, que treze relatores especiais e peritos
independentes das Nações Unidas assinaram um comunicado que rompe qualquer
ambiguidade sobre o que acontece com a comunidade bahá’í no Irã: prisões
arbitrárias, desaparecimentos forçados, tortura e um padrão de repressão que se
intensifica desde a revolução de 1979 e ganhou nova violência depois da recente
guerra.
Entre
os signatários estão Mai Sato, relatora especial da ONU sobre a situação dos
direitos humanos no Irã, Nazila Ghanea, relatora especial sobre liberdade de
religião ou crença, Alice Jill Edwards, relatora especial sobre tortura e
outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, além de Gabriella Citroni
e Matthew Gillett, respectivamente presidentes-relatores dos Grupos de Trabalho
da ONU sobre Desaparecimentos Forçados e sobre Detenção Arbitrária. Segundo o
comunicado, 57 bahá’ís permanecem detidos ou presos no país, alguns deles
submetidos a execuções simuladas para arrancar confissões falsas — o caso de
Peyvand e Borna Naimi, mantidos em prisão preventiva sob risco declarado à
saúde física e mental.
Vesagh
Sanaei, porta-voz da Comunidade Internacional Bahá’í em Sydney, descreveu esse
mecanismo em entrevista ao canal Iran International, principal emissora
internacional em língua persa: cada crise iraniana — social, econômica,
política — produz o mesmo roteiro de culpabilização.
As
autoridades escolhem um alvo disponível e o expõem à fúria pública por meio de
difamação organizada; os bahá’ís ocupam esse papel desde 1979, e a hostilidade
ganhou fôlego renovado nos últimos meses, alimentada por acusações infundadas e
pela promoção deliberada do ódio religioso. Trata-se de política de Estado
deliberada, sustentada por financiamento, aparato jurídico e cobertura
constitucional que atravessa o texto legal do país.
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A engrenagem jurídica
Cada
medida do governo iraniano contra esses cidadãos rompe compromissos
internacionais assumidos pelo próprio país, a começar pelos artigos centrais da
Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948.
A Human
Rights Watch já demonstrou, em relatórios sucessivos, que Teerã atua a partir
de listas pré-definidas de alvos religiosos, método que expõe a intenção
deliberada por trás de cada prisão.
O
sistema judicial iraniano, que deveria funcionar como salvaguarda contra o
abuso de poder, tornou-se sua principal engrenagem: a soberania religiosa
inscrita na Constituição de 1979 confere às instituições jurídicas um mandato
ideológico incompatível com qualquer pretensão de imparcialidade.
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Nomes por trás dos números
O caso
de Moein Mohammadi-Dehaj ilustra essa engrenagem em detalhe. Bahá’í de 39 anos,
morador de Yazd, ele foi preso em sua própria residência em 5 de janeiro de
2026 — a terceira detenção de sua vida — e teve a sentença comunicada em 6 de
agosto: dezesseis anos, sete meses e dezoito dias de prisão, decretados pela
Vara 1 do Tribunal Revolucionário de Yazd e reduzidos a doze anos, seis meses e
um dia de cumprimento efetivo pela regra de acúmulo de penas do artigo 134 do
Código Penal Islâmico. As acusações — propaganda contra o regime, propaganda
desviante por meio da promoção da fé bahá’í e atividades de mídia contra a
segurança nacional — resumem o vocabulário jurídico que Teerã emprega para
converter fé em crime.
Em
Isfahan, dez mulheres bahá’ís foram presas em 23 de outubro de 2023 e
condenadas, em outubro de 2024, a um total de noventa anos de prisão pelo
Tribunal Revolucionário local, sentença confirmada em recurso pela Vara 47 em
28 de setembro de 2025. Negin Khademi, Shana Shoughifar, Yeganeh Agahi,
Parastoo Hakim, Mojgan Shahrezaei, Yeganeh Rouhbakhsh e Arezoo Sobhanian, além
de Neda Badakhsh, hoje com 62 anos, receberam dez anos cada; Bahareh Lotfi e
Neda Emadi, cinco anos cada.
Padideh
Sabeti, porta-voz em língua persa da Comunidade Internacional Bahá’í, relatou o
caso também ao canal Iran International: o processo apontou como prova de
propaganda desviante as aulas de inglês, arte, música e ioga, além dos passeios
pela natureza que essas mulheres organizavam para crianças e adolescentes
iranianos e afegãos, muitos deles órfãos ou em situação de
vulnerabilidade.
Presa
em Dolatabad, Neda Badakhsh convive com diabetes e outras condições de saúde
graves sem acesso a tratamento médico especializado, segundo denúncias
registradas em julho de 2026 — o corpo doente somando-se à liberdade
confiscada, numa dupla punição que nenhuma ordem jurídica minimamente decente
toleraria.
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Um padrão que atravessa continentes
O Irã
aperfeiçoou um repertório que já circula em outras geografias.
Em
Mianmar, mais de um milhão de rohingyas seguem exilados em campos superlotados,
à espera de medidas que o próprio Tribunal Internacional de Justiça ordenou e
que o governo birmanês ainda não cumpriu integralmente.
Na
Índia, a Human Rights Watch documentou, em seu Relatório Mundial de 2026, um
governo que passou a normalizar a violência contra minorias religiosas por meio
de discurso de ódio e perseguição judicial seletiva — para Elaine Pearson,
diretora da organização para a Ásia, o país transformou hostilidade em política
pública.
No
Afeganistão, o regime talibã mantém meninas afastadas da escola secundária e
mulheres proibidas de circular sem acompanhante masculino, numa segregação que
a própria ONU já classificou como apartheid de gênero.
Na
Nicarágua, o governo de Daniel Ortega segue prendendo padres, fechando
universidades católicas, confiscando bens da Igreja e cassando a nacionalidade
de opositores e jornalistas, com organizações internacionais e episcopais
denunciando perseguição religiosa e política sistemática no país
centro-americano.
Regimes
diferentes, geografias distantes, mesma gramática: escolher um grupo,
atribuir-lhe a culpa coletiva por crises que não criou e transformar sua fé,
sua etnia, seu gênero ou sua origem em delito administrativo.
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A árvore que ainda não deu fruto
Essa é
a arquitetura que também precisa ser reexaminada: o sistema internacional de
direitos humanos funciona, em boa medida, como uma árvore.
O
tronco são os tratados e declarações que os Estados assinam; os galhos, os
mecanismos — relatores, grupos de trabalho, comissões de inquérito; as folhas,
os relatórios e comunicados que se multiplicam a cada ano; a chuva, o
financiamento diplomático; o sol, a pressão da sociedade civil e o testemunho
de vítimas e familiares.
O risco
é cultivar a maior árvore possível, com mais relatores, mais resoluções, mais
páginas, sem que ela produza o único fruto que importa: a libertação de quem
está preso por acreditar, a proteção de quem está exilado por sobreviver, a
responsabilização de quem tortura em nome do Estado.
O que
une essas tragédias distintas é a mesma recusa histórica: reconhecer que a
diversidade religiosa, étnica e cultural sustenta a coesão de um país, em vez
de fragilizá-la. Enquanto Teerã tratar a Fé Bahá’í como crime de Estado, cada
relatório assinado em Genebra, cada nome pronunciado numa entrevista, cada
sentença registrada terá de cumprir o mesmo propósito: impedir que o mundo
esqueça.
A
memória, aqui, funciona como resistência ativa — a única fronteira que ainda
separa a impunidade da justiça.
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Irã afirma que os EUA impõem sanções quando não conseguem
usar a diplomacia
Os EUA
recorrem a sanções econômicas quando são incapazes de usar a diplomacia, isso
tornou-se um hábito e uma dependência, disse o porta-voz do Ministério das
Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei.
"O
secretário do Tesouro dos EUA [Scott Bessent] gabava-se de 'estrangulamento' do
Irã através de sanções econômicas. Para além do pura
ênfase, essa afirmação é um testemunho claro da dependência obsessiva dos EUA
relativamente às sanções. Sempre que Washington é incapaz de usar a diplomacia,
recorre às sanções; e sempre que essas sanções falham, apenas aumenta a dose. Não
é mais 'política' – é um 'hábito'; e o que é ainda mais perigoso é o vício que
suplantou o próprio pensamento", escreveu Baghaei na rede
social X.
Ele
acrescentou que o Irã tinha demonstrado durante décadas que não se podia
sufocá-lo com tais medidas, e advertiu os governantes dos EUA de que, ao
aderirem a esse hábito, poderiam, em vez disso, sufocar as suas "hipóteses
remanescentes de uma saída menos humilhante da crise que eles próprios
criaram".
O
presidente dos EUA, Donald Trump, tinha anunciado anteriormente que tinha
cancelado os ataques ao Irã à luz de um possível acordo que incluía a abertura
do estreito de Ormuz e acordos relacionados com o programa nuclear. A chancelaria
iraniana informou que o Irã e Omã concordaram com as nuances geográficas da
rota para a passagem de navios no estreito de Ormuz.
Fonte:
Por Aldo Fornazieri, em Brasil 247/Sputnik Brasil

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