quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Um planeta estufado

Cássia Eller não fazia ideia de onde estava se metendo. O segundo sol nem sequer precisou chegar; o único que existe por estas bandas é mais do que suficiente para desalinhar um planeta estufado.

Falar sobre o clima da Terra é, cada vez mais, uma tarefa ardilosa. O adjetivo vem do espanhol ardid (truque, manha), com raízes franco-saxônicas similares aos da palavra hard. O que inicialmente trazia a ideia de firmeza, dureza e força, ganhou significantes de astúcia e esperteza – qualidades bem-vindas quando o assunto é enfrentar o beemote do colapso climático.

Agora que já recorri ao ardil da etimologia para ganhar um pouco de território entre colegas “de humanas”; sinto que é de alguma utilidade trazer perspectivas diversas, propositalmente heterodoxas, para falar de temas vinculados à seara socioambiental. Tudo isso enquanto contemplo, com assombro exemplar, o desenrolar de extremos meteorológicos ao longo de 2026.

Há virtude no fato de que um renovado léxico, antes nichado, agora se espalhou. Mais gente entende algo a respeito de partes por milhão, ansiedade e resiliência climáticas, El-Niño e demais oscilações atmosféricas, e da frequência e intensidade de eventos meteorológicos que os caracteriza como extremos. Compreendemos, também, que o sistema-clima do planeta é, no frigir dos ovos, apenas um. Recheado de nuances, complexo e regido pelo caos. Mas, ainda, uno e global, de modo que sua derrocada produz consequências nos quatro pontos cardeais.

Ao abraçarmos alguma morbidez interior e escolhermos um desastre da vez, não faltam opções para deleite no cardápio doomer (doom = ruína; colapso). Hoje serão enchentes? Nas dependências do Índico, monções se encarregam de renovar recordes de vítimas em intervalos cada vez menores de tempo. Viveram tragédias, também, populações no Chile, Quênia, Madagascar e países do Mediterrâneo.

Em janeiro deste ano, em um mesmo intervalo de dias, os EUA registravam recordes de neve no Nordeste e de calor no Oeste. Com impressionante sincronia, outros continentes resistiram a ciclones destrutivos, como Harry e Fytia. O raciocínio pode ser esticado mês a mês, até atuais descompassos como os incêndios florestais no Canadá e o vendaval fortíssimo que alcançou até quem tem o hábito de estacionar o carro no Leblon.

O menu colapsista está posto já faz algum tempo, e todo mundo conhece alguém que faz as vezes dos antigos “doidinhos do dia do julgamento” – aqueles caricatos, que seguram uma placa de papelão anunciando o fim do mundo. Todo mundo também conhece alguém que revira os olhos para esse sujeito. Sugere-se, a partir do prisma metafísico, que no colapsista o pessimismo e o fracasso da própria alma se entrelaçariam com a ansiedade pelo fracasso do tempo futuro, um retroalimentando o outro.

É evidente que a questão climática funciona como uma fértil placa de Petri para quem se encontra propenso ao pensamento neurótico. Jacques Lacan, que estudou a fundo a estrutura da paranoia, poderia identificar no colapsista a busca por gozar com tamanha falta e perda que a ideia de fim do mundo traz consigo. Aquele retrogosto de satisfação oriundo de afirmar a si que merecemos estar onde estamos; de apontar o dedo para a humanidade e exclamar sobre como ela falhou com seu próprio lar, é, pasmem, a punheta neurótica perfeita.

Não é da minha conta o fetiche de cada um, mas não dá para dizer que o assunto da crise climática não esteja em voga. Se palavras importam, chamar de colapso tem seu valor. O que colapsa perde a estabilidade, o arcabouço e estrutura, e é o que se espera do sistema clima. O que entra em crise, como a asma, passa e volta à linha de base, algo que infelizmente não acontecerá por muitos séculos para indicadores como calor acumulado nos oceanos.

Se até o Inferno está cheio de boas intenções, na Terra ardente existe, pelo menos, um material sem-fim sobre os efeitos do aquecimento global na sociedade e em suas cadeias produtivas, como as de energia e alimentos. Semanalmente, publicam-se novas quantificações do custo material do colapso climático e discussões epistemológicas que tentam cristalizar uma forma de saber ainda tão fluida.

O conhecimento avança, e as ciências continuam sendo a égide da sociedade frente às incursões que ela mesmo tende a fazer nos territórios da barbárie e ignorância. Já que nos sobrou, ante a ruína, acreditar que há algum tempo e algo a ser feito, o mais simples e efetivo, por anos-luz de vantagem, continua sendo educar e esclarecer.

É por esta razão que o discurso ecológico-ambiental, neste momento da comunicação em rede, deve ter o papel de agitprop através da mistura ideal entre rigor científico e carisma. A postura autoritária em resposta à urgência de caráter global tem pontos em comum com cartilhas tradicionalmente ecossocialistas. Observo, contudo, um abismo entre o viés doomerista, cujas demandas muitas vezes mostram-se ideologicamente transversais, com menor peso ao “quem causou a degradação do meio ambiente”; e um autoritarismo raiz, mais polpotiano, se quiser, que seduz parte importante da esquerda.

Carvão queimado não tem documento ou bandeira, e tanto faz se a fuligem e o carbono chegaram à atmosfera pela força imparável do Capital ou pelas necessidades da Pátria-Mãe, já que ambos agora contribuem para os fenômenos climáticos globais. Deve-se discutir, com efeito, a moralidade e o valor subjetivo entre ter energia para usos domésticos, industriais ou corporativos. Mas sem ignorar que toda atividade humana impacta o ambiente, da mais escrota à mais virtuosa. Mal não iria fazer se, em cada indivíduo, o compasso moral estivesse calibrado o bastante para se manter um estado de atenção quanto ao custo-benefício das intervenções na natureza.

Sendo assim, caro ecossocialista com tendências idólatras – e que, a esta altura, provavelmente já me taxa de pelego: sinto-lhe informar que seu camarada de estimação, provavelmente, lamberia os beiços ao pensar nas riquezas que Amazônia guarda com tanto egoísmo, e já estaria planejando alguma estrada boa de se abrir por lá.

O debate não vai acabar, e nem pode, mas algum grau de sintonia entre discursos ambientais é bem-vindo. Por mais discussões como qual a melhor saída para a energia no futuro da sociedade; se apenas transicionar de A para B é suficiente, ou se reduzir deveria ser visto como tão ambicioso quanto expandir. Há, contudo, pontos em que a visão colapsista “fecha a questão” em divergência com propostas típicas do campo progressista.

Para citar algumas: armamento nuclear, fora de cogitação; desmatamento, idem, ainda que se supostamente estratégico; fim da dependência de combustíveis fósseis, utópico, mas serve de norteador.

Mega-obras, projetos de desenvolvimento como a UHE Belo Monte e a Ferrogrão, não desejo nem para o pior inimigo. Quando influenciadores de peso da própria esquerda progressista defendem de forma pusilânime projetos que aceleram a locomotiva até a Estação Abismo, é sinal suficiente de que há muito trabalho a ser feito no domínio da comunicação.

Os Titãs, inocentemente, achavam que o acaso era o suficiente para proteger. Bobagem. O senso de emergência e a atual qualidade da informação são propícios para darmos uma forcinha. Quando se esclarecem mecanismos e processos físicos que atuam na Terra, nosso lar, uma continuação possível da compreensão teórica – e que recompensa o esforço – passa a ser a contemplação da forma íntima e estética com a qual reagimos a esses saberes. Fica o convite, garanto que não será catastrófico.

 

Fonte: Por Marcelo Camargo, em A Terra é Redonda

 

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