Um
planeta estufado
Cássia
Eller não fazia ideia de onde estava se metendo. O segundo sol nem sequer
precisou chegar; o único que existe por estas bandas é mais do que suficiente
para desalinhar um planeta estufado.
Falar
sobre o clima da Terra é, cada vez mais, uma tarefa ardilosa. O adjetivo vem do
espanhol ardid (truque, manha), com raízes franco-saxônicas similares aos da
palavra hard. O que inicialmente trazia a ideia de firmeza, dureza e força,
ganhou significantes de astúcia e esperteza – qualidades bem-vindas quando o
assunto é enfrentar o beemote do colapso climático.
Agora
que já recorri ao ardil da etimologia para ganhar um pouco de território entre
colegas “de humanas”; sinto que é de alguma utilidade trazer perspectivas
diversas, propositalmente heterodoxas, para falar de temas vinculados à seara
socioambiental. Tudo isso enquanto contemplo, com assombro exemplar, o
desenrolar de extremos meteorológicos ao longo de 2026.
Há
virtude no fato de que um renovado léxico, antes nichado, agora se espalhou.
Mais gente entende algo a respeito de partes por milhão, ansiedade e
resiliência climáticas, El-Niño e demais oscilações atmosféricas, e da
frequência e intensidade de eventos meteorológicos que os caracteriza como
extremos. Compreendemos, também, que o sistema-clima do planeta é, no frigir
dos ovos, apenas um. Recheado de nuances, complexo e regido pelo caos. Mas,
ainda, uno e global, de modo que sua derrocada produz consequências nos quatro
pontos cardeais.
Ao
abraçarmos alguma morbidez interior e escolhermos um desastre da vez, não
faltam opções para deleite no cardápio doomer (doom = ruína; colapso). Hoje
serão enchentes? Nas dependências do Índico, monções se encarregam de renovar
recordes de vítimas em intervalos cada vez menores de tempo. Viveram tragédias,
também, populações no Chile, Quênia, Madagascar e países do Mediterrâneo.
Em
janeiro deste ano, em um mesmo intervalo de dias, os EUA registravam recordes
de neve no Nordeste e de calor no Oeste. Com impressionante sincronia, outros
continentes resistiram a ciclones destrutivos, como Harry e Fytia. O raciocínio
pode ser esticado mês a mês, até atuais descompassos como os incêndios
florestais no Canadá e o vendaval fortíssimo que alcançou até quem tem o hábito
de estacionar o carro no Leblon.
O menu
colapsista está posto já faz algum tempo, e todo mundo conhece alguém que faz
as vezes dos antigos “doidinhos do dia do julgamento” – aqueles caricatos, que
seguram uma placa de papelão anunciando o fim do mundo. Todo mundo também
conhece alguém que revira os olhos para esse sujeito. Sugere-se, a partir do
prisma metafísico, que no colapsista o pessimismo e o fracasso da própria alma
se entrelaçariam com a ansiedade pelo fracasso do tempo futuro, um
retroalimentando o outro.
É
evidente que a questão climática funciona como uma fértil placa de Petri para
quem se encontra propenso ao pensamento neurótico. Jacques Lacan, que estudou a
fundo a estrutura da paranoia, poderia identificar no colapsista a busca por
gozar com tamanha falta e perda que a ideia de fim do mundo traz consigo.
Aquele retrogosto de satisfação oriundo de afirmar a si que merecemos estar
onde estamos; de apontar o dedo para a humanidade e exclamar sobre como ela
falhou com seu próprio lar, é, pasmem, a punheta neurótica perfeita.
Não é
da minha conta o fetiche de cada um, mas não dá para dizer que o assunto da
crise climática não esteja em voga. Se palavras importam, chamar de colapso tem
seu valor. O que colapsa perde a estabilidade, o arcabouço e estrutura, e é o
que se espera do sistema clima. O que entra em crise, como a asma, passa e
volta à linha de base, algo que infelizmente não acontecerá por muitos séculos
para indicadores como calor acumulado nos oceanos.
Se até
o Inferno está cheio de boas intenções, na Terra ardente existe, pelo menos, um
material sem-fim sobre os efeitos do aquecimento global na sociedade e em suas
cadeias produtivas, como as de energia e alimentos. Semanalmente, publicam-se
novas quantificações do custo material do colapso climático e discussões
epistemológicas que tentam cristalizar uma forma de saber ainda tão fluida.
O
conhecimento avança, e as ciências continuam sendo a égide da sociedade frente
às incursões que ela mesmo tende a fazer nos territórios da barbárie e
ignorância. Já que nos sobrou, ante a ruína, acreditar que há algum tempo e
algo a ser feito, o mais simples e efetivo, por anos-luz de vantagem, continua
sendo educar e esclarecer.
É por
esta razão que o discurso ecológico-ambiental, neste momento da comunicação em
rede, deve ter o papel de agitprop através da mistura ideal entre rigor
científico e carisma. A postura autoritária em resposta à urgência de caráter
global tem pontos em comum com cartilhas tradicionalmente ecossocialistas.
Observo, contudo, um abismo entre o viés doomerista, cujas demandas muitas
vezes mostram-se ideologicamente transversais, com menor peso ao “quem causou a
degradação do meio ambiente”; e um autoritarismo raiz, mais polpotiano, se
quiser, que seduz parte importante da esquerda.
Carvão
queimado não tem documento ou bandeira, e tanto faz se a fuligem e o carbono
chegaram à atmosfera pela força imparável do Capital ou pelas necessidades da
Pátria-Mãe, já que ambos agora contribuem para os fenômenos climáticos globais.
Deve-se discutir, com efeito, a moralidade e o valor subjetivo entre ter
energia para usos domésticos, industriais ou corporativos. Mas sem ignorar que
toda atividade humana impacta o ambiente, da mais escrota à mais virtuosa. Mal
não iria fazer se, em cada indivíduo, o compasso moral estivesse calibrado o
bastante para se manter um estado de atenção quanto ao custo-benefício das
intervenções na natureza.
Sendo
assim, caro ecossocialista com tendências idólatras – e que, a esta altura,
provavelmente já me taxa de pelego: sinto-lhe informar que seu camarada de
estimação, provavelmente, lamberia os beiços ao pensar nas riquezas que
Amazônia guarda com tanto egoísmo, e já estaria planejando alguma estrada boa
de se abrir por lá.
O
debate não vai acabar, e nem pode, mas algum grau de sintonia entre discursos
ambientais é bem-vindo. Por mais discussões como qual a melhor saída para a
energia no futuro da sociedade; se apenas transicionar de A para B é
suficiente, ou se reduzir deveria ser visto como tão ambicioso quanto expandir.
Há, contudo, pontos em que a visão colapsista “fecha a questão” em divergência
com propostas típicas do campo progressista.
Para
citar algumas: armamento nuclear, fora de cogitação; desmatamento, idem, ainda
que se supostamente estratégico; fim da dependência de combustíveis fósseis,
utópico, mas serve de norteador.
Mega-obras,
projetos de desenvolvimento como a UHE Belo Monte e a Ferrogrão, não desejo nem
para o pior inimigo. Quando influenciadores de peso da própria esquerda
progressista defendem de forma pusilânime projetos que aceleram a locomotiva
até a Estação Abismo, é sinal suficiente de que há muito trabalho a ser feito
no domínio da comunicação.
Os
Titãs, inocentemente, achavam que o acaso era o suficiente para proteger.
Bobagem. O senso de emergência e a atual qualidade da informação são propícios
para darmos uma forcinha. Quando se esclarecem mecanismos e processos físicos
que atuam na Terra, nosso lar, uma continuação possível da compreensão teórica
– e que recompensa o esforço – passa a ser a contemplação da forma íntima e
estética com a qual reagimos a esses saberes. Fica o convite, garanto que não
será catastrófico.
Fonte:
Por Marcelo Camargo, em A Terra é Redonda

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