O
que as bets estão fazendo no Brasil não tem nome. E o jornalismo com isso?
Recentemente,
a Agência Pública iniciou uma série de reportagens sobre os impactos sociais,
emocionais, políticos e econômicos das bets na sociedade brasileira.
Acompanhada de um manifesto assinado por mais de 60 veículos jornalísticos, a
série mostra uma verdade incômoda para quem acompanha os efeitos devastadores
da liberação das apostas on-line no país: aquilo que as bets estão fazendo no
Brasil não tem nome. Sem um termo adequado para descrever aquilo que estamos
vivenciando, a movimentação iniciada por diversos jornais brasileiros mostra a
urgência e a importância de a imprensa contribuir efetivamente para nomear esse
problema.
Se
partimos do entendimento de que o jornalismo é uma forma social de conhecimento
que é parte do todo e chega no singular, de pronto reconhecemos a importância
de problematizar as bets na produção noticiosa. Para isso, voltamos à
Filosofia, especialmente à Filosofia Feminista, para localizar a contribuição
da imprensa no processo de nomeação daquilo que vem corroendo o Brasil. Por
meio abstrato que a contribuição jornalística pareça nesse processo, são as
notícias e reportagens que poderão auxiliar no processo de conceituação do
fenômeno. Não é que o jornalismo, sozinho, dará um nome ao que as bets estão
fazendo, mas ele fornecerá alguns fragmentos do real para o conceito que irá
interpretar a situação.
Para
pensar como o jornalismo pode atuar no processo de constituição de um suporte
simbólico para dar expressão às vítimas e aos processos que envolvem as apostas
on-line, buscamos na filósofa Miranda Fricker um conceito central para nossa
discussão: o de injustiça hermenêutica, umas das formas de injustiça epistêmica
que incide em alguns grupos sociais. A injustiça hermenêutica – cujo termo já
denuncia a proximidade com o campo jornalístico – é um processo que afeta como
o conhecimento e os sentidos são produzidos, disseminados e compreendidos
coletiva e individualmente. Essa forma de injustiça epistêmica não permite que
conceitos adequados para interpretar uma experiência coletiva sejam criados,
nos tornando incapazes de explicar o que estamos vivendo. Como consequência, os
grupos que sofrem com violências sem nome ficam sem voz.
Voltando
nosso olhar para o fenômeno das bets no país, a injustiça hermenêutica fica
evidente. Faltam-nos recursos simbólicos – palavras ou expressões – para
explicar o que está acontecendo e a amplitude da crise gerada pelas apostas
on-line. Não se trata apenas de um vício, de uma prática criminosa, de uma
atividade recreativa, de um jogo de azar, de uma violência psicológica, de um
assédio publicitário, de um passatempo ou tantas outras perspectivas que
podemos acionar. Na ausência de um termo significativo, recorremos a analogias
para tentar dimensionar o problema – o que acaba criando problemas maiores.
Sem ter
como expressar a questão de forma clara e precisa, sufocamos situações
individuais, inibindo que as vítimas possam se expressar e atuando na
manutenção desse processo corrosivo. Em outros casos, focamos apenas em uma
dimensão e esquecemos de relacionar com outras que também são suas
constituintes. O mais agravante é quando alguns estereótipos são produzidos –
ainda que de maneira não intencional –, deturpando ainda mais o problema e
reduzindo as tentativas de compreensão da problemática. Tudo isso ressalta a
importância de se debater cada vez mais os impactos das apostas on-line em sua
especificidade – e aqui entra o jornalismo.
Enquanto
conhecimento social, o jornalismo consegue traduzir várias dimensões de um
mesmo problema de forma que a sociedade reconheça o que está acontecendo – e
mais, para que o indivíduo possa se reconhecer no interior desse fenômeno. Não
apenas em um sentido ideológico ou informacional, no qual o jornalismo seria um
discurso silenciador de outros ou com a atribuição de iluminar as mentes com
dados e informações sobre o real diário; o jornalismo como conhecimento é uma
forma de promover a compreensão por meio da contextualização do todo
vinculando-o às experiências singulares. Em outros termos, a produção
jornalística é o que faz o indivíduo se tornar coletivo.
Desde a
perspectiva filosófica que adotamos, a problemática das bets toca o jornalismo
por ver nele o suporte para a constituição de um nome para o problema que
vivemos. Partindo de Miranda Fricker, quando falamos de injustiça hermenêutica
devemos observar quatro dimensões fundamentais. Faremos isso com auxílio da
produção jornalística para exemplificar nossa argumentação.
O local
de partida é a falta de vocabulário social, pois ainda não construímos recursos
conceituais – nomes ou expressões – e ferramentas suficientes na nossa cultura
para dar o real significado e a dimensão ao que as vítimas de apostas on-line
estão sofrendo. Ao ler as reportagens sobre a temática nos deparamos com
expressões como: “eles [as bets] são traficantes”, “as bets são um problema de
saúde pública”, “vício em jogos”, “oportunidade de renda extra”. Os diferentes
discursos nos mostram que há distintas dimensões para conceituar esse problema
e que, muitas vezes, quando falamos de uma, ocultamos outras.
Sem
esses instrumentos de compreensão, as experiências individuais não conseguem se
tornar coletivas. É como se cada indivíduo que foi prejudicado pelas bets
vivesse aquilo individualmente, e a pessoa que tem contato com o fenômeno não
consegue localizar a sua experiência no coletivo. Sem o conhecimento
significativo, não há como reconhecer o verdadeiro problema que as apostas
on-line geram na sociedade – e, mais do que isso, compreender que é um problema
social, não individual, como a falta de um nome comum pode sugerir.
O
silenciamento pelas estruturas de poder é outro aspecto. As forças que moldam o
debate público, a produção de conhecimento e a divulgação de informações não
favorecem a expressão das vivências (violentas) dos apostadores. O status quo
atual favorece apenas quem lucra com o sistema. A série de reportagens da
Agência Pública demonstrou como, no Congresso Nacional, há um movimento para
blindar as empresas de apostas; que há aportes milionários em veículos de mídia
que fazem propagandas da prática de aposta; e que empresas de apostas são
negociadas na bolsa de valores.
Diretamente
vinculada ao ponto anterior, a marginalização social também se manifesta quando
falamos da incapacidade de compreensão do fenômeno das bets. Grande parte das
vítimas das apostas on-line pertence a grupos socialmente vulneráveis, que
historicamente já têm os seus conhecimentos, as suas dores e as suas
experiências constantemente questionados e invalidados. Reportagens sobre a
temática evidenciam que as pessoas da Classe D e E são as que mais gastam com
as apostas, retirando o orçamento de outras áreas financeiras e que os jovens
com menos de 30 anos estão buscando cada vez mais atendimento especializado em
vício de jogos.
Como
resultado, temos o processo de ininteligibilidade do problema, ou seja, a falta
de compreensão coletiva desse fenômeno impede que as vítimas consigam entender
a gravidade do que estão passando e, consequentemente, saibam como buscar ajuda
ou reparação. Socialmente, isso gera um certo reducionismo e estereotipação do
problema, minimizando a influência do todo em cada pessoa que tem contato com
as apostas on-line. Sem compreender o problema, não há como buscar solução.
Com
isso, queremos nos posicionar na defesa de que se a imprensa por si não
resolverá o problema, tampouco ela deva se furtar de expor, problematizar e
apontar os efeitos nocivos da prática. O jornalismo não dará o nome, mas é a
forma mais eficaz para tornar compreensível a questão das bets. Porque não
basta dar o nome ao fenômeno para que ele passe a existir – é necessário que um
conceito explicativo seja trabalhado ao longo do tempo. Recorrendo a um exemplo
prático, as mulheres não passaram a ser assassinadas por serem mulheres apenas
quando se nomeou feminicídio. O que o termo ampliou foi a compreensão social do
tema, inserindo as multidimensionalidades que envolvem esse processo.
E já
que o problema das bets no Brasil ainda não tem nome, a principal forma de
conhecimento social – que é capaz de articular o todo ao individual, o coletivo
ao singular, de situar o indivíduo na totalidade vivida – se furtará a ajudar
na compreensão do problema? O jornalismo talvez não dê o nome para o problema,
mas com certeza dará os elementos necessários para compreender a epidemia de
bets que vem devastando a sociedade brasileira.
• Alta demanda faz Ministério da Saúde
ampliar teleatendimento para viciados em bets
O SUS
(Sistema Único de Saúde) passa a oferecer, a partir desta terça-feira (4), até
cem mil teleatendimentos mensais em saúde mental para pessoas com problemas
relacionados a jogos e apostas, de acordo com o Ministério da Saúde.
O
serviço inclui atendimento remoto, sigiloso e acolhedor, com orientação e
acompanhamento profissional, além de suporte a familiares, afirma a pasta.
O
teleatendimento a apostadores começou em março, com oferta inicial de 600
atendimentos mensais, por meio do Proadi-SUS (Programa de Apoio ao
Desenvolvimento Institucional do SUS), em parceria com o Hospital
Sírio-Libanês. A capacidade foi ampliada diante da alta procura, diz o
ministério.
Conforme
dados da pasta, mais de 1 milhão de pessoas já solicitaram a autoexclusão do
CPF de plataformas de apostas por meio da Plataforma Centralizada de
Autoexclusão, ferramenta do Observatório Saúde Brasil de Apostas Eletrônicas,
parceria entre os ministérios da Saúde e da Fazenda.
Entre
os motivos informados, 35% dos usuários citaram a perda de controle sobre o
jogo.
Outros
motivos apontados foram a decisão voluntária de parar de apostar (15,26%),
dificuldades financeiras (11,82%) e recomendação de profissional de saúde
(1,32%).
Somente
durante a Copa do Mundo, entre 11 de junho e 19 de julho, 387.645 pessoas
pediram o bloqueio do CPF, o correspondente a 38% de todas as autoexclusões já
registradas na plataforma.
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Como acessar
O
acesso é feito pelo aplicativo Meu SUS Digital, que direciona o usuário à
plataforma da AgSUS, parceira da iniciativa. A equipe é formada por psicólogos,
enfermeiros e outros profissionais capacitados para escuta qualificada.
Para
acessar o teleatendimento, o usuário entra no aplicativo com a conta gov.br,
seleciona “Miniapps” e depois “Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para
Quem Aposta”. Após um autoteste, é direcionado à AgSUS, aceita o termo de uso e
preenche um formulário sobre sua situação.
As
consultas psicológicas duram cerca de 50 minutos e ocorrem, preferencialmente,
uma vez por semana, por videochamada. O psicólogo pode indicar um ciclo inicial
de até dez sessões, seguido de nova avaliação que define alta, novo ciclo de
teleconsultas ou encaminhamento para atendimento presencial.
O
serviço também funciona como porta de entrada para a Rede de Atenção
Psicossocial (Raps), que conta hoje com 3.120 Caps em funcionamento no país,
segundo o ministério.
Entre
os sinais que podem indicar uma relação problemática com jogos e apostas estão
alterações no sono, na alimentação ou no humor, ansiedade e irritabilidade
quando a pessoa não está jogando, dificuldade para reduzir ou interromper as
apostas e sentimentos de culpa ou vergonha.
Também
merecem atenção comportamentos como esconder ou mentir sobre as apostas,
comprometer o orçamento ou as relações pessoais e profissionais, e recorrer aos
jogos como forma de lidar com estresse, ansiedade ou frustração, segundo o
ministério.
Fonte:
Por Wellington Felipe Hack, no Observatóro da Imprensa

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