quarta-feira, 12 de agosto de 2026

'Soberania nuclear não é fazer tudo sozinho': o que prevê parceria nuclear Brasil-Rússia

Na terça-feira (4), Nikolai Patrushev, assessor do Kremlin e chefe do Colegiado Marítimo russo, esteve em Brasília para apresentar ao governo brasileiro possibilidades de cooperação estratégica em tecnologia nuclear, tanto na área de energia quanto em projetos científicos.

Durante a visita, Patrushev se reuniu com o ministro da Defesa, José Mucio, e com o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim. Segundo o assessor russo, a experiência de Moscou nesses setores poderia ser aproveitada por Brasília, com foco no desenvolvimento de projetos civis e no uso pacífico da energia atômica.

Entre as frentes discutidas está o fornecimento de pequenas usinas nucleares e baterias atômicas, sobretudo para ampliar a geração de energia e atender regiões remotas do território brasileiro. Também foram avaliadas parcerias no ciclo do combustível nuclear e na produção de radioisótopos para medicina.

<><> Cooperação nuclear

Em destaque, o desenvolvimento do primeiro submarino nuclear do Brasil, o Álvaro Alberto (SN-10), pode se beneficiar do intercâmbio com a Rússia. Patrushev afirmou que Moscou também poderia compartilhar conhecimentos acumulados no desenvolvimento de reatores de pequena escala, tecnologia com possíveis aplicações civis e navais.

Entre as tecnologias mencionadas pelo assessor estão as usinas nucleares de pequeno porte Elena-M e unidades flutuantes de geração de energia. Segundo Patrushev, essas estruturas poderiam fornecer eletricidade por longos períodos, com menor necessidade de manutenção, inclusive para regiões brasileiras distantes dos principais centros de infraestrutura.

A cooperação poderia envolver, além da estatal russa Rosatom, o Instituto Kurchatov, que, segundo Patrushev, também teria capacidade para participar de projetos conjuntos. A possibilidade de ampliar a parceria ocorre após a Rosatom ter oferecido, em outubro do ano passado, à Âmbar Energia a instalação de pequenos reatores para geração de eletricidade em regiões como a Amazônia.

Segundo Leonam dos Santos Guimarães, diretor técnico da Associação Brasileira para Desenvolvimento das Atividades Nucleares (ABDAN) e coordenador do Comitê de Ciência, Tecnologia e Inovação da Amazul, a cooperação russa pode complementar elos da cadeia industrial de reatores nos quais o Brasil ainda não possui capacidade ou experiência.

Isso inclui engenharia de reatores avançados, fabricação e qualificação de componentes, instrumentação e controle, radioisótopos, serviços do ciclo do combustível, formação de pessoal e, principalmente, experiência na implantação de pequenos reatores em sistemas isolados. "Para o Brasil, seria mais interessante comprar capacidade tecnológica do que simplesmente comprar megawatts".

Mais do que o fornecimento de equipamentos, porém, a forma como a parceria será estruturada pode determinar seu impacto sobre a autonomia tecnológica brasileira. O principal ganho estaria na transferência de conhecimento e na capacidade de nacionalizar progressivamente as tecnologias incorporadas.

Um acordo que preveja transferência tecnológica, formação de engenheiros brasileiros, localização progressiva da fabricação, acesso à documentação e capacidade nacional de manutenção poderia ampliar a autonomia do país.

"Soberania nuclear não significa fazer tudo sozinho; significa não ficar tecnologicamente refém de ninguém."

Guimarães ressalta ainda que uma política bem coordenada deveria combinar desenvolvimento nacional e diversidade de parceiros, reduzindo dependências e ampliando a capacidade de negociação brasileira.

Astrid Cazalbón, pesquisadora e integrante do Grupo de Estudos sobre Segurança Energética (Gesene), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), destaca que a cooperação nuclear entre Brasil e Rússia não parte do zero. Os dois países já mantêm relações em diferentes áreas do setor, o que pode facilitar o acesso brasileiro a experiências e soluções ainda pouco desenvolvidas no país.

A dimensão marítima ganha particular relevância diante da extensão da costa brasileira e do peso estratégico das atividades offshore. O intercâmbio nessa área, avalia, pode contribuir para o desenvolvimento de capacidades relacionadas ao monitoramento oceânico, à proteção de infraestruturas críticas e a tecnologias avançadas para a economia do mar. A cooperação, portanto, poderia alcançar setores estratégicos além da geração de energia.

"Os pequenos reatores, por sua vez, ainda constituem tecnologias emergentes que vêm despertando interesse crescente em diversos países", afirma. Embora existam desafios regulatórios e comerciais para sua adoção em larga escala, a tecnologia pode abrir novas possibilidades para sistemas energéticos isolados e regiões remotas.

<><> Cooperação em meio à instabilidade global

Como explica Cazalbón, a cooperação nuclear entre Brasil e Rússia também deve ser entendida no contexto do fortalecimento da autonomia tecnológica dos países do Sul Global. "A cooperação com parceiros que dominam tecnologias estratégicas pode representar uma oportunidade importante de capacitação, inovação e desenvolvimento industrial". Um dos exemplos desse movimento é a criação da Plataforma de Energia Nuclear do BRICS, lançada durante a presidência russa do agrupamento.

A iniciativa busca ampliar o intercâmbio tecnológico, coordenar posições sobre questões nucleares, incentivar projetos conjuntos de pesquisa e fortalecer a cooperação empresarial entre os países do bloco.

Para Cazalbón, a expansão recente do BRICS aumenta a relevância desse tipo de articulação, já que o grupo reúne uma parcela significativa da população mundial, da demanda energética e da geração de eletricidade.

A aproximação, contudo, ocorre em um cenário de crescente competição internacional por tecnologias estratégicas, cadeias produtivas e fontes de energia. A Rússia é um dos principais atores da indústria nuclear civil e disputa mercados com empresas norte-americanas, europeias e asiáticas. Por isso, segundo a pesquisadora, a ampliação da presença tecnológica russa na América Latina tende a ser acompanhada atentamente por outras potências, sobretudo diante do fortalecimento das articulações entre países emergentes.

"A energia nuclear permanece sendo um dos setores mais sensíveis da geopolítica contemporânea."

Para o Brasil, entretanto, a diversificação de parceiros não representa necessariamente uma escolha entre Rússia e Ocidente. Cazalbón avalia que a estratégia pode ampliar a margem de manobra brasileira ao evitar uma dependência excessiva de qualquer fornecedor ou grupo de países.

"Trata-se, sobretudo, da ampliação das opções disponíveis para fortalecer a soberania energética, industrial, científica e tecnológica do Brasil."

<><> Microrreatores para regiões remotas

Guimarães aponta a região Norte como principal campo de aplicação dos microrreatores no Brasil. "A EPE identifica cerca de 200 localidades pertencentes aos Sistemas Isolados, concentradas majoritariamente no Norte". Em locais onde a expansão da rede elétrica convencional é cara ou pouco viável, a tecnologia poderia funcionar como fonte de geração de longa duração, reduzindo a necessidade de abastecimento frequente.

Isso não significa, porém, que seria adequada para qualquer comunidade isolada. A aplicação faria mais sentido em polos de consumo com demanda relativamente estável e elevada, como operações de mineração, instalações estratégicas, bases militares, centros industriais, grandes comunidades ou agrupamentos de cargas próximas.

Nesses casos, o custo de implantação poderia ser compensado pela redução das despesas associadas ao transporte e armazenamento de grandes volumes de diesel em regiões de difícil acesso.

A principal vantagem estaria em substituir a dependência de uma logística contínua de combustíveis fósseis por uma fonte capaz de operar por longos períodos sem reabastecimento frequente. "Um microrreator pode substituir uma logística permanente de diesel por uma logística nuclear muito menos frequente. Essa é precisamente uma das aplicações consideradas internacionalmente para essa classe de reatores", afirma.

A operação em regiões remotas, no entanto, também traz desafios próprios de segurança. "Aqui é importante separar segurança nuclear (safety) de proteção física (security)", explica. Além da prevenção de acidentes, seria necessário considerar proteção contra sabotagem, controle de acesso, ameaças internas, segurança cibernética e capacidade de resposta a emergências — aspectos especialmente relevantes em instalações distantes dos grandes centros.

A logística também mudaria de natureza. No caso de microrreatores com núcleo selado ou módulos transportáveis, o transporte do equipamento ou do combustível passaria a integrar o próprio sistema de segurança, exigindo planejamento de rotas, monitoramento, comunicações e protocolos de emergência.

Assim, o potencial da tecnologia não está apenas na capacidade de gerar energia por longos períodos, mas na possibilidade de oferecer uma alternativa aos sistemas de geração que dependem de uma cadeia contínua de abastecimento em regiões de difícil acesso.

<><> Importações de urânio da Rússia pelo Brasil batem valor recorde desde 1997

As importações pelo Brasil de urânio proveniente da Rússia em julho deste ano dispararam para seu nível mais alto desde 1997, apontam dados do serviço de estatística brasileiro analisados pela Sputnik.

Segundo a análise, o Brasil importou urânio da Rússia no valor de 84,5 milhões de dólares (R$ 430 milhões). Este foi o maior volume de entregas desde pelo menos 1997 (dados anteriores não são divulgados).

Em termos mensais, as entregas aumentaram 168 vezes em relação aos US$ 504.000 de junho. Em termos anuais, o aumento foi de 172 vezes, contra US$ 492.000 em julho passado. Este aumento é devido ao fato de que os fornecimentos mensais de urânio normalmente totalizam várias centenas de milhares de dólares. A última vez que as importações brasileiras ultrapassaram a marca de um milhão foi em agosto de 2025 – 28,8 milhões de dólares (R$ 146,7 milhões).

Como resultado, em julho a Rússia ocupou o primeiro lugar entre os fornecedores de urânio do Brasil. No mês anterior, tal como há um ano, o país estava em quinto lugar. Os cinco principais países incluíam os EUA (2,9 milhões de dólares), a Argentina (2,5 milhões de dólares), a Itália (1,5 milhão de dólares) e a Alemanha (994.000 dólares).

¨      China acelera expansão nuclear e pode superar capacidade dos EUA nos próximos anos, diz mídia

A China acelera a expansão de sua energia nuclear com construção rápida, custos baixos e forte coordenação estatal, enquanto os EUA enfrentam atrasos e financiamentos caros. Com dezenas de reatores em operação e em obras, Pequim caminha para superar a capacidade nuclear norte-americana nos próximos anos.

A China vem avançando em energia nuclear em ritmo muito superior ao dos Estados Unidos, onde atrasos, custos elevados e entraves regulatórios paralisam novos projetos. O modelo chinês, fortemente dirigido pelo Estado, permite construção acelerada, embora o país enfrente limitações geográficas para expandir ainda mais sua infraestrutura.

De acordo com o South China Morning Post, a diferença ficou evidente quando François Morin, da Associação Nuclear Mundial, levou engenheiros estrangeiros à Shanghai Electric. Eles encontraram componentes pesados — de geradores de vapor a núcleos de reatores — já montados e prontos para envio, mesmo antes do início das obras nos locais de instalação, algo incomum em cadeias de suprimentos ocidentais.

Segundo Morin, foi ali que os visitantes compreenderam a escala da capacidade chinesa. Enquanto os EUA conectaram apenas duas novas unidades nucleares desde 2016, a China adicionou 27 reatores operacionais no período, quase dobrando sua capacidade instalada.

Especialistas consultados pela mídia, como Victor Nian, cofundador e copresidente do Centro para Energia Estratégica e Recursos (CSER, na sigla em inglês), um think tank sediado em Cingapura, afirmam que a China é hoje o único país com continuidade plena na experiência de construção nuclear. Essa trajetória foi possível porque Pequim manteve a energia nuclear como peça central da transição verde, mesmo após suspensões temporárias motivadas por auditorias de segurança após Fukushima.

A padronização dos projetos — centrados no Hualong One e no CAP1000 — reduziu custos e acelerou cronogramas. Com fornecedores nacionais produzindo quase todos os componentes e com planejamento estatal coordenando entregas, concluir reatores em cinco anos tornou-se rotina, segundo a apuração.

Nos EUA, o contraste é marcante: as unidades 3 e 4 de Vogtle levaram mais de uma década para serem concluídas, acumulando atrasos e estouros de orçamento. Para Morin, o principal obstáculo ocidental é o financiamento caro, enquanto construtores chineses têm acesso a empréstimos com juros muito baixos.

Esse apoio estatal permite que fabricantes iniciem a produção de equipamentos antes mesmo das obras, garantindo entregas antecipadas e segurança para toda a cadeia. Aprovações constantes do Conselho de Estado reforçam a previsibilidade e mantêm o ritmo de expansão.

Com custos reduzidos — o LCOE chinês pode chegar a US$ 42/MWh (R$ 209/MWh), quase metade do valor estimado para projetos financiados a 5% de juros. Atualmente, o país opera 62 reatores e constrói outros 58, colocando-se no caminho para ultrapassar a capacidade nuclear dos EUA nos próximos anos, conclui a mídia asiática.

<><> Indústria naval chinesa acelera corrida marítima e pressiona hegemonia dos EUA, aponta mídia

A capacidade enfraquecida dos Estados Unidos na construção naval coloca sua Marinha em desvantagem, enquanto a China se beneficia da escala e da solidez de seus estaleiros comerciais, informou um jornal britânico.

O jornal elabora que a iniciativa da China de afirmar seu controle sobre as águas que reivindica e de ampliar sua influência no exterior exigiu a rápida expansão de sua Marinha.

"O domínio naval dos EUA está cada vez mais ameaçado, já que a China construiu seu próprio baluarte flutuante [...]. Os Estados Unidos carecem profundamente de algo que a China possui: sua ascensão como potência naval tem sido sustentada por uma vasta indústria de construção naval comercial", ressalta a publicação.

Segundo a matéria, a produção civil e a militar são reforçadas mutuamente, mantendo os estaleiros, os fornecedores e os trabalhadores qualificados chineses ativos e permitindo a transferência de tecnologias e capacidades de fabricação comuns para programas navais.

Em contrapartida, a construção naval comercial dos Estados Unidos encolheu, resultando em uma participação global insignificante e deixando os estaleiros navais com capacidade limitada, custos elevados e atrasos persistentes.

Além disso, as regras protecionistas dos EUA para o transporte marítimo interno não conseguiram restaurar a competitividade, e programas-chave de navios de guerra e submarinos continuam atrasados.

Embora Washington esteja buscando subsídios, parcerias estrangeiras e reformas, o ecossistema de construção naval da China, muito maior e mais integrado, coloca sua frota em posição cada vez mais favorável para se expandir e se modernizar mais rapidamente do que a Marinha dos EUA, conclui a reportagem.

Anteriormente, um veículo da mídia ocidental havia informado que o grupo de ataque do porta-aviões Liaoning, da China, amplia o alcance operacional da Marinha do país em águas distantes.

As operações envolvendo o porta-aviões Liaoning e sua força-tarefa contribuem para o avanço do treinamento de combate em águas distantes e desenvolvem capacidades de combate integradas e de longo alcance, podendo influenciar o futuro equilíbrio de poder na região da Ásia-Pacífico.

<><> China critica sanções dos EUA contra Cuba por colaboração com Pequim e Moscou

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, instou Washington a suspender as sanções contra Cuba e que pare de difamar outros países.

Os comentários foram feitos após as novas sanções dos EUA contra empresas e pessoas de Cuba, impostas devido a uma suposta cooperação técnico-militar entre Havana, Pequim e Moscou.

"Instamos veementemente os Estados Unidos a suspenderem as sanções e o bloqueio contra Cuba o mais rápido possível e a pararem de difamar outros países", disse Jiakun nesta segunda-feira (10).

Ele afirmou, ainda, que a cooperação entre a China e Cuba é aberta e transparente e Pequim continuará a apoiar Havana na defesa da soberania nacional e na resistência à interferência externa.

Recentemente, os Estados Unidos aumentaram a pressão política e econômica sobre Cuba. No final de janeiro, os EUA autorizaram a imposição de tarifas sobre as importações de países que fornecem petróleo a Cuba e declararam estado de emergência devido a uma alegada ameaça cubana à segurança nacional dos EUA.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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