A
política que tirou o Brasil do Mapa da Fome – e por que o Nordeste é a prova do
seu acerto
Poucas
políticas públicas brasileiras foram tão estudadas, tão testadas por
pesquisadores de diferentes áreas e tão eficazes quanto o Programa Bolsa
Família (PBF). Criado em 2004, ele se tornou o maior programa condicionado de
transferência de renda do mundo e, ao longo de quase duas décadas, ajudou a
tirar o Brasil do Mapa da Fome da ONU, reduziu a pobreza e a extrema pobreza no
país em 15% e 25%, respectivamente, entre 2004 e 2019, e diminuiu a insegurança
alimentar grave nas residências brasileiras. Ainda assim, poucas políticas
carregam tanto preconceito e desinformação. É hora de separar o que os dados
mostram do que a opinião pública, muitas vezes por ignorância ou má-fé, insiste
em repetir.
<><
Muito mais do que dinheiro: uma rede de proteção social
O erro
mais comum de quem critica o Bolsa Família é tratá-lo como um simples repasse
de dinheiro. Na prática, o programa nasceu como a porta de entrada para uma
estrutura muito maior: o Cadastro Único, o Sistema Único de Assistência Social
(SUAS) e uma rede de acompanhamento em saúde e educação. Foi essa articulação –
e não apenas o valor do benefício – que produziu resultados tão amplos: entre
2006 e 2015, a mortalidade infantil de crianças de zero a cinco anos caiu 16%
no país, e pesquisas do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde
(Cidacs), da Fiocruz Bahia, mostraram uma redução de 17% na mortalidade de
crianças de um a quatro anos entre as famílias beneficiárias, com impacto ainda
maior entre crianças nascidas prematuras, filhos de mães pretas e moradores dos
municípios mais pobres. O Bolsa Família demonstrou, pela primeira vez de forma
tão clara, que a redução da pobreza também produz saúde.
O
Cadastro Único, alimentado pelas famílias que buscavam o benefício, também
funcionou como uma espécie de censo permanente da desigualdade social
brasileira, permitindo que o poder público direcionasse políticas como o Mais
Médicos, a construção de cozinhas escolares e o combate à desnutrição infantil
exatamente para os territórios mais pobres. Um programa de transferência de
renda, portanto, que se transformou em instrumento de planejamento e de justiça
social – algo que nenhuma fake news sobre “esmola eleitoreira” é capaz de
desmentir.
<><>
Desmontando os dois maiores mitos
>>>
Mito 1: quem recebe o Bolsa Família não procura emprego
Essa é
talvez a acusação mais repetida e mais desmentida pelos dados. Uma avaliação de
impacto conduzida pelo então Ministério do Desenvolvimento Social, em 2012,
mostrou que a proporção de pessoas ocupadas ou em busca de trabalho era
praticamente igual entre beneficiários e não beneficiários – em torno de 65% a
70%, entre 19 e 55 anos, com os números se igualando completamente a partir dos
30 anos. Um relatório do Banco Mundial de 2021 confirmou o achado: o benefício
representa, em média, apenas um quarto da renda total das famílias atendidas, e
70% dos adultos aptos para o trabalho já estavam inseridos na força de
trabalho, apenas com renda insuficiente para escapar da pobreza sozinhos. A
“opção pelo não trabalho” aparece somente num recorte muito específico e
pequeno: mães jovens que acabaram de ter filhos e que, sem rede de apoio,
precisariam deixar a criança sozinha ou aos cuidados de vizinhos para voltar à
ativa.
>>>
Mito 2: famílias têm mais filhos para receber mais benefício
Os
números do IBGE contradizem frontalmente essa narrativa. Entre 2003 e 2013, o
número de crianças de até 14 anos caiu 10,7% no Brasil – e essa queda foi ainda
mais acentuada, de 15,7%, exatamente entre os 20% mais pobres da população, o
segmento onde se concentram os beneficiários do programa. Ou seja, quem recebe
o Bolsa Família teve, proporcionalmente, mais redução na natalidade do que a
média nacional. O mito da “indústria da pobreza” não resiste a uma consulta
simples aos dados públicos.
<><>
O Nordeste: onde o programa mais importa – e onde ele funciona melhor
Se
existe uma região que resume o significado do Bolsa Família, é o Nordeste.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), de 2019,
mostram que a região concentra 51,5% de todos os beneficiários do país – mais
da metade –, chegando a 64,2% dos beneficiários no meio rural nordestino. Não é
coincidência: o Nordeste carrega historicamente as maiores taxas de pobreza,
mortalidade infantil e analfabetismo do Brasil, heranças de um processo de
desigualdade regional que remonta à formação econômica do país.
O que a
desinformação raramente menciona é que, além de concentrar os beneficiários, o
Nordeste também se destaca pela eficiência com que os recursos do programa se
traduziram em melhoria social. Um estudo publicado na Revista de
Desenvolvimento Econômico, que aplicou o método de Análise Hierárquica (AHP)
cruzando indicadores como Índice de Gini, renda per capita, mortalidade
infantil, esperança de vida, frequência escolar e analfabetismo com os valores
repassados pelo PBF entre 2004 e 2016, chegou a uma conclusão contundente: os
cinco estados mais bem colocados no ranking de eficiência – Piauí, Alagoas,
Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará – pertencem todos ao Nordeste. Estados
nordestinos como Piauí e Alagoas conseguiram, inclusive, gerar mais avanço socioeconômico
proporcional do que estados que receberam volumes ainda maiores de recursos.
Enquanto isso, os piores desempenhos concentraram-se em estados do Norte, como
Amazonas, Roraima e Amapá – evidência de que o problema, quando existe, está na
gestão local e não no desenho do programa.
Além
disso, os dados da PNADC de 2019 mostram outra dimensão importante da política
no Nordeste: o pagamento preferencial às mulheres. Mais de 90% dos titulares do
benefício na região são mulheres, tanto na área urbana quanto na rural,
reforçando a autonomia financeira feminina em uma das regiões historicamente
mais marcadas por desigualdade de gênero no acesso à renda.
<><>
Uma política que educa, alimenta e cuida – sem tirar a vontade de trabalhar
Entre
2004 e 2009, a insegurança alimentar grave – a fome, sem eufemismos – caiu de
33,3% para 29,4% nas cidades e de 43,6% para 35,1% no campo. O total de
crianças pobres com baixa estatura nessa faixa etária caiu de 14,2% para 12,7%.
Estudos apontam ainda melhora no percentual de cura de tuberculose, detecção
mais precoce de hanseníase e mudanças positivas no perfil nutricional infantil
entre os beneficiários. Nenhum desses resultados aconteceria por acaso, e
nenhum deles é compatível com a caricatura de um programa que “acomoda” a
pobreza em vez de combatê-la.
O que
os estudos mostram, na verdade, é o oposto do que dizem os boatos: o Bolsa
Família jamais pretendeu substituir o trabalho ou o salário – ele sempre
representou, em média, apenas uma fração da renda familiar –, mas funcionou
como o alicerce que permitiu a milhões de famílias, sobretudo no Nordeste, sair
da fome, manter os filhos na escola, reduzir a mortalidade infantil e
reconstruir, ainda que aos poucos, a esperança de uma vida menos marcada pela
pobreza extrema. Defender o Bolsa Família com base em evidências não é uma
posição ideológica: é reconhecer, com os números na mão, uma das políticas
sociais mais bem-sucedidas da história recente do Brasil.
Fonte:
Por Jô Cavalcanti, Tiago Paraiba e Michel Chaves, no Le Monde

Nenhum comentário:
Postar um comentário