O
que falta no programa de Lula
O
coordenador do programa do governo do presidente e candidato à reeleição Lula,
José Sergio Gabrielli, está se reunindo com as empresas para ouvir suas
críticas; o mesmo fazem os principais secretários do Ministério da Fazenda.
Sergio Gabrielli defendeu em São Paulo o aumento do salário-mínimo para
estimular a saída dos beneficiários do Bolsa Família. Reconheceu que a dívida
pública está elevada, mas para ele a principal questão a ser resolvida é a do
custo das emendas orçamentárias no orçamento. O combate à inflação não deve
limitar-se à política monetária. Chegou a falar em controle cambial “para
reduzir a volatilidade da taxa de câmbio”.
Suas
propostas são interessantes, mas, exceto a última, são propostas comuns em
coligações de centro-esquerda e desenvolvimentistas, que conflitam com as
políticas liberais defendidas pelos representantes de rentistas e financistas
que, dominam a política econômica no Brasil. Um conflito que nos três governos
Lula tem-se mostrado contornável através de compromissos feitos pelas duas
partes. E há muitas políticas consensuais como o aumento dos investimentos em
educação e em infraestrutura.
Mas
algumas questões essenciais para a retomada do desenvolvimento estão em falta
no programa que está sendo pensado. O Brasil é uma economia quase-estagnada,
crescendo pouco mais de 2% ao ano. Quais as causas desse mau desempenho que
governos tanto de centro-esquerda quanto de direita não foram capazes de
resolver desde 1990, ano em que o país embarcou no liberalismo econômico sob o
comando de Fernando Collor?
A causa
maior foi a adoção desse liberalismo econômico ou neoliberalismo, cuja
consequência imediata foi ter o Brasil ter perdido um razoável controle da taxa
de juros e da taxa de câmbio, preços macroeconômicos que, sim, são definidos
pelo mercado, mas sobre os quais o país precisa ter algum domínio.
Até
1990 o Brasil tivera o controle dos capitais, o que lhe permitia ter taxas de
juros razoavelmente baixas e taxas de câmbio competitivas; isto até a grande
crise da dívida externa dos anos 1980 que abalou toda a economia brasileira.
Graças a isso, se uma empresa tivesse competitividade técnica, ela estaria em
condições de exportar sem ajuda de subsídios. Quando a taxa de juros tende a
ser muito alta e a taxa de câmbio, apreciada, uma empresa com competitividade
técnica não terá competitividade econômica.
Hoje há
um grave problema de competitividade técnica na indústria brasileira. Entre
1950 e 1980, a produtividade aumentou fortemente em comparação com os países já
industrializados, mas isto não impediu que muitos setores da indústria eram
ainda infantes, de forma que as tarifas aduaneiras foram essenciais para
assegurar crescimento acelerado de então. No final do período, as tarifas
passaram a ser usadas também com um segundo objetivo: nos momentos de boom dos
preços das commodities exportadas, elas neutralizavam a doença holandesa,
impedindo que a súbita valorização do Real levasse as empresas industriais ao
prejuízo e à quebra.
Em
1990, a abertura comercial e financeira desmontou essa estratégia de
desenvolvimento – desmonte que permanece até hoje. Diante disso, que fazer para
elevar a taxa média de lucro das empresas produtivamente sofisticadas – tanto
as industriais quanto as de serviços sofisticados – que têm alto valor
adicionado per capita e pagam bons salários?
Em
relação à taxa de câmbio é preciso, primeiro, voltar a adotar uma política
cambial, para isso fechando gradualmente a conta de capitais. Segundo, reduzir
gradualmente visando zerar em alguns anos os déficits em conta corrente que
apreciam a taxa de câmbio na proporção do próprio déficit.
Terceiro,
o governo precisa estar preparado para, quando houver um boom de commodities,
neutralizar a doença holandesa que aprecia ciclicamente o real, com
consequências destrutivas para a produção de bens e serviços sofisticados.
Quarto, contar com um presidente do Banco Central que, além de estar
comprometido com o controle da inflação, saiba que terá que colocar como um de
seus objetivos terminar com a captura do patrimônio público pelo mercado
financeiro (rentistas e financistas).
A
recuperação de um relativo controle sobre esses dois preços macroeconômicos
deverá ser combinada com uma política industrial de tarifas e subsídios para
determinados setores da economia. A partir de então, as empresas de bens e
serviços sofisticados deverão realizar uma taxa de lucro satisfatória –
suficiente para estimular o investimento produtivo.
Por
outro lado, o progresso técnico assume hoje uma importância especial. O plano
de governo deverá incluir um projeto de modernização da indústria que, desde os
anos 1980, alcança baixas taxas de lucro e, por isso, não teve condições nem de
se modernizar, nem de entrar em novos setores de alta tecnologia. Ao invés, o
país se tornou tecnologicamente atrasado.
Só a
agricultura e a pecuária, que não precisam de apoio especial do Estado para
serem lucrativas, porque gozam de vantagens comparativas imediatas, se
desenvolveram tecnologicamente. E o setor de serviços não-sofisticados também
prosperou, porque a taxa de câmbio lhe é indiferente.
Além
disso, é mais ou menos consensual que Lula ou seu adversário, em 2027, deverão
fazer um forte ajuste fiscal para parar e se possível reverter o crescimento da
dívida pública em relação ao PIB.
O que
estou propondo é basicamente o que fazem a China e a Índia e os demais países
do sul, sudeste e leste da Ásia. É uma política desenvolvimentista de
intervenção moderada do Estado na economia e de defesa dos interesses
nacionais.
Terá o
candidato Lula disposição para começar a discutir essas questões no seu
programa de governo? E o que é mais importante, terá ele a determinação para
levar adiante essas ideias? É difícil responder a esta questão. Por enquanto
ele se concentrou no que é próprio dele, promover a distribuição que diminui a
desigualdade.
Mas o
governo que provavelmente iniciará em 2027 será seu último governo, e talvez
ele se disponha a arriscar mais. Inclusive porque sua política de distribuição,
baseada no salário-mínimo e na elevação da faixa de isenção do imposto de
renda, é em grande parte neutralizada pelos juros extremamente elevados que
existem no Brasil há muito e pela taxa de câmbio cronicamente valorizada.
Fonte:
Por Luiz Carlos Bresser-Pereira, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário