SUS:
da gestão à política, o plano da Abrasco
Em evento no auditório da Faculdade de
Saúde Pública da USP, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva lançou seu 1o Plano
Diretor da Área de Políticas Públicas, Planejamento e Gestão da Saúde. Mais do
que um guia para a administração pública e para o SUS, o documento é um
manifesto de entrada em um novo tempo histórico.
No
evento público, mesas com diversos sanitaristas fizeram falas enfáticas sobre a
atual etapa neoliberal do sistema capitalista. Dessa forma, o Plano Diretor
visa colocar o campo da Saúde Coletiva em um novo momento prático, fiel ao
referencial teórico que deu origem à Reforma Sanitária Brasileira.
O documento oficial do Plano
Diretor considera não ser possível falar em direito à saúde sem compreensão da
conjuntura histórica: “sob esse panorama, enfrentamos desafios urgentes e
globais para a saúde das populações derivados da crise climática, do
desmatamento, do uso intensivo de agrotóxicos, da emergência de pandemias, das
tecnologias digitais desregulamentadas, da escassez de água e da extração
predatória de recursos naturais. Esses processos, inerentes à lógica predatória
do capital neoextrativista, produzem impactos diretos à saúde e ao meio
ambiente, exigindo respostas estratégicas e inovadoras de governos e da
sociedade”.
Apesar
de o Brasil viver o período eleitoral, a disputa política das urnas não foi
objeto de debate. O movimento da Abrasco soa como uma reorganização do campo da
Saúde Coletiva com sentido histórico ampliado.
“Nossa
organização é singular, inclusive pela construção do SUS e processo de saída da
ditadura. A Saúde Coletiva é um movimento que construiu um campo científico.
Planos diretores fortalecem a noção do que somos e atualizam nossa agenda”,
explicou Rômulo Paes de Sousa, presidente da Abrasco.
De
acordo com a leitura política expressada, há um esgotamento generalizado das
formas de governança da democracia liberal. A iniciativa da Abrasco visa a
recuperar o elo entre a atuação cotidiana na gestão dos serviços de saúde e a
concepção política.
“O
plano aproxima a reforma sanitária do SUS. Períodos mais democráticos podem
‘acomodar’ um pouco e dão a ideia de compatibilidade do capitalismo com
ampliação de direitos. Gera-se um maior foco em políticas específicas. Mas o
momento nos impede de olhar ações específicas e exige um olhar geral”,
disse Ana Luiza D’Avila Viana, economista e professora do Instituto de
Saúde Coletiva da UFBA.
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O que diz o plano
Com
base no documento, há dez temas críticos e transversais que orientam todas as
ações do plano. Eles representam as questões mais urgentes e complexas que a
área de PPGS deve incorporar em suas análises, pesquisas, formação e atuação
política. Alguns deles são: Colonialidade e opressões (racismo,
patriarcado); Estratégias de acumulação do setor
privado (financeirização e oligopolização); Iniquidades e populações
vulnerabilizadas; Emergência climática como emergência sanitária;
o Papel do Estado e das instituições políticas no SUS;
a Precarização do Trabalho; a Soberania Digital; a crítica
ao Modelo de produção de vida e cuidado; o combate
ao Ultraconservadorismo/Novos fascismos; e a Soberania alimentar.
Estes temas devem ser transversais a todos os eixos estratégicos.
Já
s objetivos estratégicos do plano estão organizados em três eixos
principais, que resumem as frentes de atuação da Comissão: O Eixo 1 –
Ensino e Formação em PPGS: com o objetivo fortalecer a formação crítica e
interseccional na área, superando a fragmentação curricular e a desconexão com
a realidade do SUS. O Eixo 2 – Pesquisa, Produção e Disseminação do
Conhecimento, que visa fortalecer a pesquisa em PPGS com desenvolvimento
teórico-metodológico, fomentar pesquisas estratégicas para o SUS e a redução de
iniquidades. E o Eixo 3 – Articulação com a Política Pública e com a
Sociedade, para promover a defesa do SUS e a incidência política, fortalecendo
o diálogo com gestores e movimentos sociais, ampliando a participação social e
a comunicação acessível.
O plano
também se destaca por sua natureza operacional ao prever a criação de diversos
dispositivos institucionais concretos e permanentes, como um Fórum Permanente
de assessoramento a gestores do SUS, um Fórum Abrasco-Movimentos Populares para
formulação conjunta de propostas, um espaço digital interativo para
publicização de produções técnicas, um observatório para compartilhamento de
experiências educacionais, e até mesmo a criação de um periódico específico da
Abrasco para a área de PPGS. Para embasar essas intervenções, o plano
estabelece ações concretas de mapeamento e diagnóstico da própria área,
incluindo estudos para mapear o ensino e as pesquisas em PPGS, diagnósticos
curriculares e da oferta de cursos por instituições públicas e privadas, além do
mapeamento de docentes atuantes nas graduações e residências em saúde.
Paralelamente,
o plano não se restringe ao âmbito interno da Abrasco, articulando-se com
instâncias externas fundamentais, como os ministérios da Saúde, da Educação e
da Ciência, Tecnologia e Inovação, o CAPES e agências estaduais para ampliar o
financiamento à pesquisa. Braços mais específicos do Estado, como a Secretaria
de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde – do MS e o Conselho
Nacional de Saúde fazem parte do escopo de parceiros para discutir e monitorar
as diretrizes curriculares em planejamento e gestão e ampliar estratégias
formativas para o SUS. Por fim, o Plano prevê pontes com conselhos de saúde e
movimento sindical com o objetivo construir um diagnóstico nacional sobre as
condições de trabalho dos profissionais do SUS. No âmbito interno, haverá
modificação da composição dos grupos de trabalho da Abrasco para incluir mais
movimentos sociais e comunitários.
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Reencontrar as utopias
O Plano
Diretor de Políticas, Planejamento e Gestão da Saúde aparece pouco mais de um
ano após outro movimento político da Abrasco: o V Plano Diretor de Epidemiologia. Essencialmente,
ambos os trabalhos condensam anos de pesquisas iniciadas após a hecatombe da
pandemia, quando a ação socialmente destrutiva da extrema-direita deixou de ser
ameaça para se tornar uma experiência prática.
Na
elaboração do campo sanitarista brasileiro, os acontecimentos não se devem ao
acaso e representam um processo de degeneração da sociabilidade capitalista e
sua esfera política.
“Estamos
num momento no qual a sociedade solidária está sob risco em favor da opção por
ações individuais e patrimoniais, onde tudo é privado: não só saúde, mas
segurança, investimentos etc. E estamos fazendo essa passagem muito
rapidamente. O Plano também conecta diversas áreas que compõem a saúde e é um
esforço essencial para organizar o futuro da área”, complementa Viana.
Para Oswaldo
Tanaka, professor aposentado e veterano da reforma sanitária, a racionalidade
técnica propalada pelos setores neoliberais, expressa em seu projeto de
permanente redução do Estado, é meramente ideológica. E assim deve ser
enfrentada.
“O
Plano Diretor deve iluminar caminhos e contextos políticos. E serve para abrir
brechas que impedem a realização mais ampla de nossos objetivos
ético-políticos. O contexto é o ponto mais determinante das ações sociais, não
a suposta racionalidade técnica”, defendeu.
Em
tempos onde se ouve falar do “desencanto” com a política, dar início a uma nova
etapa de lutas e ações é visto como solução. “A importância de um plano que
nunca vai para a gaveta é o processo; mais que o produto, é nos colocar juntos
em movimento. O SUS precisa se encontrar mais com a vida das pessoas, e ter
profissionais no campo da política e gestão capazes de direcionar isso é de
grande potencial”, explicou Marília Louvison, professora da Faculdade de
Saúde Pública da USP.
Ao
levar em conta o mal estar da civilização neoliberal, o movimento sanitário
coloca em pauta um novo horizonte “ético-político”, tal como se destaca no
documento. Nesse sentido, a defesa de um SUS público e estatal com promoção da
carreira dos profissionais de saúde e aprofundamento da presença territorial e
da participação social é o caminho para alcançar a população.
Como
dito várias vezes no evento, a conquista de espaço no aparelho de Estado para a
implementação de um sistema com as características do SUS gerou um afastamento
entre gestores, usuários e movimento social.
“O
Plano Diretor é reconhecimento de que o universal do SUS só se concretizará
quando for capaz de olhar para as particularidades e desigualdades que
estruturam a experiência de saúde e doença no Brasil. O Plano poderá
representar o paradigma necessário, com as lentes da equidade bem focadas”,
afirmou o cientista político Carlos Alberto de Paulo.
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A contribuição teórica e prática da Saúde Coletiva
Apesar
de focar na gestão de serviços de saúde, todo o Plano Diretor se sustenta a
partir de um olhar geral do sistema social e econômico. E nesse sentido o
caráter multidisciplinar do campo da Saúde Coletiva tem um amplo leque de
conhecimento e material humano a oferecer.
Para Nivaldo
Carneiro Junior, sanitarista e professor na Faculdade da Santa Casa de São
Paulo, a crise entre a relação prática e teórica se divide em quatro partes.
“Como
fatores internos à formação do profissional de Saúde Coletiva, há uma inércia
crítica e precarização da docência; no plano externo houve fragmentação
curricular causada por descompasso dos cursos com a ação política e um
isolamento das instituições em relação aos territórios”, analisou.
Ao
final do evento, Ana Lígia Meira, também professora da Santa Casa,
sintetizou a encruzilhada do SUS e da Saúde Coletiva. “Há problemas estruturais
como financiamento e pouca transparência em contratos com setor privado,
problemas organizacionais de precarização, fragmentação dos serviços e adoção
de racionalidade gerencialista, o que gera um afastamento entre sistema e
usuários”.
O Plano
Diretor da Área de Políticas Públicas, Planejamento e Gestão da Saúde coloca
uma lista de 8 objetivos para a transformação da gestão do SUS, em acordo com
as premissas da Reforma Sanitária. Reverter o subfinanciamento e a privatização
são os objetivos centrais, para os quais busca-se uma nova estratégia.
“Para
os próximos anos devemos defender o SUS com comunicação acessível, com combate
à desinformação e letramento de saúde, articulação com movimentos sociais e
populares a fim de melhorar a formulação de pautas, absorção de tais movimentos
pelo campo da Saúde Coletiva e criação de grupos de trabalho para saúde
digital, com foco em equidade tecnológica”, concluiu Ana Lígia.
Fonte: Por
Gabriel Brito, em Outra Saúde

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