Banco
do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no
Maranhão
“Eles
entravam de madrugada [os tratores]. Quando você via, o estrago estava feito.
Quando a gente chegava lá, paravam. Chamávamos a polícia e, quando eles vinham
[os policiais], ainda ficavam a favor deles [dos tratoristas], que tinham o
documento”, conta Edvaldo Dutra, morador do assentamento Veredão, ao lembrar
dos episódios de derrubada das florestas de bacuri na área rural de Chapadinha,
extremo leste do Maranhão.
Antes
dos primeiros episódios de “correntão” — quando uma enorme corrente de aço
ligada a dois tratores de esteira destrói toda a fauna e flora que vê pela
frente —, os moradores do Veredão e do assentamento vizinho, a Vila dos
Borges/Sangue, acampavam temporariamente nas áreas mais altas para caçar
bacuri. O fruto do Cerrado enche os bacurizais de dezembro a março.
Desde
2022, no entanto, homens, mulheres e crianças deixam tudo para trás ao primeiro
som da zoada de tratores, em qualquer período do ano, e sobem às pressas para a
chapada.
O
sojicultor paulista responsável pelas derrubadas é Gustavo Maretto de Barros. A
GMB Investimentos Holding, que leva suas iniciais, foi aberta em 2020. Pouco
tempo depois, a empresa adquiriu terras entre os dois assentamentos,
interrompendo um processo de conversão de possíveis terras devolutas do
Maranhão em assentamentos, hoje tradicionalmente ocupadas pelas famílias.
Barros
é sócio-administrador de ao menos 11 empresas ativas, cujo capital social
somado chega aos R$ 58,8 milhões. Espalhados nos estados de Tocantins, Pará,
Goiás e São Paulo, os negócios vão de aluguel de máquinas e equipamentos
agrícolas, cultivo e comércio de café e gado, à compra, venda e incorporação de
imóveis.
Em
Chapadinha, o empresário tem conseguido autorizações ambientais, registros
cartoriais e financiamento para levar a cabo o seu plano: substituir milhares
de hectares de florestas nativas do Cerrado por plantios de soja na região do
extremo leste maranhense. Mais do que isso, tem obtido financiamento com
recursos subsidiados e linhas de apoio supostamente voltadas à
sustentabilidade.
“Ele
veio e destruiu tudo”, conta seu Anastácio*, extrativista de bacuri da Vila dos
Borges. “A gente chorou. Preocupados porque era o alimento e a fonte de renda
que a gente tinha.”
A
reportagem entrou em contato com Gustavo Maretto de Barros, que respondeu em
nota que a reivindicação de uso tradicional dos extrativistas “não procede”. A
justificativa dele é de que os camponeses não têm capacidade de exercer
atividade
“Veredão
e Sangue juntos possuem mais de 5.500 hectares, ainda assim, há interesse em
mais área?”, questiona Barros. As cerca de 200 famílias das duas comunidades
estão oficialmente sobre uma área de 5.856 hectares, ocupada coletivamente, que
corresponderia a 29 hectares por unidade familiar. O sojicultor, sozinho,
vinculou 5.363 hectares às operações de crédito rural com o Itaú e o Banco do
Nordeste do Brasil.
<><>
Juros subsidiados para desmatar o Matopiba
Desde o
início do conflito fundiário com extrativistas de Veredão e Vila dos Borges,
Gustavo Barros teria recebido R$ 44,3 milhões via política pública de crédito
rural para plantar soja em Chapadinha, apontam informações do Instituto DADOS,
organização técnico-jurídica que fortalece a justiça socioambiental e climática
no Brasil.
Ao
todo, foram seis financiamentos firmados a partir de abril de 2022 por meio do
Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e do banco privado Itaú, com prazos para
pagar até 2037.
O ano
da primeira operação de financiamento, 2022, coincide com o período em que os
extrativistas relatam as primeiras perturbações no território. Na ocasião, o
BNB depositou R$ 11,6 milhões na conta do empresário para a compra de máquinas,
tratores, reboques, carretas e equipamentos de carga.
Quando
o financiamento foi concedido, em dezembro daquele ano, a área vinculada à
operação já tinha perdido mil hectares de vegetação nativa, revela o cruzamento
de dados feito pelo Joio com informações do crédito rural na plataforma Global
Forest Watch (GFW). Nos anos seguintes, o desmatamento continuou.
A fonte
de recursos de todas as operações do BNB para a área de Gustavo Barros é o
Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), um recurso controlado
pelo sistema de crédito rural. Desde janeiro deste ano, o Manual de Crédito
Rural passou a vedar financiamentos em áreas que prevejam a supressão de
vegetação nativa.
O Banco
do Nordeste do Brasil confirmou financiar três operações em andamento para
Barros. Segundo o BNB, os financiamentos vigentes foram analisados e aprovados
“em conformidade com as normas aplicáveis ao crédito rural vigentes à época das
contratações, incluindo as exigências relacionadas à regularidade ambiental”. A
resposta do banco público não menciona duas operações, vencidas em 2023 e 2024.
Outros
R$ 5 milhões foram contratados por Barros no banco Itaú, com recursos do
BNDES/Finame, vinculado ao programa ABC+, o Programa para Adaptação à Mudança
do Clima e Baixa Emissão de Carbono.
Segundo
dados da GFW, a derrubada de vegetação nativa na área vinculada aos empréstimos
lançou na atmosfera 789 mil toneladas de CO₂ equivalente. Isso corresponde às
emissões de 167 mil carros à gasolina por ano, conforme dados da Agência de
Proteção Ambiental dos Estados Unidos.
O Itaú
informou em nota que “concede crédito rural em conformidade com a legislação e
de acordo com critérios internos de governança e gestão de riscos
socioambientais” e que, diante de inconformidades, adota medidas cabíveis. Não
esclareceu, porém, se tomará medidas contra a GMB neste caso específico.
<><>
Moradores proibidos de entrar em terras que reivindicam há anos
Gustavo
Barros move duas ações judiciais contra moradores das comunidades Veredão e
Vila dos Borges/Sangue na 1ª Vara de Chapadinha, visando manter a posse de
imóveis que comprou do antigo proprietário de parte das áreas. Na Justiça, o
empresário pediu a proibição de entrada dos moradores nas áreas que ele
registrou como fazendas.
Os
processos foram transferidos para a Vara Agrária do Tribunal de Justiça do
Maranhão, na capital São Luís, que tem competência para decidir sobre conflitos
em territórios coletivos.
Barros
também entrou com pedidos de usucapião extrajudicial no cartório de registro de
imóveis de Chapadinha, requerendo o documento de propriedade das fazendas
Vereda e Monte Alegre, tradicionalmente ocupadas e reivindicadas há anos pelos
extrativistas junto ao Incra e o Instituto de Colonização e Terras do Maranhão
(Iterma).
Morador
do Veredão, Rodolfo* conta que em 2022 a GMB chegou na região “comprando essa
terra. Nisso eles fizeram todos os documentos e o georreferenciamento dessa
área. O assentamento não tem georreferenciamento, só o croqui, aquela medida
feita no mapa. O Incra nunca fez, a gente até exigiu antes que fizesse, mas o
Incra disse que não tinha recurso”.
Segundo
o Incra, em resposta a um pedido de Lei de Acesso à Informação, “houve
desacordo quanto aos limites do imóvel, motivo pelo qual o processo de
regularização/finalização do projeto ainda não foi concluído”. Já se passaram
13 anos da criação do projeto de assentamento.
Todo
dezembro, seu Raimundo Francisco, morador da Vila do Borges, monta acampamento
com os filhos, noras e netos no coração do conflito agrário.
“Eu
tenho 65 anos, moro aqui há muito tempo, e vem uma pessoa de São Paulo mudar a
nossa vida aqui. Chega aqui dizendo que as terras são dele, não sei como
adquiriu”, questiona seu Raimundo, com as mãos e as roupas manchadas pela nódoa
característica da casca do bacuri.
Durante
dois meses e 19 dias, em dezembro de 2023, seu Raimundo e outros extrativistas
da Vila dos Borges ficaram proibidos de acessar uma área de 1.068 hectares
tradicionalmente ocupada que incide sobre os limites da fazenda Monte Alegre,
registrada por Gustavo Barros.
Segundo
o advogado popular que defende a comunidade, Diogo Cabral, a posse dos
extrativistas sobre a área é imemorial, coletiva e tradicional, o que lhes
confere “a melhor posse sobre a área”.
“Se o
Incra ou o Iterma tivessem procedido com a regularização lá nos anos 2009,
talvez hoje não houvesse nenhum tipo de conflito”, declara Cabral.
O Incra
respondeu que “todas as manifestações emitidas no caso observaram critérios
estritamente técnicos e administrativos, baseados na legislação aplicável e na
base oficial de dados fundiários da Autarquia”.
Sobre o
Veredão, o instituto confirmou não ter finalizado o georreferenciamento
alegando questões de “disponibilidade orçamentária” e “prioridades
institucionais”. Sobre a Vila dos Borges, afirmou que a responsabilidade de
regularizar a “possível terra devoluta estadual” é do Iterma.
O
Iterma, por sua vez, não retornou os nossos contatos.
Porta
giratória: procuradora de sojeiro atuou na Secretaria de Meio Ambiente
Para
iniciar seus negócios com soja em Chapadinha, Gustavo Barros precisou entrar
com pedidos de autorização de desmatamento legal na Secretaria de Meio Ambiente
do Maranhão (Sema-MA). Sua procuradora, a geógrafa Oquerlina Costa Silva,
registrou pedidos de licenciamento ambiental da GMB nas áreas do conflito, em
2021.
Em
abril de 2022, Costa Silva saiu da sociedade na empresa de consultoria
ambiental contratada por Barros e assumiu o cargo de secretária-adjunta da
Sema-MA. Com um mês na cadeira do serviço público, ela assinou documentos
autorizando a GMB a iniciar desmatamentos na área. Outra licença, autorizando o
uso do fogo, foi assinada por ela em favor da GMB em 2023.
Para os
pedidos de usucapião extrajudicial em cartório, Barros também precisou da
assinatura dos confrontantes — de outros proprietários vizinhos — das fazendas
Vereda e Monte Alegre. Como os vizinhos são assentamentos da reforma agrária,
cabe ao superintendente regional do Incra em exercício concordar ou não com os
limites de quem solicita a usucapião.
O
servidor de carreira do Incra Levi Pinho Alves assumiu a cadeira de
superintendente como substituto em janeiro de 2022. Dois meses depois, estava
assinando uma série de documentos que favoreceram os interesses de Gustavo
Maretto de Barros, dono da GMB.
Pinho
Alves firmou declarações cartoriais afirmando que “não há nenhuma disputa ou
discordância”, que “o Incra não tem interesse nessa área” e que o Incra “nada
tem a opor a essa transação”, referindo-se à fazenda Vereda e contribuindo para
o procedimento de usucapião extrajudicial movido por Gustavo Barros.
As
comunidades, por sua vez, afirmam que o Incra agiu unilateralmente, favorecendo
o sojicultor sem consultá-las. Na Vila dos Borges, há pedidos feitos em 2015 e
2018 pelo próprio Incra ao Iterma para converter supostas terras devolutas
estaduais em áreas do assentamento.
O
assessor jurídico da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA) Luis Antonio
Pedrosa, que acompanha casos como esse, afirma que o desinteresse do Incra
sobre as terras caracteriza uma irregularidade.
“Tecnicamente
isso não é possível. Se era uma sobra de terra, ou uma terra devoluta, o Incra
e o Iterma teriam um interesse imediato ali, considerando a presença dessas
comunidades”, declara Pedrosa. “Não era um vazio fundiário que a empresa
poderia solicitar para si.”
Oquerlina
Costa Silva disse à reportagem que sua atuação profissional no setor privado
não tem qualquer relação com as funções exercidas na administração pública. Por
sua vez, Levi Pinho Alves respondeu que as manifestações “não se confundem com
atos de regularização fundiária, desapropriação” e outros procedimentos de
regularização fundiária, e que informam a situação dos processos no momento da
assinatura.
*Nomes
foram trocados para proteger a identidade dos entrevistados.
Fonte:
Por Bruna Bronoski, em O Joio e O Trigo

Nenhum comentário:
Postar um comentário