Terremotos
na Colômbia e Venezuela expõem dívida latino-americana com prevenção e
emergência
O terremoto de
magnitude 7,4 que atingiu nesta segunda-feira o oeste da Colômbia não pode ser
interpretado como um fato isolado. Para os geólogos e os organismos de
assistência humanitária, o fenômeno ativou imediatamente a lembrança de uma
tragédia recente: o dupleto sísmico que atingiu o norte da Venezuela no último
dia 24 de junho, que deixou um saldo trágico superior a 6.000 mortos.
Além da
proximidade temporal e da óbvia geografia compartilhada, ambos os eventos
expõem uma série de variáveis comuns e paralelismos estruturais que acendem os
alertas sobre a preparação da região diante de catástrofes de grande escala.
A
primeira grande coincidência reside na monumental liberação de energia. O
terremoto registrado nesta manhã na localidade colombiana de San José del
Palmar (Chocó) alcançou uma magnitude de 7,4, uma cifra tecnicamente
equivalente à do evento principal que destruiu grande parte do estado
venezuelano de La Guaira e áreas de Caracas exatamente dois meses atrás, o qual
foi medido em 7,5 pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
Ambos
os movimentos estão formalmente entre os terremotos mais potentes sofridos por
ambas as nações no que vai do século 21.
Uma
constante nas crônicas de junho e agosto é a vulnerabilidade das fronteiras.
Assim como o terremoto da Venezuela foi sentido com força nos departamentos do
norte da Colômbia, o terremoto colombiano desta segunda-feira repercutiu com
força no oeste venezuelano — ativando comitês de emergência em Táchira e Zulia
— e obrigou a evacuações em massa nos centros urbanos do Equador e do Panamá.
A
geografia do pânico não reconhece limites aduaneiros: grandes capitais como
Bogotá, Cali e Caracas vivenciaram cenas idênticas de cidadãos que se
autoevacuaram para as ruas em meio ao som das sirenes.
Tanto o
sistema de falhas transcorrentes que interage entre as placas do Caribe e
Sul-Americana (causa do desastre venezuelano) quanto o complexo bloco de
subducção da placa de Nazca no Pacífico colombiano confirmam que o norte da
América do Sul atravessa um período de intensa reorganização tectônica.
Esse
paralelismo expõe a dívida histórica em infraestrutura residencial e protocolos
de emergência nos bairros populares de nossa região. Enquanto a Colômbia começa
a contabilizar suas vítimas em Pereira e no Valle del Cauca, a ferida aberta da
Venezuela lembra que o continente treme sob as mesmas regras de vulnerabilidade
social.
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Relatos de danos e resgates na Colômba
Em
Cali, 20 edificações desabaram, deixando pessoas presas sob os escombros.
O prefeito da cidade, Alejandro Eder, informou que equipes de resgate atuam em
diferentes pontos da cidade. "Temos pelo menos 20 estruturas colapsadas em
Cali, com pessoas presas. Solicitei apoio aos prefeitos de Bogotá e Medellín
para reforçar as operações de resgate", disse.
A
governadora de Chocó, Nubia Carolina Córdoba, relatou nas redes sociais a
existência de feridos e danos significativos em edifícios. Um vídeo obtido por
um jornalista da AFP mostra um prédio que desabou em Quibdó, capital do
departamento e cidade mais próxima do epicentro.
Imagens
divulgadas pela imprensa local também mostram casas destruídas em cidades como
Pereira e Manizales, na região conhecida como Eixo Cafeeiro.
"Não
há energia elétrica nem sinal de celular. Foi muito forte. Objetos caíram
dentro de casa", relatou à AFP Martha Estrada, de 66 anos, moradora da
região.
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Seis aeroportos danificados
A
Aeronáutica Civil informou que os aeroportos de Pereira, Manizales, Quibdó,
Armênia, Cartago e Buenaventura sofreram danos provocados pelo terremoto. Por
motivos de segurança, as operações permanecem suspensas até a conclusão das
inspeções estruturais.
Segundo
o órgão, equipes mantêm monitoramento permanente da situação, e os passageiros
devem acompanhar os canais oficiais e as informações das companhias aéreas, já
que voos podem ser afetados.
Os
aeroportos de Pereira, Manizales e Armênia estão localizados na região
cafeeira, uma das áreas mais atingidas pelo sismo. Já o aeroporto de Quibdó
atende o departamento de Chocó, onde foi registrado o epicentro do terremoto.
Os terminais de Cartago e Buenaventura ficam no departamento de Valle del
Cauca.
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Governo mobilizou resposta à emergência
Abelardo de la Espriella convocou um
comitê de emergência para acompanhar a situação e anunciou a instalação de um
Posto de Comando Unificado (PMU) para coordenar o atendimento aos afetados e a
resposta nas áreas atingidas.
"Estarei
pessoalmente em Pereira para apoiar os afetados e verificar a resposta do
governo. Vocês não estão sozinhos. O Estado está presente e atuando",
escreveu o presidente na rede X.
De la
Espriella, que assumiu o cargo há três dias em uma cerimônia realizada em Cali,
informou que viajará à região para acompanhar os trabalhos de resgate e
assistência.
O
vice-presidente José Manuel Restrepo também se manifestou sobre a tragédia. Em
mensagem publicada nas redes sociais, afirmou que a prioridade é proteger
vidas, resgatar pessoas presas nos escombros, atender os feridos e levar ajuda
às comunidades mais afetadas.
As
autoridades seguem avaliando os danos e atualizando o balanço da emergência.
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Tremor foi sentido em países vizinhos
O
tremor também foi sentido em países vizinhos. Em Quito, capital do Equador, moradores relataram abalos, assim como em
diversas províncias do Panamá, onde alguns hospitais foram evacuados. Há
registros, ainda, de tremores percebidos em regiões da Venezuela.
As
autoridades colombianas descartaram a emissão de alerta de tsunami.
No
Panamá, equipes de emergência avaliam possíveis danos na região fronteiriça de
Darién.
Em
Bogotá, prédios foram evacuados após o tremor. Segundo jornalistas da AFP,
moradores chegaram às ruas ainda de pijama, em meio ao som de sirenes.
"O
tremor foi muito forte", afirmou a criadora de conteúdo Valeria Polo, de
29 anos.
O
prefeito da capital, Carlos Galán, disse à rádio Blu que, até o momento, foram
registradas apenas rachaduras superficiais em algumas residências e edifícios.
¨ Como terremoto na
Colômbia difere dos sismos na Venezuela
O terremoto de magnitude 7,4 na escala Richter que
atingiu grande parte da Colômbia nesta
segunda-feira (11/08) teve um contexto tectônico e profundidade diferentes
dos sismos registrados em junho na Venezuela, embora ambos tenham alcançado magnitudes
semelhantes.
O
tremor teve epicentro em San José del Palmar, no departamento de Chocó, no
oeste da Colômbia, próximo às fronteiras com os departamentos de Risaralda e
Valle del Cauca. O foco foi localizado a 103 quilômetros de profundidade, o que
o classifica como um terremoto de profundidade intermediária e ajuda a explicar
por que foi sentido em uma área extensa do país. Segundo o mais recente balanço
divulgado, o desastre deixou ao menos 224 mortos.
Os
terremotos registrados na Venezuela, por sua vez, foram mais superficiais, com
focos localizados a cerca de 10 quilômetros de profundidade. Foram dois
eventos, de magnitude 7,2 e 7,4, cada um com suas respectivas réplicas. Eles
resultaram de movimentos associados à interação lateral entre as placas do
Caribe e Sul-Americana e, por serem rasos, causaram diferente impacto na
superfície (leia mais abaixo). A tragédia deixou mais de 6 mil mortos.
Segundo
o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), os sismos venezuelanos foram
provocados pela ruptura de falhas rasas em um mecanismo
conhecido como strike-slip, ou deslizamento lateral, no qual blocos rochosos se
deslocam horizontalmente ao longo da falha.
"Na
região do terremoto, a placa do Caribe move-se para leste em relação à América
do Sul. Esse movimento é acomodado principalmente por um grande sistema de
falhas transcorrentes dextrais que atravessa o norte da Venezuela, incluindo o
sistema de falhas de San Sebastián, ao longo da costa norte do país, e o
sistema de falhas de Boconó, que se estende para o oeste a partir do epicentro
em direção ao interior venezuelano", informou o USGS.
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Colômbia: deslocamento lateral em área de subducção
Já na
Colômbia, o terremoto também foi classificado pelo órgão americano como um
evento de deslizamento lateral. A diferença é que se tratou de uma ruptura
única, que ocorreu a mais de 100 quilômetros de profundidade, no interior da
placa de Nazca, no oceano Pacífico, que está em processo de subducção sob a
placa Sul-Americana.
A
subducção ocorre quando uma placa tectônica mergulha sob outra. Neste caso,
porém, não foi o movimento de descida que gerou o terremoto. Ou seja, a ruptura
do caso colombiano não resultou da energia acumulada na interface entre as placas de Nazca e
Sul-Americana,
mas de uma falha no interior da própria placa em subducção.
"Terremotos
com profundidade entre 70 e 300 quilômetros são classificados como de
profundidade intermediária. Esses eventos refletem deformações no interior das
placas tectônicas em subducção, e não na interface rasa entre a placa que
mergulha e a placa sobrejacente", explicou o USGS.
Essa
característica diferencia o terremoto colombiano dos chamados terremotos de
megathrust, ou megassismos, que ocorrem quando há ruptura direta na zona de
contato entre duas placas em uma área de subducção. Esses eventos estão entre
os mais potentes já registrados e podem superar
magnitude 8.
Ainda
assim, a subducção da placa de Nazca gera intensa atividade sísmica ao longo da
costa ocidental da América do Sul, inclusive em terremotos de deslizamento
lateral.
"Grandes
terremotos de profundidade intermediária são comuns ao longo de toda a zona de
subducção da América do Sul e normalmente estão associados às forças de flexão
que atuam na placa que afunda sob o continente", informou o USGS.
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O papel da profundidade
A
profundidade ajuda a explicar por que terremotos de magnitudes semelhantes
podem causar níveis diferentes de destruição. Segundo o USGS, por ocorrerem
mais profundamente, os terremotos intermediários costumam produzir tremores
menos intensos na superfície do que eventos rasos de mesma magnitude. Em
compensação, tendem a ser sentidos em áreas mais amplas.
De
acordo com a sismóloga Viviana Dionisio, da Rede Sismológica Nacional da
Colômbia, nos terremotos superficiais as ondas sísmicas percorrem uma distância
menor até a superfície e, por isso, chegam com mais intensidade às regiões
próximas ao epicentro. Nos eventos mais profundos, as ondas atravessam uma
quantidade maior de material geológico e perdem parte de sua energia ao longo
do trajeto.
A
profundidade, no entanto, não determina sozinha o nível de
destruição.
A magnitude do terremoto, a proximidade de áreas povoadas, a duração do tremor,
os tipos de ondas sísmicas geradas, as características do solo e a
vulnerabilidade das construções também são fatores decisivos.
Em
entrevista à agência de notícias EFE, Dionisio ressaltou que as condições das edificações e do
terreno exercem
influência significativa sobre os danos provocados por um terremoto.
A
especialista destacou ainda que a Colômbia apresenta elevada ameaça sísmica
devido à interação entre diversas placas tectônicas e à presença de numerosas
falhas geológicas, especialmente nas regiões andina e do Pacífico.
Por
isso, acrescentou, não é incomum que terremotos dessa natureza tenham epicentro
em Chocó, região fortemente influenciada pela dinâmica tectônica do oeste
colombiano e pela interação entre as placas de Nazca e Sul-Americana.
O
Serviço Geológico Colombiano informou que foram registradas 33 réplicas após o
terremoto de segunda-feira. A mais forte atingiu magnitude 4,8."Um
terremoto dessa magnitude costuma gerar uma série de réplicas que tendem a
diminuir em frequência e intensidade nos dias e semanas seguintes",
afirmou Dionisio.
O
sismólogo Rodrigo León, professor do Departamento de Geociências da
Universidade dos Andes, lembrou que terremotos não podem ser previstos e que também
não é possível antecipar quando ocorrerá uma réplica nem descartar
completamente a possibilidade de novos tremores de maior magnitude.
"Embora
estejamos observando danos bastante extensos, considerando a magnitude do
terremoto, os impactos poderiam ter sido ainda mais graves", afirmou.
¨ Tremor gera crise
hospitalar e toque de recolher na Colômbia
Socorristas
e voluntários trabalham contra o tempo nesta terça-feira (11/08) para encontrar
sobreviventes após o terremoto mais forte registrado na Colômbia na última
década. Segundo o balanço mais recente, o desastre deixou ao menos 224 mortos,
mais de 500 feridos e dezenas de desaparecidos.
Em
Cali, onde os hospitais atingiram a capacidade máxima, as autoridades
decretaram toque de recolher e determinaram a militarização da cidade.
O
presidente Abelardo de la Espriella, empossado há quatro dias, declarou estado de
emergência em todo o país e prometeu coordenar uma ampla operação de resgate.
Pelo menos 18 unidades de saúde e 52 instituições de ensino sofreram danos
estruturais. Seis aeroportos também registraram problemas e suspenderam
operações comerciais.
O
terremoto, de magnitude 7,4, ocorreu às 7h34 no horário local (9h34 em
Brasília), segundo os serviços geológicos da Colômbia e dos Estados Unidos. O
epicentro foi registrado no município de San José del Palmar, no departamento
de Chocó, a 103 quilômetros de profundidade.
Nas
primeiras horas após o tremor, cidades do oeste do país viveram momentos de
pânico. Milhares de pessoas deixaram suas casas e ocuparam as ruas enquanto
edifícios desabavam ou apresentavam graves danos estruturais.
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Hospitais entram em colapso em Cali
Em
Cali, terceira maior cidade da Colômbia e uma das áreas mais atingidas, equipes
de resgate removiam escombros com as próprias mãos em busca de sobreviventes.
Ao
menos 26 pessoas morreram e 456 ficaram
feridas na cidade.
Os hospitais locais atingiram 100% da capacidade de atendimento, situação
agravada pela evacuação de quatro grandes unidades de saúde afetadas pelos
tremores.
Uma ala
do Hospital Universitario del Valle Evaristo García (HUV), um dos principais
centros de alta complexidade da cidade, sofreu colapso parcial. Imagens do
desabamento viralizaram nas redes sociais. Os danos obrigaram a transferência
de pacientes e serviços para tendas instaladas no estacionamento e nas áreas
verdes do complexo hospitalar.
Também
registraram danos estruturais a Clínica Nuestra Cali, a Clínica Dessa e a
Clínica Colombia.
Diante
da emergência, as autoridades suspenderam temporariamente cirurgias, consultas
ambulatoriais e atendimentos não considerados urgentes, com o objetivo de
liberar leitos e equipes para receber as vítimas do terremoto.
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Toque de recolher e militarização da cidade
"Chegar
até aqui foi impressionante. Parecia o fim do mundo. Carros e motos circulavam
na contramão à procura de familiares", afirmou à agência de notícias AFP o
socorrista Nelson Moreno, que participou das buscas por uma amiga soterrada
após o desabamento de duas torres residenciais de cinco andares. Segundo ele, o
pai da mulher e seu bebê ficaram feridos, mas conseguiram escapar com vida.
"Agora
precisamos de lanternas e óculos de proteção", acrescentou, cercado por
centenas de voluntários e cães de resgate.
Os
socorristas formam correntes humanas para retirar os destroços com picaretas e
ferramentas básicas. Em vários momentos, interrompem o trabalho e pedem
silêncio para tentar ouvir sinais de vida sob os escombros.
Diante
do cenário de caos, a prefeitura de Cali decretou toque de recolher entre 20h
de segunda-feira e 6h desta terça, além da militarização da cidade. O prefeito
Alejandro Eder afirmou que a medida busca garantir a circulação e a segurança das equipes de
emergência e permitir que os organismos de socorro concentrem esforços nas
operações de busca e resgate.
"Há
ameaças de saques. Por isso determinei o toque de recolher e a militarização de
Cali", disse Eder, ao pedir que a população informe qualquer tentativa de
saque ou situação de insegurança. A administração municipal também decretou
estado de calamidade pública para concentrar recursos e esforços institucionais
no atendimento à emergência e na assistência às áreas mais afetadas.
A
prefeitura de Pereira também impôs toque de recolher. A restrição entrou em
vigor às 18h de segunda-feira e seguiu até as 5h desta terça. "Decretamos
toque de recolher para proteger o comércio da cidade", afirmou o prefeito
Mauricio Salazar.
Com 60
mortes confirmadas até o momento, o departamento de Risaralda é o mais afetado
pelo terremoto. Os hospitais da região também relatam superlotação. Segundo
autoridades, 18 edifícios desabaram completamente e outros 60 sofreram danos
parciais na região
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Comunidade internacional oferece ajuda à Colômbia
O
tremor foi sentido em países vizinhos, incluindo regiões da Venezuela, a
capital equatoriana Quito e diversas províncias do Panamá.
A
presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, informou que a União
Europeia disponibilizou o sistema de observação por satélite Copernicus para
auxiliar nas operações de resgate.
Os
Estados Unidos ofereceram ajuda de 15,5 milhões de dólares (R$ 79 milhões) para
apoiar a resposta à emergência.
Israel,
México, Chile, Argentina e El Salvador também anunciaram apoio ao país. Em
nota, o Itamaraty afirmou acompanhar os esforços de busca e assistência e
declarou estar pronto para colaborar com as autoridades colombianas.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/DW Brasil

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