A
multiplicação do patrimônio da extrema-direita
A
extrema-direita brasileira construiu sua força política explorando um discurso
simples e conveniente: seriam os representantes do cidadão comum contra uma
suposta burguesia política, contra os privilégios e contra um Estado que,
segundo eles, estaria sempre do lado errado.
A
declaração de bens apresentada por Nikolas Ferreira à Justiça Eleitoral mostra
uma evolução patrimonial extraordinária. Em 2022, quando disputou seu primeiro
mandato como deputado federal, declarou possuir aproximadamente R$ 36,8 mil em
bens. Quatro anos depois, o patrimônio declarado chega a cerca de R$ 3,8
milhões. Mesmo considerando a inflação e o fato de que parte significativa
desse valor está vinculada a um imóvel financiado, trata-se de uma
multiplicação patrimonial que não acompanha a realidade da sociedade brasileira
proletária da qual foi eleito como representante.
O clã
Bolsonaro oferece talvez o exemplo mais expressivo de como política e
patrimônio se entrelaçaram ao longo de décadas. Jair Bolsonaro e seus filhos
construíram suas trajetórias públicas essencialmente dentro da política. Flávio
foi deputado estadual por 16 anos antes de chegar ao Senado. Carlos passou
décadas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Eduardo chegou à Câmara dos
Deputados. Jair Bolsonaro foi vereador, deputado federal por quase três décadas
e depois presidente da República.
Não
estamos falando, portanto, de uma família que chegou à política já estabelecida
como um grande grupo empresarial. Estamos falando de uma família que construiu
uma parte fundamental de sua trajetória econômica paralelamente à ocupação de
sucessivos cargos públicos.
Um
levantamento realizado pelo UOL identificou 107 imóveis negociados desde os
anos 1990 por Jair Bolsonaro, seus filhos, irmãos, mãe e ex-mulheres. Pelo
menos 51 dessas propriedades foram adquiridas total ou parcialmente com
dinheiro em espécie. As operações em dinheiro somaram R$ 13,5 milhões à época,
equivalentes a R$ 25,6 milhões em valores corrigidos pelo IPCA.
É uma
história de família.
Eduardo
Bolsonaro declarou R$ 205 mil em bens em 2014. Em 2018, o patrimônio declarado
havia chegado a R$ 1,4 milhão. Em 2022, alcançou R$ 1,76 milhão.
Carlos
Bolsonaro, por sua vez, declarou cerca de R$ 1,98 milhão em 2024 e chegou a
aproximadamente R$ 2,78 milhões em 2026, um aumento de cerca de R$ 800 mil em
apenas dois anos.
Flávio
Bolsonaro declarou R$ 1,7 milhão em bens em 2018. Durante o exercício do
mandato de senador, comprou uma mansão em Brasília por R$ 5,97 milhões,
praticamente à vista, segundo reportagem publicada pelo Metrópoles.
Somados
os integrantes mais próximos do clã, a dimensão patrimonial torna-se ainda mais
significativa.
O
mandato produz salário. Produz estrutura. Produz visibilidade. Produz redes de
relacionamento. Produz audiência. E, na era das redes sociais, produz também
uma capacidade extraordinária de transformar capital político em atividade
econômica.
A
política brasileira oferece aos parlamentares salários elevados, estrutura de
gabinete, assessores, verbas para o exercício do mandato e ampla exposição
pública. Um deputado federal recebe atualmente R$ 46.366,19 brutos por mês,
enquanto a Câmara disponibiliza uma verba de gabinete que ultrapassa R$ 165 mil
mensais para a contratação de secretários parlamentares.
A mesma
extrema-direita que acusa políticas sociais de estimular dependência, que
condena servidores públicos, que defende redução de gastos e que transforma
direitos trabalhistas em obstáculos ao desenvolvimento raramente aplica essa
régua sobre os próprios espaços de poder.
Quando
o dinheiro público chega ao trabalhador por meio de uma política social,
fala-se em desperdício. Quando sustenta estruturas do sistema político,
chama-se democracia institucional.
Quando
alguém pobre reivindica direitos, fala-se em privilégios. Quando políticos
acumulam patrimônio e ampliam sua influência econômica, fala-se em mérito.
A
extrema-direita aprendeu a transformar indignação social em capital político.
As redes sociais transformaram políticos em marcas pessoais. A polarização
transformou seguidores em audiência. A audiência, por sua vez, pode ser
convertida em livros, palestras, publicidade, empresas, contratos e outras
formas de remuneração.
O
discurso contra o sistema não significa necessariamente estar fora dele. Em
muitos casos, significa apenas ocupar o sistema por dentro, explorando sua
visibilidade, seus recursos e sua capacidade de produzir poder e patrimônio.
O
enriquecimento patrimonial de parlamentares da extrema-direita precisa ser
acompanhado como fenômeno político. É necessário observar declarações de bens,
evolução patrimonial, empresas, fontes de renda, contratos, atividades
econômicas e relações estabelecidas durante o exercício dos mandatos. Porque a
política não pode ser apenas o caminho para conquistar poder.
A
extrema-direita se apresenta como a voz dos que não têm voz. Mas seus
representantes precisam ser avaliados também pelo que acumulam, pelo modo como
acumulam e pelas estruturas de poder que lhes permitem acumular.
A
política deveria servir para transformar a vida da maioria, e não de poucos que
usam de pautas coletivas para benefício próprio.
Porque
existe uma diferença brutal entre o trabalhador que recebe um benefício social
para comprar comida e o político que utiliza seu mandato como plataforma para
construir patrimônio, audiência e negócios.
Um
recebe para sobreviver. O outro recebe para exercer poder.
E
poder, no Brasil, frequentemente se converte em patrimônio.
¨
Fake News: Campanha de Flávio Bolsonaro cita
pós-graduação que ele não fez
Informações
biográficas publicadas em páginas oficiais e perfis ligados a Flávio Bolsonaro
(PL) incluíram uma pós-graduação em Ciências Políticas na Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), mas a instituição afirmou não haver registro de que o
senador tenha sido aluno da universidade. A campanha de Flávio Bolsonaro
declarou, nesta quarta-feira (12), que a menção ao curso não realizado decorreu
de “erros ou equívocos, possivelmente extraídos de páginas como a Wikipedia”. A
informação aparecia em registros públicos e perfis do parlamentar, mas não foi
acompanhada de documentação que comprovasse a formação.
Em nota
enviada à reportagem, a assessoria do senador afirmou: “O senador Flávio
Bolsonaro é graduado em Direito pela Universidade Cândido Mendes, pós-graduado
em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de
Janeiro (IUPERJ) e tem MBA em Empreendedorismo pela FGV, conforme consta no seu
site oficial: flaviobolsonaro.net”. A equipe acrescentou: “Eventuais registros
diferentes desses tratam-se de erros ou equívocos, possivelmente extraídos de
páginas como a Wikipedia. A equipe do parlamentar já solicitou as correções
junto à plataforma”.
A UFRJ,
porém, informou não ter encontrado matrícula de Flávio Bolsonaro em seus
sistemas. Em nota, a universidade afirmou: “Pelo Sistema Integrado de Gestão
Acadêmica (SIGA), não há registro referente ao sr. Flávio Nantes Bolsonaro como
discente [aluno] na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Consta o nome de
Eduardo Nantes Bolsonaro, como concluinte em Direito”. A instituição explicou
ainda que o SIGA, criado em 2001, passou a centralizar dados acadêmicos da
universidade, substituindo sistemas anteriores e se tornando a principal
plataforma web para alunos e professores.
O
professor Valter Duarte, que integrou o Departamento de Ciência Política da
UFRJ entre a década de 1970 e 2021 e coordenou o departamento entre 2004 e
2009, também negou que Flávio tenha cursado a área na instituição. “Posso
garantir que ele nunca fez curso de Ciência Política na UFRJ. Nem no começo dos
anos 2000 nem depois, quando o pai dele era presidente”, afirmou. A menção à
pós-graduação em Ciências Políticas na UFRJ constava, até esta quarta-feira
(12), em uma página da Wikipedia sobre o senador, de onde foi retirada após
edição. A mesma informação também aparecia em um perfil no LinkedIn mantido
pela assessoria de Flávio Bolsonaro, que saiu do ar. Além disso, em 27 de
julho, a assessoria do candidato havia enviado ao g1 uma nota biográfica que
também atribuía a ele a pós-graduação na UFRJ.
Nesta
quarta-feira (12), a equipe do senador encaminhou diplomas digitalizados à
reportagem. Os documentos mostram que Flávio se formou em Direito em 2006,
concluiu especialização em Políticas Públicas em 2012 e obteve MBA em
Empreendedorismo em 2015. Não foram enviados documentos que comprovassem a
pós-graduação em Ciências Políticas. A informação sobre o curso na UFRJ também
aparece em um perfil publicado no site da Agência Senado, datado de 18 de
janeiro de 2019, ano em que Flávio iniciou o mandato como senador.
Flávio
Bolsonaro tem 45 anos, atua como advogado e iniciou sua trajetória política aos
21, quando foi eleito deputado estadual no Rio de Janeiro, em 2002. Ele exerceu
quatro mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro
(Alerj) antes de chegar ao Senado, em 2018.
O
levantamento do g1 também examinou informações acadêmicas de outros
presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas, com base em páginas mantidas
pelos próprios candidatos e por órgãos públicos.
No caso
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, o
currículo disponível no site oficial da Presidência informa que ele fez curso
de torneiro mecânico por três anos no Serviço Nacional de Aprendizagem
Industrial (Senai). O Senai orientou a reportagem a consultar a assessoria do
presidente. A equipe de Lula, por sua vez, respondeu que a confirmação deveria
ser feita diretamente com o Senai e não respondeu às demais tentativas de
contato. A assessoria de Lula já publicou em redes sociais fotografias do
presidente ao lado de antigos colegas, afirmando que a imagem foi registrada
durante o período em que ele integrou a turma do curso.
A UFRJ
confirmou ao g1 que Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás e candidato pelo
PSD, cursou Medicina na instituição entre 1975 e 1979. Já Renan Santos,
candidato do Missão, não concluiu o curso de Direito na Faculdade do Largo de
São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), segundo confirmação da
própria universidade.
Romeu
Zema, do Novo, informa em sua página no LinkedIn que se formou em Administração
de Empresas pela FGV e que frequentou as aulas entre fevereiro de 1983 e
dezembro de 1986. A assessoria do ex-governador de Minas Gerais disse ao g1 que
não conseguiu enviar documento de comprovação porque Zema estava em viagem de
campanha pelo país. Segundo a equipe, a documentação será encaminhada quando
ele estiver em sua casa, em Araxá (MG). A FGV não respondeu aos questionamentos
da reportagem.
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Direita não capturou apenas a pauta da segurança pública,
mas também a mídia. Por Paulo Henrique Arantes
Tenta-se
afixar no imaginário popular a ideia de que a esquerda não se ocupa, em seus
movimentos políticos, de questões práticas de segurança pública. Tal
preocupação seria intrínseca à direita, que não aceita ver a população ser
vitimada por bandidos protegidos “pela turma dos direitos humanos”. A óbvia
falácia esconde que a noção de segurança característica da direita é distribuir
armas às “pessoas de bem” e encarcerar mais gente por mais tempo, pobres e
pretos preferencialmente.
Dia
desses, o mantra da “esquerda que não liga para segurança” era repisado naquele
programa comandado por Andréa Sadi nas tardes da Globo News, um que se propõe
informal e quase sempre é entediante. Merval Pereira balbuciava obviedades
tentando parecer ponderado, Octávio Guedes fazia gracinhas, todos concordavam
que “o discurso da segurança pública foi capturado pela direita”. Ninguém
alertou para o tipo de segurança pública que a direita prega e pratica nos
estados que governa. Ninguém lembrou, também, que a PEC da Segurança elaborada
pelo governo Lula dormita no Senado Federal. Mencionar o amplo plano para a
área preparado pelo candidato ao Governo de São Paulo Fernando Haddad, nem
pensar.
Mais
útil que criticar a esquerda por tratar a segurança pública como uma questão,
antes de tudo, socioeconômica, seria denunciar o modelo “faroeste” da segurança
pública apregoado pela direita. Nada do que os direitistas defendem apresentou
resultado positivo em termos de redução da violência e da criminalidade, em
nenhum lugar do mundo, como provam numerosos estudos.
A
explosão do arsenal nas mãos de civis resultante dos estímulos ao armamento
perpetrados pelo Governo Bolsonaro, retrato do modelo de segurança pública
defendido pelos “cidadãos de bem”, já seria suficiente para a mídia desviar
suas críticas para a direita. O total de licenças concedidas a caçadores,
atiradores esportivos e colecionadores (CACs) cresceu substancialmente. Até o
final daquela gestão, o contingente armado de civis superou o efetivo total de
policiais militares de todo o Brasil.
Além
disso, armas compradas legalmente por cidadãos comuns tornaram-se fontes
diretas de abastecimento de facções criminosas e milícias, por meio de roubos,
furtos ou fraudes de “laranjas” com registro de CAC válido. Houve expressiva
mudança no perfil das armas apreendidas pelas polícias brasileiras,
registrando-se uma forte substituição de revólveres antigos por pistolas
semiautomáticas e fuzis.
A maior
presença de armas de fogo nos lares elevou os riscos de mortes decorrentes de
brigas domésticas, agressões de trânsito e discussões de vizinhança, reduzindo
a chance de sobrevivência das vítimas nesses conflitos cotidianos. A guarda
domiciliar frouxa e o volume de armas em residências impulsionaram os casos de
disparos acidentais com crianças e de suicídios motivados pelo acesso imediato
ao gatilho.
Promover
a segurança pública, na opinião da direita brasileira, é agir como as polícias
do governador afastado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, que se orgulha de
chacinas, ou do governador de São Paulo,Tarcísio de Freitas, fiador de inúmeras
operações “mata-pobre” e “mata-preto”. No governo do “bolsonarista-gestor”, o
número de mortes por policiais em território paulista saltou de 355 para 672
por ano.
Em
junho de 2025, o governo paulista alterou o funcionamento das câmeras nas
fardas. O modelo de gravação ininterrupta foi substituído por equipamentos que
necessitam de acionamento manual do agente ou disparo remoto do centro de
operações. Organizações de direitos humanos indicam que a piora nos números
durante o segundo semestre de 2025 coincidiu diretamente com o afrouxamento
desse controle digital. Bidu.
Os
mesmos que aplaudem a polícia de Tarcísio e as medidas-faroeste de Bolsonaro
são a favor do encarceramento em massa, quesito desumano em que o Brasil é
campeão. O World Prison Brief – base de dados internacional especializada
em sistemas prisionais, considerada uma das principais referências mundiais
sobre encarceramento – registra que o Brasil possui cerca de 900 mil pessoas
privadas de liberdade no sistema prisional e capacidade oficial para apenas 490
mil vagas, o que significa ocupação de cerca de 135 % da capacidade projetada.
Já a
plataforma Geopresídios, do Conselho Nacional de Justiça, informa, com base em
inspeções de 1.836 unidades prisionais, uma taxa média de ocupação de 150,3 %,
ou seja, as prisões amontoam cerca de 1,5 vez mais pessoas do que a capacidade
oficial das unidades inspecionadas. Os presos vivem espremidos, como sugeriu
tranquilamente Jair Bolsonaro, certa vez: “A cadeia, se você tiver recursos,
amplia. Ninguém quer torturar ninguém dentro da cadeia. Mas se não tiver
recursos, amontoa”.
Ainda
assim, quem recebe as críticas da mídia por seu comportamento quanto à
segurança pública é a esquerda. Essa imprensa recusa-se a entender que seu
papel deve ser o de esclarecer a população sobre as causas e as possíveis
soluções para a insegurança pública brasileira, não dar destaque diuturno a uma
“captura” de narrativa, priorizando o enfoque eleitoral sobre um problema real.
Fonte:
Por Francisco Calmon e Leticia Mendonça, em Brasil 247

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