quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A multiplicação do patrimônio da extrema-direita

A extrema-direita brasileira construiu sua força política explorando um discurso simples e conveniente: seriam os representantes do cidadão comum contra uma suposta burguesia política, contra os privilégios e contra um Estado que, segundo eles, estaria sempre do lado errado.

A declaração de bens apresentada por Nikolas Ferreira à Justiça Eleitoral mostra uma evolução patrimonial extraordinária. Em 2022, quando disputou seu primeiro mandato como deputado federal, declarou possuir aproximadamente R$ 36,8 mil em bens. Quatro anos depois, o patrimônio declarado chega a cerca de R$ 3,8 milhões. Mesmo considerando a inflação e o fato de que parte significativa desse valor está vinculada a um imóvel financiado, trata-se de uma multiplicação patrimonial que não acompanha a realidade da sociedade brasileira proletária da qual foi eleito como representante.

O clã Bolsonaro oferece talvez o exemplo mais expressivo de como política e patrimônio se entrelaçaram ao longo de décadas. Jair Bolsonaro e seus filhos construíram suas trajetórias públicas essencialmente dentro da política. Flávio foi deputado estadual por 16 anos antes de chegar ao Senado. Carlos passou décadas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Eduardo chegou à Câmara dos Deputados. Jair Bolsonaro foi vereador, deputado federal por quase três décadas e depois presidente da República.

Não estamos falando, portanto, de uma família que chegou à política já estabelecida como um grande grupo empresarial. Estamos falando de uma família que construiu uma parte fundamental de sua trajetória econômica paralelamente à ocupação de sucessivos cargos públicos.

Um levantamento realizado pelo UOL identificou 107 imóveis negociados desde os anos 1990 por Jair Bolsonaro, seus filhos, irmãos, mãe e ex-mulheres. Pelo menos 51 dessas propriedades foram adquiridas total ou parcialmente com dinheiro em espécie. As operações em dinheiro somaram R$ 13,5 milhões à época, equivalentes a R$ 25,6 milhões em valores corrigidos pelo IPCA.

É uma história de família.

Eduardo Bolsonaro declarou R$ 205 mil em bens em 2014. Em 2018, o patrimônio declarado havia chegado a R$ 1,4 milhão. Em 2022, alcançou R$ 1,76 milhão.

Carlos Bolsonaro, por sua vez, declarou cerca de R$ 1,98 milhão em 2024 e chegou a aproximadamente R$ 2,78 milhões em 2026, um aumento de cerca de R$ 800 mil em apenas dois anos.

Flávio Bolsonaro declarou R$ 1,7 milhão em bens em 2018. Durante o exercício do mandato de senador, comprou uma mansão em Brasília por R$ 5,97 milhões, praticamente à vista, segundo reportagem publicada pelo Metrópoles.

Somados os integrantes mais próximos do clã, a dimensão patrimonial torna-se ainda mais significativa.

O mandato produz salário. Produz estrutura. Produz visibilidade. Produz redes de relacionamento. Produz audiência. E, na era das redes sociais, produz também uma capacidade extraordinária de transformar capital político em atividade econômica.

A política brasileira oferece aos parlamentares salários elevados, estrutura de gabinete, assessores, verbas para o exercício do mandato e ampla exposição pública. Um deputado federal recebe atualmente R$ 46.366,19 brutos por mês, enquanto a Câmara disponibiliza uma verba de gabinete que ultrapassa R$ 165 mil mensais para a contratação de secretários parlamentares.

A mesma extrema-direita que acusa políticas sociais de estimular dependência, que condena servidores públicos, que defende redução de gastos e que transforma direitos trabalhistas em obstáculos ao desenvolvimento raramente aplica essa régua sobre os próprios espaços de poder.

Quando o dinheiro público chega ao trabalhador por meio de uma política social, fala-se em desperdício. Quando sustenta estruturas do sistema político, chama-se democracia institucional.

Quando alguém pobre reivindica direitos, fala-se em privilégios. Quando políticos acumulam patrimônio e ampliam sua influência econômica, fala-se em mérito.

A extrema-direita aprendeu a transformar indignação social em capital político. As redes sociais transformaram políticos em marcas pessoais. A polarização transformou seguidores em audiência. A audiência, por sua vez, pode ser convertida em livros, palestras, publicidade, empresas, contratos e outras formas de remuneração.

O discurso contra o sistema não significa necessariamente estar fora dele. Em muitos casos, significa apenas ocupar o sistema por dentro, explorando sua visibilidade, seus recursos e sua capacidade de produzir poder e patrimônio.

O enriquecimento patrimonial de parlamentares da extrema-direita precisa ser acompanhado como fenômeno político. É necessário observar declarações de bens, evolução patrimonial, empresas, fontes de renda, contratos, atividades econômicas e relações estabelecidas durante o exercício dos mandatos. Porque a política não pode ser apenas o caminho para conquistar poder.

A extrema-direita se apresenta como a voz dos que não têm voz. Mas seus representantes precisam ser avaliados também pelo que acumulam, pelo modo como acumulam e pelas estruturas de poder que lhes permitem acumular.

A política deveria servir para transformar a vida da maioria, e não de poucos que usam de pautas coletivas para benefício próprio.

Porque existe uma diferença brutal entre o trabalhador que recebe um benefício social para comprar comida e o político que utiliza seu mandato como plataforma para construir patrimônio, audiência e negócios.

Um recebe para sobreviver. O outro recebe para exercer poder.

E poder, no Brasil, frequentemente se converte em patrimônio.

¨      Fake News: Campanha de Flávio Bolsonaro cita pós-graduação que ele não fez

Informações biográficas publicadas em páginas oficiais e perfis ligados a Flávio Bolsonaro (PL) incluíram uma pós-graduação em Ciências Políticas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas a instituição afirmou não haver registro de que o senador tenha sido aluno da universidade. A campanha de Flávio Bolsonaro declarou, nesta quarta-feira (12), que a menção ao curso não realizado decorreu de “erros ou equívocos, possivelmente extraídos de páginas como a Wikipedia”. A informação aparecia em registros públicos e perfis do parlamentar, mas não foi acompanhada de documentação que comprovasse a formação.

Em nota enviada à reportagem, a assessoria do senador afirmou: “O senador Flávio Bolsonaro é graduado em Direito pela Universidade Cândido Mendes, pós-graduado em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) e tem MBA em Empreendedorismo pela FGV, conforme consta no seu site oficial: flaviobolsonaro.net”. A equipe acrescentou: “Eventuais registros diferentes desses tratam-se de erros ou equívocos, possivelmente extraídos de páginas como a Wikipedia. A equipe do parlamentar já solicitou as correções junto à plataforma”.

A UFRJ, porém, informou não ter encontrado matrícula de Flávio Bolsonaro em seus sistemas. Em nota, a universidade afirmou: “Pelo Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (SIGA), não há registro referente ao sr. Flávio Nantes Bolsonaro como discente [aluno] na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Consta o nome de Eduardo Nantes Bolsonaro, como concluinte em Direito”. A instituição explicou ainda que o SIGA, criado em 2001, passou a centralizar dados acadêmicos da universidade, substituindo sistemas anteriores e se tornando a principal plataforma web para alunos e professores.

O professor Valter Duarte, que integrou o Departamento de Ciência Política da UFRJ entre a década de 1970 e 2021 e coordenou o departamento entre 2004 e 2009, também negou que Flávio tenha cursado a área na instituição. “Posso garantir que ele nunca fez curso de Ciência Política na UFRJ. Nem no começo dos anos 2000 nem depois, quando o pai dele era presidente”, afirmou. A menção à pós-graduação em Ciências Políticas na UFRJ constava, até esta quarta-feira (12), em uma página da Wikipedia sobre o senador, de onde foi retirada após edição. A mesma informação também aparecia em um perfil no LinkedIn mantido pela assessoria de Flávio Bolsonaro, que saiu do ar. Além disso, em 27 de julho, a assessoria do candidato havia enviado ao g1 uma nota biográfica que também atribuía a ele a pós-graduação na UFRJ.

Nesta quarta-feira (12), a equipe do senador encaminhou diplomas digitalizados à reportagem. Os documentos mostram que Flávio se formou em Direito em 2006, concluiu especialização em Políticas Públicas em 2012 e obteve MBA em Empreendedorismo em 2015. Não foram enviados documentos que comprovassem a pós-graduação em Ciências Políticas. A informação sobre o curso na UFRJ também aparece em um perfil publicado no site da Agência Senado, datado de 18 de janeiro de 2019, ano em que Flávio iniciou o mandato como senador.

Flávio Bolsonaro tem 45 anos, atua como advogado e iniciou sua trajetória política aos 21, quando foi eleito deputado estadual no Rio de Janeiro, em 2002. Ele exerceu quatro mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) antes de chegar ao Senado, em 2018.

O levantamento do g1 também examinou informações acadêmicas de outros presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas, com base em páginas mantidas pelos próprios candidatos e por órgãos públicos.

No caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, o currículo disponível no site oficial da Presidência informa que ele fez curso de torneiro mecânico por três anos no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). O Senai orientou a reportagem a consultar a assessoria do presidente. A equipe de Lula, por sua vez, respondeu que a confirmação deveria ser feita diretamente com o Senai e não respondeu às demais tentativas de contato. A assessoria de Lula já publicou em redes sociais fotografias do presidente ao lado de antigos colegas, afirmando que a imagem foi registrada durante o período em que ele integrou a turma do curso.

A UFRJ confirmou ao g1 que Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás e candidato pelo PSD, cursou Medicina na instituição entre 1975 e 1979. Já Renan Santos, candidato do Missão, não concluiu o curso de Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), segundo confirmação da própria universidade.

Romeu Zema, do Novo, informa em sua página no LinkedIn que se formou em Administração de Empresas pela FGV e que frequentou as aulas entre fevereiro de 1983 e dezembro de 1986. A assessoria do ex-governador de Minas Gerais disse ao g1 que não conseguiu enviar documento de comprovação porque Zema estava em viagem de campanha pelo país. Segundo a equipe, a documentação será encaminhada quando ele estiver em sua casa, em Araxá (MG). A FGV não respondeu aos questionamentos da reportagem.

¨      Direita não capturou apenas a pauta da segurança pública, mas também a mídia. Por Paulo Henrique Arantes

Tenta-se afixar no imaginário popular a ideia de que a esquerda não se ocupa, em seus movimentos políticos, de questões práticas de segurança pública. Tal preocupação seria intrínseca à direita, que não aceita ver a população ser vitimada por bandidos protegidos “pela turma dos direitos humanos”. A óbvia falácia esconde que a noção de segurança característica da direita é distribuir armas às “pessoas de bem” e encarcerar mais gente por mais tempo, pobres e pretos preferencialmente.

Dia desses, o mantra da “esquerda que não liga para segurança” era repisado naquele programa comandado por Andréa Sadi nas tardes da Globo News, um que se propõe informal e quase sempre é entediante. Merval Pereira balbuciava obviedades tentando parecer ponderado, Octávio Guedes fazia gracinhas, todos concordavam que “o discurso da segurança pública foi capturado pela direita”. Ninguém alertou para o tipo de segurança pública que a direita prega e pratica nos estados que governa. Ninguém lembrou, também, que a PEC da Segurança elaborada pelo governo Lula dormita no Senado Federal. Mencionar o amplo plano para a área preparado pelo candidato ao Governo de São Paulo Fernando Haddad, nem pensar.

Mais útil que criticar a esquerda por tratar a segurança pública como uma questão, antes de tudo, socioeconômica, seria denunciar o modelo “faroeste” da segurança pública apregoado pela direita. Nada do que os direitistas defendem apresentou resultado positivo em termos de redução da violência e da criminalidade, em nenhum lugar do mundo, como provam numerosos estudos.

A explosão do arsenal nas mãos de civis resultante dos estímulos ao armamento perpetrados pelo Governo Bolsonaro, retrato do modelo de segurança pública defendido pelos “cidadãos de bem”, já seria suficiente para a mídia desviar suas críticas para a direita. O total de licenças concedidas a caçadores, atiradores esportivos e colecionadores (CACs) cresceu substancialmente. Até o final daquela gestão, o contingente armado de civis superou o efetivo total de policiais militares de todo o Brasil.

Além disso, armas compradas legalmente por cidadãos comuns tornaram-se fontes diretas de abastecimento de facções criminosas e milícias, por meio de roubos, furtos ou fraudes de “laranjas” com registro de CAC válido. Houve expressiva mudança no perfil das armas apreendidas pelas polícias brasileiras, registrando-se uma forte substituição de revólveres antigos por pistolas semiautomáticas e fuzis.

A maior presença de armas de fogo nos lares elevou os riscos de mortes decorrentes de brigas domésticas, agressões de trânsito e discussões de vizinhança, reduzindo a chance de sobrevivência das vítimas nesses conflitos cotidianos. A guarda domiciliar frouxa e o volume de armas em residências impulsionaram os casos de disparos acidentais com crianças e de suicídios motivados pelo acesso imediato ao gatilho.

Promover a segurança pública, na opinião da direita brasileira, é agir como as polícias do governador afastado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, que se orgulha de chacinas, ou do governador de São Paulo,Tarcísio de Freitas, fiador de inúmeras operações “mata-pobre” e “mata-preto”. No governo do “bolsonarista-gestor”, o número de mortes por policiais em território paulista saltou de 355 para 672 por ano.

Em junho de 2025, o governo paulista alterou o funcionamento das câmeras nas fardas. O modelo de gravação ininterrupta foi substituído por equipamentos que necessitam de acionamento manual do agente ou disparo remoto do centro de operações. Organizações de direitos humanos indicam que a piora nos números durante o segundo semestre de 2025 coincidiu diretamente com o afrouxamento desse controle digital. Bidu.

Os mesmos que aplaudem a polícia de Tarcísio e as medidas-faroeste de Bolsonaro são a favor do encarceramento em massa, quesito desumano em que o Brasil é campeão.  O World Prison Brief – base de dados internacional especializada em sistemas prisionais, considerada uma das principais referências mundiais sobre encarceramento – registra que o Brasil possui cerca de 900 mil pessoas privadas de liberdade no sistema prisional e capacidade oficial para apenas 490 mil vagas, o que significa ocupação de cerca de 135 % da capacidade projetada.

Já a plataforma Geopresídios, do Conselho Nacional de Justiça, informa, com base em inspeções de 1.836 unidades prisionais, uma taxa média de ocupação de 150,3 %, ou seja, as prisões amontoam cerca de 1,5 vez mais pessoas do que a capacidade oficial das unidades inspecionadas. Os presos vivem espremidos, como sugeriu tranquilamente Jair Bolsonaro, certa vez: “A cadeia, se você tiver recursos, amplia. Ninguém quer torturar ninguém dentro da cadeia. Mas se não tiver recursos, amontoa”.

Ainda assim, quem recebe as críticas da mídia por seu comportamento quanto à segurança pública é a esquerda. Essa imprensa recusa-se a entender que seu papel deve ser o de esclarecer a população sobre as causas e as possíveis soluções para a insegurança pública brasileira, não dar destaque diuturno a uma “captura” de narrativa, priorizando o enfoque eleitoral sobre um problema real.

 

Fonte: Por Francisco Calmon e Leticia Mendonça, em Brasil 247

 

Nenhum comentário: