Governar
sem prazo de validade: o caminho de Bukele para eliminar os limites do poder em
El Salvador
Com a
candidatura para um terceiro mandato agora oficializada, a promessa de
alternância é destruída em um país onde a Constituição é reescrita
para atender aos interesses do presidente.
Nayib Bukele manteve uma
posição firme sobre as regras do jogo democrático em El Salvador: “Uma pessoa pode
ser presidente oitenta vezes, se quiser, mas não consecutivamente. Isso é para
garantir que ela não use seu poder para se manter no poder”, afirmou com
convicção em 2013, quando governava o modesto município de Nuevo
Cuscatlán. Treze anos depois, esse aviso se tornou uma
profecia: Bukele acaba de anunciar oficialmente sua candidatura a um
terceiro mandato consecutivo.
O
paradoxo não se resume a uma súbita mudança ideológica, nem a uma reviravolta
inesperada na trama. A busca pelo poder indefinido é fruto de uma estratégia
desenvolvida no Palácio Presidencial desde o primeiro dia em
que Bukele assumiu o cargo. Entre os pronunciamentos do jovem e
popular Bukele e a consolidação de um líder hegemônico, reside um padrão
sistemático: uma vez no poder, ele usou sua autoridade para desmantelar os
tribunais superiores, reformar a Constituição fora dos trâmites
legais e cooptar os órgãos de fiscalização. Um caminho paciente e calculado
rumo à concentração absoluta do poder nas mãos de um único homem: ele mesmo.
Em
apenas sete anos, Bukele conseguiu estabelecer como seu modelo o que
outros líderes da região, como Daniel Ortega na Nicarágua ou Hugo Chávez na Venezuela,
já haviam alcançado antes, mas ao longo de um período muito mais longo:
transformou a Assembleia Legislativa em um mero instrumento de
aprovação automática, minimizou a oposição política e orquestrou um golpe
contra a Suprema Corte, substituindo os magistrados por outros alinhados
às suas necessidades, que então interpretaram a Constituição de modo que, onde
se afirmava que a reeleição não era permitida, passou a ser entendida como
permitida.
E ele
foi reeleito. Então, durante o último ano, ele completou seu jogo de xadrez com
três jogadas finais: emendou a Constituição para permitir a reeleição
indefinida, cooptou o Supremo Tribunal Eleitoral e registrou-se
novamente como candidato.
Além do
controle institucional, Bukele forçou vozes críticas ao exílio e
prendeu outras. A oposição política é
praticamente inexistente e, a sete meses das eleições de fevereiro próximo,
nenhuma figura surgiu ainda como possível desafiante. Bukele tem caminho livre
para garantir 14 anos no poder, mais tempo do que o último ditador
salvadorenho, o general Maximiliano
Hernández Martínez,
que governou por 13 anos, de 1931 a 1944.
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Controle tudo
O
primeiro ponto de virada no discurso democrático de Bukele ocorreu em
2021, quando seu partido, Nuevas Ideas,
conquistou a maioria absoluta na Assembleia Legislativa. Pela primeira vez
desde a assinatura dos Acordos de Paz, um presidente tinha poder suficiente
para aprovar leis e reformas constitucionais sem negociar com a oposição.
Em 1º
de maio de 2021, logo após a posse da nova Assembleia, os deputados pró-governo
destituíram, sem o devido processo legal, os cinco ministros da Câmara
Constitucional e o Procurador-Geral, substituindo-os por homens leais
a Bukele. Quatro meses depois, a nova Câmara emitiu uma decisão que mudou
o rumo político do país: reinterpretou um dos cinco artigos da Constituição
que, por décadas, proibiam expressamente a reeleição imediata do presidente e
concluiu que, agora, um presidente poderia concorrer a um segundo mandato
consecutivo.
Após o
anúncio oficial de sua candidatura, Bukele se defendeu com uma
publicação na rede social X: “Praticamente todos os países modificaram
suas constituições. Em muitos casos, essas mudanças ocorreram por meio de
guerras, golpes de Estado ou processos violentos; não por meio de uma
celebração cívica nas urnas, como nós, salvadorenhos, fizemos”, argumentou
Bukele após anunciar sua segunda candidatura à reeleição. Ele acrescentou que
países como Canadá, Reino Unido e Alemanha têm
eleições por meio de uma democracia parlamentar. “É interessante que apresentem
esse sistema como superior”, escreveu.
“Em um
sistema presidencialista (como o de El Salvador), o legislativo não pode
obrigar o executivo a convocar eleições antecipadas para encurtar seu mandato,
nem pode estendê-lo além do que a Constituição permite”, explica Rodolfo
González, advogado constitucionalista e ex-magistrado da Câmara
Constitucional da Suprema Corte de El Salvador. “Se a Constituição permite
a reeleição, como nos Estados Unidos, em vez de cumprir
apenas quatro anos, o presidente pode cumprir oito. Mas se a Constituição
proíbe a reeleição, o presidente cumpre o mandato estipulado pela Constituição
e, em seguida, deve deixar o cargo”, esclarece.
Com a
decisão do tribunal de nomear os novos
magistrados, Bukele candidatou-se às eleições de 2024 e venceu um
segundo mandato com ampla margem de votos. Na época, organizações
internacionais rejeitaram a manobra legal. Bukele, por sua vez, afirmou que
este seria seu último mandato. Explicou que a decisão havia sido discutida com
sua esposa, Gabriela de Bukele, e que, após este mandato, planejava se
dedicar à família. Mas essa promessa também se mostrou efêmera.
Reformar
a Constituição
Uma vez
reeleito, Bukele continuou sua estratégia para perpetuar seu poder. A
reinterpretação feita por seus magistrados argumentava que qualquer pessoa que
tivesse servido como presidente por dois mandatos antes do mandato seguinte era
inelegível para concorrer à reeleição, exigindo, portanto, uma emenda
constitucional. No entanto, a própria Constituição proibia alterações
nos artigos referentes à alternância de poder. De fato, o texto estabelecia
que, para emendar qualquer artigo da Constituição, a primeira legislatura
deveria aprovar a reforma e a segunda, ratificá-la.
Jonathan
Sisco, chefe da Unidade Anticorrupção da Cristosal, uma organização de direitos
humanos alvo de Bukele, explica que “em El Salvador, o sistema de governo
é um exemplo clássico de hiperpresidencialismo; caracteriza-se pelo presidente
exercendo controle sobre os outros poderes. Embora exista uma separação formal
de poderes, na prática ela não funciona.”
Em 30
de abril de 2024, o partido no poder, ignorando todos os precedentes legais,
aprovou um mecanismo acelerado para emendar a Constituição. Esses
representantes eliminaram a exigência de duas sessões legislativas, em vigor
desde 1983, e determinaram que modificar a Constituição exigia apenas a sua
concordância.
Mas
ninguém compra uma arma se não pretende usá-la. Na noite de 31 de julho de
2025, a Assembleia, controlada pelos apoiadores de Bukele, aprovou
mais uma vez, sem muita discussão, uma série de reformas para permitir a
reeleição indefinida e também estendeu o mandato presidencial de cinco para
seis anos. Pouco depois, Bukele reafirmou publicamente sua intenção de
permanecer no poder por mais tempo. "Eu não gostaria de sair agora... se
dependesse de mim, ficaria por mais dez anos", disse ele em entrevista ao
criador de conteúdo espanhol David Cánovas Martínez.
“Bukele
detém poder concentrado; ele é simultaneamente chefe de governo e chefe de
Estado, comandante-em-chefe das Forças Armadas e chefe da
inteligência estatal. Ele também reformou o sistema eleitoral para favorecer
seu partido e perpetuou seu poder de forma ilegítima; a Constituição foi
emendada em violação ao processo formal de emenda”, acrescentou Sisco.
A
última manobra de Bukele girou em torno do momento oportuno. Após
defender a reeleição por tempo indeterminado, o presidente afirmou, por meio
das redes sociais, que sua decisão visava mais a economia de recursos públicos
do que a perpetuação no poder. Ele declarou que estender o mandato para seis
anos sincronizaria as eleições gerais a cada seis anos e as eleições de meio de
mandato a cada três anos, em vez das eleições constantes que ocorriam quando
estas eram realizadas a cada três e cinco anos.
As
pesquisas continuam mostrando índices de aprovação acima de 80% e uma maioria a
favor de sua permanência no poder. No entanto, um estudo da Universidade
Centro-Americana (UCA), administrada pelos jesuítas, reflete um crescente
temor entre os cidadãos de expressar críticas ao governo: seis em cada dez
salvadorenhos têm medo de criticar Bukele e acreditam que fazê-lo
pode ter consequências negativas.
Desde
março de 2022, El Salvador vive um estado de emergência que suspendeu
as garantias constitucionais e deu poder à polícia e aos soldados para atuarem
como “juízes nas ruas”, nas palavras do ex-chefe de polícia Mauricio Arriaza
Chicas (falecido
em agosto de 2024). A medida, inicialmente aprovada por trinta dias para lidar
com o aumento dos homicídios relacionados a gangues, tornou-se a norma por mais
de quatro anos — mais da metade do mandato de Bukele. O governo afirma que
essa política desmantelou as gangues, mas, ao mesmo tempo, argumenta que é
necessário mantê-la “até que o último membro de gangue seja capturado”.
“Os
políticos devem ser julgados por suas ações, não por suas promessas. A história
recente das Américas apresenta diversos casos de líderes que
prometeram não se candidatar à reeleição e, no fim, o fizeram; alguns até
permaneceram no poder até a morte”, alerta o analista Sisco. Hoje, com sua
candidatura a um terceiro mandato oficialmente anunciada, a declaração
de Bukele em 2013 sobre a importância de impedir que um presidente
permaneça no poder tornou-se mais uma contradição que marcou seu governo. “No
fim, cada nação escolhe seu próprio caminho”, declarou Bukele no X.
¨
O pacote do “modelo Bukele”. Por Marcos Rolim
Lideranças
políticas brasileiras e aventureiros da extrema direita têm
invocado a experiência de El Salvador como “modelo” de segurança pública a ser seguido.
A referência é ao governo de Nayib Bukele, que introduziu o chamado régimen
de excepción decretado em março de 2022. O autocrata suspendeu
garantias constitucionais básicas e autorizou a prisão em
massa de supostos integrantes de gangues. As imagens de milhares de homens de cabeça
raspada, encarcerados em condições que lembram campos de concentração,
circularam pelo mundo e, claro, conquistaram admiradores. Vale examinar mais de
perto o tema.
A queda
nos homicídios em El Salvador é real. Ninguém com responsabilidade
intelectual pode ignorá-la. O problema está em compreender o que a produziu e a
que preço. As estatísticas oficiais mostram que a redução da violência letal no
país começou após 2015, o ano mais violento da história recente salvadorenha, e
se intensificou a partir de 2019, quando Bukele assumiu a
presidência. O regime de exceção, eufemismo para
ditadura, só veio em março de 2022. Se a queda já estava ocorrendo no período
anterior, a que se deve atribuí-la?
A
resposta mais incômoda para os admiradores do modelo foi revelada, com
documentação incontestável, pelo jornalismo investigativo do El Faro, o
mais importante veículo independente de El Salvador. A publicação obteve
cópias de vários relatórios oficiais do próprio sistema penitenciário
salvadorenho, confirmando dezenas de reuniões secretas entre funcionários
do governo Bukele e líderes das
gangues MS-13 e Barrio 18 desde junho de 2019. Os
documentos, produzidos pela inteligência penitenciária do próprio governo,
revelam que o acordo incluía redução de homicídios em troca de benefícios
carcerários e apoio eleitoral (El Faro, setembro de 2020). Em 2025, um
documentário produzido em parceria com
o Frontline da PBS entrevistou líderes do Barrio 18 que
confirmaram o pacto e que escaparam do país com a cumplicidade do governo (PBS
Frontline, abril de 2026).
Quando
esse pacto se rompeu, em março de 2022, após um fim de semana com mais de 80
homicídios, que investigações do El Faro atribuem à ruptura do acordo, Bukele respondeu com
a ditadura.
O que se seguiu é documentado por organizações como a Anistia
Internacional e o Human Rights Watch: mais de 84 mil pessoas foram
presas até dezembro de 2024 (dado do próprio governo salvadorenho). Ao menos
132 morreram sob custódia estatal até março de 2023, sem que tivessem sido
condenadas, a maioria com evidências de tortura e tratamento cruel (Anistia
Internacional, 2023). Organizações de direitos humanos documentaram mais de 6,4
mil denúncias de violações e o próprio governo admitiu ter liberado oito mil
presos por não terem qualquer relação com gangues. A ONG Socorro
Jurídico Humanitário, por seu turno, estima que cerca de 30 mil detidos podem
ser inocentes (El Diario de Hoy, 2026).
Este é
o primeiro custo do modelo: o sofrimento humano em escala, mas há
desdobramentos cujos efeitos só serão percebidos nos próximos anos.
A prisão massiva, sem qualquer programa de tratamento penal, em condições
que a própria Comissão Interamericana de Direitos Humanos classificou como
aviltantes, tende a produzir o efeito oposto ao desejado a médio e longo
prazos. A Criminologia acumulou décadas de evidências mostrando que o
encarceramento sem reabilitação não reduz a reincidência, ao contrário, tende a
aumentá-la, especialmente quando o detento é exposto à violência sistemática e
ao convívio compulsório com lideranças criminosas mais experientes.
O
segundo custo é ainda mais grave, porque afeta a todos, não apenas aos que
passam pelas prisões. Governos que suspendem o devido processo legal para
“combater o crime” não estão apenas mudando a forma como tratam suspeitos.
Estão desfazendo a arquitetura jurídica que protege qualquer pessoa de qualquer
arbítrio estatal. O régimen de excepción salvadorenho não é um
episódio excepcional, tornou-se permanente, renovado mês após mês pela
Assembleia controlada por Bukele. O mesmo presidente que dissolveu o Poder
Legislativo com apoio militar em 2021, destituiu membros da Suprema Corte,
alterou a Constituição para viabilizar sua reeleição, proibida pelo texto
original. O que está sendo vendido como “política de segurança” é, na verdade,
um pacote bem maior. E nesse pacote a democracia é a primeira variável de
ajuste.
Isso
tem uma implicação direta para quem acredita que o modelo poderia ser replicado
no Brasil para atingir apenas criminosos. O ponto é que a lógica da exceção não funciona
assim. Um governo que pode prender sem provas, que pode suspender garantias
constitucionais por decreto, que pode destituir juízes que não lhe convenham,
esse governo pode fazer isso com qualquer pessoa ou grupo que represente um
obstáculo aos seus planos. Ontem, os membros de gangues; hoje, os críticos, os
jornalistas, os advogados de direitos humanos. Não se trata de especulação, é
exatamente o que está acontecendo em El Salvador, onde a diretora da
Socorro Jurídico Humanitário se encontra exilada no México após sofrer
perseguição por documentar violações de direitos (Diario El Mundo, 2026).
Há,
evidentemente, um caminho alternativo. Ele é mais trabalhoso, mais lento e
politicamente menos espetacular. Envolve investimento em
policiamento baseado em evidências, programas de prevenção para jovens em
situação de risco, tratamento para dependentes químicos, integração de
políticas sociais com estratégias de segurança e fortalecimento das
instituições de justiça. Esse caminho existe e funciona, como mostram as
experiências de Bogotá, Medellín e de alguns municípios brasileiros
que reduziram seus indicadores de violência sem suspender direitos.
Infelizmente, é um caminho que tende a não despertar o entusiasmo de quem
prefere a espetacularização da força à eficácia discreta das políticas públicas
consistentes.
Quando
lideranças políticas no Brasil falam em “fazer o que Bukele fez”, é
preciso perguntar, com toda a clareza: fazer o quê, exatamente? Prender
milhares de pessoas sem provas? Construir campos de concentração? Reescrever a
Constituição para permanecer no poder? A democracia não é um detalhe do modelo,
é exatamente o que o modelo destrói para funcionar.
Fonte: Por Bryan Avelar, para El País/Extra Classe

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