Tecnologia,
automação e os limites do capital
Os
debates em torno de uma suposta Quarta Revolução
Industrial impulsionada pela inteligência artificial e pela robótica
geralmente se organizam em torno de duas posições extremas: um otimismo
tecno-utópico — articulado tanto pelo bloco corporativo do Vale do Silício
quanto pelos movimentos de esquerda pós-capitalistas — que promete automação
emancipadora, e um fatalismo com nuances luditas que apresenta a obsolescência
definitiva do fator humano como um destino inevitável. Também operando à margem
dessa disputa estão as correntes que questionam a existência de uma
reconfiguração tecnológica substancial.
Assim
como a crise climática levou a um retorno às fontes clássicas com foco
ecológico, novos desenvolvimentos estão levando muitos teóricos a reler textos
marxistas fundamentais para repensar as bases materiais das transformações
atuais e as condições para a transição para um novo tipo de organização social.
Em Novas
Tecnologias nos Limites do Capital (IPS Editions, 2025), Paula
Bach contribui para esse debate. Economista formada pela Universidade de
Buenos Aires e líder do Partido Socialista Operário (PTS), Bach combina
engajamento ativista com rigorosa análise empírica. Sua pesquisa analisa as
transformações iniciadas após o colapso do Lehman Brothers para definir o
alcance e as reais limitações de tecnologias
como inteligência artificial, robótica e biotecnologia.
Ao
confrontar o poder da implantação na ciência e na maquinaria com a precariedade
que coloniza a vida da maioria, o autor restitui ao projeto de transformação do
sistema capitalista seu caráter de necessidade política: a tecnologia deve
deixar de servir à valorização para encerrar a "pré-história da
necessidade" e abrir caminho para uma subjetividade libertada.
A obra
rejeita a noção de que a automação contemporânea opera de forma autônoma ou
externa às relações de produção. Em vez disso, aborda esses dispositivos como
uma variável estritamente dependente das leis da acumulação. Para o autor, o
problema "não é abordado como uma questão técnica, mas como uma questão
fundamentalmente econômica e, portanto, política e geopolítica".
O cerne
de sua tese reside no que ele chama de "fricção" estrutural ou
contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e sua aplicação
efetiva. Segundo sua interpretação, desde a crise de 2008-2009, o capitalismo
global tem sofrido com investimentos e produtividade fracos, o que atua como um
limite material à inovação e a impede de se tornar uma verdadeira revolução
industrial.
Essa
"grande discrepância" traz à tona o paradoxo
de Solow — a contradição entre a implantação massiva de computadores
e a anemia nos dados de produtividade global —: algoritmos, robôs e
inteligência artificial generativa estão por toda parte, exceto nos indicadores
de desempenho do trabalho e na taxa de lucro geral.
Para
reconstruir a genealogia desse impasse, o autor retrocede aos anos 1990 e 2000
e define a onda digital do computador pessoal e a massificação inicial da
internet como uma Terceira Revolução Industrial "em um sentido
fraco".
Bach argumenta
que, embora essas inovações tivessem o potencial de funcionar como dispositivos
"de uso geral", capazes de transformar a matriz produtiva em todos os
níveis, o capital não as direcionou para revolucionar a produção industrial
doméstica. Os avanços da época foram relegados ao papel de fornecer suporte
logístico para a dispersão da manufatura para periferias de baixo custo. O
aumento da produtividade foi, portanto, resultado de uma reconfiguração
espacial da acumulação que deu origem a uma nova divisão internacional do
trabalho.
Durante
esses anos, os Estados Unidos especializaram-se em propriedade
intelectual no Vale do Silício, enquanto realocavam
a produção industrial para áreas com mão de obra barata, seguindo a integração
da China e da Europa Oriental ao mercado global após o
colapso das economias burocratizadas. Essa rota de fuga — e esse é um dos temas
centrais do livro — está agora esgotada devido à saturação geográfica global,
forçando a busca por novas formas de compensação territorial.
O
cenário atual não demonstra uma evolução linear rumo à reconfiguração do
sistema produtivo. Em vez disso, a economista observa uma tentativa sistemática
do capital de subordinar o potencial das máquinas contemporâneas às
necessidades de sua própria valorização. Esse cenário levanta uma questão que
até mesmo as opções progressistas tendem a ignorar: quais são as
características de um projeto — como o que ela propõe — capaz de superar a
lógica do capital?
Bach se
envolve nesse debate com as correntes pós-capitalistas e aceleracionistas, um
espectro heterogêneo ligado às diversas vertentes do debate pós-trabalho. Entre
as primeiras, ele aborda a obra de Paul Mason — autor de "Pós-capitalismo: Rumo
a um Novo Futuro" (Paidós, 2016) — que argumenta que a reprodução
gratuita da informação digital e sua natureza imaterial corroem os mecanismos
de mercado em nível molecular. Ele também dialoga com o aceleracionismo
de Nick Srnicek e Alex Williams. Em "Inventando o Futuro: Pós-capitalismo
e um Mundo Sem Trabalho" (Malpaso, 2017), eles alertam que a
automação não dissolve o sistema por si só, mas sim requer uma estratégia
estatal capaz de provocar a ruptura institucional.
Para Bach,
ambas as correntes operam através de uma espécie de Marx "à
la carte", baseado numa abordagem seletiva que escolhe arbitrariamente
partes de seus textos. É o caso do "Fragmento sobre as Máquinas"
dos Grundrisse, do qual recuperam apenas a obsolescência do valor devido
ao desdobramento do conhecimento social. Segundo ela, desconsideram, em vez
disso, a contraparte dialética nessas mesmas páginas: o mecanismo pelo qual o
capital se apropria da abundância tecnológica e a redireciona para a superexploração.
Para além das diferenças, ela compreende que ambas as posições partem do
pressuposto de que o desenvolvimento contemporâneo inevitavelmente corrói a lei
do valor e subestimam a capacidade coercitiva do regime de propriedade privada.
Nas
condições atuais, essa coerção também se expressa em patentes globais que
expropriam a inteligência coletiva para subordiná-la ao imperativo da
valorização, transformando o potencial tempo livre da humanidade em mão de obra
excedente.
O
sistema, portanto, opera como uma contradição em progresso: reduz o tempo de
trabalho necessário ao mínimo técnico, ao mesmo tempo que insiste em manter o
trabalho humano como a única fonte de riqueza. A dissolução da lógica do valor
exige, portanto, uma resolução política enérgica que destrua o regime de
propriedade privada dos meios de produção.
Bach retoma
a clássica dicotomia "em si" e "para si" — originalmente
formulada para conceituar a consciência de classe — e a aplica ao âmbito da
automação contemporânea. Para ela, a inteligência
artificial,
a robótica, a biotecnologia e a nanotecnologia existem "em si" como
forças produtivas capazes de transformar fundamentalmente os alicerces da
sociedade e criar as condições materiais para uma ordem superior. A acumulação
de conhecimento e habilidades poderia, nesse sentido, constituir uma estrutura
para avançar rumo à emancipação da exploração. Contudo, o capital não pode
transformar esse potencial em um motor "para si", pois sua utilização
permanece condicionada pelas limitações de uma forma social regida pela
acumulação.
A força
libertadora desses desenvolvimentos — que se desenrolam em meio à “estagnação
secular” pós-Lehman Brothers, marcada pela persistente fragilidade do
investimento e da produtividade — é prejudicada pela organização do trabalho e
pela propriedade dos meios de produção. Essa contradição demonstra, segundo a
perspectiva marxista do autor, que a inovação não busca libertar o tempo, mas
permanece subordinada à lógica do capital e dos Estados que representam seus
interesses. As capacidades técnicas tornam-se, assim, instrumentos de
competição geopolítica e militarização.
A
própria voz de Peter Thiel — embora não
faça parte dos debates abordados no livro — valida parte desse diagnóstico. O
magnata defende um aumento acentuado nos gastos militares, dada a paralisação
da produção que afeta o Vale do Silício, e busca soluções enérgicas para preservar
um imperialismo em declínio. Suas declarações, analisadas sob a ótica da
estrutura proposta por Bach, permitem-nos observar os próprios limites da
valorização.
O
economista também aborda a chamada "armadilha dos custos", descrita
por Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee em obras como "A
Segunda Era das Máquinas" ([2014] Temas, 2016). Para Bach, o
aumento do custo da infraestrutura não é um fator neutro, mas sim uma
manifestação contemporânea da crescente composição orgânica do capital — o peso
cada vez maior do capital constante em relação ao capital variável. Além disso,
os grandes centros de dados enfrentam um limite biofísico devido ao seu consumo
massivo de água e energia, o que reduz a rentabilidade geral.
Segundo
o autor, diante da consequente tendência de queda na taxa de lucro, o sistema
busca compensar a margem contratando mão de obra barata e expandindo empregos
vulneráveis na economia digital.
Softwares de gestão e controle de plataformas atuam como dispositivos de
vigilância algorítmica, concebidos
para disciplinar e aprofundar a subsunção do trabalho humano.
Essa dinâmica levaria a uma degradação global que extrai
das áreas menos integradas a mais-valia necessária
para compensar a expulsão da mão de obra dos centros
industriais.
Este
deslocamento laboral desmantela previsões sobre o desaparecimento forçado de
empregos e as diversas teses do “fim do trabalho”, como a expressa
por Martin Ford em A Ascensão dos Robôs ([2015],
Paidós, 2016). Bach intervém neste campo através de uma pesquisa
sobre a divisão internacional do trabalho que consegue inverter os termos do
debate: o problema atual não reside num limite técnico das tarefas, mas nas
características particulares assumidas pela procura capitalista de trabalho.
Bach destaca
que as estatísticas das últimas décadas revelam outro paradoxo: enquanto a
produtividade cresceu 60%, a jornada de trabalho média diminuiu apenas 5%. Para
a autora, essa assimetria exige um retorno à dimensão geográfica da acumulação,
desenvolvida por David Harvey em obras como
"Espaços do Capital: Rumo a uma Geografia Crítica" (Akal,
2001) e "Espaços do Capitalismo Global" ([2007] Akal, 2021).
Sua leitura de Harvey demonstra que o capital não apenas explora o
tempo de trabalho, mas também organiza e reorganiza o espaço para adiar suas
crises de rentabilidade.
Contrariamente
a Jeremy Rifkin e Aaron Bastani — autores
de Comunismo de Luxo Totalmente Automatizado ([2019] Levanta
Fuego, 2021) — e suas hipóteses sobre abundância automática derivada de custo
marginal zero, Bach demonstra que o capital impõe uma “escassez relativa” por
meio da propriedade de máquinas. O potencial técnico é, portanto, bloqueado pela
própria forma mercantil do sistema.
A
autora também contesta o tecnopessimismo de Robert Gordon em "A
Ascensão e Queda do Crescimento Americano" (2016). Ao contrário de
Gordon, ela observa que a estagnação secular não se deve à inferioridade das
invenções, mas sim à falta de oportunidades de investimento lucrativas após a
crise de 2008, o que levou ao direcionamento de capital para a especulação.
Para
entender essa paralisia, é preciso prestar atenção à materialidade de uma
infraestrutura física — redes de fibra óptica, contêineres, centros de dados —
cuja saturação marca o esgotamento do que Harvey chama de
"solução espacial". Se, durante décadas, a realocação para periferias
de baixo custo permitiu a manutenção da lucratividade sem revolucionar a
produção nacional, hoje, diante do fechamento dessa fronteira geográfica, o
capitalismo não está flutuando nas nuvens: ele busca reconquistar território por
meios violentos que transformam a tecnologia de ponta em um insumo inseparável
para a indústria militar e a cibernética estatal.
O livro
revisita criticamente a categoria de "hegemonia tecnológica"
formulada por Srnicek e Williams em "Inventando o
Futuro", integrando-a como uma dimensão inseparável da hegemonia
política e de classe em geral. Bach rejeita a possibilidade de separar o
desenvolvimento tecnológico da dominação social, bem como qualquer
"atalho" distributivo baseado na renda básica universal. Para o
economista, a luta não é puramente discursiva: ela se trava pelo controle
físico do sistema produtivo.
Bach
critica o apelo aceleracionista para "abandonar as fábricas", que ele
interpreta como um abandono de posições estratégicas e uma capitulação à
totalidade do poder e do capital. Em contrapartida, ele argumenta que a luta
pelos sistemas atuais deve ocorrer nos próprios locais de trabalho e centros de
serviços. Sua abordagem não propõe uma mera mudança no controle legal ou uma
simples gestão operária do software existente. Ela envolve a reconfiguração da
arquitetura material das máquinas e a alteração de algoritmos e robótica para
erradicar seus mecanismos de vigilância coercitiva e obsolescência.
Somente
por meio dessa transformação a automação deixaria de servir ao propósito de
agregar valor e, em vez disso, se subordinaria à própria vida. Para concretizar
essa mudança, o autor propõe a união dos setores de empregados, subempregados e
desempregados em torno de uma distribuição racional da jornada de trabalho, sem
redução salarial, visando diretamente à socialização dos meios de produção.
O texto
de Bach desmantela fundamentalmente qualquer tentativa de rotulá-lo
como "economicista". Sua análise da base produtiva não desconsidera a
ideologia ou o Estado, mas demonstra como o imaginário do Vale do
Silício, o conflito institucional e a lógica do Estado burguês estão
intrinsecamente ligados à matriz industrial. Dessa perspectiva, ele demonstra
como a promessa tecno-otimista de abundância tecnológica ininterrupta ignora as
contradições que o capital não consegue resolver por si só, bem como os mecanismos
de escassez e controle que impõe para se sustentar.
Apesar
de sua abrangência, o livro deixa alguns problemas sem solução. O primeiro
deles é a questão do sujeito técnico precário. Há o risco de que a proposta de
uma "hegemonia tecnológica" seja minada se a obra não se aprofundar
na sociologia concreta dos trabalhadores da tecnologia contemporâneos.
Ao
analisar os exércitos de moderadores de conteúdo no Sul Global ou os
entregadores de plataformas sob regimes fraudulentos de trabalho autônomo, o
texto prioriza sua caracterização macroeconômica como expressões de degradação
do trabalho. Uma análise mais abrangente desses grupos altamente fragmentados
permanece pendente, visto que suas formas de resistência e organização coletiva
são essenciais para concretizar a estratégia de controle e expropriação
proposta pelo autor.
A
pesquisa também tende a subestimar o peso das superestruturas ideológicas que
emergiram no Vale do Silício. Um exame das contradições materiais se
beneficiaria de um diálogo mais próximo com as estruturas discursivas do
transhumanismo e do aceleracionismo de direita, promovidas por magnatas e
ideólogos como Elon Musk e Peter
Thiel.
Esses
discursos constituem projetos ideológicos abrangentes, voltados para a formação
de uma república corporativa, hiperautoritária e tecnológica, cujo horizonte
abrange o controle biopolítico das populações, a erosão das soberanias estatais
tradicionais e a transformação dos aparatos de vigilância. O desenvolvimento
limitado dessa dimensão, presente no livro, impede-o de demonstrar como a
acumulação de capital físico se insere na teoria
do Estado contemporânea e na reconstituição reacionária das instituições
burguesas por meio da militarização de algoritmos e da cibernética estatal.
A obra
de Bach também abre uma área que não explora completamente: o impacto
da inteligência artificial na esfera da reprodução social. Embora priorize a
dinâmica fabril, o trabalho invisível de cuidado e das tarefas domésticas
enfrenta novos desafios decorrentes da automação, que não busca liberar tempo
em casa, mas sim mercantilizar e monitorar a vida privada. Essa invasão da
intimidade doméstica responde à necessidade do capital de colonizar novas
fronteiras de acumulação interna diante da saturação dos mercados tradicionais.
Resta saber como a governança algorítmica se relaciona com a gestão de
populações fora do ambiente de trabalho.
As
limitações mencionadas não diminuem a importância de "Novas Tecnologias
nos Limites do Capital" como um ensaio inovador, essencial para o
debate contemporâneo. Sua maior conquista política reside em desafiar o
libertarianismo e a apropriação simbólica do futuro pelas corporações.
Em
contraste com o pessimismo melancólico de certos setores da esquerda
tradicional, que veem a automação como uma agressão externa irreversível, o
economista e ativista devolve às forças produtivas seu caráter histórico como
um insumo vivo para a emancipação.
A
definição dos fundamentos metodológicos de um programa político que exige a
reapropriação democrática da tecnologia por aqueles que criam riqueza
permite-nos repensar a validade do projeto socialista.
Bach,
como economista perspicaz e socialista convicta, evita o sincretismo e examina
minuciosamente as principais abordagens contemporâneas, baseando-se em análises
estatísticas e discussões teóricas. Sua obra demonstra que a fronteira
tecnológica de nosso tempo contém a premissa para a revolução.
Fonte: Por Jazmín Bazán, no Nueva Sociedad

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