quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Guerra de narrativas no período eleitoral

Em se tratando de eleição, nós, simples portadores de título eleitoral, costumamos não perceber que, na prática, os empregadores são os eleitores, enquanto os empregados são os políticos. Nesse arranjo, o povo acaba sendo apenas um detalhe nesta toada democrática que assola o nosso país há tantos séculos.

Na verdade, deveríamos encarar a situação eleitoral sob uma perspectiva bastante diferente: os políticos são os empregados e os eleitores, os empregadores. Afinal, é o cidadão quem, por meio do voto, concede ao representante um mandato para exercer determinada função pública. Não se trata, portanto, de uma concessão de poder absoluto, mas de uma delegação temporária de responsabilidade.

A retórica, sem dúvida, faz da profissão política o ponto alto metodológico do contexto da representatividade. O trabalhador, em sua maioria, não sabe exatamente o que significa o termo, em um país com uma tradição democrática marcada por distorções sob a forma de narrativas.

Nesta contemporaneidade, que vai além da sociedade do espetáculo e perpassa os chamados tempos líquidos, vivemos um momento em que a retórica alcança uma espécie de encantamento coletivo. Não se trata apenas de convencer, mas de seduzir; não apenas de apresentar propostas, mas de construir narrativas capazes de envolver uma população que, muitas vezes, sobrevive às custas de auxílios e ajudas de custo.

É nesse cenário que a política encontra terreno fértil para transformar necessidade em instrumento de persuasão. Quanto maior a vulnerabilidade social, maior pode ser o poder de uma narrativa que promete proteção, pertencimento ou esperança, e assim o povo vai perdendo a vida e a esperança.

O eleitor, então, deixa de perceber o político como aquele que deve prestar contas e passa a enxergá-lo como aquele de quem depende.

E chegamos às narrativas atuais.

Há candidatos envolvidos em acusações gravíssimas, inclusive relacionadas a crimes sexuais, enquanto outros carregam trajetórias políticas marcadas por denúncias e acusações de corrupção. É necessário, evidentemente, distinguir acusação de condenação. Mas a existência dessas narrativas, por si só, revela o grau de deterioração do debate público e a dimensão do espetáculo político que atravessa o nosso tempo.

Tudo isso acontece em um país cujo salário mínimo, em 2026, é de R$ 1.621,00.

Segundo dados do IBGE, o rendimento médio mensal real de todas as fontes da população com rendimento chegou a R$ 3.367 em 2025, enquanto o rendimento domiciliar per capita ficou em torno de R$ 2.264. A população brasileira, naquele período, aproximava-se de 213 milhões de habitantes.

Os números ajudam a dimensionar a distância entre o discurso político e a vida real.

Para milhões de brasileiros, três mil reais não representam riqueza. Representam, muitas vezes, apenas a possibilidade de sobreviver com alguma dignidade. E uma parcela expressiva da população permanece dependente de políticas de transferência de renda.

O Bolsa Família, em julho de 2026, alcançava mais de 19 milhões de famílias, com mais de R$ 13 bilhões repassados somente naquele mês.

Não se trata aqui de negar a importância da assistência social. Uma sociedade que possui milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade precisa, evidentemente, proteger seus cidadãos. Nenhum deles — e muitos deles com boa cognição e formação intelectual — conseguiu sequer conhecer o Nordeste, que dirá Paris.

Até que ponto uma política de transferência de renda consegue ultrapassar a emergência e produzir autonomia econômica?

O auxílio pode aliviar a fome, a miséria e a insegurança imediata. Mas não substitui emprego digno, educação de qualidade, qualificação profissional, produtividade, salários melhores e condições concretas para que o cidadão deixe de depender permanentemente da assistência estatal.

O problema aparece quando a assistência, necessária em uma sociedade desigual, corre o risco de ser transformada em instrumento permanente de dependência política.

O cidadão que deveria ser o empregador termina, muitas vezes, colocado na posição de dependente do próprio empregado.

É como se a política tivesse criado o seu próprio universo, enquanto o eleitor permanece do lado de fora, observando a narrativa que lhe é apresentada e escolhendo, entre diferentes personagens, aquele a quem entregará novamente as chaves da casa.

Mas a casa é nossa.

Os três Poderes atravessam uma fase em que o clímax parece ser justamente este: o povo está sofrendo. Os professores estão sofrendo.

E, enquanto as narrativas se multiplicam nos palanques, nos tribunais e nos gabinetes, a vida real continua cobrando sua conta.

A reforma previdenciária, nesse contexto, revela uma de suas faces mais cruéis: coloca nas cordas aqueles que chegaram aos 60 anos de idade depois de uma vida inteira de trabalho, muitas vezes recebendo míseros tostões, valores que, aos olhos de uma determinada cúpula de poder, parecem perfeitamente compatíveis com aquilo que se convencionou chamar de justiça social.

Mas que justiça é essa?

Que democracia é essa em que o trabalhador precisa envelhecer para descobrir que o seu tempo de contribuição não necessariamente lhe garante dignidade?

Que sistema é esse em que professores, depois de décadas dentro das salas de aula, precisam continuar lutando para que sua sobrevivência não seja transformada em estatística?

A retórica institucional fala em equilíbrio, responsabilidade fiscal, sustentabilidade e direitos. São palavras importantes.

Mas palavras, quando divorciadas da realidade daqueles que sustentaram o sistema durante décadas, podem adquirir a aparência de uma sofisticada forma de violência burocrática.

É justamente diante dessa realidade que também se insere uma iniciativa que apresentei ao Senado Federal: uma proposta legislativa voltada à revogação dos dispositivos da Emenda Constitucional nº 103, de 2019, que alteraram de forma profundamente prejudicial o cálculo das aposentadorias por incapacidade permanente dos servidores públicos.

No caso dos servidores públicos do Estado do Rio de Janeiro, a situação assume contornos ainda mais dramáticos.

Pessoas que dedicaram décadas ao serviço público, ao atingirem uma condição de incapacidade que as impede de continuar trabalhando, podem se deparar com uma redução brutal de seus rendimentos, passando a sobreviver com valores muito inferiores àqueles que recebiam na ativa.

É difícil falar em dignidade humana quando a incapacidade para o trabalho transforma-se também em uma espécie de punição financeira.

Minha proposta legislativa nasce exatamente dessa inconformidade: da necessidade de rever uma legislação que, em vez de proteger aquele que se tornou incapaz depois de uma vida laboral, pode lançá-lo em uma situação de vulnerabilidade econômica justamente no momento em que mais necessita de proteção.

Não se trata de privilégio.

Trata-se de discutir se uma sociedade que se pretende democrática pode considerar razoável que alguém que dedicou sua vida ao serviço público seja submetido, ao adoecer ou tornar-se permanentemente incapaz, a uma redução tão expressiva de sua renda.

A questão previdenciária, portanto, não é apenas matemática.

Não estamos falando somente de percentuais, cálculos atuariais ou equilíbrio fiscal.

Estamos falando de pessoas.

Estamos falando de professores, servidores e trabalhadores que envelhecem e adoecem depois de décadas de contribuição.

E talvez seja esse o ponto em que a guerra de narrativas encontre o seu maior paradoxo: enquanto se discute, nos grandes espaços de poder, a sustentabilidade dos sistemas, há seres humanos concretos tentando descobrir como sustentar a própria vida.

Foi por isso que levei essa questão ao Senado Federal.

Porque o cidadão não pode ser apenas eleitor no momento da urna. Também precisa ser sujeito político capaz de questionar, propor e participar da construção das leis que determinarão o seu próprio destino.

E talvez seja justamente aí que a guerra de narrativas alcance seu ponto máximo: quando aquilo que é apresentado como necessário, técnico e inevitável pela cúpula do poder é experimentado, na ponta, como sofrimento por quem trabalhou, contribuiu e envelheceu.

O empregador — o povo — continua pagando a conta.

E o empregado, em vez de prestar contas, parece cada vez mais ocupado em explicar ao empregador por que a conta precisa continuar aumentando.

Talvez seja necessário, portanto, recuperar uma verdade elementar da democracia: o poder não pertence ao político. O poder é delegado pelo cidadão.

O político não deveria ser visto como salvador, proprietário do Estado ou dono da verdade.

É um servidor temporariamente contratado pelo voto popular.

E todo empregado deveria saber que existe uma pergunta que nenhum discurso, nenhuma retórica e nenhuma narrativa consegue eliminar:

O que você fez com o mandato que recebeu?

É essa pergunta que o eleitor precisa reaprender a fazer.

Porque democracia não pode ser apenas o direito de escolher quem ocupará o poder.

Democracia precisa ser também o direito — e o dever — de cobrar daqueles que receberam o poder em nosso nome.

•        Mauro Vieira denuncia ataques “sem precedentes” à soberania nacional

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o Brasil enfrenta um cenário internacional marcado pelo avanço da desinformação, por ataques contra instituições democráticas e por tentativas de interferência externa. Para o chanceler, as transformações ocorridas nas redes sociais e nas relações entre os países exigem uma atuação firme do Estado brasileiro na proteção da soberania nacional.

As avaliações foram apresentadas por Vieira no artigo “Mitos e verdades da diplomacia na era da desinformação”, publicado no jornal Correio Braziliense. No texto, o ministro sustenta que a chamada era da pós-verdade permanece presente na política contemporânea e relaciona o fenômeno a recentes confrontos envolvendo governos estrangeiros e instituições brasileiras.

Segundo Vieira, a utilização em larga escala da desinformação, dos algoritmos e das redes sociais como instrumentos de radicalização política representa um problema permanente para os regimes democráticos. O ministro cita as obras Os engenheiros do caos e A hora dos predadores, de Giuliano da Empoli, como referências para compreender o ambiente político atual.

“A chamada era da pós-verdade não é uma página virada na história, lamentavelmente.”

Um dos pontos centrais do artigo é a reação do chanceler às declarações e medidas tomadas por autoridades estrangeiras contra o Brasil. Vieira afirma que as ofensivas não atingem apenas a Presidência da República e o Poder Executivo, mas alcançam também o Judiciário.

Para o ministro, esse comportamento representa uma ruptura com padrões tradicionais das relações diplomáticas.

“Trata-se de comportamentos grosseiros e sem precedentes de líderes estrangeiros, com ataques frontais à nossa soberania e ao nosso regime democrático, típicos da ‘Hora dos predadores’, que devem ser tratados e repelidos como tal.”

Vieira faz questão de reforçar que emprega a expressão “sem precedentes” de maneira deliberada. Na avaliação apresentada pelo chanceler, embora existam antecedentes históricos para tentativas de subordinação entre países, a forma assumida pelas atuais ofensivas exige novas maneiras de interpretar e responder aos acontecimentos.

“O mundo mudou, mudou para pior nas redes e nas relações internacionais, e, nessas horas, não se pode ser ingênuo nem agir unicamente com base em métricas e padrões do passado.”

<><> Chanceler defende reação proporcional e firme do Brasil

Vieira também destaca a tradição diplomática brasileira e afirma que o reconhecimento conquistado pelo Itamaraty ao longo de diferentes gerações está relacionado à capacidade de interpretar corretamente as mudanças da sociedade e do cenário internacional.

Na avaliação do ministro, os sinais atuais incluem ataques que classifica como inéditos e virulentos. Ele também acusa brasileiros no exterior de estimular ações contrárias aos interesses do país.

Diante desse quadro, Vieira argumenta que o princípio da proporcionalidade, tradicionalmente empregado nas relações internacionais, não significa ausência de reação. Pelo contrário: diante da gravidade das ofensivas, seria necessário adotar respostas igualmente firmes para proteger a soberania e as instituições brasileiras.

É nesse contexto que o ministro situa a disputa em torno da desinformação. Para Vieira, parte do debate público procura transferir ao governo brasileiro a responsabilidade por medidas tomadas por autoridades estrangeiras.

“Percebo, no debate dos últimos dias, a tentativa de alguns de inverter a responsabilidade pelos atos hostis que é de única e exclusiva responsabilidade de governantes e governos estrangeiros que os praticam, e a ninguém mais.”

<><> Vieira relaciona críticas externas a atores envolvidos na tentativa de golpe

No artigo, o chanceler associa essa tentativa de inversão de responsabilidades a setores políticos e sociais que, segundo ele, estiveram envolvidos na tentativa de ruptura institucional no Brasil.

“Estão de volta os mesmos atores políticos e sociais que fracassaram na implementação de um golpe de Estado no Brasil e voltaram a fracassar na tentativa de maquiar ou normalizar o golpe, frustrado pela pronta ação das instituições e da sociedade brasileira.”

De acordo com Vieira, esses grupos passaram a responsabilizar o próprio governo brasileiro pelas agressões externas e a questionar as respostas adotadas pelo país diante de medidas e declarações consideradas ingerências em assuntos internos.

A argumentação do chanceler busca estabelecer uma conexão entre as disputas políticas domésticas e as recentes tensões diplomáticas, especialmente quando ações de autoridades estrangeiras são estimuladas ou apoiadas por brasileiros.

<><> “Tarifaço” e sanções de 2025 são citados pelo ministro

Entre os episódios mencionados, Vieira cita o chamado “tarifaço” e as sanções adotadas em 2025. Segundo o ministro, essas iniciativas não foram provocadas pelo Brasil e tinham como objetivo declarado exercer pressão sobre o Poder Judiciário brasileiro.

“Nosso país não provocou o chamado ‘tarifaço’ e as sanções de 2025, que tinham como declarado objetivo pressionar o Poder Judiciário brasileiro.”

O artigo também menciona declarações recentes do presidente de um país vizinho durante um evento político-partidário realizado no Brasil. Vieira utiliza o episódio como outro exemplo do que considera uma deterioração dos padrões de convivência diplomática.

Ao abordar as relações regionais, o ministro recorre a um artigo publicado pelo ex-presidente José Sarney no próprio Correio Braziliense. Vieira reproduz a avaliação de Sarney segundo a qual os recentes “despautérios” contra o Brasil estariam “fora dos limites da civilidade”.

Para o chanceler, a reflexão do ex-presidente ganha relevância por sua participação histórica no processo de aproximação entre Brasil e Argentina e na construção da integração regional durante o período democrático.

Vieira argumenta que quatro décadas de convivência democrática produziram um patrimônio diplomático compartilhado que precisa ser preservado mesmo diante das atuais divergências.

<><> Ministro acusa grupos de tentar inverter responsabilidade por ataques

Outra crítica apresentada no artigo é direcionada aos setores que, segundo Vieira, anteriormente buscaram minimizar a tentativa de golpe de Estado e agora procuram responsabilizar o Brasil pelas ofensivas provenientes do exterior.

O ministro sustenta que a desinformação não seria suficiente para apagar princípios elementares das relações entre indivíduos e países.

“Agredir, ameaçar, proferir insultos ao anfitrião, seja na casa, seja no país de quem acolhe a visita, ou conspirar contra a própria pátria no exterior são atitudes erradas, são condenáveis, e nada mudará essa realidade.”

Vieira resume essa posição com uma afirmação direta:

“Não se responsabiliza a vítima por uma agressão recebida. A culpa cabe sempre ao agressor.”

<><> Itamaraty promete reagir a ingerências e desinformação

Na conclusão do artigo, o ministro das Relações Exteriores endurece o discurso contra a participação de atores brasileiros em articulações internacionais destinadas, segundo sua avaliação, a pressionar o país e suas instituições.

“Tentam bater no Brasil por meio de autoridades estrangeiras e depois esconder a mão.”

Vieira sustenta ainda que decisões sobre os rumos políticos e institucionais brasileiros devem permanecer sob controle do próprio país, rejeitando qualquer possibilidade de tutela externa.

“Não será governado por controle remoto a partir de uma capital estrangeira.”

O chanceler encerra sua análise defendendo a capacidade das instituições democráticas de proteger os interesses nacionais diante de momentos de tensão. Também sinaliza que o Ministério das Relações Exteriores continuará respondendo a ações consideradas hostis, incluindo campanhas de desinformação e ingerências externas.

“O brasileiro conta com instituições democráticas fortes para a defesa do interesse nacional em tempos de conflito, e o Itamaraty não deixará de reagir, sempre com profissionalismo, às manobras de desinformação e às grosserias de candidatos a predadores e seus apoiadores locais.”

 

Fonte: Por Valéria Guerra Reiter, em Brasil 247

 

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