Guerra
de narrativas no período eleitoral
Em se
tratando de eleição, nós, simples portadores de título eleitoral, costumamos
não perceber que, na prática, os empregadores são os eleitores, enquanto os
empregados são os políticos. Nesse arranjo, o povo acaba sendo apenas um
detalhe nesta toada democrática que assola o nosso país há tantos séculos.
Na
verdade, deveríamos encarar a situação eleitoral sob uma perspectiva bastante
diferente: os políticos são os empregados e os eleitores, os empregadores.
Afinal, é o cidadão quem, por meio do voto, concede ao representante um mandato
para exercer determinada função pública. Não se trata, portanto, de uma
concessão de poder absoluto, mas de uma delegação temporária de
responsabilidade.
A
retórica, sem dúvida, faz da profissão política o ponto alto metodológico do
contexto da representatividade. O trabalhador, em sua maioria, não sabe
exatamente o que significa o termo, em um país com uma tradição democrática
marcada por distorções sob a forma de narrativas.
Nesta
contemporaneidade, que vai além da sociedade do espetáculo e perpassa os
chamados tempos líquidos, vivemos um momento em que a retórica alcança uma
espécie de encantamento coletivo. Não se trata apenas de convencer, mas de
seduzir; não apenas de apresentar propostas, mas de construir narrativas
capazes de envolver uma população que, muitas vezes, sobrevive às custas de
auxílios e ajudas de custo.
É nesse
cenário que a política encontra terreno fértil para transformar necessidade em
instrumento de persuasão. Quanto maior a vulnerabilidade social, maior pode ser
o poder de uma narrativa que promete proteção, pertencimento ou esperança, e
assim o povo vai perdendo a vida e a esperança.
O
eleitor, então, deixa de perceber o político como aquele que deve prestar
contas e passa a enxergá-lo como aquele de quem depende.
E
chegamos às narrativas atuais.
Há
candidatos envolvidos em acusações gravíssimas, inclusive relacionadas a crimes
sexuais, enquanto outros carregam trajetórias políticas marcadas por denúncias
e acusações de corrupção. É necessário, evidentemente, distinguir acusação de
condenação. Mas a existência dessas narrativas, por si só, revela o grau de
deterioração do debate público e a dimensão do espetáculo político que
atravessa o nosso tempo.
Tudo
isso acontece em um país cujo salário mínimo, em 2026, é de R$ 1.621,00.
Segundo
dados do IBGE, o rendimento médio mensal real de todas as fontes da população
com rendimento chegou a R$ 3.367 em 2025, enquanto o rendimento domiciliar per
capita ficou em torno de R$ 2.264. A população brasileira, naquele período,
aproximava-se de 213 milhões de habitantes.
Os
números ajudam a dimensionar a distância entre o discurso político e a vida
real.
Para
milhões de brasileiros, três mil reais não representam riqueza. Representam,
muitas vezes, apenas a possibilidade de sobreviver com alguma dignidade. E uma
parcela expressiva da população permanece dependente de políticas de
transferência de renda.
O Bolsa
Família, em julho de 2026, alcançava mais de 19 milhões de famílias, com mais
de R$ 13 bilhões repassados somente naquele mês.
Não se
trata aqui de negar a importância da assistência social. Uma sociedade que
possui milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade precisa,
evidentemente, proteger seus cidadãos. Nenhum deles — e muitos deles com boa
cognição e formação intelectual — conseguiu sequer conhecer o Nordeste, que
dirá Paris.
Até que
ponto uma política de transferência de renda consegue ultrapassar a emergência
e produzir autonomia econômica?
O
auxílio pode aliviar a fome, a miséria e a insegurança imediata. Mas não
substitui emprego digno, educação de qualidade, qualificação profissional,
produtividade, salários melhores e condições concretas para que o cidadão deixe
de depender permanentemente da assistência estatal.
O
problema aparece quando a assistência, necessária em uma sociedade desigual,
corre o risco de ser transformada em instrumento permanente de dependência
política.
O
cidadão que deveria ser o empregador termina, muitas vezes, colocado na posição
de dependente do próprio empregado.
É como
se a política tivesse criado o seu próprio universo, enquanto o eleitor
permanece do lado de fora, observando a narrativa que lhe é apresentada e
escolhendo, entre diferentes personagens, aquele a quem entregará novamente as
chaves da casa.
Mas a
casa é nossa.
Os três
Poderes atravessam uma fase em que o clímax parece ser justamente este: o povo
está sofrendo. Os professores estão sofrendo.
E,
enquanto as narrativas se multiplicam nos palanques, nos tribunais e nos
gabinetes, a vida real continua cobrando sua conta.
A
reforma previdenciária, nesse contexto, revela uma de suas faces mais cruéis:
coloca nas cordas aqueles que chegaram aos 60 anos de idade depois de uma vida
inteira de trabalho, muitas vezes recebendo míseros tostões, valores que, aos
olhos de uma determinada cúpula de poder, parecem perfeitamente compatíveis com
aquilo que se convencionou chamar de justiça social.
Mas que
justiça é essa?
Que
democracia é essa em que o trabalhador precisa envelhecer para descobrir que o
seu tempo de contribuição não necessariamente lhe garante dignidade?
Que
sistema é esse em que professores, depois de décadas dentro das salas de aula,
precisam continuar lutando para que sua sobrevivência não seja transformada em
estatística?
A
retórica institucional fala em equilíbrio, responsabilidade fiscal,
sustentabilidade e direitos. São palavras importantes.
Mas
palavras, quando divorciadas da realidade daqueles que sustentaram o sistema
durante décadas, podem adquirir a aparência de uma sofisticada forma de
violência burocrática.
É
justamente diante dessa realidade que também se insere uma iniciativa que
apresentei ao Senado Federal: uma proposta legislativa voltada à revogação dos
dispositivos da Emenda Constitucional nº 103, de 2019, que alteraram de forma
profundamente prejudicial o cálculo das aposentadorias por incapacidade
permanente dos servidores públicos.
No caso
dos servidores públicos do Estado do Rio de Janeiro, a situação assume
contornos ainda mais dramáticos.
Pessoas
que dedicaram décadas ao serviço público, ao atingirem uma condição de
incapacidade que as impede de continuar trabalhando, podem se deparar com uma
redução brutal de seus rendimentos, passando a sobreviver com valores muito
inferiores àqueles que recebiam na ativa.
É
difícil falar em dignidade humana quando a incapacidade para o trabalho
transforma-se também em uma espécie de punição financeira.
Minha
proposta legislativa nasce exatamente dessa inconformidade: da necessidade de
rever uma legislação que, em vez de proteger aquele que se tornou incapaz
depois de uma vida laboral, pode lançá-lo em uma situação de vulnerabilidade
econômica justamente no momento em que mais necessita de proteção.
Não se
trata de privilégio.
Trata-se
de discutir se uma sociedade que se pretende democrática pode considerar
razoável que alguém que dedicou sua vida ao serviço público seja submetido, ao
adoecer ou tornar-se permanentemente incapaz, a uma redução tão expressiva de
sua renda.
A
questão previdenciária, portanto, não é apenas matemática.
Não
estamos falando somente de percentuais, cálculos atuariais ou equilíbrio
fiscal.
Estamos
falando de pessoas.
Estamos
falando de professores, servidores e trabalhadores que envelhecem e adoecem
depois de décadas de contribuição.
E
talvez seja esse o ponto em que a guerra de narrativas encontre o seu maior
paradoxo: enquanto se discute, nos grandes espaços de poder, a sustentabilidade
dos sistemas, há seres humanos concretos tentando descobrir como sustentar a
própria vida.
Foi por
isso que levei essa questão ao Senado Federal.
Porque
o cidadão não pode ser apenas eleitor no momento da urna. Também precisa ser
sujeito político capaz de questionar, propor e participar da construção das
leis que determinarão o seu próprio destino.
E
talvez seja justamente aí que a guerra de narrativas alcance seu ponto máximo:
quando aquilo que é apresentado como necessário, técnico e inevitável pela
cúpula do poder é experimentado, na ponta, como sofrimento por quem trabalhou,
contribuiu e envelheceu.
O
empregador — o povo — continua pagando a conta.
E o
empregado, em vez de prestar contas, parece cada vez mais ocupado em explicar
ao empregador por que a conta precisa continuar aumentando.
Talvez
seja necessário, portanto, recuperar uma verdade elementar da democracia: o
poder não pertence ao político. O poder é delegado pelo cidadão.
O
político não deveria ser visto como salvador, proprietário do Estado ou dono da
verdade.
É um
servidor temporariamente contratado pelo voto popular.
E todo
empregado deveria saber que existe uma pergunta que nenhum discurso, nenhuma
retórica e nenhuma narrativa consegue eliminar:
O que
você fez com o mandato que recebeu?
É essa
pergunta que o eleitor precisa reaprender a fazer.
Porque
democracia não pode ser apenas o direito de escolher quem ocupará o poder.
Democracia
precisa ser também o direito — e o dever — de cobrar daqueles que receberam o
poder em nosso nome.
• Mauro Vieira denuncia ataques “sem
precedentes” à soberania nacional
O
ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o Brasil enfrenta
um cenário internacional marcado pelo avanço da desinformação, por ataques
contra instituições democráticas e por tentativas de interferência externa.
Para o chanceler, as transformações ocorridas nas redes sociais e nas relações
entre os países exigem uma atuação firme do Estado brasileiro na proteção da
soberania nacional.
As
avaliações foram apresentadas por Vieira no artigo “Mitos e verdades da
diplomacia na era da desinformação”, publicado no jornal Correio Braziliense.
No texto, o ministro sustenta que a chamada era da pós-verdade permanece
presente na política contemporânea e relaciona o fenômeno a recentes confrontos
envolvendo governos estrangeiros e instituições brasileiras.
Segundo
Vieira, a utilização em larga escala da desinformação, dos algoritmos e das
redes sociais como instrumentos de radicalização política representa um
problema permanente para os regimes democráticos. O ministro cita as obras Os
engenheiros do caos e A hora dos predadores, de Giuliano da Empoli, como
referências para compreender o ambiente político atual.
“A
chamada era da pós-verdade não é uma página virada na história,
lamentavelmente.”
Um dos
pontos centrais do artigo é a reação do chanceler às declarações e medidas
tomadas por autoridades estrangeiras contra o Brasil. Vieira afirma que as
ofensivas não atingem apenas a Presidência da República e o Poder Executivo,
mas alcançam também o Judiciário.
Para o
ministro, esse comportamento representa uma ruptura com padrões tradicionais
das relações diplomáticas.
“Trata-se
de comportamentos grosseiros e sem precedentes de líderes estrangeiros, com
ataques frontais à nossa soberania e ao nosso regime democrático, típicos da
‘Hora dos predadores’, que devem ser tratados e repelidos como tal.”
Vieira
faz questão de reforçar que emprega a expressão “sem precedentes” de maneira
deliberada. Na avaliação apresentada pelo chanceler, embora existam
antecedentes históricos para tentativas de subordinação entre países, a forma
assumida pelas atuais ofensivas exige novas maneiras de interpretar e responder
aos acontecimentos.
“O
mundo mudou, mudou para pior nas redes e nas relações internacionais, e, nessas
horas, não se pode ser ingênuo nem agir unicamente com base em métricas e
padrões do passado.”
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Chanceler defende reação proporcional e firme do Brasil
Vieira
também destaca a tradição diplomática brasileira e afirma que o reconhecimento
conquistado pelo Itamaraty ao longo de diferentes gerações está relacionado à
capacidade de interpretar corretamente as mudanças da sociedade e do cenário
internacional.
Na
avaliação do ministro, os sinais atuais incluem ataques que classifica como
inéditos e virulentos. Ele também acusa brasileiros no exterior de estimular
ações contrárias aos interesses do país.
Diante
desse quadro, Vieira argumenta que o princípio da proporcionalidade,
tradicionalmente empregado nas relações internacionais, não significa ausência
de reação. Pelo contrário: diante da gravidade das ofensivas, seria necessário
adotar respostas igualmente firmes para proteger a soberania e as instituições
brasileiras.
É nesse
contexto que o ministro situa a disputa em torno da desinformação. Para Vieira,
parte do debate público procura transferir ao governo brasileiro a
responsabilidade por medidas tomadas por autoridades estrangeiras.
“Percebo,
no debate dos últimos dias, a tentativa de alguns de inverter a
responsabilidade pelos atos hostis que é de única e exclusiva responsabilidade
de governantes e governos estrangeiros que os praticam, e a ninguém mais.”
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Vieira relaciona críticas externas a atores envolvidos na tentativa de golpe
No
artigo, o chanceler associa essa tentativa de inversão de responsabilidades a
setores políticos e sociais que, segundo ele, estiveram envolvidos na tentativa
de ruptura institucional no Brasil.
“Estão
de volta os mesmos atores políticos e sociais que fracassaram na implementação
de um golpe de Estado no Brasil e voltaram a fracassar na tentativa de maquiar
ou normalizar o golpe, frustrado pela pronta ação das instituições e da
sociedade brasileira.”
De
acordo com Vieira, esses grupos passaram a responsabilizar o próprio governo
brasileiro pelas agressões externas e a questionar as respostas adotadas pelo
país diante de medidas e declarações consideradas ingerências em assuntos
internos.
A
argumentação do chanceler busca estabelecer uma conexão entre as disputas
políticas domésticas e as recentes tensões diplomáticas, especialmente quando
ações de autoridades estrangeiras são estimuladas ou apoiadas por brasileiros.
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“Tarifaço” e sanções de 2025 são citados pelo ministro
Entre
os episódios mencionados, Vieira cita o chamado “tarifaço” e as sanções
adotadas em 2025. Segundo o ministro, essas iniciativas não foram provocadas
pelo Brasil e tinham como objetivo declarado exercer pressão sobre o Poder
Judiciário brasileiro.
“Nosso
país não provocou o chamado ‘tarifaço’ e as sanções de 2025, que tinham como
declarado objetivo pressionar o Poder Judiciário brasileiro.”
O
artigo também menciona declarações recentes do presidente de um país vizinho
durante um evento político-partidário realizado no Brasil. Vieira utiliza o
episódio como outro exemplo do que considera uma deterioração dos padrões de
convivência diplomática.
Ao
abordar as relações regionais, o ministro recorre a um artigo publicado pelo
ex-presidente José Sarney no próprio Correio Braziliense. Vieira reproduz a
avaliação de Sarney segundo a qual os recentes “despautérios” contra o Brasil
estariam “fora dos limites da civilidade”.
Para o
chanceler, a reflexão do ex-presidente ganha relevância por sua participação
histórica no processo de aproximação entre Brasil e Argentina e na construção
da integração regional durante o período democrático.
Vieira
argumenta que quatro décadas de convivência democrática produziram um
patrimônio diplomático compartilhado que precisa ser preservado mesmo diante
das atuais divergências.
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Ministro acusa grupos de tentar inverter responsabilidade por ataques
Outra
crítica apresentada no artigo é direcionada aos setores que, segundo Vieira,
anteriormente buscaram minimizar a tentativa de golpe de Estado e agora
procuram responsabilizar o Brasil pelas ofensivas provenientes do exterior.
O
ministro sustenta que a desinformação não seria suficiente para apagar
princípios elementares das relações entre indivíduos e países.
“Agredir,
ameaçar, proferir insultos ao anfitrião, seja na casa, seja no país de quem
acolhe a visita, ou conspirar contra a própria pátria no exterior são atitudes
erradas, são condenáveis, e nada mudará essa realidade.”
Vieira
resume essa posição com uma afirmação direta:
“Não se
responsabiliza a vítima por uma agressão recebida. A culpa cabe sempre ao
agressor.”
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Itamaraty promete reagir a ingerências e desinformação
Na
conclusão do artigo, o ministro das Relações Exteriores endurece o discurso
contra a participação de atores brasileiros em articulações internacionais
destinadas, segundo sua avaliação, a pressionar o país e suas instituições.
“Tentam
bater no Brasil por meio de autoridades estrangeiras e depois esconder a mão.”
Vieira
sustenta ainda que decisões sobre os rumos políticos e institucionais
brasileiros devem permanecer sob controle do próprio país, rejeitando qualquer
possibilidade de tutela externa.
“Não
será governado por controle remoto a partir de uma capital estrangeira.”
O
chanceler encerra sua análise defendendo a capacidade das instituições
democráticas de proteger os interesses nacionais diante de momentos de tensão.
Também sinaliza que o Ministério das Relações Exteriores continuará respondendo
a ações consideradas hostis, incluindo campanhas de desinformação e ingerências
externas.
“O
brasileiro conta com instituições democráticas fortes para a defesa do
interesse nacional em tempos de conflito, e o Itamaraty não deixará de reagir,
sempre com profissionalismo, às manobras de desinformação e às grosserias de
candidatos a predadores e seus apoiadores locais.”
Fonte:
Por Valéria Guerra Reiter, em Brasil 247

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