quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Arquivos de futebol

Há, no contexto dos arquivos, uma série de questões fundamentais a serem enfrentadas. Este texto concentra-se em quatro delas, diretamente relacionadas às formas contemporâneas de construção de memória e esquecimento no esporte, especificamente no futebol, e ao crescente processo de inferiorização do futebol brasileiro e de seus personagens históricos.

<><> A dialética do acesso

Os conjuntos de documentos que se pode, da maneira mais ampla possível, chamar de arquivos do futebol encontram-se fragmentados entre Arquivos públicos, clubes, federações, entidades esportivas, veículos de comunicação, empresas privadas e colecionadores.

Dessa dispersão decorre uma questão de natureza dialética: o mesmo processo que amplia a circulação e facilita o acesso a fotografias, vídeos, súmulas, estatísticas e outros registros também compromete sua contextualização, uma vez que esses documentos passam a ser consultados, quase sempre, de forma isolada de seu conjunto documental de origem.

Fotografias, vídeos (muitas vezes trechos de jogos) e registros de documentos como súmulas encontram-se, em grande medida, disponíveis na internet com acesso facilitado e, ao mesmo tempo, dispersos, isto é, separados de outros documentos que, por serem partes, apenas podem ser entendidos em sentido pleno quando analisados em conjunto (como já discutem os arquivistas em sua elaboração do princípio da organicidade, ao menos desde o Manual dos Holandeses, de 1898).

A nível de exemplificação, Balé (2021), ao analisar os documentos de violações de direitos humanos no contexto das ditaduras militares na Argentina, percebeu um fenômeno similar envolvendo a dispersão de acervos: apesar de, em alguma medida, salvaguardar a documentação de alterações ou destruição e visar garantir o direito de acesso, o recolhimento multi-institucional e a custódia descentralizada produzem contraditoriamente uma maior dificuldade de acesso.

Em outras palavras, esta descentralização de guarda produz simultaneamente a facilitação do acesso e a debilitação da contextualização daquele conteúdo e, consequentemente, sua compreensão. Esse cenário exige o desenvolvimento de estratégias arquivísticas capazes de mitigar os efeitos da fragmentação documental, ainda que seja inviável conceber um sistema unificado capaz de reunir a documentação produzida por todo o futebol mundial.

<><> O desafio da apreensão documental

O acesso a um documento não traduz descoberta e não produz conhecimento automaticamente, como já foi amplamente discutido por historiadores na seara da crítica documental (exemplo de boas práticas nessa seara pode ser visto em Cães e guarda, de Beatriz Kushnir, publicado em 2004). Não basta assistir a breves recortes audiovisuais de partidas ou consultar registros jornalísticos isolados para compreender a trajetória de um jogador, de um clube ou de determinado período do futebol.

Pelo contrário, é justamente da utilização descontextualizada dessas fontes que emergem diversas interpretações anacrônicas presentes nos debates esportivos contemporâneos, como as discussões sobre “o maior jogador de todos os tempos”, a oposição entre “futebol antigo” e “futebol moderno” ou as disputas em torno da memória institucional dos clubes (muitas vezes pautadas pela busca de torcedores de eleger seu clube como o mais virtuoso).

A compreensão dos documentos exige uma análise profunda capaz de considerar as condições políticas, sociais, econômicas e institucionais de sua produção, preservação, seleção e disponibilização. Os documentos não são registros neutros, mas produtos de relações sociais específicas que condicionam tanto sua existência quanto seus usos posteriores.

A nível de exemplificação, o portal da FIFA disponibiliza uma seção denominada “Arquivo”, na qual são apresentados dados estatísticos e informações históricas sobre jogadores e competições, com menções a jogadores como Pelé por toda a plataforma.

No entanto, a entidade desempenhou papel fundamental na consolidação do critério dos chamados “gols oficiais”, frequentemente criticado por seu caráter anacrônico e eurocêntrico, cuja ampla circulação contribui para interpretações distorcidas do passado, como as recentes revisões acerca da relevância histórica e do nível de desempenho de jogadores como o próprio Pelé.

<><> Arquivos públicos e privados

A maior parte dos produtores documentais, das instituições custodiadoras e dos demais sujeitos responsáveis pela guarda dos acervos do futebol está submetida ao regime jurídico privado. Essa configuração cria uma importante barreira institucional, uma vez que a demonstração do interesse público desses documentos exige critérios capazes de superar tanto o subjetivismo quanto argumentos fundamentados exclusivamente em interesses de grupos específicos da sociedade.

É preciso sustentar que a história do futebol no Brasil interessa aos brasileiros em geral e não só aos apaixonados pelo esporte, adentrando assim questões teóricas densas que podem envolver temas como identidade nacional e memória coletiva.

Essa barreira é reforçada pela maior margem de opacidade de que dispõem as instituições privadas em comparação às instituições públicas, que, mesmo submetidas à Lei de Acesso à Informação (LAI), frequentemente apresentam uma predominância de focos de opacidade e práticas segredistas características do Estado brasileiro, como discutem José Maria Jardim em Transparência e opacidade do Estado no Brasil (1999) e Georgette Medleg Rodrigues, em coautoria com Mônica Tenáglia, em “Negação, ocultamento e (falta de) gestão documental: o acesso aos arquivos nos relatórios finais das comissões da verdade no Brasil” (2020).

Esse panorama de entraves envolvendo o controle sobre os documentos nas duas frentes é um dificultador ou, por vezes, impeditivo da elaboração de políticas voltadas aos acervos do futebol. Ou seja, o interesse privado prevalece em detrimento do público.

<><> O vazio arquivístico

Propomos aqui o vazio arquivístico não como a inexistência física de documentos, mas a ausência ou insuficiência de políticas ou sistemas arquivísticos capazes de assegurar sua gestão, preservação, contextualização, acesso e uso social.

A predominância do interesse privado sobre os acervos, associada à dispersão documental e às dificuldades de apreensão dos documentos em sua organicidade, conforma esse vazio arquivístico. Trata-se de uma lacuna que é, em parte, técnica, mas sobretudo política, pois decorre das formas pelas quais o patrimônio documental do futebol é produzido, preservado e disponibilizado.

É preciso perceber que o futebol está circunscrito em uma dinâmica institucional euro-centrada e, mais recentemente, profundamente vinculada aos interesses imperialistas dos EUA. A Copa do Mundo de 2026, por exemplo, já reúne denúncias de preços abusivos, restrições de visto a torcedores de países como Irã, Haiti, Senegal e Costa do Marfim, e uma proximidade inédita entre a cúpula da Fifa e o governo Trump.

A documentação produzida e acumulada neste contexto está também sujeita às influências da dependência em suas diferentes formas (tema profundamente abordado por autores como Theotônio dos Santos, Vânia Bambirra e Ruy Mauro Marini) e do imperialismo que circunscrevem o âmbito esportivo e político-institucional. Não só os acervos refletem essas estruturas, mas são também objeto de disputa, especialmente no que diz respeito a seus usos e acesso.

Esse cenário favorece processos de descontextualização documental que permitem a apropriação seletiva das fontes históricas. Como consequência, fortalecem-se narrativas revisionistas e interpretações anacrônicas sobre o futebol, contribuindo para fenômenos como a crescente inferiorização do futebol brasileiro em relação ao futebol europeu e a desvalorização de jogadores historicamente consagrados.

Desse modo, o atual modelo de gestão dos arquivos do futebol favorece a reprodução de formas de interpretação marcadas pelo revisionismo histórico e pelo anacronismo, frequentemente atravessadas por relações assimétricas de produção da memória esportiva em escala internacional, nas quais critérios e referenciais eurocêntricos tendem a ocupar posição hegemônica.

Nesse sentido, é possível pensar que o enfraquecimento do lugar histórico de ídolos brasileiros do passado corresponde, em alguma medida, ao fortalecimento de ídolos afins ao futebol europeu contemporâneo um eco, no plano da memória esportiva da lógica descrita por Ruy Mauro Marini em Subdesenvolvimento e revolução (1969): “A história do subdesenvolvimento latino-americano é a história do desenvolvimento do sistema capitalista mundial”.

 

Fonte: Por Vinícius Portugal, em A Terra é Redonda

 

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