Arquivos
de futebol
Há, no
contexto dos arquivos, uma série de questões fundamentais a serem enfrentadas.
Este texto concentra-se em quatro delas, diretamente relacionadas às formas
contemporâneas de construção de memória e esquecimento no esporte,
especificamente no futebol, e ao crescente processo de inferiorização do
futebol brasileiro e de seus personagens históricos.
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A dialética do acesso
Os
conjuntos de documentos que se pode, da maneira mais ampla possível, chamar de
arquivos do futebol encontram-se fragmentados entre Arquivos públicos, clubes,
federações, entidades esportivas, veículos de comunicação, empresas privadas e
colecionadores.
Dessa
dispersão decorre uma questão de natureza dialética: o mesmo processo que
amplia a circulação e facilita o acesso a fotografias, vídeos, súmulas,
estatísticas e outros registros também compromete sua contextualização, uma vez
que esses documentos passam a ser consultados, quase sempre, de forma isolada
de seu conjunto documental de origem.
Fotografias,
vídeos (muitas vezes trechos de jogos) e registros de documentos como súmulas
encontram-se, em grande medida, disponíveis na internet com acesso facilitado
e, ao mesmo tempo, dispersos, isto é, separados de outros documentos que, por
serem partes, apenas podem ser entendidos em sentido pleno quando analisados em
conjunto (como já discutem os arquivistas em sua elaboração do princípio da
organicidade, ao menos desde o Manual dos Holandeses, de 1898).
A nível
de exemplificação, Balé (2021), ao analisar os documentos de violações de
direitos humanos no contexto das ditaduras militares na Argentina, percebeu um
fenômeno similar envolvendo a dispersão de acervos: apesar de, em alguma
medida, salvaguardar a documentação de alterações ou destruição e visar
garantir o direito de acesso, o recolhimento multi-institucional e a custódia
descentralizada produzem contraditoriamente uma maior dificuldade de acesso.
Em
outras palavras, esta descentralização de guarda produz simultaneamente a
facilitação do acesso e a debilitação da contextualização daquele conteúdo e,
consequentemente, sua compreensão. Esse cenário exige o desenvolvimento de
estratégias arquivísticas capazes de mitigar os efeitos da fragmentação
documental, ainda que seja inviável conceber um sistema unificado capaz de
reunir a documentação produzida por todo o futebol mundial.
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O desafio da apreensão documental
O
acesso a um documento não traduz descoberta e não produz conhecimento
automaticamente, como já foi amplamente discutido por historiadores na seara da
crítica documental (exemplo de boas práticas nessa seara pode ser visto em Cães
e guarda, de Beatriz Kushnir, publicado em 2004). Não basta assistir a breves
recortes audiovisuais de partidas ou consultar registros jornalísticos isolados
para compreender a trajetória de um jogador, de um clube ou de determinado
período do futebol.
Pelo
contrário, é justamente da utilização descontextualizada dessas fontes que
emergem diversas interpretações anacrônicas presentes nos debates esportivos
contemporâneos, como as discussões sobre “o maior jogador de todos os tempos”,
a oposição entre “futebol antigo” e “futebol moderno” ou as disputas em torno
da memória institucional dos clubes (muitas vezes pautadas pela busca de
torcedores de eleger seu clube como o mais virtuoso).
A
compreensão dos documentos exige uma análise profunda capaz de considerar as
condições políticas, sociais, econômicas e institucionais de sua produção,
preservação, seleção e disponibilização. Os documentos não são registros
neutros, mas produtos de relações sociais específicas que condicionam tanto sua
existência quanto seus usos posteriores.
A nível
de exemplificação, o portal da FIFA disponibiliza uma seção denominada
“Arquivo”, na qual são apresentados dados estatísticos e informações históricas
sobre jogadores e competições, com menções a jogadores como Pelé por toda a
plataforma.
No
entanto, a entidade desempenhou papel fundamental na consolidação do critério
dos chamados “gols oficiais”, frequentemente criticado por seu caráter
anacrônico e eurocêntrico, cuja ampla circulação contribui para interpretações
distorcidas do passado, como as recentes revisões acerca da relevância
histórica e do nível de desempenho de jogadores como o próprio Pelé.
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Arquivos públicos e privados
A maior
parte dos produtores documentais, das instituições custodiadoras e dos demais
sujeitos responsáveis pela guarda dos acervos do futebol está submetida ao
regime jurídico privado. Essa configuração cria uma importante barreira
institucional, uma vez que a demonstração do interesse público desses
documentos exige critérios capazes de superar tanto o subjetivismo quanto
argumentos fundamentados exclusivamente em interesses de grupos específicos da
sociedade.
É
preciso sustentar que a história do futebol no Brasil interessa aos brasileiros
em geral e não só aos apaixonados pelo esporte, adentrando assim questões
teóricas densas que podem envolver temas como identidade nacional e memória
coletiva.
Essa
barreira é reforçada pela maior margem de opacidade de que dispõem as
instituições privadas em comparação às instituições públicas, que, mesmo
submetidas à Lei de Acesso à Informação (LAI), frequentemente apresentam uma
predominância de focos de opacidade e práticas segredistas características do
Estado brasileiro, como discutem José Maria Jardim em Transparência e opacidade
do Estado no Brasil (1999) e Georgette Medleg Rodrigues, em coautoria com
Mônica Tenáglia, em “Negação, ocultamento e (falta de) gestão documental: o
acesso aos arquivos nos relatórios finais das comissões da verdade no Brasil”
(2020).
Esse
panorama de entraves envolvendo o controle sobre os documentos nas duas frentes
é um dificultador ou, por vezes, impeditivo da elaboração de políticas voltadas
aos acervos do futebol. Ou seja, o interesse privado prevalece em detrimento do
público.
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O vazio arquivístico
Propomos
aqui o vazio arquivístico não como a inexistência física de documentos, mas a
ausência ou insuficiência de políticas ou sistemas arquivísticos capazes de
assegurar sua gestão, preservação, contextualização, acesso e uso social.
A
predominância do interesse privado sobre os acervos, associada à dispersão
documental e às dificuldades de apreensão dos documentos em sua organicidade,
conforma esse vazio arquivístico. Trata-se de uma lacuna que é, em parte,
técnica, mas sobretudo política, pois decorre das formas pelas quais o
patrimônio documental do futebol é produzido, preservado e disponibilizado.
É
preciso perceber que o futebol está circunscrito em uma dinâmica institucional
euro-centrada e, mais recentemente, profundamente vinculada aos interesses
imperialistas dos EUA. A Copa do Mundo de 2026, por exemplo, já reúne denúncias
de preços abusivos, restrições de visto a torcedores de países como Irã, Haiti,
Senegal e Costa do Marfim, e uma proximidade inédita entre a cúpula da Fifa e o
governo Trump.
A
documentação produzida e acumulada neste contexto está também sujeita às
influências da dependência em suas diferentes formas (tema profundamente
abordado por autores como Theotônio dos Santos, Vânia Bambirra e Ruy Mauro
Marini) e do imperialismo que circunscrevem o âmbito esportivo e
político-institucional. Não só os acervos refletem essas estruturas, mas são
também objeto de disputa, especialmente no que diz respeito a seus usos e
acesso.
Esse
cenário favorece processos de descontextualização documental que permitem a
apropriação seletiva das fontes históricas. Como consequência, fortalecem-se
narrativas revisionistas e interpretações anacrônicas sobre o futebol,
contribuindo para fenômenos como a crescente inferiorização do futebol
brasileiro em relação ao futebol europeu e a desvalorização de jogadores
historicamente consagrados.
Desse
modo, o atual modelo de gestão dos arquivos do futebol favorece a reprodução de
formas de interpretação marcadas pelo revisionismo histórico e pelo
anacronismo, frequentemente atravessadas por relações assimétricas de produção
da memória esportiva em escala internacional, nas quais critérios e
referenciais eurocêntricos tendem a ocupar posição hegemônica.
Nesse
sentido, é possível pensar que o enfraquecimento do lugar histórico de ídolos
brasileiros do passado corresponde, em alguma medida, ao fortalecimento de
ídolos afins ao futebol europeu contemporâneo um eco, no plano da memória
esportiva da lógica descrita por Ruy Mauro Marini em Subdesenvolvimento e
revolução (1969): “A história do subdesenvolvimento latino-americano é a
história do desenvolvimento do sistema capitalista mundial”.
Fonte:
Por Vinícius Portugal, em A Terra é Redonda

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