quinta-feira, 13 de agosto de 2026

MBL copia estratégia de 'cortes' de Pablo Marçal e pode deixar Renan Santos inelegível

Candidatos do partido Missão – fundado e liderado por integrantes do Movimento Brasil Livre, o MBL – estão incentivando a produção e a divulgação em massa de vídeos editados nas redes sociais, os chamados “cortes”, com a promessa de dinheiro fácil. Na prática, a tática de remuneração se daria a partir da monetização de redes sociais como o TikTok e o YouTube, que dividem os lucros vindos de anúncios com perfis que geram mais visualizações.

No entanto, a legislação eleitoral veda a oferta de qualquer tipo de vantagem econômica em troca de engajamento, infração que pode resultar em inelegibilidade e até perda de mandato dos eleitos.

A estratégia é encabeçada pelos principais nomes do grupo. Em vídeos que circulam na internet, o candidato à Presidência da República pelo Missão, Renan Santos, e o deputado federal Kim Kataguiri, que busca a reeleição, promovem abertamente o curso online Máquina de Cortes. Vendido pela Valete Plus, plataforma ligada ao próprio MBL, o treinamento promete ensinar o público a “criar cortes virais e transformar vídeos em renda”.

O formato é feito sob medida para o TikTok, o Reels do Instagram e o YouTube Shorts. Os chamados cortes destacam trechos chamativos de entrevistas, debates e transmissões ao vivo para ampliar o alcance de políticos, artistas e personalidades da internet.

A fórmula, porém, não é inédita. O incentivo financeiro para a produção em massa desse tipo de conteúdo foi uma das armas usadas pela campanha do empresário e influenciador Pablo Marçal, quando concorreu à Prefeitura de São Paulo na eleição de 2024 pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro, o PRTB.

Com a organização de “campeonatos de cortes” na plataforma Discord, Marçal inundou as redes com sua imagem e quase chegou ao segundo turno: terminou a disputa a menos de um ponto percentual de Guilherme Boulos, do PSOL, e a menos de dois do líder Ricardo Nunes, do MDB, eleito para comandar a maior capital brasileira.

A estratégia, porém, custou caro. Alvo de uma ação movida pela campanha da então candidata Tabata Amaral, do PSB, Marçal foi declarado inelegível pelo Tribunal Regional Eleitoral do Estado de São Paulo, o TRE-SP, que enquadrou os campeonatos de cortes como uso indevido dos meios de comunicação.

No acórdão, a corte paulista foi categórica: “A utilização da técnica de monetização para criar uma falsa rede de postagens orgânicas, fomentada pela promessa de recompensa, configura o uso de ferramenta digital para alterar a repercussão da propaganda eleitoral”.

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O modelo adotado pelo partido Missão, no entanto, traz uma diferença. Ao contrário de Marçal, que oferecia prêmios em dinheiro para quem mais viralizasse seus vídeos, os candidatos ligados ao MBL não prometem pagamentos diretos aos criadores. O incentivo financeiro é terceirizado: eles estimulam os seguidores a lucrarem com a monetização das próprias plataformas — já que o TikTok e o YouTube remuneram pelo volume de visualizações.

A resolução do TSE nº 23.610/2019, no entanto, proíbe qualquer remuneração, monetização ou vantagem econômica como retribuição por postar conteúdo eleitoral, inclusive pagas por terceiros. A advogada Carla Maria Nicolini, da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, a Abradep, conta que esse foi o entendimento majoritário no julgamento que confirmou a condenação de Pablo Marçal. 

“O voto do relator, ao explicar o funcionamento da monetização de redes sociais, diz textualmente que a remuneração pode ser feita pela plataforma, via PayPal, ou diretamente pelo patrocinador do evento”, aponta a especialista em direito eleitoral.

De acordo com a advogada, “o fator decisivo não é quem literalmente deposita o dinheiro, mas se existe estímulo e organização por trás”. Nesse sentido, havendo esse incentivo, “a comissão paga pela plataforma já se enquadra na vedação, segundo essa jurisprudência”, complementa.

Na avaliação de Nicolini, campanhas políticas que montam estruturas para impulsionar a produção monetizada de cortes – promovendo desafios, rankings, hashtags padronizadas e monitoramento de resultados – correm “risco real” de punição da Justiça Eleitoral.

Juliana Noda, advogada eleitoral também membro da Abradep, considera que, quanto maior for a estrutura organizada de recrutamento, direcionamento, competição e estímulo econômico vinculado à produção dos cortes, “maior é a possibilidade de a Justiça Eleitoral entender que o movimento ultrapassou a mobilização orgânica e se ingressou no campo da propaganda remunerada vedada”.

A especialista ressalta que isso é diferente de uma mera orientação genérica, por parte de um partido, para que apoiadores façam cortes espontaneamente, que teria chances menores de problemas jurídicos.

Noda também cita o caso de Marçal como precedente importante para essa discussão, “porque a Justiça Eleitoral não analisou apenas pagamentos isolados, mas também a existência de uma estrutura organizada de multiplicação dos conteúdos”. Porém, pondera que esse entendimento não se aplica “automaticamente” à situação do Missão, já que no caso do influenciador havia evidências de envolvimento de uma de suas empresas nos pagamentos.

A condenação de Marçal em segunda instância foi definida em um placar apertado de 4 votos a 3. Além de estar proibido de disputar eleições até 2032, o ex-coach também foi multado em R$ 420 mil por descumprir decisão judicial. No último dia 5 de agosto, os desembargadores do TRE-SP rejeitaram por unanimidade um recurso do empresário.

O caso, porém, ainda não teve seu desfecho definitivo. Cabe recurso ao Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, “que pode alterar o entendimento ou consolidá-lo de forma mais ampla para as próximas eleições”, ressalta a advogada Carla Nicolini.

A engrenagem da Máquina de Cortes

Em vídeos obtidos pelo Intercept Brasil, o candidato à Presidência Renan Santos e o deputado federal Kim Kataguiri aparecem incentivando abertamente jovens a espalhar cortes políticos sob a promessa de obter renda com a monetização das redes.

“Dado que nós sabemos que esses vídeos curtos vão continuar […] e que eles podem ser usados para o bem, nós decidimos pensar em montar a nossa própria máquina, a nossa própria engenharia”, declara Santos na apresentação do curso Máquina de Cortes, que promete ganhos de R$ 1.050 a R$ 4.850 por mês.

O site em que estava o vídeo de Renan Santos saiu do ar após o pedido de posicionamento enviado pela reportagem ao MBL e ao Missão. No entanto, o Intercept já havia arquivado uma cópia da página. Os módulos do curso Máquina de Cortes seguiam disponíveis na área fechada da plataforma Valete na manhã de 12 de agosto.

Na gravação, o dirigente do MBL amarra o engajamento político à promessa de inserção no mercado de trabalho. “O nosso objetivo aqui é montar uma espécie de uma faculdade que te garanta um emprego tão logo você se forme, para você aprender a fazer cortes, construí-los e trabalhar conosco divulgando o nosso conteúdo”, afirma.

Mais adiante, ele reforça o apelo financeiro: “Eu sei muito bem que viver no Brasil está difícil, que ganhar dinheiro está quase impossível e que para você, que é especialmente novo e está assistindo esse vídeo, entrar no mercado de trabalho tá parecendo uma tarefa hercúlea”. E conclui: “o que a gente propõe é um caminho de autonomia”.

Kataguiri segue a mesma linha. Em vídeo que circula nas redes pelo menos desde fevereiro de 2025, o deputado também divulga o curso Máquina de Cortes.

“Quer ganhar R$ 2 [mil], R$ 3 mil por mês divulgando as nossas ideias, […] militando em prol daquilo que você acredita ao mesmo tempo em que você consegue fazer uma renda extra? Eu vou deixar o link aqui na descrição”.

Comercializado por R$ 169,68, o treinamento Máquina de Cortes continua no ar. O curso conta com 38 aulas que ensinam técnicas de roteiro, edição e táticas para impulsionar o alcance dos vídeos. As aulas são ministradas por políticos, assessores parlamentares e influenciadores de direita. O próprio Kataguiri atua como professor na plataforma e define os chamados “corteiros” como “pilares, tijolos e alicerces fundamentais” para alavancar porta-vozes do movimento.

Administrador do canal de Kataguiri no YouTube, o assessor parlamentar Dennys Sobrinho também atua como professor do curso. Em seu módulo, ele faz um apelo direto ao bolso. “Hoje eu vou ensinar para vocês como melhorar a sua monetização, como receber aquela bufunfa, o negocinho cair grosso na sua conta”, diz o assessor logo nos primeiros segundos de sua videoaula.

Sobrinho ensina a estratégia por trás do algoritmo. Ele estimula a produção de vídeos mais longos, com “pensamentos maiores e mais concisos”, como ferramenta para “distribuir as ideias do MBL com muito mais facilidade” e ganhar mais dinheiro.

Em outra aula, o assessor disseca as táticas usadas no próprio canal de Kataguiri, usando-o como estudo de caso para mostrar como impulsionar a distribuição dos conteúdos.

<><> A linha de montagem no Discord

Com aulas publicadas pelo MBL entre 15 de janeiro e 7 de novembro de 2025, o curso Máquina de Cortes funciona como uma engrenagem antecipada de campanha. Agora, às vésperas das eleições, o recém-criado partido Missão colhe os frutos da estratégia, mantendo o exército de seguidores ativo para viralizar seus candidatos.

O centro de operações dessa estrutura fica na rede social Discord, onde o partido mantém pelo menos dois servidores. Um deles, batizado sugestivamente de Fábrica de Cortes da Missão, opera como uma linha de montagem digital. Lá, os usuários recebem material pronto para edição: links de vídeos brutos, pacotes de memes, trilhas sonoras e  outras instruções.

A porta de entrada para a comunidade é um link de convite divulgado no Instagram de Rafael Rizzo, militante do Missão e integrante da equipe de comunicação de Renan Santos.

No canal de regras do servidor no Discord, os “corteiros” são instruídos a criar perfis próprios e recebem um alerta pragmático para driblar a moderação das plataformas, já que “muita coisa pode ser enquadrada como ‘discurso de ódio’ ou ‘desinformação’”.

O texto exige que os vídeos promovam políticos e porta-vozes do Missão, sempre marcando os perfis oficiais de quem está sendo divulgado. “Um corte do Kim deve marcar o @kimkataguiri, caso seja postado no Instagram”, determina a regra da comunidade.

Embora as trincheiras do servidor de cortes do Missão sejam formadas por simpatizantes do partido, as mensagens trocadas entre eles revelam que o motor do engajamento é, de fato, a expectativa de lucro. E, aqui, a promessa de dinheiro fácil colide com a realidade do algoritmo.

“Pessoal que já tem os canais monetizados, grandes e etc. Pela experiência de vocês, vocês acham que daqui até começarem as eleições, passando pelos debates e tal, dá pra alcançar os requisitos para começar a monetizar também?”, perguntou um usuário no último 8 de julho.

Outros já demonstram desgaste com o volume de trabalho. “Eu segui algumas dicas, mas não to dando conta de fazer 3 cortes por dia”, queixou-se um corteiro, frustrado por estar “muito longe de monetizar” após quase dois meses trabalhando como braço de propaganda da legenda.

O servidor oficial batizado de Discord da Missão possui uma área chamada de Espaço dos Corteiros. Dentro dele, o trabalho da militância é organizado a partir dos nomes dos políticos que serão beneficiados pelos cortes.

Além de Kim Kataguiri e Renan Santos, também há espaços dedicados para cortes de vídeos do deputado estadual cassado Arthur do Val, do candidato a deputado federal Guto Zacarias e da vereadora de São Paulo Amanda Vettorazzo, coordenadora da campanha de Santos.

Fora do Discord, o Missão adotou a gamificação para extrair o máximo de sua base. O site oficial do partido possui uma página na qual os criadores conectam seus perfis e o sistema monitora o desempenho de cada vídeo publicado. O engajamento foi transformado em métrica de jogo: a cada 200 visualizações, o militante ganha um “XP da Missão” (sigla para experience points, ou pontos de experiência). O acúmulo de XP alimenta um ranking público que expõe os canais mais bem-sucedidos.

<><> O partido da onça e o medo do TSE

No topo desse ranking, opera um negócio paralelo. Na segunda-feira, dia 10 de agosto, o primeiro lugar geral de visualizações pertencia ao canal Inevitável Cortes. O perfil é de Allan Felipe Valle Fernandes, que enxergou na tática do MBL uma oportunidade de lucro duplo: ele montou a empresa AFV Fernandes Digital Ltda e vende seu próprio curso ensinando terceiros a ganharem dinheiro com o “hype das eleições”.

Comercializado por R$ 197 na plataforma Kiwify, o método, segundo Fernandes, tem a bênção da cúpula do partido.

Logo na primeira videoaula, Fernandes garante ter consultado a equipe de comunicação de Renan Santos antes de criar o curso. “O treinamento aqui tem o aval do pessoal do MBL, já conversei com o [Rafael] Rizzo sobre isso, e é incentivado pelo pessoal do MBL para você começar a fazer seus cortes”, afirma.

A aula inaugural traz, ainda, uma confissão clara sobre a tentativa de despistar a Justiça Eleitoral. Diante das câmeras, Fernandes explica aos alunos por que não pronuncia o nome da nova sigla política.

“Eu vou estar falando aqui só de MBL porque aquele tal partido que tem uma onça ele não pode ser citado porque o TSE pode acabar implicando com algumas coisas. Vocês sabem do que eu estou falando, mas eu vou estar evitando falar a nomenclatura desse partido.”

O trânsito do editor com as lideranças do MBL vai além dos vídeos. No início de agosto, Fernandes marcou presença no congresso do Missão e, nas redes sociais, já chegou a se oferecer como intermediário direto para levar denúncias de usuários à cúpula do partido.

Enviamos questionamentos ao partido Missão, ao MBL, a Renan Santos, a Kim Kataguiri, a Dennys Sobrinho, a Rafael Rizzo, a Allan Felipe, a Arthur do Val, a Guto Zacarias e a Amanda Vettorazzo, mas não houve resposta até a publicação. O espaço segue aberto.

 

Fonte: Por Gisele Lobato e Isabella Mota, em The Intercept

 

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