MBL
copia estratégia de 'cortes' de Pablo Marçal e pode deixar Renan Santos
inelegível
Candidatos
do partido Missão – fundado e liderado por integrantes do Movimento Brasil
Livre, o MBL – estão incentivando a produção e a divulgação em massa de vídeos
editados nas redes sociais, os chamados “cortes”, com a promessa de dinheiro
fácil. Na prática, a tática de remuneração se daria a partir da monetização de
redes sociais como o TikTok e o YouTube, que dividem os lucros vindos de
anúncios com perfis que geram mais visualizações.
No
entanto, a legislação eleitoral veda a oferta de qualquer tipo de vantagem
econômica em troca de engajamento, infração que pode resultar em
inelegibilidade e até perda de mandato dos eleitos.
A
estratégia é encabeçada pelos principais nomes do grupo. Em vídeos que circulam
na internet, o candidato à Presidência da República pelo Missão, Renan Santos,
e o deputado federal Kim Kataguiri, que busca a reeleição, promovem abertamente
o curso online Máquina de Cortes. Vendido pela Valete Plus, plataforma ligada
ao próprio MBL, o treinamento promete ensinar o público a “criar cortes virais
e transformar vídeos em renda”.
O
formato é feito sob medida para o TikTok, o Reels do Instagram e o YouTube
Shorts. Os chamados cortes destacam trechos chamativos de entrevistas, debates
e transmissões ao vivo para ampliar o alcance de políticos, artistas e
personalidades da internet.
A
fórmula, porém, não é inédita. O incentivo financeiro para a produção em massa
desse tipo de conteúdo foi uma das armas usadas pela campanha do empresário e
influenciador Pablo Marçal, quando concorreu à Prefeitura de São Paulo na
eleição de 2024 pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro, o PRTB.
Com a
organização de “campeonatos de cortes” na plataforma Discord, Marçal inundou as
redes com sua imagem e quase chegou ao segundo turno: terminou a disputa a
menos de um ponto percentual de Guilherme Boulos, do PSOL, e a menos de dois do
líder Ricardo Nunes, do MDB, eleito para comandar a maior capital brasileira.
A
estratégia, porém, custou caro. Alvo de uma ação movida pela campanha da então
candidata Tabata Amaral, do PSB, Marçal foi declarado inelegível pelo Tribunal
Regional Eleitoral do Estado de São Paulo, o TRE-SP, que enquadrou os
campeonatos de cortes como uso indevido dos meios de comunicação.
No
acórdão, a corte paulista foi categórica: “A utilização da técnica de
monetização para criar uma falsa rede de postagens orgânicas, fomentada pela
promessa de recompensa, configura o uso de ferramenta digital para alterar a
repercussão da propaganda eleitoral”.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
O
modelo adotado pelo partido Missão, no entanto, traz uma diferença. Ao
contrário de Marçal, que oferecia prêmios em dinheiro para quem mais
viralizasse seus vídeos, os candidatos ligados ao MBL não prometem pagamentos
diretos aos criadores. O incentivo financeiro é terceirizado: eles estimulam os
seguidores a lucrarem com a monetização das próprias plataformas — já que o
TikTok e o YouTube remuneram pelo volume de visualizações.
A
resolução do TSE nº 23.610/2019, no entanto, proíbe qualquer remuneração,
monetização ou vantagem econômica como retribuição por postar conteúdo
eleitoral, inclusive pagas por terceiros. A advogada Carla Maria Nicolini, da
Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, a Abradep, conta que esse
foi o entendimento majoritário no julgamento que confirmou a condenação de
Pablo Marçal.
“O voto
do relator, ao explicar o funcionamento da monetização de redes sociais, diz
textualmente que a remuneração pode ser feita pela plataforma, via PayPal, ou
diretamente pelo patrocinador do evento”, aponta a especialista em direito
eleitoral.
De
acordo com a advogada, “o fator decisivo não é quem literalmente deposita o
dinheiro, mas se existe estímulo e organização por trás”. Nesse sentido,
havendo esse incentivo, “a comissão paga pela plataforma já se enquadra na
vedação, segundo essa jurisprudência”, complementa.
Na
avaliação de Nicolini, campanhas políticas que montam estruturas para
impulsionar a produção monetizada de cortes – promovendo desafios, rankings,
hashtags padronizadas e monitoramento de resultados – correm “risco real” de
punição da Justiça Eleitoral.
Juliana
Noda, advogada eleitoral também membro da Abradep, considera que, quanto maior
for a estrutura organizada de recrutamento, direcionamento, competição e
estímulo econômico vinculado à produção dos cortes, “maior é a possibilidade de
a Justiça Eleitoral entender que o movimento ultrapassou a mobilização orgânica
e se ingressou no campo da propaganda remunerada vedada”.
A
especialista ressalta que isso é diferente de uma mera orientação genérica, por
parte de um partido, para que apoiadores façam cortes espontaneamente, que
teria chances menores de problemas jurídicos.
Noda
também cita o caso de Marçal como precedente importante para essa discussão,
“porque a Justiça Eleitoral não analisou apenas pagamentos isolados, mas também
a existência de uma estrutura organizada de multiplicação dos conteúdos”.
Porém, pondera que esse entendimento não se aplica “automaticamente” à situação
do Missão, já que no caso do influenciador havia evidências de envolvimento de
uma de suas empresas nos pagamentos.
A
condenação de Marçal em segunda instância foi definida em um placar apertado de
4 votos a 3. Além de estar proibido de disputar eleições até 2032, o ex-coach
também foi multado em R$ 420 mil por descumprir decisão judicial. No último dia
5 de agosto, os desembargadores do TRE-SP rejeitaram por unanimidade um recurso
do empresário.
O caso,
porém, ainda não teve seu desfecho definitivo. Cabe recurso ao Tribunal
Superior Eleitoral, o TSE, “que pode alterar o entendimento ou consolidá-lo de
forma mais ampla para as próximas eleições”, ressalta a advogada Carla
Nicolini.
A
engrenagem da Máquina de Cortes
Em
vídeos obtidos pelo Intercept Brasil, o candidato à Presidência Renan Santos e
o deputado federal Kim Kataguiri aparecem incentivando abertamente jovens a
espalhar cortes políticos sob a promessa de obter renda com a monetização das
redes.
“Dado
que nós sabemos que esses vídeos curtos vão continuar […] e que eles podem ser
usados para o bem, nós decidimos pensar em montar a nossa própria máquina, a
nossa própria engenharia”, declara Santos na apresentação do curso Máquina de
Cortes, que promete ganhos de R$ 1.050 a R$ 4.850 por mês.
O site
em que estava o vídeo de Renan Santos saiu do ar após o pedido de
posicionamento enviado pela reportagem ao MBL e ao Missão. No entanto, o
Intercept já havia arquivado uma cópia da página. Os módulos do curso Máquina
de Cortes seguiam disponíveis na área fechada da plataforma Valete na manhã de
12 de agosto.
Na
gravação, o dirigente do MBL amarra o engajamento político à promessa de
inserção no mercado de trabalho. “O nosso objetivo aqui é montar uma espécie de
uma faculdade que te garanta um emprego tão logo você se forme, para você
aprender a fazer cortes, construí-los e trabalhar conosco divulgando o nosso
conteúdo”, afirma.
Mais
adiante, ele reforça o apelo financeiro: “Eu sei muito bem que viver no Brasil
está difícil, que ganhar dinheiro está quase impossível e que para você, que é
especialmente novo e está assistindo esse vídeo, entrar no mercado de trabalho
tá parecendo uma tarefa hercúlea”. E conclui: “o que a gente propõe é um
caminho de autonomia”.
Kataguiri
segue a mesma linha. Em vídeo que circula nas redes pelo menos desde fevereiro
de 2025, o deputado também divulga o curso Máquina de Cortes.
“Quer
ganhar R$ 2 [mil], R$ 3 mil por mês divulgando as nossas ideias, […] militando
em prol daquilo que você acredita ao mesmo tempo em que você consegue fazer uma
renda extra? Eu vou deixar o link aqui na descrição”.
Comercializado
por R$ 169,68, o treinamento Máquina de Cortes continua no ar. O curso conta
com 38 aulas que ensinam técnicas de roteiro, edição e táticas para impulsionar
o alcance dos vídeos. As aulas são ministradas por políticos, assessores
parlamentares e influenciadores de direita. O próprio Kataguiri atua como
professor na plataforma e define os chamados “corteiros” como “pilares, tijolos
e alicerces fundamentais” para alavancar porta-vozes do movimento.
Administrador
do canal de Kataguiri no YouTube, o assessor parlamentar Dennys Sobrinho também
atua como professor do curso. Em seu módulo, ele faz um apelo direto ao bolso.
“Hoje eu vou ensinar para vocês como melhorar a sua monetização, como receber
aquela bufunfa, o negocinho cair grosso na sua conta”, diz o assessor logo nos
primeiros segundos de sua videoaula.
Sobrinho
ensina a estratégia por trás do algoritmo. Ele estimula a produção de vídeos
mais longos, com “pensamentos maiores e mais concisos”, como ferramenta para
“distribuir as ideias do MBL com muito mais facilidade” e ganhar mais dinheiro.
Em
outra aula, o assessor disseca as táticas usadas no próprio canal de Kataguiri,
usando-o como estudo de caso para mostrar como impulsionar a distribuição dos
conteúdos.
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A linha de montagem no Discord
Com
aulas publicadas pelo MBL entre 15 de janeiro e 7 de novembro de 2025, o curso
Máquina de Cortes funciona como uma engrenagem antecipada de campanha. Agora,
às vésperas das eleições, o recém-criado partido Missão colhe os frutos da
estratégia, mantendo o exército de seguidores ativo para viralizar seus
candidatos.
O
centro de operações dessa estrutura fica na rede social Discord, onde o partido
mantém pelo menos dois servidores. Um deles, batizado sugestivamente de Fábrica
de Cortes da Missão, opera como uma linha de montagem digital. Lá, os usuários
recebem material pronto para edição: links de vídeos brutos, pacotes de memes,
trilhas sonoras e outras instruções.
A porta
de entrada para a comunidade é um link de convite divulgado no Instagram de
Rafael Rizzo, militante do Missão e integrante da equipe de comunicação de
Renan Santos.
No
canal de regras do servidor no Discord, os “corteiros” são instruídos a criar
perfis próprios e recebem um alerta pragmático para driblar a moderação das
plataformas, já que “muita coisa pode ser enquadrada como ‘discurso de ódio’ ou
‘desinformação’”.
O texto
exige que os vídeos promovam políticos e porta-vozes do Missão, sempre marcando
os perfis oficiais de quem está sendo divulgado. “Um corte do Kim deve marcar o
@kimkataguiri, caso seja postado no Instagram”, determina a regra da
comunidade.
Embora
as trincheiras do servidor de cortes do Missão sejam formadas por simpatizantes
do partido, as mensagens trocadas entre eles revelam que o motor do engajamento
é, de fato, a expectativa de lucro. E, aqui, a promessa de dinheiro fácil
colide com a realidade do algoritmo.
“Pessoal
que já tem os canais monetizados, grandes e etc. Pela experiência de vocês,
vocês acham que daqui até começarem as eleições, passando pelos debates e tal,
dá pra alcançar os requisitos para começar a monetizar também?”, perguntou um
usuário no último 8 de julho.
Outros
já demonstram desgaste com o volume de trabalho. “Eu segui algumas dicas, mas
não to dando conta de fazer 3 cortes por dia”, queixou-se um corteiro,
frustrado por estar “muito longe de monetizar” após quase dois meses
trabalhando como braço de propaganda da legenda.
O
servidor oficial batizado de Discord da Missão possui uma área chamada de
Espaço dos Corteiros. Dentro dele, o trabalho da militância é organizado a
partir dos nomes dos políticos que serão beneficiados pelos cortes.
Além de
Kim Kataguiri e Renan Santos, também há espaços dedicados para cortes de vídeos
do deputado estadual cassado Arthur do Val, do candidato a deputado federal
Guto Zacarias e da vereadora de São Paulo Amanda Vettorazzo, coordenadora da
campanha de Santos.
Fora do
Discord, o Missão adotou a gamificação para extrair o máximo de sua base. O
site oficial do partido possui uma página na qual os criadores conectam seus
perfis e o sistema monitora o desempenho de cada vídeo publicado. O engajamento
foi transformado em métrica de jogo: a cada 200 visualizações, o militante
ganha um “XP da Missão” (sigla para experience points, ou pontos de
experiência). O acúmulo de XP alimenta um ranking público que expõe os canais
mais bem-sucedidos.
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O partido da onça e o medo do TSE
No topo
desse ranking, opera um negócio paralelo. Na segunda-feira, dia 10 de agosto, o
primeiro lugar geral de visualizações pertencia ao canal Inevitável Cortes. O
perfil é de Allan Felipe Valle Fernandes, que enxergou na tática do MBL uma
oportunidade de lucro duplo: ele montou a empresa AFV Fernandes Digital Ltda e
vende seu próprio curso ensinando terceiros a ganharem dinheiro com o “hype das
eleições”.
Comercializado
por R$ 197 na plataforma Kiwify, o método, segundo Fernandes, tem a bênção da
cúpula do partido.
Logo na
primeira videoaula, Fernandes garante ter consultado a equipe de comunicação de
Renan Santos antes de criar o curso. “O treinamento aqui tem o aval do pessoal
do MBL, já conversei com o [Rafael] Rizzo sobre isso, e é incentivado pelo
pessoal do MBL para você começar a fazer seus cortes”, afirma.
A aula
inaugural traz, ainda, uma confissão clara sobre a tentativa de despistar a
Justiça Eleitoral. Diante das câmeras, Fernandes explica aos alunos por que não
pronuncia o nome da nova sigla política.
“Eu vou
estar falando aqui só de MBL porque aquele tal partido que tem uma onça ele não
pode ser citado porque o TSE pode acabar implicando com algumas coisas. Vocês
sabem do que eu estou falando, mas eu vou estar evitando falar a nomenclatura
desse partido.”
O
trânsito do editor com as lideranças do MBL vai além dos vídeos. No início de
agosto, Fernandes marcou presença no congresso do Missão e, nas redes sociais,
já chegou a se oferecer como intermediário direto para levar denúncias de
usuários à cúpula do partido.
Enviamos
questionamentos ao partido Missão, ao MBL, a Renan Santos, a Kim Kataguiri, a
Dennys Sobrinho, a Rafael Rizzo, a Allan Felipe, a Arthur do Val, a Guto
Zacarias e a Amanda Vettorazzo, mas não houve resposta até a publicação. O
espaço segue aberto.
Fonte:
Por Gisele Lobato e Isabella Mota, em The Intercept

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