quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A teoria política do vale do silício

Neste artigo, primeiro de uma sequência de mais dois, minha pretensão é traçar um primeiro esboço crítico do que estou denominando de “teoria política” do “Vale do silício”. Não porque esta hipotética teoria política aqui proposta seja unívoca como concepção de mundo das oligarquias da San Francisco Bay Area, ou mesmo que constitua um corpo elaborado de doutrina. Trata-se de uma teoria ideológica mais difusa, mas profundamente influente. Uma espécie de “marxismo ocidental” de extrema direita tecnológica, se me entendem na ironia. Dois elaboradores importantes, nas parcerias empresariais e intelectuais de igualdades e diferenças, são Peter Thiel e Alexander Karp, os odiados, mas também festejados, dirigentes da Palantir, empresa de vigilância do complexo militar-empresarial. Ambos não se formaram em escolas de informática ou administração de empresas, ou até mesmo economia de mercado de capitais – formações típicas de CEOs –, mas vieram da filosofia e do direito (seria mais preciso dizer, filosofia do direito) e, last but not least, do movimento estudantil, pelo menos no caso de Peter Thiel, nas particularidades dos Estados Unidos.

As impagáveis reportagens da revista Forbes, escritas com o propósito de forjar celebridades profanas no universo dos negócios, apresentaram Alexander C. Karp, em 2013, como uma espécie de bad boy do Vale do silício: um “filósofo desviante” que construíra uma empresa de mineração de dados financiada pela CIA, que, no outro submundo, frequentava as boates “obscenas” de Berlim e, acima de tudo, era CEO de uma empresa de dados emergente, ligada nada mais, nada menos, ao complexo militar-industrial (Greenberg & Mac, 2013). A influência de Jürgen Habermas sobre o pensamento de Alexander C. Karp é inegável, como registra a biografia escrita por Michael Steinberger (2026: 126). Alexander C. Karp não apenas teve o filósofo como mentor em determinado período, como também fez do conceito habermasiano de “esfera pública” um dos alicerces de sua própria reflexão em filosofia política. Isso o leva a confrontar, direta ou indiretamente, os grandes temas do zeitgeist intelectual do pós-68 – ainda que suas conclusões se afastem radicalmente do reformismo deliberativo de Jürgen Habermas.

Esse distanciamento fica evidente em A república tecnológica, obra em que Alexander C. Karp mantém a noção habermasiana de “crise de legitimidade” nas sociedades desenvolvidas, mas abandona o ideal racional de diálogo. Em seu lugar, ele defende o uso da tecnologia aliada ao poder e à violência como meios legítimos para assegurar a sobrevivência do Ocidente. Para Alexander C. Karp, a eficácia tecnopolítica supera a aposta na deliberação pública – uma posição que contrasta ferozmente com o espírito reformista de Habermas (1980). Essa virada em Alexander C. Karp reflete, no fundo, a erosão do próprio solo histórico que tornara o projeto habermasiano, senão exequível, ao menos plausível. O período do pós-guerra – chamado de “capitalismo tardio” tanto por Ernest Mandel (1982) quanto pelo próprio Jürgen Habermas, ainda que com projetos políticos distintos – forneceu a base material para o chamado “compromisso de classe”. Foi esse compromisso que viabilizou, de um lado, a noção gramsciana de “Estado Ampliado”, desenvolvida por autores como a “althusseriana-gramsciana” Buci-Glucksmann (havia isso no pós-68), no interessantíssimo Gramsci e o Estado (1980) e, de outro, a legitimidade procedimental mais angelical pensada por Habermas.

De passagem, vale anotar que Alexander C. Karp faz uma crítica fundada ao duvidar das propriedades práticas do deliberacionismo racional-democrático, em uma vida europeia sustentada pela troca desigual, mas também pela subversidade dos migrantes. O problema de vKarp encontra-se na “solucionática” e não na “problemática”, para invocar o grande filósofo Dadá Maravilha. Não por acaso, a Guerra Fria foi também uma era de constitucionalização do trabalho: direitos sociais e trabalhistas foram incorporados aos ordenamentos jurídicos nacionais, dando contornos institucionais ao conflito distributivo. Como escreveu Eric Hobsbawm, em passagem-síntese brilhante de Era dos extremos, o Ocidente descobriu que tinha medo… do Estado dos trabalhadores da União Soviética (Hobsbawm, 1995). Nesse contexto, o Estado deixou de ser visto como mero instrumento da burguesia, conforme a clássica fórmula do Manifesto Comunista (1998).

Nicos Poulantzas, em Poder político e classes sociais, mostrou que a dominação direta da burguesia cedeu lugar à mediação exercida por partidos e pela burocracia legal-racional. Mais tarde, em O Estado, o poder e o socialismo (2015:125-128), ele avançou a definição marxista corrente no marxismo-leninismo, de “Estado Restrito” para “Estado Ampliado”: o Estado passa a ser entendido como “a condensação material de uma relação de forças entre classes e frações de classe”. Essa reformulação permitiu explicar a autonomia relativa do Estado e seu papel como mediador nos conflitos distributivos, garantindo a estabilidade política do capitalismo ocidental no pós-guerra – os assim chamados “trinta anos gloriosos”. No entanto, Nicos Poulantzas não previu, porque afinal não era vidente, que, hoje, o Estado perdeu sua “autonomia relativa” para as big techs. Google, Amazon e Meta têm mais poder de vigilância e influência política do que a maioria dos Estados nacionais em sua autonomia relativa, inclusive o Brasil. Entre nós, por exemplo, Alexandre de Moraes retirou o Twitter/X em plena campanha eleitoral de 2022. Tornou-se inimigo mortal das big techs. Alguma dúvida de que as sanções de Donald Trump ao ministro têm a ver com isso? A “sociedade civil” do “Estado ampliado” está de fora do jogo político de controle do ciberespaço – e isso torna a mediação política ainda mais obscura.

A engenharia social – que alguns chamaram de “socialização da política” – vigorou no século passado até certo ponto tanto nos países centrais quanto nos principais países semiperiféricos, como o Brasil. Mas não foi um processo que dependeu apenas das relações de forças geradas, para falar como George Kennan (1947), das “políticas de contenção da URSS” no âmbito restrito de suas áreas de influência geopolítica no Leste Europeu. Paralelamente, estava havendo, após a Comuna de Paris, um processo de democratização sob a batuta do movimento operário. Assim, o “compromisso de classe” não foi uma concessão dos patrões, mas uma conquista cruenta dos trabalhadores (greves, sindicatos, revoluções). Não li nada de Peter Thiel que faça remissão direta a este processo. No entanto, objetivamente, essa engenharia político-social de compromisso de classe passou a ser radicalmente contestada por novas visões, como a do tecnofascista libertário Peter Thiel. Em artigos e intervenções públicas, Peter Thiel (2009) esboçou um horizonte pós-político: uma sociedade em que “os capitalistas se libertariam, enfim, dos trabalhadores” – livrando-se não apenas dos custos tributários, mas também do que ele considera uma “exploração inversa” imposta pelo trabalho assalariado. Em seu projeto, os Estados-nação dariam lugar a “paraísos libertários”, onde a automação integral tornaria obsoleto o valor econômico do trabalho e, com ele, qualquer compromisso tripartite entre Estado, capital e trabalho.

Tal perspectiva impacta diretamente o edifício teórico que, desde os anos 1990 e 2000, apostava na “desmercadorização” e na “desmercantilização” como vias de emancipação social – conceitos centrais para a Escola da Regulação (Aglietta, 1976; Boyer, 1990) e para autores como Francisco de Oliveira, com sua noção de “direitos do antivalor” (1998). O que a galera do Vale propõe é valor sem direitos. Essas categorias, outrora fundamentais para a crítica da economia política e para a imaginação de um modo de produção (vá lá como provocação!) social-democrata, tornam-se, diante da ofensiva tecnológica e política contemporânea, inteiramente datadas – ou, no mínimo, carentes de profunda revisão histórica e conceitual. Ou seja, ao exumar este museu de grandes novidades, é passado em revista, também, toda a base política do pensamento daquela corrente heterodoxa e heteróclita, de grande êxito na academia, entre o fim do século passado e começo do XXI (até a crise de 2008 e os últimos dias do governo de Barack Obama, a periodização tem alguma validade), que André Gorz – essa formulação teórica aparece principalmente em sua célebre obra e rito de passagem, à época – Adeus ao proletariado: para além do socialismo (Adieux au prolétariat), publicada originalmente em 1980 – intitulou de “reformismo revolucionário” (Gorz, 1982).

Já no caso de Peter Thiel, sem dúvida o mais proeminente, existe muita confusão da parte de alguns comentaristas recentes sobre as manifestações de método e loucura de Peter Thiel, depois que ele entrou na moda no ano passado, e choveram artigos de articulistas que parecem não perceber que houve uma passagem que coincide, no plano político, com o processo de ascensão de Donald Trump. Com certeza, entender as metamorfoses de uma figura como Peter Thiel – que não resume o pensamento teórico-político do Vale do silício, mas é de todos o mais representativo, tanto por suas preocupações políticas e filosóficas como também pelas viragens de pensamento – é fundamental. O jornalista Vincent Bevins assinala corretamente que essa inflexão representa o abandono definitivo do que poderíamos chamar de “ilusão libertária” – a crença de que o mercado e a tecnologia poderiam criar espaços de soberania privada independentes do poder estatal, de que o ciberespaço, as moedas digitais e as cidades flutuantes em águas internacionais seriam os “novos territórios da liberdade” – em favor de uma estratégia de captura do aparato estatal por parte das oligarquias tecnológicas (Bevins, 2025).

Um dado biográfico saliente, que deveria ser mais ressaltado, reitero, é que Peter Thiel não caminhou da tecnologia em direção à política, nem do capital para o poder – como é mais corriqueiro entre outros oligarcas do Vale do silício. Alemão de nascimento e filho de um engenheiro de minas, passou parte da infância na África do Sul e na Namíbia, onde adquiriu um inegável ranço racista, nitidamente pela defesa ou contemporização que fez, em muitos momentos de sua trajetória, do regime do apartheid. Peter Thiel começou na política conservadora e de extrema direita ainda no movimento estudantil de Stanford, onde se formou como quadro intelectual. Durante o período universitário, editou um dos pasquins provocadores mais influentes da extrema direita acadêmica da universidade.

Dessa experiência surgiu o seu primeiro livro, The Diversity Myth: “Multiculturalism” and the Politics of Intolerance at Stanford (1995), escrito em parceria com David Sacks – o mesmo que décadas depois seria nomeado por Donald Trump como “czar” da Inteligência artificial e criptomoedas da Casa Branca e, posteriormente, co-presidente do Conselho de Assessores do Presidente em Ciência e Tecnologia (PCAST). O livro é um libelo contra a vigência das políticas de ação afirmativa nas universidades da Ivy League – o Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princeton, Penn e Yale – e mais Stanford, em cujo campus ele agitava as bandeiras da extrema direita.

Peter Thiel vem de longe, nunca abandonou a crítica radical às universidades, vistas como entidades perdulárias, um investimento fadado a se tornar uma bolha especulativa. Por isso, criou e mantém um sistema de bolsas para jovens promissores que desejam abandonar os estudos universitários para “empreender”. Também estão postas aqui a crítica contundente à “catedral”, conforme designa o clown Curtis Yarvin, ou seja, os “três inimigos da liberdade”: a academia, a burocracia profissional legal-racional weberiana e – ora vejam – a mídia tradicional. A reforma do Estado que eles pretendem é arrasa-quarteirão. Não por acaso, os três candidatos à destruição do projeto neotrumpiano de 2025 da Heritage Foundation, em que se empenhou Elon Musk em sua rápida passagem pelo Estado americano (Graham, 2025).

Após as primeiras experiências como um entediante advogado corporativo em Nova York e uma tentativa frustrada de trabalhar na Suprema Corte, ele retorna a São Francisco. Surge então a figura do “investidor de risco” que se tornaria referência na criação, original na segunda metade dos anos 1990, de um sistema de pagamentos criptográfico, o PayPal. É o grande guardião político do Vale do Silício porque, como observa seu biógrafo Max Chafkin, logo nas primeiras páginas do livro, “foi ele o responsável por criar a ideologia que veio definir o Vale do Silício: que o progresso tecnológico deve ser buscado implacavelmente – com pouca ou nenhuma consideração pelos potenciais custos ou perigos para a sociedade” (Chafkin, 2022, p. 12). São duas biografias em construção (ou em destruição), enfim.

¨      Quando políticos leem discursos escritos por IA: a era da tecnologia de ventriloquismo. Por Éric Sadin

Por vezes, surgem fenômenos que, devido à sua natureza incomum, nos obrigam a compreender o seu significado sem nos determos nas suas manifestações iniciais, aparentemente insignificantes. Em várias eleições recentes em todo o mundo — por exemplo, as eleições municipais francesas de 2026 — alguns candidatos admitiram ter utilizado sistemas de inteligência artificial generativa para estruturar seus discursos, enquanto outros confessaram abertamente tê-los utilizado para escrevê-los. Assim, já ocorreram os primeiros momentos da história humana em que seres foram vistos proferindo, com uma voz supostamente viva, palavras criadas por uma terceira entidade artificial. Não humana, como talvez tenha sido o caso por muito tempo quando um escritor se coloca a serviço de um líder político.

Como caracterizar tal fenômeno, de dimensão absolutamente inédita, senão como um corpo repetindo as palavras emanadas de um ventríloquo mecânico? O que poderia parecer o simples uso de equipamentos tecnológicos práticos acarreta, ao contrário, o risco de distorcer o próprio espírito do político, em virtude de processos que devem ser analisados sem mais demora. Para começar, seria ingenuidade supor que o texto gerado simplesmente responde mecanicamente às intenções de quem o formula, pois o que deve ser considerado é um princípio que ele não tem escolha senão seguir: reagir da maneira mais adequada às expectativas presumidas dos destinatários. Isso geralmente ocorre com qualquer discurso eleitoral, mas com a diferença de que, neste caso, é realizado um cálculo automatizado duplo. Primeiro, há a análise — que pode ser solicitada ao sistema — da opinião dos destinatários pretendidos. Em seguida, esses dados alimentam outros cálculos que geram uma linguagem sintética que leva em conta os parâmetros previamente identificados.

Ao atribuir o papel de ventríloquo à tecnologia, a primazia concedida ao receptor sobre a liberdade do falante se intensifica como nunca antes. Esse fenômeno faz parte da tendência contínua de estratégias de marketing que vêm ganhando terreno no mundo político desde a década de 1960, focadas na elaboração de mensagens destinadas a alcançar a maior receptividade possível das massas. Essa ambição, embora cada vez mais automatizada, também atinge um novo nível de sofisticação. Sob essa perspectiva, indica uma demagogia algorítmica destinada ao aprimoramento contínuo. Há cerca de 15 anos, tornou-se comum enfatizar o alcance político das tecnologias digitais, dada a sua constante influência em nossas vidas individuais e coletivas. Hoje, isso se intensifica devido ao controle que a tecnologia exerce sobre a política. Essa influência decorre não apenas do impacto do setor nas decisões públicas, mas também de seu papel na definição e formulação de diretrizes políticas. A partir desse ponto, as prioridades da lógica política se sobrepõem ao próprio programa, entendido como um projeto concebido por indivíduos movidos por convicções e pelo desejo de direcionar nosso destino coletivo em uma direção específica.

Está na moda falar sobre o surgimento de um suposto tecnofascismo. Apontamos o dedo para os gigantes da tecnologia do Vale do Silício — embora esse mundo seja muito mais diverso ideologicamente do que se acredita — e cometemos o grave erro de nos esquivarmos da responsabilidade de utilizar plenamente seus produtos, ao mesmo tempo que nos apropriamos de uma categoria que já tem um século de existência. O que precisamos fazer diante de uma nova situação é desenvolver novos conceitos. O que realmente está por vir — juntamente com o uso desses "oráculos ventríloquos", que inevitavelmente se tornarão mais comuns — é um fenômeno mais sutil e global: um autoritarismo algorítmico "suave" que tem a forma de uma árvore de três ramos.

Em primeiro lugar, um sistema de realidade artificial cada vez mais onisciente, que inevitavelmente marginalizará a avaliação humana e imporá regras que escapam a toda transparência e deliberação. Em segundo lugar, há a banalização de dispositivos cujas origens no setor privado são esquecidas com muita facilidade. Isso implica a generalização de uma linguagem industrial — orientada para o lucro — e subordina seus arcabouços estatísticos e lógicos ao raciocínio político. Embora este último constitua a proteção da esfera pública (a res publica), ele é subordinado a uma racionalidade que, por sua própria natureza, lhe é profundamente estranha. Nesse sentido, o capitalismo linguístico promovido por empresas de IA generativa, que necessariamente inclui vieses capazes de priorizar exclusivamente as leis do cálculo econômico e a busca pela eficiência a qualquer custo, corre o risco de penetrar insidiosamente as mentes, independentemente de suas inclinações políticas. É altamente provável que uma tecnocracia robótica radical triunfe, estabelecendo uma síntese entre um estado de espírito e um regime de suposta pura necessidade e, na prática, descartando todas as preocupações que não se enquadram nesse sistema de valores. Em terceiro lugar, está emergindo uma abordagem de baixo para cima para essas tecnologias: muitas pessoas começarão a gerar programas, verdades aparentemente irrefutáveis, que inevitavelmente alimentarão a cacofonia e a crescente surdez entre os vários segmentos da sociedade. Esses programas responderão às suas aspirações ou caprichos sinceros, dentro de um universo psíquico que rapidamente começa a se distanciar da realidade, na medida em que a essência da política não é apenas conceber perspectivas, mas também considerar as condições concretas necessárias para sua viabilidade.

Quando alguém, de uma plataforma, começa a falar teoricamente em seu próprio nome, mesmo que suas palavras sejam resultado de processos tecnoeconômicos externos, vale a pena lembrar a frase de Jacques Lacan: "Quando o homem se esquece de que é o portador da palavra, ele não fala. (...) Quando o homem não fala, fala-se com ele". Poderíamos acrescentar que, nesse caso, essa pessoa não apenas se priva de sua própria essência, como também manipula sutilmente seu público, que acaba sendo incapaz de distinguir entre pronunciamentos humanos e artificiais.

Portanto, acreditar que o uso de discursos pré-fabricados é neutro seria um grave erro que poderia levar à desmaterialização da essência da política. Essa essência se baseia nos princípios da livre e plural expressão de opiniões subjetivas, da separação entre as esferas pública e privada e da impossibilidade de se estabelecerem axiomas absolutos e definitivos, que devem ser constantemente revisados e desenvolvidos tendo em vista o melhor interesse geral possível.

Era inevitável que, ao esperarmos constantemente pela verdade em qualquer circunstância relacionada à IA e ao abrirmos imprudentemente as caixas de Pandora digitais, mais cedo ou mais tarde perderíamos o contato com nós mesmos. Longe dos cenários apocalípticos e francamente grotescos em que as máquinas tomam o poder, o que está se desenhando é uma situação diferente, muito mais plausível: o abandono do nosso próprio poder. Chamemos-lhe uma ordem apolítica, na medida em que a política é consumida pela hipersofisticação tecnológica.

Se não abordarmos esta questão com urgência, faltando um ano para as eleições presidenciais na França e dois nos Estados Unidos, entre outros eventos, estaremos permitindo que forças mais poderosas do que nós nos deixem, em todos os sentidos, seres sem voz.

 

Fonte: Por Jaldes Meneses, em A Terra é Redonda/El País

 

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