A
teoria política do vale do silício
Neste
artigo, primeiro de uma sequência de mais dois, minha pretensão é traçar um
primeiro esboço crítico do que estou denominando de “teoria política” do “Vale
do silício”. Não porque esta hipotética teoria política aqui proposta seja
unívoca como concepção de mundo das oligarquias da San Francisco Bay
Area, ou mesmo que constitua um corpo elaborado de doutrina. Trata-se de
uma teoria ideológica mais difusa, mas profundamente influente. Uma espécie de
“marxismo ocidental” de extrema direita tecnológica, se me entendem na ironia.
Dois elaboradores importantes, nas parcerias empresariais e intelectuais de
igualdades e diferenças, são Peter Thiel e Alexander Karp, os odiados, mas
também festejados, dirigentes da Palantir, empresa de vigilância do complexo militar-empresarial.
Ambos não se formaram em escolas de informática ou administração de empresas,
ou até mesmo economia de mercado de capitais – formações típicas de CEOs –, mas
vieram da filosofia e do direito (seria mais preciso dizer, filosofia do direito)
e, last but not least, do movimento estudantil, pelo menos no caso
de Peter Thiel, nas particularidades dos Estados Unidos.
As
impagáveis reportagens da revista Forbes, escritas com o propósito
de forjar celebridades profanas no universo dos negócios, apresentaram
Alexander C. Karp, em 2013, como uma espécie de bad boy do
Vale do silício: um “filósofo desviante” que construíra uma empresa de
mineração de dados financiada pela CIA, que, no outro submundo, frequentava as
boates “obscenas” de Berlim e, acima de tudo, era CEO de uma empresa de dados
emergente, ligada nada mais, nada menos, ao complexo militar-industrial
(Greenberg & Mac, 2013). A influência de Jürgen Habermas sobre o pensamento
de Alexander C. Karp é inegável, como registra a biografia escrita por Michael
Steinberger (2026: 126). Alexander C. Karp não apenas teve o filósofo como
mentor em determinado período, como também fez do conceito habermasiano de
“esfera pública” um dos alicerces de sua própria reflexão em filosofia
política. Isso o leva a confrontar, direta ou indiretamente, os grandes temas
do zeitgeist intelectual do pós-68 – ainda que suas conclusões
se afastem radicalmente do reformismo deliberativo de Jürgen Habermas.
Esse
distanciamento fica evidente em A república tecnológica, obra em
que Alexander C. Karp mantém a noção habermasiana de “crise de legitimidade”
nas sociedades desenvolvidas, mas abandona o ideal racional de diálogo. Em seu
lugar, ele defende o uso da tecnologia aliada ao poder e à violência como meios
legítimos para assegurar a sobrevivência do Ocidente. Para Alexander C. Karp, a
eficácia tecnopolítica supera a aposta na deliberação pública – uma posição que
contrasta ferozmente com o espírito reformista de Habermas (1980). Essa virada
em Alexander C. Karp reflete, no fundo, a erosão do próprio solo histórico que
tornara o projeto habermasiano, senão exequível, ao menos plausível. O período
do pós-guerra – chamado de “capitalismo tardio” tanto por Ernest Mandel (1982)
quanto pelo próprio Jürgen Habermas, ainda que com projetos políticos distintos
– forneceu a base material para o chamado “compromisso de classe”. Foi esse
compromisso que viabilizou, de um lado, a noção gramsciana de “Estado
Ampliado”, desenvolvida por autores como a “althusseriana-gramsciana”
Buci-Glucksmann (havia isso no pós-68), no interessantíssimo Gramsci e
o Estado (1980) e, de outro, a legitimidade procedimental mais
angelical pensada por Habermas.
De
passagem, vale anotar que Alexander C. Karp faz uma crítica fundada ao duvidar
das propriedades práticas do deliberacionismo racional-democrático, em uma vida
europeia sustentada pela troca desigual, mas também pela subversidade dos
migrantes. O problema de vKarp encontra-se na “solucionática” e não na
“problemática”, para invocar o grande filósofo Dadá Maravilha. Não por acaso, a
Guerra Fria foi também uma era de constitucionalização do trabalho: direitos
sociais e trabalhistas foram incorporados aos ordenamentos jurídicos nacionais,
dando contornos institucionais ao conflito distributivo. Como escreveu Eric
Hobsbawm, em passagem-síntese brilhante de Era dos extremos, o
Ocidente descobriu que tinha medo… do Estado dos trabalhadores da União
Soviética (Hobsbawm, 1995). Nesse contexto, o Estado deixou de ser visto como
mero instrumento da burguesia, conforme a clássica fórmula do Manifesto
Comunista (1998).
Nicos
Poulantzas, em Poder político e classes sociais, mostrou que a
dominação direta da burguesia cedeu lugar à mediação exercida por partidos e
pela burocracia legal-racional. Mais tarde, em O Estado, o poder e o
socialismo (2015:125-128), ele avançou a definição marxista corrente
no marxismo-leninismo, de “Estado Restrito” para “Estado Ampliado”: o Estado
passa a ser entendido como “a condensação material de uma relação de forças
entre classes e frações de classe”. Essa reformulação permitiu explicar a autonomia
relativa do Estado e seu papel como mediador nos conflitos distributivos,
garantindo a estabilidade política do capitalismo ocidental no pós-guerra – os
assim chamados “trinta anos gloriosos”. No entanto, Nicos Poulantzas não
previu, porque afinal não era vidente, que, hoje, o Estado perdeu sua
“autonomia relativa” para as big techs. Google, Amazon e Meta têm
mais poder de vigilância e influência política do que a maioria dos Estados
nacionais em sua autonomia relativa, inclusive o Brasil. Entre nós, por
exemplo, Alexandre de Moraes retirou o Twitter/X em plena campanha eleitoral de
2022. Tornou-se inimigo mortal das big techs. Alguma dúvida de que
as sanções de Donald Trump ao ministro têm a ver com isso? A “sociedade civil”
do “Estado ampliado” está de fora do jogo político de controle do ciberespaço –
e isso torna a mediação política ainda mais obscura.
A
engenharia social – que alguns chamaram de “socialização da política” – vigorou
no século passado até certo ponto tanto nos países centrais quanto nos
principais países semiperiféricos, como o Brasil. Mas não foi um processo que
dependeu apenas das relações de forças geradas, para falar como George Kennan
(1947), das “políticas de contenção da URSS” no âmbito restrito de suas áreas
de influência geopolítica no Leste Europeu. Paralelamente, estava havendo, após
a Comuna de Paris, um processo de democratização sob a batuta do movimento
operário. Assim, o “compromisso de classe” não foi uma concessão dos patrões,
mas uma conquista cruenta dos trabalhadores (greves, sindicatos, revoluções).
Não li nada de Peter Thiel que faça remissão direta a este processo. No
entanto, objetivamente, essa engenharia político-social de compromisso de
classe passou a ser radicalmente contestada por novas visões, como a do
tecnofascista libertário Peter Thiel. Em artigos e intervenções públicas, Peter
Thiel (2009) esboçou um horizonte pós-político: uma sociedade em que “os
capitalistas se libertariam, enfim, dos trabalhadores” – livrando-se não apenas
dos custos tributários, mas também do que ele considera uma “exploração
inversa” imposta pelo trabalho assalariado. Em seu projeto, os Estados-nação
dariam lugar a “paraísos libertários”, onde a automação integral tornaria
obsoleto o valor econômico do trabalho e, com ele, qualquer compromisso
tripartite entre Estado, capital e trabalho.
Tal
perspectiva impacta diretamente o edifício teórico que, desde os anos 1990 e
2000, apostava na “desmercadorização” e na “desmercantilização” como vias de
emancipação social – conceitos centrais para a Escola da Regulação (Aglietta,
1976; Boyer, 1990) e para autores como Francisco de Oliveira, com sua noção de
“direitos do antivalor” (1998). O que a galera do Vale propõe é valor sem
direitos. Essas categorias, outrora fundamentais para a crítica da economia
política e para a imaginação de um modo de produção (vá lá como provocação!)
social-democrata, tornam-se, diante da ofensiva tecnológica e política
contemporânea, inteiramente datadas – ou, no mínimo, carentes de profunda
revisão histórica e conceitual. Ou seja, ao exumar este museu de grandes novidades,
é passado em revista, também, toda a base política do pensamento daquela
corrente heterodoxa e heteróclita, de grande êxito na academia, entre o fim do
século passado e começo do XXI (até a crise de 2008 e os últimos dias do
governo de Barack Obama, a periodização tem alguma validade), que André Gorz –
essa formulação teórica aparece principalmente em sua célebre obra e rito de
passagem, à época – Adeus ao proletariado: para além do socialismo (Adieux
au prolétariat), publicada originalmente em 1980 – intitulou de “reformismo
revolucionário” (Gorz, 1982).
Já no
caso de Peter Thiel, sem dúvida o mais proeminente, existe muita confusão da
parte de alguns comentaristas recentes sobre as manifestações de método e
loucura de Peter Thiel, depois que ele entrou na moda no ano passado, e
choveram artigos de articulistas que parecem não perceber que houve uma
passagem que coincide, no plano político, com o processo de ascensão de Donald
Trump. Com certeza, entender as metamorfoses de uma figura como Peter Thiel –
que não resume o pensamento teórico-político do Vale do silício, mas é de todos
o mais representativo, tanto por suas preocupações políticas e filosóficas como
também pelas viragens de pensamento – é fundamental. O jornalista Vincent
Bevins assinala corretamente que essa inflexão representa o abandono definitivo
do que poderíamos chamar de “ilusão libertária” – a crença de que o mercado e a
tecnologia poderiam criar espaços de soberania privada independentes do poder
estatal, de que o ciberespaço, as moedas digitais e as cidades flutuantes em
águas internacionais seriam os “novos territórios da liberdade” – em favor de
uma estratégia de captura do aparato estatal por parte das oligarquias
tecnológicas (Bevins, 2025).
Um dado
biográfico saliente, que deveria ser mais ressaltado, reitero, é que Peter
Thiel não caminhou da tecnologia em direção à política, nem do capital para o
poder – como é mais corriqueiro entre outros oligarcas do Vale do silício.
Alemão de nascimento e filho de um engenheiro de minas, passou parte da
infância na África do Sul e na Namíbia, onde adquiriu um inegável ranço
racista, nitidamente pela defesa ou contemporização que fez, em muitos momentos
de sua trajetória, do regime do apartheid. Peter Thiel começou na
política conservadora e de extrema direita ainda no movimento estudantil de
Stanford, onde se formou como quadro intelectual. Durante o período
universitário, editou um dos pasquins provocadores mais influentes da extrema
direita acadêmica da universidade.
Dessa
experiência surgiu o seu primeiro livro, The Diversity Myth:
“Multiculturalism” and the Politics of Intolerance at Stanford (1995),
escrito em parceria com David Sacks – o mesmo que décadas depois seria nomeado
por Donald Trump como “czar” da Inteligência artificial e criptomoedas da Casa
Branca e, posteriormente, co-presidente do Conselho de Assessores do Presidente
em Ciência e Tecnologia (PCAST). O livro é um libelo contra a vigência das
políticas de ação afirmativa nas universidades da Ivy League – o Brown,
Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princeton, Penn e Yale – e mais
Stanford, em cujo campus ele agitava as bandeiras da extrema direita.
Peter
Thiel vem de longe, nunca abandonou a crítica radical às universidades, vistas
como entidades perdulárias, um investimento fadado a se tornar uma bolha
especulativa. Por isso, criou e mantém um sistema de bolsas para jovens
promissores que desejam abandonar os estudos universitários para “empreender”.
Também estão postas aqui a crítica contundente à “catedral”, conforme designa
o clown Curtis Yarvin, ou seja, os “três inimigos da
liberdade”: a academia, a burocracia profissional legal-racional weberiana e –
ora vejam – a mídia tradicional. A reforma do Estado que eles pretendem é
arrasa-quarteirão. Não por acaso, os três candidatos à destruição do projeto
neotrumpiano de 2025 da Heritage Foundation, em que se empenhou
Elon Musk em sua rápida passagem pelo Estado americano (Graham, 2025).
Após as
primeiras experiências como um entediante advogado corporativo em Nova York e
uma tentativa frustrada de trabalhar na Suprema Corte, ele retorna a São
Francisco. Surge então a figura do “investidor de risco” que se tornaria
referência na criação, original na segunda metade dos anos 1990, de um sistema
de pagamentos criptográfico, o PayPal. É o grande guardião político do Vale do
Silício porque, como observa seu biógrafo Max Chafkin, logo nas primeiras
páginas do livro, “foi ele o responsável por criar a ideologia que veio definir
o Vale do Silício: que o progresso tecnológico deve ser buscado implacavelmente
– com pouca ou nenhuma consideração pelos potenciais custos ou perigos para a
sociedade” (Chafkin, 2022, p. 12). São duas biografias em construção (ou em
destruição), enfim.
¨ Quando políticos leem
discursos escritos por IA: a era da tecnologia de ventriloquismo. Por Éric
Sadin
Por
vezes, surgem fenômenos que, devido à sua natureza incomum, nos obrigam a
compreender o seu significado sem nos determos nas suas manifestações iniciais,
aparentemente insignificantes. Em várias eleições recentes em todo o mundo —
por exemplo, as eleições municipais
francesas de 2026 —
alguns candidatos admitiram ter utilizado sistemas de inteligência
artificial generativa para estruturar seus discursos, enquanto outros
confessaram abertamente tê-los utilizado para escrevê-los. Assim, já ocorreram
os primeiros momentos da história humana em que seres foram vistos proferindo,
com uma voz supostamente viva, palavras criadas por uma terceira entidade
artificial. Não humana, como talvez tenha sido o caso por muito tempo quando um
escritor se coloca a serviço de um líder político.
Como
caracterizar tal fenômeno, de dimensão absolutamente inédita, senão como um
corpo repetindo as palavras emanadas de um ventríloquo mecânico? O que poderia
parecer o simples uso de equipamentos tecnológicos práticos acarreta, ao
contrário, o risco de distorcer o próprio espírito do político, em virtude
de processos que devem ser analisados sem mais demora. Para começar, seria
ingenuidade supor que o texto gerado simplesmente responde mecanicamente às
intenções de quem o formula, pois o que deve ser considerado é um princípio que
ele não tem escolha senão seguir: reagir da maneira mais adequada às
expectativas presumidas dos destinatários. Isso geralmente ocorre com
qualquer discurso eleitoral, mas com a diferença de que, neste caso, é
realizado um cálculo automatizado duplo. Primeiro, há a análise — que pode ser
solicitada ao sistema — da opinião dos destinatários pretendidos. Em seguida,
esses dados alimentam outros cálculos que geram uma linguagem
sintética que leva em conta os parâmetros previamente identificados.
Ao
atribuir o papel de ventríloquo à tecnologia, a primazia concedida ao
receptor sobre a liberdade do falante se intensifica como nunca antes. Esse
fenômeno faz parte da tendência contínua de estratégias de marketing que vêm
ganhando terreno no mundo político desde a década de 1960, focadas na
elaboração de mensagens destinadas a alcançar a maior receptividade possível
das massas. Essa ambição, embora cada vez mais automatizada, também atinge um
novo nível de sofisticação. Sob essa perspectiva, indica uma demagogia
algorítmica destinada ao aprimoramento contínuo. Há cerca de 15 anos,
tornou-se comum enfatizar o alcance político das
tecnologias digitais,
dada a sua constante influência em nossas vidas individuais e coletivas. Hoje,
isso se intensifica devido ao controle que a tecnologia exerce sobre a
política. Essa influência decorre não apenas do impacto do setor nas decisões
públicas, mas também de seu papel na definição e formulação de diretrizes
políticas. A partir desse ponto, as prioridades da lógica política se sobrepõem
ao próprio programa, entendido como um projeto concebido por indivíduos movidos
por convicções e pelo desejo de direcionar nosso destino coletivo em uma
direção específica.
Está na
moda falar sobre o surgimento de um suposto tecnofascismo. Apontamos o dedo para os gigantes da tecnologia
do Vale do Silício — embora esse mundo seja muito mais diverso
ideologicamente do que se acredita — e cometemos o grave erro de nos
esquivarmos da responsabilidade de utilizar plenamente seus produtos, ao mesmo
tempo que nos apropriamos de uma categoria que já tem um século de existência.
O que precisamos fazer diante de uma nova situação é desenvolver novos
conceitos. O que realmente está por vir — juntamente com o uso desses
"oráculos ventríloquos", que inevitavelmente se tornarão mais comuns
— é um fenômeno mais sutil e global: um autoritarismo
algorítmico "suave"
que tem a forma de uma árvore de três ramos.
Em
primeiro lugar, um sistema de realidade artificial cada vez mais
onisciente, que inevitavelmente marginalizará a avaliação humana e imporá
regras que escapam a toda transparência e deliberação. Em segundo lugar, há
a banalização de dispositivos cujas origens no setor privado são
esquecidas com muita facilidade. Isso implica a generalização de uma linguagem
industrial — orientada para o lucro — e subordina seus arcabouços estatísticos
e lógicos ao raciocínio político. Embora este último constitua a proteção da
esfera pública (a res publica), ele é subordinado a uma
racionalidade que, por sua própria natureza, lhe é profundamente estranha.
Nesse sentido, o capitalismo linguístico promovido por empresas de IA
generativa, que necessariamente inclui vieses capazes de priorizar exclusivamente
as leis do cálculo econômico e a busca pela eficiência a qualquer custo, corre
o risco de penetrar insidiosamente as mentes, independentemente de suas
inclinações políticas. É altamente provável que uma tecnocracia robótica
radical triunfe, estabelecendo uma síntese entre um estado de espírito e um
regime de suposta pura necessidade e, na prática, descartando todas as
preocupações que não se enquadram nesse sistema de valores. Em terceiro lugar,
está emergindo uma abordagem de baixo para cima para essas
tecnologias: muitas pessoas começarão a gerar programas, verdades aparentemente
irrefutáveis, que inevitavelmente alimentarão a cacofonia e a crescente surdez
entre os vários segmentos da sociedade. Esses programas responderão às suas
aspirações ou caprichos sinceros, dentro de um universo psíquico que
rapidamente começa a se distanciar da realidade, na medida em que a
essência da política não é apenas conceber perspectivas, mas também considerar
as condições concretas necessárias para sua viabilidade.
Quando
alguém, de uma plataforma, começa a falar teoricamente em seu próprio nome,
mesmo que suas palavras sejam resultado de processos tecnoeconômicos externos,
vale a pena lembrar a frase de Jacques Lacan: "Quando o
homem se esquece de que é o portador da palavra, ele não fala. (...) Quando o
homem não fala, fala-se com ele". Poderíamos acrescentar que, nesse caso,
essa pessoa não apenas se priva de sua própria essência, como também manipula
sutilmente seu público, que acaba sendo incapaz de distinguir
entre pronunciamentos humanos e artificiais.
Portanto,
acreditar que o uso de discursos pré-fabricados é neutro seria um grave erro
que poderia levar à desmaterialização da essência da política. Essa
essência se baseia nos princípios da livre e plural expressão de opiniões
subjetivas, da separação entre as esferas pública e privada e da
impossibilidade de se estabelecerem axiomas absolutos e definitivos, que devem
ser constantemente revisados e desenvolvidos tendo em vista o melhor interesse
geral possível.
Era
inevitável que, ao esperarmos constantemente pela verdade em qualquer
circunstância relacionada à IA e ao abrirmos imprudentemente as
caixas de Pandora digitais, mais cedo ou mais tarde perderíamos o
contato com nós mesmos. Longe dos cenários apocalípticos e francamente
grotescos em que as máquinas tomam o poder, o que está se desenhando é uma
situação diferente, muito mais plausível: o abandono do nosso próprio poder.
Chamemos-lhe uma ordem apolítica, na medida em que a política é consumida pela
hipersofisticação tecnológica.
Se não
abordarmos esta questão com urgência, faltando um ano para as eleições
presidenciais na França e dois nos Estados Unidos, entre outros
eventos, estaremos permitindo que forças mais poderosas do que nós nos deixem,
em todos os sentidos, seres sem voz.
Fonte:
Por Jaldes Meneses, em A Terra é Redonda/El País

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