quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A nova economia da Amazônia

Ao longo dos últimos vinte anos, a linguagem usada para descrever a floresta amazônica mudou gradualmente. Antes vista principalmente como um ecossistema vulnerável que precisava de proteção contra o desmatamento e a exploração, agora é cada vez mais descrita em termos econômicos, como um sistema com valor mensurável e crescente importância em discussões financeiras e políticas. Em governos, instituições financeiras e organizações ambientais, uma nova linguagem ganhou força. A “bioeconomia” define a biodiversidade, os serviços ecossistêmicos e o conhecimento tradicional não apenas como coisas a serem preservadas, mas como recursos que podem gerar renda e, ao mesmo tempo, manter a floresta em pé.

Instituições importantes como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Instituto de Recursos Mundiais (WRI) e fundos climáticos globais têm desempenhado um papel fundamental na promoção dessa ideia, desenvolvendo estruturas que conectam a conservação com abordagens baseadas no mercado. Alguns dos doadores do WRI incluem Cargill, Bezos Earth Fund, Fundação Bill e Melinda Gates, CLUA, Google, Good Energies Foundation, Fundação Ford, Fundação Gordon e Betty Moore, Meta, Rockefeller Philanthropy Advisors, Fundação Skoll, Fundação Oak, Banco Mundial, Departamento de Estado dos EUA, Walmart e muitos outros.

À primeira vista, o conceito é simples e atraente: uma floresta viva pode valer mais do que uma floresta desmatada, se o seu valor ecológico for devidamente reconhecido e precificado. Mas essa mudança traz consequências. Quando uma floresta se torna um sistema econômico, ela deixa de ser guiada pela proteção ambiental ou por prioridades sociais. Em vez disso, passa a ser moldada por expectativas financeiras, por métricas, metas de desempenho e pela necessidade de gerar retorno. Nesse contexto, a conservação não se resume mais à proteção. Ela passa a estar ligada a ideias de eficiência, produtividade e escala. Em outras palavras, a Amazônia não está apenas sendo preservada, mas também reorganizada.

<><> A arquitetura oculta

Grande parte dessa transformação ocorre fora do alcance da visão humana. Muito antes de os projetos chegarem a territórios ou comunidades específicas, suas bases são estabelecidas em outros lugares, por meio de planejamento financeiro, parcerias institucionais e estratégias de investimento. O que está surgindo não é apenas financiamento para a conservação, mas um sistema projetado para tornar a natureza atraente para investimentos. Esse sistema depende de parcerias entre instituições públicas, bancos de desenvolvimento e investidores privados. Juntos, eles estão construindo estruturas financeiras que transformam a conservação em algo que pode ser financiado em larga escala.

Organizações como a Corporação Financeira Internacional (IFC, membro do Grupo Banco Mundial), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) do Brasil e o Banco Alemão de Desenvolvimento Econômico e Social (KfW) são fundamentais para a construção dessas estruturas, estruturando instrumentos que permitem a entrada de capital em regiões historicamente consideradas de alto risco para investimentos. Mas o financiamento não vem sem condições. Os projetos devem ser mensuráveis, escaláveis e alinhados com as expectativas dos investidores. Isso cria um efeito de filtragem sutil. Iniciativas enraizadas em tradições locais e formas não mercantis de gestão da terra não são explicitamente excluídas, mas muitas vezes têm dificuldade em se encaixar nesses modelos e, portanto, frequentemente permanecem à margem.

<><> Financiamento misto: o motor da bioeconomia

No cerne desse sistema está o "financiamento misto", um modelo que combina dinheiro público, financiamento filantrópico e investimento privado para reduzir o risco e atrair capital em larga escala. O BID, a IFC e fundos como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) são fundamentais na concepção desses mecanismos, muitas vezes trabalhando em coordenação com atores nacionais como o BNDES. A intenção é mobilizar grandes volumes de capital para a conservação, tornando os projetos financeiramente viáveis para investidores privados. Na prática, esse modelo redistribui o risco financeiro de forma altamente estruturada. Instituições públicas e atores filantrópicos, como a Fundação Gordon e Betty Moore e alianças como a Aliança para o Clima e o Uso da Terra, normalmente absorvem as perdas iniciais ou oferecem garantias, permitindo que investidores privados participem com retornos mais previsíveis.

O mecanismo é eficaz em um sentido: ele traz níveis de financiamento que a conservação historicamente tem lutado para alcançar. Mas isso também levanta uma questão mais profunda: se o risco é compartilhado, quem se beneficia das recompensas?

A influência do financiamento misto vai além do financiamento em si, moldando a própria aparência dos projetos. Como os investidores exigem previsibilidade, as iniciativas são frequentemente concebidas em torno de resultados mensuráveis, como créditos de carbono, commodities certificadas e receitas vinculadas à biodiversidade. Isso pode impulsionar a inovação, mas também pode limitar o que é possível. Projetos focados na saúde ecológica a longo prazo, na continuidade cultural ou em formas não comerciais de gestão ambiental podem ter dificuldade em atrair apoio. Com o tempo, isso tem um efeito cumulativo. O sistema não apenas financia a bioeconomia, ele a define. Ele determina o que é visível, o que cresce e o que é deixado para trás. O risco também assume novas formas. Ele surge quando as narrativas de sustentabilidade avançam mais rápido do que a realidade no terreno, ou quando pequenos sucessos são amplificados apesar das pressões ambientais contínuas.

As preocupações com o greenwashing nem sempre surgem de alegações totalmente falsas. Muitas vezes, elas emergem da própria estrutura, de um sistema onde o retorno financeiro e a reputação estão intimamente ligados. Nesse processo, a Amazônia não está apenas sendo protegida, mas também inserida em sistemas financeiros que remodelam a forma como a natureza é valorizada e como o sucesso é medido.

<><> Intermediários

No Brasil, certas organizações atuam como intermediárias-chave, como o Fundo Brasileiro de Biodiversidade (FUNBIO), que se encontra no centro desses fluxos financeiros. Ativa desde 1996, a FUNBIO foi criada com o apoio do GEF e de parceiros multilaterais. Ela opera como um centro financeiro, capta recursos de governos, empresas e organizações filantrópicas e os redistribui para projetos na Amazônia e no Brasil. Esse papel confere a essas instituições uma influência significativa. Elas não apenas financiam iniciativas, como também ajudam a determinar quais são bem-sucedidas, quais modelos são expandidos e quais abordagens são priorizadas. Embora essa concentração possa melhorar a eficiência, ela também concentra o poder de tomada de decisão em uma rede relativamente pequena. Um exemplo claro é o Projeto de Carbono da Floresta Suruí, lançado em 2009 e gerenciado em parte pela FUNBIO em parceria com o povo indígena Paiter-Suruí. O projeto foi amplamente visto como um esforço pioneiro para vincular a conservação aos mercados de carbono, mas também revelou algumas das tensões subjacentes a esses modelos.

Com o tempo, alguns líderes comunitários relataram que os pagamentos dos créditos de carbono demoravam a chegar e as decisões importantes estavam sendo tomadas por um pequeno grupo, em vez de pela comunidade em geral. Ao mesmo tempo, a exploração madeireira e a mineração ilegais continuaram no território, enfraquecendo o impacto do projeto. Para alguns, isso levantou questões difíceis sobre quem realmente se beneficia dessas iniciativas e se o sistema é tão transparente ou justo quanto parece. Os relatórios financeiros ilustram a abrangência dessa rede. Os programas vinculados à FUNBIO envolveram financiamento e parcerias com entidades como BNDES, KfW, BID, Fundação Gordon e Betty Moore, WWF, Fundação Good Energies, CLUA, Bezos Earth, Petrobras, Eneva, ExxonMobil, Chevron, Vale, Anglo American, Natura, JBS, Heineken e outras, abrangendo os setores público, privado e filantrópico.  Na prática, um único projeto de conservação pode envolver financiamento simultâneo de bancos de desenvolvimento, dos setores de petróleo, mineração e agronegócio, de doadores filantrópicos e de ONGs ambientais. Essas parcerias em camadas podem mobilizar grandes quantias de dinheiro, mas também criam redes complexas de dependência.

<><> Filantropia

As fundações filantrópicas tornaram-se indispensáveis para esse sistema, muitas vezes intervindo onde outros não o fazem ou não podem. Organizações como a Fundação Gordon e Betty Moore , a Fundação Good Energies (Porticus) e a Aliança para o Clima e o Uso da Terra (CLUA) fornecem financiamento inicial que permite que os projetos se desenvolvam e se tornem atraentes para grandes investidores. Sem esse apoio inicial, muitas iniciativas não sairiam do papel. Tomemos como exemplo o programa ARPA . Criada em 2002 e gerida pela FUNBIO, esta aliança tem trabalhado para conservar e gerir de forma sustentável 60 milhões de hectares de terra, uma área aproximadamente duas vezes maior que a Alemanha. O seu financiamento provém de uma combinação de grandes intervenientes, incluindo a Fundação Gordon e Betty Moore, o WWF, o governo alemão (através do KfW), o GEF, a Anglo American, o Fundo Amazónico, o BID, o Banco Mundial, a Margaret A. Cargill e o BNDES. O próprio projeto é gerido e executado pela FUNBIO.

Somente em 2024, a Fundação Gordon e Betty Moore investiu mais de 24 milhões de dólares em projetos no Brasil, principalmente na região amazônica.

Mas a filantropia não é neutra. Ao escolher quais iniciativas financiar, essas organizações influenciam a direção da própria bioeconomia. Projetos que prometem escalabilidade e se alinham com abordagens orientadas pelo mercado têm maior probabilidade de receber apoio. Enquanto isso, alternativas, especialmente aquelas focadas em direitos fundiários ou soluções não mercantis, podem ter dificuldades para competir. O Fundo Soros para o Desenvolvimento Econômico, apoiado pela rede Open Society de George Soros, identificou o Brasil como um destino fundamental para investimentos de impacto, particularmente em áreas como agricultura regenerativa, bioinsumos e soluções baseadas na natureza. Sua abordagem enfatiza a expansão de modelos comercialmente viáveis que vinculam a preservação ambiental ao retorno financeiro, reforçando a tendência mais ampla de alinhar a conservação a estruturas orientadas pelo mercado. Isso levanta uma questão importante: quem está realmente moldando o futuro da Amazônia? Comunidades locais, governos nacionais ou redes globais de financiadores?

<><> Participação corporativa

As empresas estão agora profundamente envolvidas na bioeconomia. Empresas dos setores de petróleo, mineração e agronegócio contribuem para fundos ambientais e participam de iniciativas de conservação, frequentemente como parte de estratégias de sustentabilidade mais amplas. Esses esforços podem apoiar a restauração e o desenvolvimento local. Ao mesmo tempo, operam dentro de uma economia de reputação, onde o engajamento ambiental visível pode melhorar a imagem pública e a confiança dos investidores. Isso cria uma tensão evidente. As mesmas indústrias historicamente ligadas a danos ambientais estão agora ajudando a financiar sua reparação.

<><> Comercialização

A expansão de negócios baseados na biodiversidade oferece uma das ilustrações mais claras de como a bioeconomia funciona na prática. Empresas como a brasileira de cosméticos Natura estão construindo mercados globais em torno de produtos derivados da floresta, frequentemente em parceria com comunidades locais. O envolvimento da Natura em iniciativas como o programa Amazônia Viva, desenvolvido em conjunto com a IFC e a FUNBIO, ilustra como as cadeias de suprimentos comerciais podem ser integradas ao financiamento da conservação. Por um lado, o modelo da Natura demonstra que as economias baseadas em florestas podem gerar renda sem desmatamento. Por outro, revela as complexidades de se ampliar tais sistemas. Com o aumento da demanda, as cadeias de suprimentos precisam se expandir e se padronizar. Isso pode pressionar as práticas locais, reformulando-as para atender às expectativas do mercado global.

O equilíbrio entre oportunidade e restrição é frequentemente frágil.

<><> Narrativas sobre carne bovina sustentável

O envolvimento dos principais produtores de carne acrescenta mais uma camada de complexidade. A JBS, maior produtora de carne do mundo, por meio do Fundo JBS para a Amazônia, destaca outra dimensão da bioeconomia: a participação de setores historicamente ligados ao desmatamento, à degradação ambiental e às violações dos direitos humanos. O fundo apoia projetos de conservação e desenvolvimento sustentável, posicionando a empresa como parte da solução para os desafios ambientais. No entanto, um conjunto substancial de reportagens investigativas e análises de órgãos de fiscalização tem levantado preocupações contínuas sobre a transparência das cadeias de suprimentos da JBS e seu impacto ambiental. Isso evidencia uma contradição mais ampla: as empresas podem apoiar iniciativas de sustentabilidade enquanto continuam com práticas que contribuem para danos sociais e ambientais.

<><> Capital da mineração

Um padrão semelhante pode ser observado no setor de mineração, particularmente no caso da gigante brasileira Vale. A empresa investiu em programas de biodiversidade, projetos de restauração e parcerias em bioeconomia, posicionando-se dentro da linguagem da responsabilidade ambiental. Mas o histórico ambiental da Vale inclui um dos desastres industriais mais devastadores da história do Brasil. O desastre da barragem de Mariana, em 2015, operada por uma joint venture entre a Vale e a BHP, liberou milhões de metros cúbicos de resíduos tóxicos, causando destruição generalizada e gerando ações judiciais de centenas de milhares de pessoas afetadas. Nesse contexto, o envolvimento da Vale em iniciativas ambientais e de bioeconomia ganha ainda mais relevância. Por meio de entidades como o Fundo Vale, a empresa cofinancia projetos de conservação e desenvolvimento juntamente a instituições públicas e ONGs, inserindo-se em estruturas de sustentabilidade que priorizam a restauração e a resiliência. Essas iniciativas são frequentemente apresentadas como parte de uma transição para práticas mais sustentáveis. Ao mesmo tempo, elas coexistem com atividades de extração em andamento que acarretam impactos sociais e ambientais significativos. Isso reflete uma tendência mais ampla: as iniciativas de sustentabilidade muitas vezes acompanham, em vez de substituir, as indústrias extrativas.

<><> Web institucional e aceleradores

Organizações como a WWF, IDESAM , Conexsus e Sitawi ocupam uma posição fundamental, conectando o financiamento à implementação no terreno. Eles elaboram projetos, gerenciam financiamentos e trabalham diretamente com as comunidades. Isso lhes confere um importante papel de ligação, mas também os coloca em uma posição delicada. Muitos dependem de financiamento dos mesmos atores que deveriam responsabilizar.

Novas plataformas como a Amaz e redes ligadas ao Instituto Arapyaú visam expandir negócios baseados na Amazon, conectando-os com investidores, mentores e mercados. Essas aceleradoras são frequentemente apresentadas como veículos de empoderamento, permitindo que empreendedores locais acessem oportunidades antes inacessíveis. Essas iniciativas podem ampliar as oportunidades, mas também inserem empresas locais em sistemas globais, onde o sucesso é definido pelo crescimento e pelo retorno financeiro. A participação vem cada vez mais condicionada.

<><> O Fundo Amazon

O Fundo Amazônico representa um dos maiores conjuntos de financiamento internacional para a conservação florestal. Gerido pelo BNDES , o fundo recebeu bilhões em contribuições, principalmente do governo norueguês. A Petrobras, gigante estatal brasileira de energia, também é uma doadora. A estrutura do fundo canaliza o financiamento climático internacional para programas nacionais, frequentemente por meio de intermediários como a FUNBIO. Esse sistema de múltiplas camadas possibilita investimentos significativos, mas também introduz camadas de complexidade. A tomada de decisões é compartilhada entre vários atores, dificultando o rastreamento da responsabilidade. É importante destacar que Aloisio Mercadante atua como presidente tanto do Fundo Amazônico quanto do BNDES.

<><> Quem se beneficia?

No centro da bioeconomia estão os povos indígenas e as comunidades locais. Seu conhecimento, práticas e longa relação com a terra ajudam a moldar muitos projetos que agora atraem atenção e investimentos globais. Mas a parcela dos benefícios financeiros que chega a eles muitas vezes permanece limitada. Em muitos casos, a responsabilidade por alcançar resultados recai principalmente sobre seus ombros, sem uma participação correspondente nos lucros. Esse desequilíbrio está no centro do debate sobre a bioeconomia. A bioeconomia está redistribuindo valor ou reforçando as desigualdades existentes?

Não existe uma resposta única. Os resultados variam de um projeto para outro, moldados pelas condições locais e pela forma como cada iniciativa é concebida. Mas a questão em si permanece incontornável e cada vez mais urgente. A bioeconomia da Amazônia não é uma solução simples. É um sistema complexo e em constante evolução, moldado por objetivos ambientais, interesses financeiros, prioridades políticas e realidades sociais. Isso oferece a possibilidade de direcionar investimentos para a conservação e criar novas vias econômicas que mantenham a floresta em pé.

Mas isso também corre o risco de incorporar a natureza mais profundamente em sistemas financeiros que há muito são impulsionados pela extração. A tensão permanece sem solução.

A questão crucial permanece: a bioeconomia servirá, em última análise, à floresta e às pessoas que dependem dela, ou aos sistemas que a financiam?

 

Fonte: Por Mônica Piccinini, no Correio da Cidadania

 

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