Donald
Trump e Karl Marx
“Donald
Trump insiste que não se pode amar Karl Marx e a América ao mesmo tempo,
resgatando uma acusação difamatória que rotulou a Reconstrução, o New Deal e o
movimento pelos direitos civis como antiamericanos”.
Para os
não iniciados, tal retórica pode parecer absurda, visto que o comunismo foi, em
grande parte, derrotado há trinta e cinco anos, quando a União Soviética ruiu,
encerrando assim a Guerra Fria. Pode parecer ainda mais absurdo que Donald
Trump invoque Karl Marx, um homem que nunca pôs seus pés nos Estados Unidos e
que morreu em 1883, como uma ameaça à existência da América. Mas, de fato,
Donald Trump tem o hábito de chamar coisas e pessoas que não gosta de
“marxista”.
Durante
a campanha de 2024, Donald Trump frequentemente identificava a “camarada”
Kamala Harris como uma marxista. Aa
retomar ao controle da Casa Branca em 2025, Donald Trump acusou as
universidades de estarem tomadas por “marxistas, maníacos e lunáticos”,
atribuindo à “influência marxista” dos órgãos de recrutamento universitário a
culpa por permitir que “burocratas marxistas de diversidade, equidade e
inclusão” controlassem o ensino superior americano.
Em um
discurso contundente proferido há mais de um ano no Departamento de Justiça,
ele rotulou procuradores federais contrários opositores como marxistas
(piorando a situação, visto que ele já tinha os demitido). Um dos insultos
favoritos de Donald Trump é chamar alguém de “marxista lunático”, um termo
pejorativo que ele frequentemente dirigia a Zohran Mamdani durante a campanha
para prefeito de Nova York (isso foi antes de Mamadani, socialista declarado,
ter persuadido de forma astuta Donald Trump de que – como o presidente afirmou
em seu mais recente discurso sobre o Estado da União – o “novo prefeito
comunista” era, na verdade, “um cara legal”).
Donald
Trump é famoso por seus ataques verbais e rótulos pejorativos no cenário
político. Mas ele não está sozinho: entre os republicanos que frequentemente
carimbam a oposição com o rótulo de marxista.
Recentemente, a Comissão de Comércio do Senado classificou dois bilhões
de dólares em verbas da Fundação Nacional de Ciência (NSF) como sendo projetos
“woke”, que promoviam a “propaganda neomarxista da luta de classes”. O
Presidente do Comitê, Ted Cruz, é o ponta de lança nos esforços para impedir
que recursos federais financiem projetos que “mascaram a ideologia social
marxista como sendo rigorosa e criteriosa”.
Em
disputas políticas locais por todo o país – especialmente em estados
controlados por republicanos, como Tennessee ou Okalhoma -, políticos
conservadores têm o hábito de chamar seus adversários “comunistas” ou
“marxistas da casa”.
Embora
poucas das pessoas e ideias que Donald Trump e seus correligionários de direita
designem como marxistas sejam, de fato, marxistas, políticos conservadores
tomam parte numa antiga tradição direitista de usar o nome de Marx como isca –
uma prática com raízes profundas na história americana. Desde a década de 1870,
época em que o filósofo revolucionário alemão Karl Marx ganhou notoriedade em
ambos os lados do Atlântico, Marx e seus epígonos – conhecidos por marxistas –
têm sido responsabilizados por toda uma gama de supostos males.
Por que
Marx? Como o avô do comunismo, Marx tem sido demonizado como a antítese de tudo
aquilo que é bom sobre a América. Capitalismo? Marx o considerou um sistema
econômico baseado em exploração. Religião? Uma droga de controle das massas.
Democracia? Uma farsa que serve de cobertura à classe dominante. Em suma, no
imaginário americano Karl Marx representa o oposto da liberdade americana. Em uma nação há muito obcecada pelo conceito
de liberdade individual – um herege para todas as épocas.
Reacionários
começaram a culpar Marx e os marxistas por eventos perturbadores desde a Comuna
de Paris em 1871, ano em que revolucionários tomaram o controle de Paris
criando o que ficou conhecido como Comuna de Paris. Mesmo tendo durado apenas
dois meses antes de sofrer um fim violento pelas mãos das forças militares
francesas – que massacraram 20.000 parisienses –, a Comuna de Paris inspirou
revolucionários em todo o mundo, incluindo Marx.
O
episódio também desencadeou o que poderia ser descrito como uma onda de pânico
anticomunista (proto-red scare), com a paranoia atingindo tons febris quando o
Chicago Tribune atribuiu o catastrófico incêndio de Chicago, ocorrido naquele
mesmo ano, a communards de Chicago. Partindo da falsa premissa de que Karl Marx
era o responsável pelos acontecimentos de Paris, vários jornalistas americanos
procuraram o comunista barbudo em sua casa, em Londres, onde ele vivia exilado
desde o fracasso das revoluções de 1848. Um desses repórteres o descreveu como
“o apologeta da Comuna de Paris” e “a própria revolução encarnada”.
No
mesmo momento histórico, conservadores criticavam Marx por eventos mais
próximos de casa. Quando republicanos radicais, como Benjamin Butler, buscavam
redistribuir terra e riqueza no Sul durante a Reconstrução – transformando,
assim, uma oligarquia racista em um bastião de igualdade. A “justaposição de
Benjamin Butler e Karl Marx como defensores da ‘espoliação’ da propriedade”,
escreve o historiador Eric Froner, “ocorria mais frequentemente na imprensa
reformista do que o leitor moderno poderia imaginar”.
Algumas
décadas mais tarde, na esteira da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa,
o governo federal reuniu, deteve e deportou mais de mil marxistas e anarquistas
durante o episódio que os historiadores se referem como o “Primeiro Pânico
Vermelho” (first red scare). Marx já estava morto há mais de três década, mas
ele e seus seguidores, agora tipicamente referidos como bolcheviques – eram
acusados de incitar a população em toda parte.
Durante
o Verão Vermelho de 1919, quando explodiram manifestações raciais com vítimas
fatais em cidades de todo o país, o New York Times publicou uma matéria com a
manchete “Vermelhos tentam incitar negros à revolta”, informando aos leitores
que “a agitação bolchevique se estendeu por toda a população negra”. Como se os
negros, que viviam durante o período mais crítico das relações raciais
americanas precisassem ser incitados a se rebelar.
Na
década seguinte à Segunda Guerra Mundial, um “pânico vermelho” de proporções
inéditas varreu a nação, à medida que alarmistas como o senador Joseph
McCarthy, soou o alarme que os comunistas estavam em busca de transformar a
América em um submundo marxista infernal. McCarthy instrumentalizou acusações
indiscriminadas e infundadas numa tentativa de desacreditar o internacionalismo
liberal. De forma notável, ele atacou figuras do establishment como Dean
Acheson e George Marshall, rotulando o primeiro “Red Dean” (Dean vermelho) e
acusando o segundo de cumplicidade com comunistas.
Mais
recentemente, personalidades de direita culpam reformas progressistas
moderadas, consideradas de mau gosto, a um “marxismo cultural” importado por
marxistas judeus europeus empenhados em destruir a América. Essa teoria da
conspiração atrai há muito tempo antissemitas notórios, como David Duke.
No
entanto, paradoxalmente, conservadores judeus – como o youtuber de direita Bem
Shapiro – também têm sido proeminentes na promoção dessa ideia. Shapiro
declarou que “se você perguntar à maioria dos democratas se eles gostam de Karl
Marx, a maioria dirá que não, mesmo se eles estão aderindo diretamente a sua
filosofia”.
Essa
longa história do uso do nome de Karl Marx como isca evidencia o grau
excepcional em que o antimarxismo moldou os Estados Unidos – não porque os
marxistas tenham algum dia exercido influência sobre os rumos da nação, mas sim
porque os conservadores há muito os veem como bodes expiatórios convenientes
para os avanços liberais e progressistas que impingem o poder da direita. Marx
é apontado como a raiz de toda a abominação, da Reconstrução ao movimento
sindical, do New Deal ao movimento pelos direitos civis, do feminismo às
iniciativas de diversidade.
Ainda
assim, mesmo com toda a aversão, Karl Marx permaneceu relevante nos Estados
Unidos ao longo de mais de 150 anos. Isso porque ele propôs uma perspectiva
alternativa sobre a liberdade. Marx teorizou que, como a fonte de valor em uma
economia capitalista, o trabalho precisa ser disciplinado para maximizar o
lucro.
Seguindo
essa lógica, visto que a maioria dos americanos passa grande parte de suas
vidas no trabalho – ambiente onde prevalece a falta de liberdade –, a maioria
deles não pode ser plenamente livre. Talvez seja por isso que os conservadores
desprezam Marx: ele desmascarou uma verdade incômoda sobre o capitalismo
americano que estava escondida da vista de todos.
• Michel
Foucault e Karl Marx. Por
Erick Kayser
Em 15
de outubro de 2026, completam-se cem anos do nascimento de Michel Foucault. É
uma efeméride irônica: o pensador que dedicou a vida a desnaturalizar certezas
ostenta hoje a condição exatamente oposta, convertido no modelo dominante, no
mainstream acadêmico incontornável. As métricas de citação, com mais de um
milhão e meio de referências, colocam-no como o autor mais citado das
humanidades em escala global. Ironicamente, citá-lo tornou-se um paradigma
disciplinador: não fazê-lo converteu-se em falha de pesquisa, quase uma
heterodoxia, condição que o próprio arqueólogo das disciplinas certamente
desaprovaria.
Mas há
uma segunda ironia, mais recente e menos comentada. Observa-se, nos últimos
anos, um declínio mensurável no interesse por sua obra na acadêmia e no debate
público; coincidentemente (ou não), o interesse por Karl Marx cresce de modo
contínuo no mesmo período, impulsionado por crises que a épistémè neoliberal,
da qual Michel Foucault foi, a um só tempo, diagnosticador precoce e
involuntário subproduto teórico, já não consegue explicar satisfatoriamente.
Essa
coincidência me motivou a explorar, em termos teóricos, a relação entre o
pensamento foucaultiano e o de Marx e o marxismo; relação marcada muito mais
por distanciamentos do que por aproximações, ainda que estas, quando ocorrem,
possam produzir resultados intelectualmente fecundos.
Desde
fins dos anos 1960, na “batalha cultural” contra Marx, as ideias de Michel
Foucault tem sido mobilizadas: não argumenta que o capitalismo seja bom, mas
que o próprio diagnóstico marxista sobre a dominação permanece prisioneiro das
estruturas de saber, verdade e racionalidade ocidentais que tornaram o
capitalismo possível. Não é um ataque vindo da direita, mas uma radicalidade
que pretende ultrapassar a própria esquerda. Ainda que declaradamente avesso a
rótulos, o pensamento foucaultiano pode ser enquadrado como uma das teorias
antimarxistas mais sofisticadas já elaboradas.
Não se
trata de um “desvio” advindo das (re)leituras do discurso foucaultiano, mas
fruto de uma distinção epistêmica e metodológica profunda com o marxismo. O
método genealógico de Foucault recusa explicitamente a categoria de
“totalidade” e, em sua fase madura, a de “ideologia”. Ele argumentaria que o
poder não esconde nada, não é uma névoa ideológica que encobre a verdade das
relações de produção. Ele é material, positivo, produtor de realidades e
subjetividades. A crítica marxista mais recorrente é apontar para a ausência da
luta de classes como uma das falhas maiores nesta perspectiva foucaultiana,
pois ela perde de vista a hierarquia das determinações.
Ele
descreve com maestria as tecnologias de dominação, mas obscurece o sujeito
estratégico (a classe) que as aciona e delas se beneficia. A pergunta marxista
incisiva é: a serviço de quem e contra quem essas tecnologias são,
majoritariamente, postas para funcionar? A resposta, que Foucault evita, aponta
para a burguesia e a necessidade de gestão da força de trabalho e dos corpos
das classes subalternas.
Temos,
portanto, ontologias políticas divergentes. Em Karl Marx, a política
organiza-se no eixo exploração/emancipação universal de um sujeito, a classe,
cuja tomada de consciência é também um projeto de totalização histórica. Em
Michel Foucault, no eixo dominação/sujeição e resistências múltiplas, locais,
capilares, sem sujeito unificador que as sintetize; o foco não é a tomada do
Estado (instância que sua analítica sistematicamente descentra), mas a recusa
cotidiana de formas específicas de subjetivação. São diagnósticos que levam a
práticas políticas radicalmente diferentes e, por vezes, francamente
conflitantes entre si.
Daí a
noção foucaultiana de resistência, que se contrapõe à emancipação marxista.
Michel Foucault não usou o termo com frequência em seus primeiros escritos,
mas, na fase tardia, colocou a resistência no mesmo plano do poder, que
descreve como relação, não como algo que se adquire, arranca ou compartilha:
formulação cunhada certamente tendo em mente, e talvez como substituto para o
conceito marxista de capital como relação social. O problema é que nem toda
resistência é equivalente: são iguais a luta antiaborto de grupos conservadores
e a luta das feministas pelo direito ao próprio corpo? Os movimentos antivacina
e aqueles que lutam por uma saúde pública e universal? É justamente esse
critério hierarquizante que a horizontalidade foucaultiana tem dificuldade em
fornecer.
O caso
mais eloquente dessa dificuldade não é hipotético, é histórico. Em 1978, como
correspondente especial do Corriere della Sera, Michel Foucault viajou ao Irã e
testemunhou, com evidente fascínio, o levante popular contra o Xá. Nele
reconheceu não uma revolução nos termos ocidentais clássicos, mas o advento de
uma “espiritualidade política” capaz de recusar, em bloco, tanto o despotismo
local quanto a racionalidade secular que o observava do exterior. O entusiasmo
não resistiu ao desenrolar dos fatos: em março de 1979, semanas após a queda do
Xá, milhares de mulheres que saíam às ruas de Teerã contra a imposição do véu
obrigatório foram espancadas; seguiram-se execuções sumárias de opositores sob
o novo regime dos aiatolás.
Michel
Foucault, fiel à sua recusa de qualquer critério hierarquizante entre
resistências, jamais reavaliou publicamente, de modo consequente, o diagnóstico
que fizera. Um sintoma preciso de como uma teoria política incapaz de
distinguir, ainda que provisoriamente, entre resistências que expandem a
liberdade e outras que fundam nova servidão, corre o risco de confundir,
retrospectivamente, o carrasco com a vítima.
Ainda
assim, há pontos de contato, uma complementaridade agonística cuja força está
na tensão não resolvida. Apesar das incompatibilidades radicais, o pensamento
de Michel Foucault não pode ser lido apenas como um simples “pós-marxismo” que
supera Marx. Há um solo comum e um diálogo persistente. Não é muito difícil
encontrar exemplos destes diálogos possíveis, ainda que pontuais.
A
famosa frase de Marx segundo a qual a anatomia do homem é a chave para a
anatomia do macaco ressoa com o método genealógico de Michel Foucault. Ambos
fazem uma “história do presente” para diagnosticar a contingência do que somos,
abrindo a possibilidade de não mais sermos isso.
Esse
corpo a corpo teórico não precisa permanecer no plano da abstração: há um caso
em que Karl Marx e Michel Foucault, mesmo sem intenção de diálogo, descrevem
literalmente o mesmo objeto histórico sob perspectivas distintas. Em Vigiar e
Punir, Michel Foucault mostra como o poder disciplinar fabrica corpos dóceis e
produtivos por meio de uma administração minuciosa do tempo: o quadro de
horários, a decomposição do gesto em suas fases elementares, aquilo que chama
de emprego exaustivo do tempo.
Técnicas
que migram do convento para a escola, do quartel para a fábrica. Karl Marx, em
O capital, descreve o mesmo edifício disciplinar sob outro vocabulário: ao
tratar da jornada de trabalho e da subsunção real do trabalho ao capital,
observa que o regime fabril se organiza segundo uma hierarquia quase militar de
capatazes, cuja função é extrair do corpo do trabalhador, até seu limite
físico, um tempo de trabalho já abstraído de qualquer conteúdo concreto. Onde a
teoria do valor explica por que esse tempo precisa se tornar homogêneo e
mensurável, substância da própria forma-valor, a microfísica foucaultiana
explica como, gesto a gesto, essa abstração se inscreve sobre os corpos que a
produzem.
As
incompatibilidades entre os dois sistemas são, é certo, maiores do que os
pontos de contato: suas premissas fundantes sobre poder, verdade, sujeito e
história são, em rigor, antagônicas, e qualquer tentativa de síntese acaba por
violentar o núcleo teórico de um dos dois. Mas a maior presença quantitativa
das divergências é menos relevante do que a qualidade e a produtividade da
tensão que elas geram.
O
espaço crítico mais potente não está na síntese impossível, nem na mútua
exclusão complacente, mas nesse campo de batalha teórico em que Karl Marx e
Michel Foucault, colocados em enfrentamento direto, iluminam reciprocamente
zonas de opacidade em suas próprias obras, forçando-nos, no centenário de um e
na persistente atualidade do outro, a pensar o presente com e para além de
ambos.
Fonte:
Por Andrew Hartman, em A Terra é Redonda

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