sexta-feira, 24 de julho de 2026

Donald Trump e Karl Marx

“Donald Trump insiste que não se pode amar Karl Marx e a América ao mesmo tempo, resgatando uma acusação difamatória que rotulou a Reconstrução, o New Deal e o movimento pelos direitos civis como antiamericanos”.

Para os não iniciados, tal retórica pode parecer absurda, visto que o comunismo foi, em grande parte, derrotado há trinta e cinco anos, quando a União Soviética ruiu, encerrando assim a Guerra Fria. Pode parecer ainda mais absurdo que Donald Trump invoque Karl Marx, um homem que nunca pôs seus pés nos Estados Unidos e que morreu em 1883, como uma ameaça à existência da América. Mas, de fato, Donald Trump tem o hábito de chamar coisas e pessoas que não gosta de “marxista”.

Durante a campanha de 2024, Donald Trump frequentemente identificava a “camarada” Kamala Harris como uma marxista.  Aa retomar ao controle da Casa Branca em 2025, Donald Trump acusou as universidades de estarem tomadas por “marxistas, maníacos e lunáticos”, atribuindo à “influência marxista” dos órgãos de recrutamento universitário a culpa por permitir que “burocratas marxistas de diversidade, equidade e inclusão” controlassem o ensino superior americano.

Em um discurso contundente proferido há mais de um ano no Departamento de Justiça, ele rotulou procuradores federais contrários opositores como marxistas (piorando a situação, visto que ele já tinha os demitido). Um dos insultos favoritos de Donald Trump é chamar alguém de “marxista lunático”, um termo pejorativo que ele frequentemente dirigia a Zohran Mamdani durante a campanha para prefeito de Nova York (isso foi antes de Mamadani, socialista declarado, ter persuadido de forma astuta Donald Trump de que – como o presidente afirmou em seu mais recente discurso sobre o Estado da União – o “novo prefeito comunista” era, na verdade, “um cara legal”).

Donald Trump é famoso por seus ataques verbais e rótulos pejorativos no cenário político. Mas ele não está sozinho: entre os republicanos que frequentemente carimbam a oposição com o rótulo de marxista.  Recentemente, a Comissão de Comércio do Senado classificou dois bilhões de dólares em verbas da Fundação Nacional de Ciência (NSF) como sendo projetos “woke”, que promoviam a “propaganda neomarxista da luta de classes”. O Presidente do Comitê, Ted Cruz, é o ponta de lança nos esforços para impedir que recursos federais financiem projetos que “mascaram a ideologia social marxista como sendo rigorosa e criteriosa”.

Em disputas políticas locais por todo o país – especialmente em estados controlados por republicanos, como Tennessee ou Okalhoma -, políticos conservadores têm o hábito de chamar seus adversários “comunistas” ou “marxistas da casa”.

Embora poucas das pessoas e ideias que Donald Trump e seus correligionários de direita designem como marxistas sejam, de fato, marxistas, políticos conservadores tomam parte numa antiga tradição direitista de usar o nome de Marx como isca – uma prática com raízes profundas na história americana. Desde a década de 1870, época em que o filósofo revolucionário alemão Karl Marx ganhou notoriedade em ambos os lados do Atlântico, Marx e seus epígonos – conhecidos por marxistas – têm sido responsabilizados por toda uma gama de supostos males.

Por que Marx? Como o avô do comunismo, Marx tem sido demonizado como a antítese de tudo aquilo que é bom sobre a América. Capitalismo? Marx o considerou um sistema econômico baseado em exploração. Religião? Uma droga de controle das massas. Democracia? Uma farsa que serve de cobertura à classe dominante. Em suma, no imaginário americano Karl Marx representa o oposto da liberdade americana.  Em uma nação há muito obcecada pelo conceito de liberdade individual – um herege para todas as épocas.

Reacionários começaram a culpar Marx e os marxistas por eventos perturbadores desde a Comuna de Paris em 1871, ano em que revolucionários tomaram o controle de Paris criando o que ficou conhecido como Comuna de Paris. Mesmo tendo durado apenas dois meses antes de sofrer um fim violento pelas mãos das forças militares francesas – que massacraram 20.000 parisienses –, a Comuna de Paris inspirou revolucionários em todo o mundo, incluindo Marx.

O episódio também desencadeou o que poderia ser descrito como uma onda de pânico anticomunista (proto-red scare), com a paranoia atingindo tons febris quando o Chicago Tribune atribuiu o catastrófico incêndio de Chicago, ocorrido naquele mesmo ano, a communards de Chicago. Partindo da falsa premissa de que Karl Marx era o responsável pelos acontecimentos de Paris, vários jornalistas americanos procuraram o comunista barbudo em sua casa, em Londres, onde ele vivia exilado desde o fracasso das revoluções de 1848. Um desses repórteres o descreveu como “o apologeta da Comuna de Paris” e “a própria revolução encarnada”.

No mesmo momento histórico, conservadores criticavam Marx por eventos mais próximos de casa. Quando republicanos radicais, como Benjamin Butler, buscavam redistribuir terra e riqueza no Sul durante a Reconstrução – transformando, assim, uma oligarquia racista em um bastião de igualdade. A “justaposição de Benjamin Butler e Karl Marx como defensores da ‘espoliação’ da propriedade”, escreve o historiador Eric Froner, “ocorria mais frequentemente na imprensa reformista do que o leitor moderno poderia imaginar”.

Algumas décadas mais tarde, na esteira da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa, o governo federal reuniu, deteve e deportou mais de mil marxistas e anarquistas durante o episódio que os historiadores se referem como o “Primeiro Pânico Vermelho” (first red scare). Marx já estava morto há mais de três década, mas ele e seus seguidores, agora tipicamente referidos como bolcheviques – eram acusados de incitar a população em toda parte.

Durante o Verão Vermelho de 1919, quando explodiram manifestações raciais com vítimas fatais em cidades de todo o país, o New York Times publicou uma matéria com a manchete “Vermelhos tentam incitar negros à revolta”, informando aos leitores que “a agitação bolchevique se estendeu por toda a população negra”. Como se os negros, que viviam durante o período mais crítico das relações raciais americanas precisassem ser incitados a se rebelar.

Na década seguinte à Segunda Guerra Mundial, um “pânico vermelho” de proporções inéditas varreu a nação, à medida que alarmistas como o senador Joseph McCarthy, soou o alarme que os comunistas estavam em busca de transformar a América em um submundo marxista infernal. McCarthy instrumentalizou acusações indiscriminadas e infundadas numa tentativa de desacreditar o internacionalismo liberal. De forma notável, ele atacou figuras do establishment como Dean Acheson e George Marshall, rotulando o primeiro “Red Dean” (Dean vermelho) e acusando o segundo de cumplicidade com comunistas.

Mais recentemente, personalidades de direita culpam reformas progressistas moderadas, consideradas de mau gosto, a um “marxismo cultural” importado por marxistas judeus europeus empenhados em destruir a América. Essa teoria da conspiração atrai há muito tempo antissemitas notórios, como David Duke.

No entanto, paradoxalmente, conservadores judeus – como o youtuber de direita Bem Shapiro – também têm sido proeminentes na promoção dessa ideia. Shapiro declarou que “se você perguntar à maioria dos democratas se eles gostam de Karl Marx, a maioria dirá que não, mesmo se eles estão aderindo diretamente a sua filosofia”.

Essa longa história do uso do nome de Karl Marx como isca evidencia o grau excepcional em que o antimarxismo moldou os Estados Unidos – não porque os marxistas tenham algum dia exercido influência sobre os rumos da nação, mas sim porque os conservadores há muito os veem como bodes expiatórios convenientes para os avanços liberais e progressistas que impingem o poder da direita. Marx é apontado como a raiz de toda a abominação, da Reconstrução ao movimento sindical, do New Deal ao movimento pelos direitos civis, do feminismo às iniciativas de diversidade.

Ainda assim, mesmo com toda a aversão, Karl Marx permaneceu relevante nos Estados Unidos ao longo de mais de 150 anos. Isso porque ele propôs uma perspectiva alternativa sobre a liberdade. Marx teorizou que, como a fonte de valor em uma economia capitalista, o trabalho precisa ser disciplinado para maximizar o lucro.

Seguindo essa lógica, visto que a maioria dos americanos passa grande parte de suas vidas no trabalho – ambiente onde prevalece a falta de liberdade –, a maioria deles não pode ser plenamente livre. Talvez seja por isso que os conservadores desprezam Marx: ele desmascarou uma verdade incômoda sobre o capitalismo americano que estava escondida da vista de todos.

•        Michel Foucault e Karl Marx. Por Erick Kayser

Em 15 de outubro de 2026, completam-se cem anos do nascimento de Michel Foucault. É uma efeméride irônica: o pensador que dedicou a vida a desnaturalizar certezas ostenta hoje a condição exatamente oposta, convertido no modelo dominante, no mainstream acadêmico incontornável. As métricas de citação, com mais de um milhão e meio de referências, colocam-no como o autor mais citado das humanidades em escala global. Ironicamente, citá-lo tornou-se um paradigma disciplinador: não fazê-lo converteu-se em falha de pesquisa, quase uma heterodoxia, condição que o próprio arqueólogo das disciplinas certamente desaprovaria.

Mas há uma segunda ironia, mais recente e menos comentada. Observa-se, nos últimos anos, um declínio mensurável no interesse por sua obra na acadêmia e no debate público; coincidentemente (ou não), o interesse por Karl Marx cresce de modo contínuo no mesmo período, impulsionado por crises que a épistémè neoliberal, da qual Michel Foucault foi, a um só tempo, diagnosticador precoce e involuntário subproduto teórico, já não consegue explicar satisfatoriamente.

Essa coincidência me motivou a explorar, em termos teóricos, a relação entre o pensamento foucaultiano e o de Marx e o marxismo; relação marcada muito mais por distanciamentos do que por aproximações, ainda que estas, quando ocorrem, possam produzir resultados intelectualmente fecundos.

Desde fins dos anos 1960, na “batalha cultural” contra Marx, as ideias de Michel Foucault tem sido mobilizadas: não argumenta que o capitalismo seja bom, mas que o próprio diagnóstico marxista sobre a dominação permanece prisioneiro das estruturas de saber, verdade e racionalidade ocidentais que tornaram o capitalismo possível. Não é um ataque vindo da direita, mas uma radicalidade que pretende ultrapassar a própria esquerda. Ainda que declaradamente avesso a rótulos, o pensamento foucaultiano pode ser enquadrado como uma das teorias antimarxistas mais sofisticadas já elaboradas.

Não se trata de um “desvio” advindo das (re)leituras do discurso foucaultiano, mas fruto de uma distinção epistêmica e metodológica profunda com o marxismo. O método genealógico de Foucault recusa explicitamente a categoria de “totalidade” e, em sua fase madura, a de “ideologia”. Ele argumentaria que o poder não esconde nada, não é uma névoa ideológica que encobre a verdade das relações de produção. Ele é material, positivo, produtor de realidades e subjetividades. A crítica marxista mais recorrente é apontar para a ausência da luta de classes como uma das falhas maiores nesta perspectiva foucaultiana, pois ela perde de vista a hierarquia das determinações.

Ele descreve com maestria as tecnologias de dominação, mas obscurece o sujeito estratégico (a classe) que as aciona e delas se beneficia. A pergunta marxista incisiva é: a serviço de quem e contra quem essas tecnologias são, majoritariamente, postas para funcionar? A resposta, que Foucault evita, aponta para a burguesia e a necessidade de gestão da força de trabalho e dos corpos das classes subalternas.

Temos, portanto, ontologias políticas divergentes. Em Karl Marx, a política organiza-se no eixo exploração/emancipação universal de um sujeito, a classe, cuja tomada de consciência é também um projeto de totalização histórica. Em Michel Foucault, no eixo dominação/sujeição e resistências múltiplas, locais, capilares, sem sujeito unificador que as sintetize; o foco não é a tomada do Estado (instância que sua analítica sistematicamente descentra), mas a recusa cotidiana de formas específicas de subjetivação. São diagnósticos que levam a práticas políticas radicalmente diferentes e, por vezes, francamente conflitantes entre si.

Daí a noção foucaultiana de resistência, que se contrapõe à emancipação marxista. Michel Foucault não usou o termo com frequência em seus primeiros escritos, mas, na fase tardia, colocou a resistência no mesmo plano do poder, que descreve como relação, não como algo que se adquire, arranca ou compartilha: formulação cunhada certamente tendo em mente, e talvez como substituto para o conceito marxista de capital como relação social. O problema é que nem toda resistência é equivalente: são iguais a luta antiaborto de grupos conservadores e a luta das feministas pelo direito ao próprio corpo? Os movimentos antivacina e aqueles que lutam por uma saúde pública e universal? É justamente esse critério hierarquizante que a horizontalidade foucaultiana tem dificuldade em fornecer.

O caso mais eloquente dessa dificuldade não é hipotético, é histórico. Em 1978, como correspondente especial do Corriere della Sera, Michel Foucault viajou ao Irã e testemunhou, com evidente fascínio, o levante popular contra o Xá. Nele reconheceu não uma revolução nos termos ocidentais clássicos, mas o advento de uma “espiritualidade política” capaz de recusar, em bloco, tanto o despotismo local quanto a racionalidade secular que o observava do exterior. O entusiasmo não resistiu ao desenrolar dos fatos: em março de 1979, semanas após a queda do Xá, milhares de mulheres que saíam às ruas de Teerã contra a imposição do véu obrigatório foram espancadas; seguiram-se execuções sumárias de opositores sob o novo regime dos aiatolás.

Michel Foucault, fiel à sua recusa de qualquer critério hierarquizante entre resistências, jamais reavaliou publicamente, de modo consequente, o diagnóstico que fizera. Um sintoma preciso de como uma teoria política incapaz de distinguir, ainda que provisoriamente, entre resistências que expandem a liberdade e outras que fundam nova servidão, corre o risco de confundir, retrospectivamente, o carrasco com a vítima.

Ainda assim, há pontos de contato, uma complementaridade agonística cuja força está na tensão não resolvida. Apesar das incompatibilidades radicais, o pensamento de Michel Foucault não pode ser lido apenas como um simples “pós-marxismo” que supera Marx. Há um solo comum e um diálogo persistente. Não é muito difícil encontrar exemplos destes diálogos possíveis, ainda que pontuais.

A famosa frase de Marx segundo a qual a anatomia do homem é a chave para a anatomia do macaco ressoa com o método genealógico de Michel Foucault. Ambos fazem uma “história do presente” para diagnosticar a contingência do que somos, abrindo a possibilidade de não mais sermos isso.

Esse corpo a corpo teórico não precisa permanecer no plano da abstração: há um caso em que Karl Marx e Michel Foucault, mesmo sem intenção de diálogo, descrevem literalmente o mesmo objeto histórico sob perspectivas distintas. Em Vigiar e Punir, Michel Foucault mostra como o poder disciplinar fabrica corpos dóceis e produtivos por meio de uma administração minuciosa do tempo: o quadro de horários, a decomposição do gesto em suas fases elementares, aquilo que chama de emprego exaustivo do tempo.

Técnicas que migram do convento para a escola, do quartel para a fábrica. Karl Marx, em O capital, descreve o mesmo edifício disciplinar sob outro vocabulário: ao tratar da jornada de trabalho e da subsunção real do trabalho ao capital, observa que o regime fabril se organiza segundo uma hierarquia quase militar de capatazes, cuja função é extrair do corpo do trabalhador, até seu limite físico, um tempo de trabalho já abstraído de qualquer conteúdo concreto. Onde a teoria do valor explica por que esse tempo precisa se tornar homogêneo e mensurável, substância da própria forma-valor, a microfísica foucaultiana explica como, gesto a gesto, essa abstração se inscreve sobre os corpos que a produzem.

As incompatibilidades entre os dois sistemas são, é certo, maiores do que os pontos de contato: suas premissas fundantes sobre poder, verdade, sujeito e história são, em rigor, antagônicas, e qualquer tentativa de síntese acaba por violentar o núcleo teórico de um dos dois. Mas a maior presença quantitativa das divergências é menos relevante do que a qualidade e a produtividade da tensão que elas geram.

O espaço crítico mais potente não está na síntese impossível, nem na mútua exclusão complacente, mas nesse campo de batalha teórico em que Karl Marx e Michel Foucault, colocados em enfrentamento direto, iluminam reciprocamente zonas de opacidade em suas próprias obras, forçando-nos, no centenário de um e na persistente atualidade do outro, a pensar o presente com e para além de ambos.

 

Fonte: Por Andrew Hartman, em A Terra é Redonda 

 

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