Hábitos
modernos ameaçam o fígado
O
avanço das doenças hepáticas tem acendido um alerta global entre especialistas,
diante de mudanças no perfil epidemiológico e do crescimento de fatores de
risco associados ao estilo de vida. O câncer primário de fígado, por exemplo,
já é a terceira principal causa de morte por tumor no mundo e poderá acometer
1,5 milhão de pessoas por ano, até 2050. Nesse cenário, pesquisadores de
diversas instituições tentam compreender
mais a fundo as causas de problemas nesse órgão a fim de criar novas
terapêuticas.
Segundo
um relatório publicado recentemente na revista The Lancet, cerca de 870 mil
novos casos de câncer de fígado foram registrados em 2022. Desse total,
aproximadamente 80% correspondem ao carcinoma hepatocelular — que se desenvolve
a partir dos hepatócitos, principal célula do órgão. Embora infecções por
hepatites B e C tenham historicamente liderado as causas da doença, uma
transição significativa está em curso, distúrbios metabólicos estão assumindo o
protagonismo.
Entre
essas condições, se destaca a doença hepática esteatótica associada à disfunção
metabólica (DHEM), diretamente ligada à obesidade, diabetes tipo 2, alimentação
inadequada e sedentarismo. Autores do relatório estimam que ela já afeta cerca
de 40% dos homens adultos no mundo. O acúmulo de gordura no fígado — estágio
inicial da condição — pode evoluir silenciosamente para quadros mais graves,
incluindo cirrose e câncer.
A
análise baseada em grandes bancos de dados globais, aponta que, apesar de uma
leve queda nas taxas ajustadas por idade, o número absoluto de casos de câncer
de fígado deve crescer de forma expressiva nas próximas décadas, podendo
ultrapassar 1,5 milhão por ano até 2050. Essa elevação é impulsionada,
sobretudo, pela expansão dos fatores de risco metabólicos, que avançam mesmo
diante do sucesso de políticas de vacinação contra hepatite B e do uso de
terapias antivirais.
Aline
Oliveira, radiologista especialista em radiologia abdominal do laboratório
Exame, destaca que o mundo está diante de uma mudança epidemiológica
silenciosa. O câncer de fígado está deixando de ser uma doença
predominantemente infecciosa e passando a ser metabólica. "Isso significa
que a prevenção não depende apenas de vacinas ou antivirais, mas de mudanças
estruturais no estilo de vida da população. Em outras palavras, combater
obesidade e diabetes hoje e manter exames de rotina em dia, também é uma estratégia
de prevenção de câncer no futuro."
Segundo
a especialista, com o controle das hepatites B e C, o perfil do paciente mudou.
"Os principais desafios agora são: identificar quem, entre as muitas
pessoas com doença metabólica, realmente precisa de rastreamento; diagnosticar
precocemente em fígados com esteatose acentuada, cuja avaliação somente por
ultrassonografia é mais limitada; e, além disso, o câncer pode surgir mesmo sem
cirrose nesses casos, o que foge ao padrão clássico e dificulta protocolos
atuais."
Ao
mesmo tempo, pesquisas experimentais ajudam a compreender os mecanismos por
trás dessa transformação. Um estudo conduzido por cientistas da Universidade
Metropolitana de Osaka, no Japão, investigou a interação entre dois fatores
comuns na população: a baixa testosterona e o alto consumo de frutose, açúcar
amplamente presente em bebidas e alimentos ultraprocessados. Em testes com
camundongos, os pesquisadores observaram que, isoladamente, cada fator
provocava alterações discretas no fígado. No entanto, quando combinados, os
efeitos se intensificaram significativamente.
Os
animais submetidos à redução hormonal e à dieta rica em frutose apresentaram
maior acúmulo de gordura hepática, além de alterações na microbiota intestinal.
Um dos resultados mais relevantes foi o aumento dos níveis de piruvato no
intestino, substância que, em conjunto com a frutose, favoreceu o acúmulo de
lipídios nas células do fígado. O uso de antibióticos, por sua vez, reduziu
parte desses efeitos, sugerindo um papel central das bactérias intestinais no
desenvolvimento da doença.
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Combinação complexa
As
descobertas reforçam a ideia de que as doenças hepáticas não resultam de um
único fator, mas da interação complexa entre metabolismo, hormônios, dieta e
microbiota. Também ajudam a explicar por que condições aparentemente distintas
— como alterações hormonais e hábitos alimentares — podem convergir para um
mesmo desfecho clínico.
Segundo
Natália Trevizoli, hepatologista do Hospital Santa Lúcia Sul e do Hospital
Brasília, da Rede Américas, a combinação de hipogonadismo e alto consumo de
frutose atua de forma sinérgica na fisiopatologia da DHEM. "A baixa
testosterona está associada a aumento de adiposidade visceral, resistência
insulínica e pior perfil inflamatório. Já a frutose, especialmente em excesso,
promove lipogênese de novo hepática, aumento de triglicerídeos intra-hepáticos
e estresse oxidativo."
Além
dos aspectos biológicos, o cenário global revela profundas desigualdades. O
relatório da Lancet mostra que regiões de baixa e média renda concentram as
maiores taxas de incidência e mortalidade por doenças hepáticas, reflexo do
acesso limitado à vacinação, diagnóstico precoce e tratamento. Fatores
ambientais, como a contaminação alimentar por toxinas, também continuam a
contribuir para o risco em determinadas áreas.
Especialistas
apontam, no entanto, que uma parcela significativa dos casos pode ser evitada.
Estima-se que até 60% das ocorrências de câncer de fígado estejam associadas a
fatores modificáveis, como dieta, atividade física, controle do peso e
prevenção de infecções.
O uso
de novas tecnologias, como inteligência artificial, também desponta como
ferramenta promissora para melhorar o diagnóstico precoce e personalizar
tratamentos. Ainda assim, o principal desafio permanece: garantir que essas
soluções cheguem de forma equitativa às populações mais vulneráveis.
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Futuro do tratamento
Pesquisadores
descobriram que compostos não psicoativos da cannabis, como o canabidiol (CBD)
e o cannabigerol (CBG), podem reduzir significativamente a gordura no fígado e
melhorar a saúde metabólica. O estudo revela que esses compostos criam uma
reserva de energia no órgão e restauram a atividade das 'equipes de limpeza'
celulares para decompor resíduos nocivos. A descoberta destaca um novo caminho,
baseado em plantas, para cuidar da saúde hepática.
O
estudo liderado pelos professores Joseph Tam, Liad Hinden e pela doutoranda
Radka Kovarová da Faculdade de Medicina da Universidade Hebraica de Jerusalém,
em Israel, descobriu que esses dois compostos da planta cannabis podem ajudar
no tratamento da doença hepática gordurosa. A pesquisa sugere que o CBD e o
cannabigerol, que não são psicoativos e não causam euforia, podem melhorar a
saúde do fígado alterando a forma como o órgão gerencia a energia e se
purifica.
A
doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (DHEM) é
atualmente a doença hepática crônica mais comum no mundo. Afeta aproximadamente
um terço da população adulta e está intimamente ligada à obesidade, hipertensão
arterial e resistência à insulina. Embora mudanças no estilo de vida, como
dieta e exercícios, sejam importantes, podem ser difíceis de manter e há poucos
medicamentos aprovados para essa condição.
Para o
trabalho, a equipe demonstrou que as duas substâncias realmente ajudam o fígado
a funcionar melhor internamente por meio de um processo único de 'remodelação
metabólica'. Uma das descobertas mais importantes foi o impacto no
armazenamento de energia do órgão. Esses compostos aumentam os níveis de
fosfocreatina, que age como uma bateria reserva para ajudar a manter a saúde
sob o estresse causado por uma dieta rica em gordura.
Além
disso, o estudo mostrou que o CBD e o CBG restauram a atividade das catepsinas,
enzimas que degradam proteínas e atuam limpando o interior dos centros de
reciclagem da célula, conhecidos como lisossomos. Ao colocar essa equipe de
limpeza de volta em funcionamento, o fígado consegue decompor e eliminar melhor
as gorduras e os resíduos nocivos. Os pesquisadores também descobriram que
ambos os tratamentos reduziram significativamente os lipídios prejudiciais,
como triglicerídeos e ceramidas, que são particularmente perigosas pois
contribuem para a resistência à insulina e a inflamação hepática.
Tanto o
CBD quanto o CBG foram capazes de normalizar os níveis de açúcar no sangue e
melhorar a forma como o corpo metaboliza a glicose. No entanto, o CBG reduziu
significativamente a massa de gordura corporal e melhorou a sensibilidade à
insulina de forma mais robusta. O cannabigerol também foi eficaz na redução dos
níveis de colesterol total e de LDL, chamado de 'colesterol ruim'.
Segundo
Daniela Carvalho, hepatologista da clínica Gastrocentro, apesar do sucesso
dessa primeira pesquisa, serão necessários mais estudos para comprovar a
eficácia dessas substâncias em humanos. "Hoje, os tratamentos com melhor
evidência continuam sendo mudança de estilo de vida e medicamentos mais
recentemente aprovados, como semaglutida e resmetirom", diz a médica. E
conclui: "Nesse momento, não há evidência de que o CBG seja superior ao
CBD e sua segurança ainda é uma dúvida importante. Apesar do CBG ter
demonstrado alguns efeitos metabólicos interessantes em estudos iniciais de
modelos animais, há sinais preocupantes de lesão hepática induzida pela
medicação".
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Duas perguntas para - Natália Trevizoli, hepatologista do Hospital Brasília, da
Rede Américas e do Hospital Santa Lúcia
• Quais mudanças de estilo de vida têm
maior impacto real na redução do risco de câncer hepático em pacientes com
obesidade e diabetes?
A perda
de peso sustentada é, sem dúvida, a intervenção mais impactante. Reduções de 7%
a 10% do peso corporal já estão associadas à melhora da esteatose, inflamação e
até regressão de fibrose em alguns casos. Além disso, o controle glicêmico
adequado, prática regular de atividade física e redução do consumo de alimentos
ultraprocessados e ricos em frutose são fundamentais. A cessação do etilismo,
mesmo em níveis considerados moderados, também deve ser fortemente incentivada
nesse grupo. Curiosidade: o consumo regular de café está associado à redução do
risco de carcinoma hepatocelular, possivelmente por seus efeitos antioxidantes,
anti-inflamatórios e metabólicos. Estudos mostram que até duas a três xícaras
por dia já podem ter efeito protetor para o fígado.
• Diante da redução dos casos relacionados
às hepatites B e C, quais novos desafios
surgem para o diagnóstico e tratamento do câncer de fígado nas próximas
décadas?
O
principal desafio é o aumento dos casos de câncer hepatocelular relacionados à
DHEM, muitas vezes diagnosticados fora de programas de rastreamento, já que
podem ocorrer mesmo na ausência de cirrose. Isso leva a diagnósticos mais
tardios e limita opções curativas. Além disso, esses pacientes frequentemente
apresentam maior complexidade clínica, com comorbidades cardiovasculares e
metabólicas que impactam tanto a elegibilidade quanto os desfechos dos
tratamentos.
Fonte:
Correio Braziliense

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