As
duas faces das mortes violentas no Brasil: feminicídios e ações policiais
A
letalidade policial e os feminicídios são duas pedras no caminho da redução de
mortes violentas intencionais no país, segundo o Anuário Brasileiro de
Segurança Pública de 2026, divulgado nesta quinta-feira, 23 de julho, pelo
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O documento, que consolida dados de
2025, aponta uma redução de homicídios de 8,2%, em relação a 2024, mas ressalta
o crescimento dos feminicídios e alerta que o “Brasil continua sendo um país
cujas polícias matam muito”.
Os
homicídios por intervenção policial representaram 16,2% de todas as mortes
violentas intencionais no ano passado, o que significa que, uma em cada seis
mortes violentas intencionais no país foram de autoria de policiais civis e
militares.
A
violência policial, que resultou na maior chacina da história do país em 2025,
durante a “Operação Contenção”, no Rio de Janeiro, com mais de 120 mortes em
dois dias, registrou o maior índice da série histórica. No ano passado, as
mortes cometidas por policiais em serviço ou fora de serviço chegaram a 6.602
registros, um aumento de 5,4% em relação ao ano anterior.
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Nordeste no topo do ranking
Como já
havia sido observado no relatório do ano anterior, todas as 10 cidades com
maiores índices de mortes violentas intencionais estão localizadas na região
Nordeste. A região mantém as maiores taxas desde 2020.
Dos
primeiros colocados, considerando o número de mortes violentas a cada 100 mil
habitantes, cinco ficam na Bahia: Eunápolis (85,1), Porto Seguro (71,2), Simões
Filho (68,1), Jequié (67,4) e Juazeiro (55,8). Outros três são os municípios
cearenses de Maranguape (100,3), Maracanaú (80,7) e Caucaia (66,6). Cabo de
Santo Agostinho (65,1), em Pernambuco, e Santa Rita (60,9), na Paraíba, também
fazem parte do ranking.
Nas
cidades com maiores índices de mortes violentas intencionais, Eunápolis, a 648
quilômetros da capital Salvador, com pouco mais de 120 mil habitantes, teve a
taxa puxada pela disputa de grupos faccionais rivais e pelas mortes decorrentes
de intervenções policiais. Ao menos 35% das mortes violentas por lá ocorreram
em ações de agentes de segurança pública.
O mesmo
se repete na vizinha Porto Seguro, no litoral sul baiano. A cidade, famosa por
suas belas praias e paisagens naturais, que atraem milhares de turistas,
registrou 71,2 mortes a cada 100 mil habitantes. Ao todo, foram 130 mortes
violentas na cidade em 2025, sendo 45% delas cometidas por policiais, de acordo
com o relatório.
“Isso
mostra que as mortes violentas e intencionais na Bahia têm uma participação
muito grande das mortes decorrentes de internação policial. Isso é muito
sintomático, é uma evidência muito forte de que o uso da força letal pela
estrutura de segurança pública da Bahia é uma prática normalizada e aplicada em
várias regiões do estado, como se fosse uma prática institucional, [que] não é
localizada. A gente está vendo isso acontecer em diferentes cidades da Bahia”,
diz o coordenador do Fórum Brasileiro de Segurança, Leonardo Silva.
Cerca
de 28% das 82 mortes violentas em Simões Filho, na Região Metropolitana de
Salvador, foram causadas por policiais, o que colaborou para a elevação da taxa
de mortes violentas, que ficou em 68,1 a cada 100 mil habitantes, colocando o
município de 120 mil habitantes na quinta colocação entre os mais violentos do
Brasil.
Pelo
segundo ano consecutivo, Maranguape, cidade da Região Metropolitana de
Fortaleza e com 105 mil habitantes, apresentou o maior índice de mortes
violentas do Brasil, com 100,3 mortes a cada 100 mil habitantes. Na prática,
isso significa um alarmante índice de um assassinato na cidade a cada mil
pessoas, o que torna a rotina de violência mais próxima do dia a dia dos
moradores. A taxa aumentou em 25,5% se comparada com o relatório divulgado no
ano passado, com dados de 2024, quando o município liderou as mortes violentas
intencionais com 79,9 mortes a cada 100 mil habitantes.
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Feminicídios cresceram mais na região Norte
Na
contramão dos homicídios, os feminicídios apresentaram alta de 4,4% de 2024
para 2025, segundo o levantamento do Anuário, totalizando 1.571 mulheres
assassinadas.
“[O
feminicídio é] entendido como a morte de mulheres em razão da condição do sexo
feminino, seja em contexto de violência doméstica e familiar, seja por
menosprezo ou discriminação à condição de mulher”, destaca o Anuário.
Os
estados do Norte lideram os índices de crescimento dos feminicídios no país. O
Amapá teve uma alta de 347,7%, seguido por Rondônia com 66% e Tocantins, com
52,8% de aumento.
Mas são
os estados do Sudeste que apresentam os maiores números absolutos de vítimas.
São Paulo está no topo da lista, com um crescimento de 253 casos em 2024 para
270 em 2025, uma alta de 6%. Em seguida, Minas Gerais saiu de 169 para 177
mulheres mortas, com uma alta de 4,4%, sucedido pelo Rio de Janeiro, que
diminuiu de 107 para 105 feminicídios, uma queda de 1,9%.
As
mulheres negras são 65,1% das vítimas de feminicídios, enquanto 34% eram
brancas. Mulheres indígenas e amarelas somam quase 1%. As principais vítimas
tinham entre 25 e 29 anos, representando 17,2% do total das mulheres mortas.
“Isso
sugere que o feminicídio está particularmente associado ao período do ciclo de
vida em que as mulheres se encontram mais frequentemente inseridas em relações
conjugais ou afetivas estáveis, convivência doméstica e processos de separação
e dissolução de relacionamentos – contextos tradicionalmente associados ao
risco feminicida”, pontua o relatório.
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Conflitos entre facções
Segundo
a pesquisa, as mortes violentas intencionais no país também são explicadas
pelos conflitos entre facções. No Nordeste, que concentra os dez municípios com
maiores taxas, há “um padrão histórico de disputas por cidades cortadas por
importantes rodovias, em cidades do interior, que funcionam como corredores
logísticos para o escoamento interno do tráfico de drogas”. Outra questão é a
disputa dos grupos criminosos pelo controle de cidades litorâneas, que também
são importantes corredores do tráfico internacional, especialmente de cocaína,
além do consumo interno.
Sete
dos 10 municípios nordestinos no topo do ranking deste ano já tinham aparecido
na mesma lista no relatório do ano passado, entre eles: Maranguape, Jequié,
Cabo de Santo Agostinho, Juazeiro, Simões Filho, Caucaia e Maracanaú.
Maranguape,
no Ceará, conhecida por ser a terra natal do icônico comediante brasileiro
Chico Anysio, se mantém entre as 10 cidades com maiores índices de mortes
violentas desde 2023, conforme a análise da Agência Pública nos relatórios
anteriores do Anuário. Segundo o relatório deste ano, os números são
“fortemente influenciados por disputas faccionais pelo território”.
As
disputas entre as facções envolvem o Comando Vermelho, conhecido como CV,
nascido no Rio de Janeiro. Outra facção que consolida o confronto pelo
território na região é a cearense Guardiões do Estado, que se fundiu ao
Terceiro Comando Puro (TCP), também nascido em terras fluminenses.
O
Anuário diz que essas disputas são motivadas pela localização estratégica da
cidade, que está situada entre a CE-065 e a BR-222, rodovias que interligam a
capital Fortaleza com a região metropolitana.
Maranguape
não é a única cidade da Região Metropolitana de Fortaleza no ranking. A vizinha
Maracanaú, com pouco mais de 250 mil habitantes, é a terceira colocada da lista
nacional de mortes violentas e a segunda do estado do Ceará, com uma média de
80,7 mortes a cada 100 mil habitantes.
O
relatório aponta que as duas cidades possuem “uma geolocalização similar” e,
além disso, Maracanaú é “mais próxima ao aeroporto internacional”, um
posicionamento estratégico para rotas de tráfico. O município também é ponto de
disputa entre facções criminosas nacionais, entre elas o CV e o TCP, o que
eleva os seus índices de criminalidade.
Fonte:
Por Rafael Custódo, da Agencia Pública

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