Aos
80 anos, Cinemateca Brasileira não quer continuar refém de ciclos políticos
“Pássaro
fabuloso, que já renasceu das cinzas, a Cinemateca vai ressuscitar de todo esse
lixo, de toda essa poeira, pois o seu destino tornou-se inseparável do cinema
brasileiro”, diz Paulo Emílio Sales Gomes em uma cena do filme Tem Coca Cola no
Vatapá (Pedro Farkas e Rogério Corrêa, 1975), que mistura documentário e ficção
para falar da ocupação do mercado cinematográfico nacional pelo produto
estrangeiro. Defensor do cinema brasileiro e membro fundador do primeiro Clube
de Cinema de São Paulo, que deu origem à Cinemateca Brasileira, Paulo Emílio
faz referência em sua fala aos dois incêndios que já tinham tomado conta do
acervo da instituição até ali, em 1957 e em 1969. Desde então o acervo sofreu
perdas irreparáveis em outros três incêndios, em 1982, 2016 e 2021.
Neste
ano, a Cinemateca Brasileira chega a oito décadas de funcionamento em um
excepcional período de tranquilidade. Reaberta em 2022, depois do fechamento
mais longo e traumático de sua história, a instituição hoje tem 120 técnicos
onde antes tinha 20, zerou o passivo de catalogação da sua coleção de nitrato e
vem recebendo público expressivo em suas salas de exibição. No entanto, o
contrato que rege a gestão da Cinemateca vence em dezembro de 2026. A Sociedade
Amigos da Cinemateca (SAC), entidade que administra o local, pede dez anos de
renovação para tentar quebrar o ciclo de reconstrução e colapso que se repete.
Em um momento em que brasileiros colocam seu cinema em um patamar de prestígio
que poucas vezes ocupou na história, os trabalhadores da Cinemateca chamam
atenção para a fragilidade desse patrimônio.
Um
passeio pela sede da Cinemateca Brasileira na Vila Mariana, na Zona Sul de São
Paulo, revela uma série de espaços cheios de profissionais dedicados à
preservação, catalogação, digitalização e exibição do patrimônio vivo do
audiovisual brasileiro. Durante quase todo o tempo, os espaços do antigo
matadouro municipal recebem moradores da região, que aproveitam sua área verde
para caminhar ou descansar. Do lado de dentro, o Centro de Documentação e
Pesquisa da Cinemateca se divide entre biblioteca, setor de conservação de
materiais não fílmicos e laboratório de preservação de filmes, além dos
serviços de catalogação e documentação fotográfica dos arquivos.
A
coleção, que é o maior acervo audiovisual da América do Sul, está sempre em
crescimento e já conta com 60.000 obras
audiovisuais, 250.000 rolos de filmes e um milhão de documentos bibliográficos.
O bibliotecário Renato Motta destaca que a biblioteca conta com folhetos,
roteiros, revistas de cinema e documentos para consulta, além de 14 mil filmes
disponíveis para o visionamento – “tudo isso está disponível para consulta
pública, qualquer pessoa pode vir aqui, consultar o material, pesquisar e usar
um pouquinho do nosso espaço”.
Ao lado
da biblioteca fica o núcleo de Arquivos e Coleções, responsável por receber,
organizar e catalogar todo o material não fílmico doado ou adquirido pela
Cinemateca. Antes da catalogação, esse material é sujeito à higienização e,
quando necessário, restauro. Juliana Babichak, técnica de conservação e
restauro, conta sobre a integração entre os núcleos: ao organizar uma pasta de
materiais do projeto Canal 100, que chegou sem nenhuma informação, a equipe de
restauro teve que reconstituir a cronologia dos documentos como quem monta um
quebra-cabeça – uma notícia sobre a queda de um viaduto no Rio de Janeiro
permitiu datar e ordenar toda a sequência de materiais.
Por
mais que entender o material que a Cinemateca abriga já seja uma tarefa
complexa, a instituição tem um compromisso maior com a história do cinema
nacional, o que levou à criação de projetos como a Filmografia Brasileira, que
lida com a pesquisa e a catalogação do audiovisual do país, independente de
eles estarem na Cinemateca ou não, formando a maior base de dados de acesso
público da instituição. São aproximadamente 56 mil títulos de todos os períodos
da cinematografia nacional e da produção audiovisual recente mais ampla – o que
inclui cinejornais, filmes publicitários, institucionais ou domésticos e obras
seriadas.
Outro
trabalho ambicioso da Cinemateca envolve sua coleção mais antiga e frágil, os
rolos gravados em nitrato de celulose, que foi o primeiro material em película
a ser usado para filmagem cinematográfica. A coleção de Nitratos da Cinemateca
Brasileira foi formada por títulos sobreviventes de arquivos e cinematecas de
todo o país desde a década de 1940, contemplando obras produzidas entre as
décadas de 1910 e 1950. Ao longo dos anos, muitas obras foram perdidas, já que
o nitrato, ao degradar, pode entrar em autocombustão. Quatro dos cinco
incêndios que acometeram a Cinemateca estiveram relacionados à coleção de
nitratos, salvo o último, de 2021.
A
história do arquivo acompanha a história de negligências sofridas pela
Cinemateca ao longo dos anos. Depois do último incêndio, sobraram cerca de três
mil rolos, todos catalogados, analisados, conservados e digitalizados pelo
projeto Nitratos da Cinemateca Brasileira – Preservação e Acesso entre 2023 e
2024. O projeto também redescobriu o filme mais antigo do acervo, o
documentário Ceremônias e Festa da Igreja em S. Maria, de 1909.
Gabriela
Queiroz, diretora técnica da Cinemateca Brasileira, diz que a coleção de
nitratos “protesta” a cada ciclo de descuidos do poder público com o acervo.
Ela faz parte de uma geração que integrou a equipe da instituição no início da
década de 2000, momento de desenvolvimento na instituição: “eu entrei aqui em
2004 e a minha geração ria sobre a precariedade e os incêndios, parecia que era
algo do passado remoto. Até 2013, a Cinemateca viveu um grande impulsionamento
das suas atividades”.
Naquele
ano, o Ministério da Cultura interveio na administração da Cinemateca,
demitindo seu diretor executivo e mais de 100 pessoas contratadas pela SAC.
“Começa todo um processo de estrangulamento. Aquilo que parecia uma coisa do
passado aconteceu em fevereiro de 2016, porque não houve a manutenção anual
para que os gases que se acumulam no processo natural de deterioração do
nitrato fossem liberados. Por conta dessa ausência de recursos e de servidores
suficientes, a coleção protestou novamente. Foram perdidos cerca de mil rolos,”
conta Queiroz.
Paralisada
desde julho de 2020, após o encerramento abrupto da gestão anterior pelo
governo Bolsonaro, a Cinemateca viveu seu incêndio mais recente em julho de
2021, num galpão de armazenamento provisório do acervo, na Vila Leopoldina.
Queiroz conta que o resultado fatal do vácuo de gestão foi a perda de toda a
documentação das políticas públicas feitas pelo Conselho Nacional de Cinema,
pelo Instituto Nacional de Cinema e pela Secretaria do Desenvolvimento do
Audiovisual entre 1966 e 2002.
“Uma
instituição de memória não suporta uma situação como essa”, diz sobre o
fechamento. A Cinemateca é feita não só de filmes, mas sobretudo de pessoas. A
gestão atual reflete essa centralidade em sua decisão de ter um quadro de
funcionários trabalhando integralmente em regime CLT, dado relevante em um
momento de crescente precarização dos ambientes de trabalho no campo cultural.
“É uma forma de oferecer condições de trabalho adequadas aos funcionários para
que eles se engajem e queiram ficar na instituição e se desenvolver na área.
Eles precisam ter um mínimo de garantias para a sua sobrevivência material.”
Os
funcionários da instituição vêm das áreas mais variadas do conhecimento e
abrangem profissionais dos mais jovens aos mais veteranos, apostando na
transferência de conhecimentos entre gerações de um ofício em constante
mudança. Entre estudantes de cinema e jovens especialistas no suporte digital,
caminham trabalhadores como Antônio Galdino e Jorge Yokoyama, que trabalharam
no laboratório comercial da Rex Filmes, responsável pelo processamento dos
filmes da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, na década de 1970. Eles voltaram
a trabalhar com a película de cinema em 2021, com o projeto Nitratos, que
agregou o também veterano Francisco Lima Filho. Galdino celebra poder trabalhar
com o material que lhe acompanhou durante toda a vida: “A gente que fez isso a vida
inteira se sente bem outra vez, bem acolhidos”.
Essa
reconstrução, no entanto, não veio do orçamento ordinário da instituição. O
projeto Nitratos, que financiou boa parte da reestruturação do laboratório
fotoquímico e a contratação de trinta técnicos entre 2023 e 2024, foi
viabilizado por meio da Lei Rouanet, com projeto aprovado ainda em 2021,
captado em 2022 e executado a partir de 2023. Só a importação de emulsão virgem
da Kodak, insumo necessário para duplicar fisicamente os rolos de nitrato
ameaçados, consumiu cerca de R$ 4 milhões. É uma fração expressiva diante do
orçamento federal repassado à Cinemateca, de cerca de R$ 20 milhões por ano,
montante que, segundo Queiroz, cobre “basicamente a folha de pagamento” da
instituição.
O
padrão se repete em praticamente todos os grandes avanços dos últimos anos: da
compra de estações de trabalho para processamento digital de imagem à
digitalização do acervo do Canal 100 e da TV Tupi, projetos complementares
financiados por leis de incentivo bancaram o que o orçamento estrutural não
cobre. Para Queiroz, esse modelo tem um limite: “A captação tem que ser
complementar. Ela não pode ser responsável por custear ações que são precípuas
da Cinemateca”, diz. No ciclo de gestão anterior, desenhado ainda no governo
Bolsonaro, a SAC tinha a obrigação contratual de captar o equivalente a 40% do
valor repassado pelo Estado, meta que a entidade superou, chegando a 140%.
Mas o
sucesso na captação, argumenta Queiroz, não deveria ser a condição de
sobrevivência da instituição: “Isso não deve ser entendido como uma desoneração
do Estado. A captação não deve existir para suprir uma insuficiência dos
recursos que o Estado tem a obrigação de passar, ainda que a instituição esteja
sob a gestão de uma organização social. Uma parceria pública e privada visa
conferir agilidade à gestão e nós tivemos sucesso nisso. Mas o que garante que
isso vai acontecer nas próximas décadas?”
A
Cinemateca vem trabalhando seu acervo e devolvendo seu trabalho não apenas para
os pesquisadores da área, mas também para o público geral. Ali, preservação e
difusão andam de mãos dadas para oferecer uma programação cultural robusta para
a formação do público cinéfilo da capital paulista. É o caso da mostra
retrospectiva Joaquim Pedro de Andrade e Federico Fellini, que exibe títulos
como Macunaíma (1969) e Os Palhaços (1970) em película 35mm, além de cópias
restauradas da obra de Joaquim Pedro, um dos principais nomes do Cinema Novo.
Com o
contrato de gestão vigente da SAC se aproximando do fim, a Organização Social
pleiteia com o Ministério da Cultura a renovação do contrato de gestão por mais
dez anos, com o objetivo de fugir da lógica de ciclos curtos que predomina no
ambiente cultural brasileiro. Gabriela Queiroz sintetiza: “Essa renovação está
pautada em manter as conquistas dos últimos cinco anos e ampliar a capacidade
operacional da Cinemateca, porque ela tem capacidade estrutural instalada para
isso. A manutenção do quadro de funcionários em números adequados para lidar
com todas as demandas do dia a dia da Cinemateca e um orçamento consistente do
governo federal, junto com a captação que a SAC vai continuar fazendo, deve
conferir um chão firme para a Cinemateca. Não tem uma grande revolução em cima
do que foi feito muito no sentido que, desde 2022, praticamos um trabalho capaz
de dar conta da missão da Cinemateca”.
Seu
apelo é que o modelo para a Cinemateca Brasileira seja capaz de libertá-la das
situações cíclicas que lhe deixaram refém ao longo de seus 80 anos de
atividade, pois a imagem de Paulo Emílio do pássaro que renasce das cinzas pode
ser inspiradora, mas varrer a poeira a cada desastre é um trabalho que os
guardiões da memória audiovisual brasileira já se cansaram de fazer.
Fonte:
Por Carolina Azevedo, no Le Monde

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