Bets:
a pandemia do século
Meu
primeiro contato com uma plataforma de apostas ocorreu durante a Copa do Mundo
de 2022. Inicialmente, depositei R$ 10 na conta, valor que logo se transformou
em um aporte de R$ 20, e assim sucessivamente. Ao fim da competição, meu
dinheiro havia se dissipado como um grão de areia levado pelo vento do deserto
do Catar, palco daquele torneio. O valor relativamente pequeno que desapareceu
em um piscar de olhos da minha conta bancária – cerca de R$ 150 – foi
suficiente para me fazer abandonar de vez a jogatina. Infelizmente, essa não é
a realidade da maioria dos brasileiros atraídos pelos jogos online e por mais
uma edição do maior evento futebolístico do planeta.
Quatro
anos depois da minha estreia no sórdido universo das apostas, pouca coisa
mudou. A CazéTV, única emissora do país a transmitir os 104 jogos da Copa do
Mundo de 2026, esteve no centro das discussões devido ao bombardeio de
propagandas de plataformas de apostas ao longo das transmissões.
A
repercussão foi tamanha que o Ministério da Justiça abriu uma investigação para
apurar indícios de publicidade abusiva de plataformas de apostas na CazéTV,
levando a emissora a adotar novos formatos para esse tipo de divulgação. Em
paralelo, o Ministério da Fazenda editou novas regras para a publicidade do
setor. As peças publicitárias passaram a ser acompanhadas de advertências, em
modelo semelhante ao adotado para propagandas de cigarros e bebidas alcoólicas.
Os
tentáculos da jogatina no futebol não se restringem à Copa do Mundo. No
Campeonato Brasileiro, é praticamente impossível assistir a uma partida sem se
deparar com a publicidade dessas empresas, seja nas placas ao redor do gramado,
nas inserções durante a transmissão, nos intervalos ou, ainda mais
frequentemente, estampada na parte “master” das camisas dos clubes por meio de
contratos milionários. Para se ter uma ideia, segundo levantamento da Folha de
S.Paulo, um telespectador tem mais chances de ver anúncios de casas de apostas
do que a bola rolando no Brasileirão. O veículo analisou 22 transmissões da
edição de 2025 em diferentes canais com direito de transmissão.
Como se
isso não bastasse, alguns dos principais jogadores (em atividade ou não) e
jornalistas esportivos brasileiros são patrocinados por essas empresas, caso do
narrador Galvão Bueno (Betnacional) e dos atacantes Vinícius Júnior
(Betnacional) e Neymar (Blaze), ambos convocados por Carlo Ancelotti para a
disputa do Mundial realizado no Canadá, México e Estados Unidos. Lucas Paquetá,
outro atleta chamado para a seleção e atualmente no Flamengo – clube
patrocinado pela Betano –, chegou a ser investigado por suposta manipulação
esportiva quando defendia o West Ham[1], atualmente patrocinado pela BOYLE
Sports, outra empresa do setor.
Quando
se fala em apostas online, existem diferentes modalidades. Há aquelas que
dependem da previsão de resultados ou acontecimentos esportivos – como o placar
exato de uma partida, número de escanteios ou cartões recebidos por determinada
equipe – e as baseadas em algoritmos, popularmente associadas ao “Jogo do
Tigrinho” (Fortune Tiger). Semelhantes aos caça-níqueis, elas funcionam de
maneira ainda menos transparente. Em comum, todas compartilham o mesmo
objetivo: fazer o usuário perder dinheiro, mas continuar jogando por acreditar
que, uma hora, receberá uma bolada.
Em
dezembro de 2024, a revista piauí lançou luz sobre a explosão das bets ao
publicar uma extensa reportagem, que mostrava como a expansão da jogatina
virtual foi impulsionada pela publicidade de influenciadores com milhões de
seguidores nas redes sociais. A matéria revela, por exemplo, que a empresária
Virgínia Fonseca, hoje com mais de 56 milhões de seguidores, foi uma das
maiores beneficiadas pelos cachês milionários pagos por empresas do setor para
divulgação.
Pouco
antes da publicação da reportagem, foi instaurada uma Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI), no Senado Federal, para investigar o impacto das apostas
virtuais e dos jogos de azar no orçamento das famílias, sua possível associação
com organizações criminosas e o papel desempenhado por influenciadores digitais
na promoção dessas plataformas. Em maio, quando Virgínia prestou depoimento à
comissão, o circo já estava armado. A melhor demonstração da galhofa veio do
senador Cleitinho (PL-MG), que pediu um vídeo da influenciadora para sua
família.
No fim
das contas, o relatório final da CPI foi rejeitado em junho de 2025, e tudo
acabou em pizza. Quem pagou essa conta, literalmente, foi a população.
Não
chega a surpreender que o setor de apostas online conta com um lobby robusto e
bem articulado em Brasília. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo,
alterna sua agenda entre os corredores do Congresso, viagens a Courchevel, na
França, ao lado de seu “irmãozão”, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master,
e viagens luxuosas à ilha de Saint Martin, paraíso fiscal no Caribe, na
companhia de Fernandin OIG, apontado, em outra apuração da piauí, como um dos
responsáveis pelo “Jogo do Tigrinho”
No
Brasil, as empresas de apostas passaram a ter respaldo legal em 2018, durante o
governo Michel Temer. No entanto, somente em 2023, já na gestão de Luiz Inácio
Lula da Silva, o setor foi regulamentado, com a definição de regras para
operação, fiscalização e tributação.
Para
atuar legalmente no país, essas empresas precisam obter autorização do
Ministério da Fazenda mediante o pagamento de uma licença com prazo de validade
determinado. Além disso, devem recolher tributos e cumprir uma série de
exigências regulatórias. Com a regulamentação, o governo passou a bloquear e
suspender plataformas que operavam sem autorização ou em desacordo com as novas
normas, as chamadas bets ilegais. Na prática, porém, muitas dessas plataformas
fraudulentas continuam operando irregularmente.
Nesse
jogo contra a indústria das apostas, o brasileiro está perdendo de goleada.
Desde o início da Copa do Mundo de 2026, mais de um terço da população enviou
dinheiro para plataformas do setor. Os números revelam um cenário alarmante:
comprometimento da renda, adiamento de projetos de vida, endividamento,
impactos sobre a saúde mental e desenvolvimento de comportamentos compulsivos
relacionados ao jogo. Para se ter uma ideia, quem seguiu as sugestões de
narradores e comentaristas da CazéTV – vale lembrar, a única emissora a
transmitir todos os jogos da competição — perdeu dinheiro em quase 61% das
apostas, segundo levantamento do ICL Notícias.
O
problema pode ser ainda maior. De acordo com dados da Associação Brasileira de
Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes), 34% dos brasileiros entre 18 e 35 anos
que ingressariam em uma graduação em 2025 precisaram adiar esse projeto por
terem gasto seu dinheiro com plataformas de apostas e cassinos virtuais. A
expectativa também é de novo encolhimento das receitas no setor de serviços, já
que uma parcela cada vez maior da renda disponível deixa de ser destinada à
indústria e ao comércio para ser destinado para casas de apostas.
Em ano
eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a endurecer o
discurso contra o setor. Lula afirmou que, se a decisão dependesse
exclusivamente dele, acabaria com as bets. A declaração foi interpretada como
um aceno ao eleitorado feminino, que tem defendido medidas mais rígidas para
conter o avanço dessas empresas.
Uma das
iniciativas mais interessantes para combater o vício em jogos de azar foi a
criação do serviço de autoexclusão. Por meio dele, qualquer cidadão brasileiro
pode restringir voluntariamente o próprio acesso às plataformas autorizadas
pelo governo. Apesar do caráter preventivo, a ferramenta apenas mitiga um
problema que ainda está muito longe de ser solucionado. (Até o momento, quase
700 mil pessoas já recorreram ao mecanismo de autoexclusão de casas de
apostas).
Sejam
relacionadas a eventos esportivos ou a jogos baseados em algoritmos, essas
plataformas contam com sofisticadas estratégias de publicidade. Se, em um
primeiro momento, sua presença estava concentrada nas transmissões de futebol e
nas redes sociais de influenciadores com milhões de seguidores, hoje ela se
espalhou pelos mais diversos espaços da vida cotidiana. Festivais culturais e
eventos tradicionais, como as festas de São João e o Carnaval, passaram a
contar com o patrocínio dessas empresas, ampliando sua exposição e
naturalizando sua presença no imaginário popular.
Essa
pandemia também se espalhou pelo transporte público das grandes cidades. Não é
raro encontrar anúncios em trens, metrôs e ônibus com QR Codes que direcionam o
passageiro diretamente para plataformas de apostas, oferecendo “bônus”,
“rodadas grátis” e outras “vantagens” – entre aspas, mesmo – para atrair novos
usuários. Considerando que os brasileiros que utilizam transporte público nas
capitais passam, em média, cerca de duas horas por dia em deslocamentos, isso
representa quase 120 minutos diários de exposição a estímulos cuidadosamente
planejados para seduzir potenciais apostadores e alimentar um comportamento que
pode evoluir para o vício. De maneira, no mínimo, sádica, todas essas campanhas
vêm acompanhadas do clichê “jogue com responsabilidade” – como se o vício
pudesse ser controlado apenas pela força de vontade. A advertência passou a ser
obrigatória após a regulamentação do setor promovida pelo governo Lula.
As bets
funcionam como uma droga: estão disponíveis 24 horas por dia, ao alcance de um
celular, impulsionadas por campanhas publicitárias, influenciadores digitais e
pela exposição constante nos meios de comunicação. Como definiu o escritor
Sérgio Rodrigues, em coluna publicada na Folha de S.Paulo, “criar uma rede
nacional de milhões de cassinos de bolso legalizados e abertos 24 horas não é
tão diferente de vender crack no horário nobre”.
• Os males que as bets causam
O
avanço das apostas online ("bets") consolidou-se como uma grave crise
de saúde pública e endividamento no Brasil. Os principais malefícios que
assolam as famílias incluem o desvio de renda básica para jogos, a explosão de
quadros de ludopatia (vício) e o aumento drástico de separações, violência
doméstica e depressão.
O
impacto severo ao ambiente familiar é desenhado nas seguintes frentes:
• Epidemia de Endividamento:
- As
apostas tornaram-se o principal motor de endividamento no país. O dinheiro
destinado a alimentação, educação e moradia é frequentemente absorvido pelos
aplicativos, resultando em uma queda drástica na qualidade de vida das famílias
brasileiras.
• Crise no Orçamento Doméstico:
- Há
registros preocupantes do uso de recursos essenciais, como repasses do programa
Bolsa Família, diretamente em plataformas de apostas. Esse cenário compromete o
mínimo existencial de milhares de lares.
• Saúde Mental e Ludopatia:
- A
compulsão pelo jogo tem provocado afastamentos pelo INSS e sido associada a
altos índices de ansiedade, depressão e até suicídios, gerando impactos
inestimáveis a parentes próximos.
• Tensão nas Relações:
- O
vício, muitas vezes mantido em segredo, gera quebra de confiança entre os
parceiros, endividamento com agiotas, riscos ao patrimônio e crescente taxa de
rupturas conjugais.
Para
tentar combater o problema, o debate público no Senado tem avançado com
propostas como o PL Brasil Contra Bets (Projeto de Lei 2.470/2026 e PL
2.478/2026). O pacote busca proibir a publicidade ostensiva de apostas e criar
mecanismos rígidos de proteção aos usuários e ao orçamento doméstico.
Para
pessoas que perderam o controle financeiro ou familiares que lidam com a
dependência, o Governo Federal disponibiliza ferramentas para bloqueio e
suspensão voluntária do CPF em sites de apostas por meio da plataforma oficial
do Gov.br. O transtorno é considerado um adoecimento que exige acompanhamento
psicoterápico e suporte de grupos de apoio
Fonte:
Por Guilherme Loureiro, no Le Monde/TRT

Nenhum comentário:
Postar um comentário