sexta-feira, 24 de julho de 2026

Modelo do Pix desafia controle financeiro dos EUA sobre o Brasil, avalia especialista

O Pix brasileiro virou um dos alvos do governo dos Estados Unidos, entre outros motivos, por desafiar o controle financeiro de Washington sobre a infraestrutura brasileira de pagamentos eletrônicos. A avaliação é de especialistas em economia e relações internacionais consultados pela Agência Brasil.

A razão do governo de Donald Trump para incluir o Pix entre as justificativas para o tarifaço de 25% seria, em primeiro lugar, geopolítica, e não estritamente econômica motivada pela concorrência com empresas dos Estados Unidos como Visa, MasterCard ou Whatsapp Pay.

O professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Maicon Cláudio da Silva destaca que o ataque ao Pix tem relação direta com a perda de poder e controle dos Estados Unidos sobre o sistema financeiro do Brasil.

“Esse tipo de medida deixa evidente que os Estados Unidos não querem perder esse poder que eles têm hoje sobre o sistema financeiro em boa parte do mundo. Não à toa, a China não usa Visa e Mastercard. Ela tem sistemas próprios, e isso tem a ver com uma maior soberania e autonomia desse país”, disse.

Silva lembrou que o Pix aumentou a bancarização da população brasileira, trazendo ganhos econômicos também para as empresas dos Estados Unidos.

“Movimentos econômicos que antes ocorriam só no dinheiro passaram a ocorrer via sistema financeiro, através do Pix. Isso facilita o acesso das pessoas a contas bancárias e, eventualmente, também a cartão de crédito”, explicou.

Em 2025, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões na esteira da expansão do Pix. Um crescimento de 10,1%, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).

<><> Perdas econômicas imediatas

Como os EUA têm superávit comercial com o Brasil, o tarifaço tende a prejudicar mais as empresas americanas, observou o professor da UFRRJ. Nesse contexto, os interesses econômicos imediatos são deixados de lado.

“Do ponto de vista imediato, essas taxas acabam prejudicando mais os Estados Unidos. Por isso, essa é uma política econômica internacional focada em exercer poder por meio das sanções e tarifaços de maneira a pressionar os países a se submeterem aos Estados Unidos”, finalizou.

<><> Pix como instrumento de poder

O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG) Ronaldo Carmona destacou que o Pix se tornou um instrumento de poder do Brasil, ampliando a soberania econômica e financeira do país.

“Ao aumentar a autonomia e a soberania do país, o Brasil promove o comércio exterior bilateral com outros países em moedas nacionais, fugindo da arbitragem e da senhoriagem [receita oriunda da emissão de moeda] do dólar”, comentou.

Carmona citou ainda o fato de o Banco Central ter acordos de cooperação técnica com 47 países para implementação de sistemas semelhantes ao Pix em outras nações, o que pode fragilizar ainda mais o controle de Washington sobre as transações financeiras em outras partes do mundo.

<><> Pix barra sanções

Sistemas de pagamentos nacionais, como o Pix, limitam a aplicação de sanções econômicas dos Estados Unidos contra instituições e indivíduos, “diferentemente do que ocorre com sistemas americanos”, explicou Ronaldo Carmona.

Isso porque os sistemas de pagamento com sede nos Estados Unidos costumam cumprir todas as sanções da Casa Branca.

Maicon Cláudio da Silva, professor de economia da UFRRJ, citou as sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o bloqueio a Cuba como casos em que Washington projeta poder sobre países soberanos por meio de bloqueios financeiros.

“O avanço do bloqueio econômico dos Estados Unidos contra Cuba acabou levando a Visa e a Mastercard a deixar de operar na ilha. Ao controlar os meios de pagamento, os Estados Unidos podem, a qualquer momento, tomar algum tipo de sanção econômica contra países ou indivíduos”, explicou.

<><> Europa busca soberania financeira

Em artigo publicado dias antes do anúncio do tarifaço contra o Brasil, a revista inglesa The Economist afirma que o Pix brasileiro, assim como outras iniciativas da União Europeia, tem ameaçado a “supremacia” financeira dos Estados Unidos.

“A ascensão de sistemas ‘soberanos’, especialmente na Europa – uma grande fonte dos negócios internacionais da Visa e da Mastercard –, poderia corroer suas invejáveis margens operacionais de mais de 50%”, diz a revista especializada em finanças globais.

Recentemente, a União Europeia anunciou o Euro Digital, sistema de pagamentos eletrônicos semelhante ao Pix, de acesso gratuito e público, com previsão de lançamento do projeto-piloto em 2027.

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, não escondeu que o objetivo é reduzir a dependência dos sistemas estrangeiros.

“Dependemos predominantemente das redes americanas, mas também, por vezes, das chinesas, para organizar os pagamentos. Precisamos de uma solução europeia porque queremos ser soberanos internamente”, afirmou ao portal Euronews.

¨      As fissuras do dólar. Por Celso Pinto de Melo

Conta a lenda que um menino holandês caminhava ao longo dos diques que protegiam sua cidade quando percebeu um pequeno vazamento na estrutura. A fenda era quase invisível. Ainda assim, compreendendo o risco, colocou o dedo na fissura e permaneceu ali durante toda a noite, impedindo que a pressão da água ampliasse a abertura.

A imagem ajuda a compreender um dos fenômenos mais importantes da geopolítica contemporânea: a crescente preocupação de Washington com as tentativas de construir mecanismos econômicos parcialmente independentes do dólar.

As declarações de Donald Trump contra os BRICS, as ameaças de tarifas punitivas e a crescente utilização das sanções econômicas como instrumento de política externa não constituem fenômenos isolados. Elas refletem uma percepção crescente, dentro do próprio establishment americano, de que a hegemonia monetária dos Estados Unidos já não é inteiramente incontestável.

Durante décadas, o dólar foi tratado quase como um fenômeno natural da economia mundial. Questionar sua centralidade parecia um exercício acadêmico distante da política concreta. No entanto, a história mostra que nenhuma divisa ocupa indefinidamente o centro do sistema internacional.

A força de uma moeda raramente deriva apenas da economia. Ela costuma refletir uma combinação mais ampla de poder produtivo, liderança tecnológica, influência política e capacidade militar. Em diferentes épocas, as moedas dominantes expressaram a posição ocupada por seus países no sistema internacional.

Após a Segunda Guerra Mundial, Bretton Woods consolidou o dólar como eixo da economia internacional. Em 1971, Richard Nixon rompeu unilateralmente a conversibilidade dólar-ouro. Muitos imaginaram uma crise estrutural da moeda americana. O oposto ocorreu.

Os Estados Unidos reorganizaram a centralidade global do dólar através do petróleo. Ao longo da década de 1970, especialmente após os acordos com a Arábia Saudita, consolidou-se o sistema dos petrodólares. O petróleo passou a ser negociado majoritariamente em dólares, enquanto os excedentes financeiros dos exportadores retornavam ao sistema financeiro americano, sobretudo por meio de títulos do Tesouro dos EUA.

 Desde os acordos firmados entre Washington e Riad na década de 1970, a precificação internacional do petróleo em dólares tornou-se um dos pilares da arquitetura financeira global. Por isso, qualquer diversificação monetária iniciada justamente nessa região possui um significado que vai muito além do seu volume econômico imediato.

O dólar deixou de ser apenas moeda. Tornou-se a principal infraestrutura monetária internacional, constituindo um dos pilares do poder americano. Como toda infraestrutura, o dólar tornou-se quase invisível. Durante décadas, governos, empresas e mercados simplesmente passaram a utilizá-lo sem questionar sua centralidade. É justamente quando uma infraestrutura começa a ser contornada que sua importância se torna plenamente visível.

Mais do que um instrumento financeiro, passou a funcionar como a linguagem operacional da economia mundial. Bancos, reservas internacionais, contratos de energia, mercados financeiros, cadeias globais de suprimentos e sistemas internacionais de pagamento foram progressivamente organizados em torno dele.

Além de organizar a economia mundial, essa infraestrutura passou também a funcionar como instrumento de coerção internacional. Irã, Cuba, Venezuela e Rússia enfrentaram bloqueios financeiros, congelamento de ativos e restrições ao sistema internacional de pagamentos. O congelamento das reservas russas após a guerra da Ucrânia teve um efeito particularmente importante: muitos governos passaram a perceber que a ordem monetária global possuía um centro político claramente identificado.

É nesse contexto que os movimentos recentes dos BRICS passam a adquirir relevância. A China acelerou a internacionalização do yuan. Diversos países ampliaram acordos bilaterais em moedas locais. Sistemas alternativos ao SWIFT começaram a surgir. Os países do Golfo aprofundaram as relações econômicas com Pequim. E cresceu a percepção de vulnerabilidade associada à dependência exclusiva da infraestrutura financeira americana.

O objetivo desses movimentos não parece ser substituir o dólar por uma nova moeda global. Trata-se, antes, de ampliar as margens de autonomia estratégica e reduzir vulnerabilidades diante de um sistema percebido como excessivamente concentrado

Nenhuma dessas mudanças, isoladamente, ameaça o domínio do dólar. O sistema financeiro americano continua sendo o maior e mais líquido do planeta. Ainda não existe um substituto pleno para a moeda americana.

Os números ajudam a colocar essa discussão em perspectiva. Segundo o FMI, aproximadamente 58% das reservas cambiais mundiais continuam denominadas em dólares, enquanto a pesquisa trienal do Banco de Compensações Internacionais (BIS) mostra que a moeda americana participa de cerca de 88% das operações no mercado global de câmbio. O dólar permanece, portanto, a principal infraestrutura monetária internacional.

É justamente aí que reside o paradoxo. Se nenhuma das mais recentes iniciativas, considerada isoladamente, é capaz de substituir o dólar, por que despertam uma reação tão intensa em Washington?

A estabilidade de uma moeda internacional depende tanto da confiança quanto da escala. Quanto maior for o número de agentes que a utilizam, maior tende a ser sua utilidade para todos os demais, criando um poderoso efeito de rede. Quando diversos atores passam a construir alternativas, ainda que pequenas, esse mecanismo começa lentamente a perder força. Não se trata apenas do volume atual das transações, mas também da possibilidade de que a dependência deixe de parecer inevitável.

A razão para a inquietação talvez esteja menos no volume atual dessas iniciativas do que na dinâmica que elas inauguram. Talvez porque o problema não seja o tamanho atual das rachaduras, mas o precedente que elas estabelecem.

Grandes ordens internacionais raramente entram em colapso quando surge um competidor equivalente. Elas começam a perder estabilidade quando atores cada vez mais numerosos descobrem que já não precisam depender exclusivamente do sistema existente.

Para países como o Brasil, essa discussão possui uma enorme relevância. Mudanças na arquitetura monetária internacional afetam o financiamento do desenvolvimento, o comércio exterior, a gestão das reservas internacionais e a margem de autonomia das políticas econômicas nacionais.

Mas hegemonias não costumam entrar em crise de maneira súbita. O que começa a emergir é algo mais sutil: a multiplicação gradual de pequenas fissuras. É por isso que os movimentos no Golfo Pérsico possuem um peso simbólico particular.

Talvez na região esteja o aspecto mais simbólico desse processo. Não por causa do volume imediato das transações, mas porque foi justamente ali que se consolidou, nos anos 1970, um dos pilares históricos da ordem dos petrodólares. Durante décadas, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar atuaram como pilares centrais da ordem do petrodólar. Hoje, porém, começam a diversificar as moedas, a ampliar as negociações em moedas locais e a aprofundar as relações estratégicas com a China e os BRICS.

O movimento é importante não apenas financeiramente, mas também psicologicamente. O Golfo não estava na periferia da arquitetura monetária americana. Era parte central dela.

Ao mesmo tempo, energia, inteligência artificial, semicondutores, minerais críticos, data centers e infraestrutura digital passam a formar um único ecossistema geopolítico integrado. A disputa contemporânea deixou de ser apenas monetária. Tornou-se infraestrutural.

O dólar nunca existiu isoladamente. Assim como a libra esterlina em seu tempo, ele integra um ecossistema mais amplo de poder que articula finanças, tecnologia, energia, capacidade militar e influência diplomática. É justamente esse ecossistema que começa a sofrer pressões crescentes.

Sob essa perspectiva, muitas tensões aparentemente desconexas revelam uma coerência sistêmica: rivalidade tecnológica com a China, sanções econômicas, guerra tarifária, disputa por semicondutores, formação de corredores minerais e reorganização das cadeias produtivas integram um mesmo movimento histórico.

O verdadeiro adversário do dólar não é outra moeda. É a descoberta de que a atual infraestrutura monetária internacional deixou de ser a única possível. O sistema do dólar continua extraordinariamente poderoso. Nenhum acordo bilateral em moeda local destruirá a moeda americana. Nenhuma iniciativa isolada dos BRICS substituirá o sistema financeiro dos Estados Unidos.

Mas talvez o verdadeiro significado histórico do nosso tempo esteja justamente na multiplicação desses pequenos pontos de erosão. Grandes estruturas raramente desmoronam porque alguém as derruba frontalmente. Em geral, começam a enfraquecer quando o restante do mundo descobre maneiras alternativas de contorná-las.

Para o Brasil, a questão central não é apostar contra o dólar nem imaginar um colapso iminente da ordem financeira internacional. É compreender que períodos de transição sistêmica costumam abrir espaços inéditos para países intermediários.

A ampliação dos BRICS, a diversificação monetária e a reorganização das cadeias produtivas globais representam riscos, mas também oportunidades. Em momentos como este, a questão decisiva não é prever o fim de uma hegemonia, mas identificar quais capacidades nacionais precisam ser construídas para atuar em um mundo mais complexo, competitivo e multipolar.

O problema dos diques nunca foi a existência de uma única fissura. Sempre foi a pressão acumulada da água.

Toda hegemonia parece eterna até o dia em que deixa de parecer inevitável.

Grandes diques raramente cedem devido ao primeiro vazamento. Eles cedem quando a água descobre que existe uma passagem.

 

Fonte: Agencia Brasil/A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: