sexta-feira, 24 de julho de 2026

A ressurreição do macartismo americano

O Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou recentemente um relatório intitulado Cuba: A Capital do Comunismo do Século XXI. No anúncio oficial feito na rede social X, o Secretário de Estado Marco Rubio declarou que, por mais de seis décadas, o regime cubano teria sido o principal patrocinador do esquerdismo radical e do terceiromundismo dentro do território norte-americano, prometendo expor o que chamou de história de espionagem e subversão para a população dos Estados Unidos.

O movimento seguiu-se à realização da chamada “Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político”, evento organizado por Rubio que contou com discursos de nomes proeminentes da nova administração, como Scott Bessent, Kash Patel e Stephen Miller. Com sua retórica agressiva, Miller chegou a classificar os movimentos progressistas como um “câncer fatal para a civilização”, afirmando que as instituições ocidentais se tornaram “covardes” e exortando a defesa da nação com a mesma força empregada contra um invasor que entra em uma residência familiar.

O relatório governamental mira explicitamente organizadores da esquerda democrática interna, como os Socialistas Democráticos da América (DSA). Embora o próprio documento seja forçado a admitir que a organização possui compromissos ideológicos orgânicos e não foi moldada por controle direto de Havana, insiste em enquadrá-la em supostas redes de influência por conta de delegações enviadas à ilha. A combinação entre desqualificação das garantias constitucionais, ameaças formais de designação de grupos de esquerda como organizações terroristas e menções explícitas a investigações nos moldes das listas negras da Guerra Fria acendeu o alerta sobre a preparação de um clima sufocante de repressão política interna.

Em análise detalhada sobre a ofensiva promovida em Washington, o ensaísta e historiador americano John Ganz assinala que a tentativa da Casa Branca de atribuir a fermentação política interna a fantasmagóricas operações estrangeiras não é uma novidade, mas a reciclagem de um velho manual partidário. Ganz lembra que a tática remete diretamente ao “Pequeno Pânico Vermelho” da era Reagan, deflagrado em 1981 quando o Subcomitê do Senado sobre Segurança e Terrorismo, chefiado pelo senador Jeremiah Denton e abastecido por ideólogos ultraconservadores como Samuel Francis, tentou ressuscitar os mecanismos de caça às bruxas das décadas de 1950.

Como recorda Ganz em seu texto, analistas e conspiradores daquela época — como Arnaud de Borchgrave, autor do romance de desinformação The Spike — acusavam jornais independentes e movimentos sociais de atuarem como fantoches de Havana ou de Moscou para promover tumultos urbanos nos Estados Unidos. Contudo, o próprio ex-diretor da CIA, William Colby, ao depor na comissão da época, descartou tais teses conspiratórias ao certificar que os protestos e o ativismo político americano eram fenômenos estritamente autóctones, nascidos das próprias contradições sociais do país. Naquele momento, o hysteria mccarthista acabou naufragando em sua própria inconsistência fática.

Como era de se esperar, o bolsonarismo e a extrema-direita latino-americana já tentam se apropriar dessa cruzada norte-americana para alimentar seus próprios expedientes políticos. Na América Latina, marcada por gritantes desigualdades sociais e concentrada estrutura de renda, as elites conservadoras historicamente recorreram ao espantalho do anticomunismo como ferramenta de desinformação. O objetivo sempre foi criminalizar a luta por direitos sociais, proteger lucros e privilégios corporativos e desviar a atenção pública das reformas estruturais urgentes.

A narrativa reacionária, no entanto, falseia a realidade histórica ao pregar o fim da esquerda. O pensamento socialista e as forças progressistas nunca morreram nas Américas nem nos próprios Estados Unidos. Pelo contrário, permanecem dinâmicos e vivos. Exemplo recente e expressivo é a vitória eleitoral expressiva de Zohran Mamdani em Nova York, somada ao fortalecimento contínuo de candidaturas abertamente socialistas nas grandes metrópoles norte-americanas. Além disso, os Estados Unidos ostentam um sólido e vibrante ecossistema cultural e acadêmico onde o pensamento de esquerda desempenha papel central. Vale lembrar também que, antes da sufocante onda macartista de meados do século passado, o país serviu de refúgio e lar acolhedor para numerosos intelectuais e socialistas europeus que moldaram o debate público global.

A fixação da extrema-direita em reviver fantasmas da Guerra Fria escancara o desejo de ocultar os dramas sociais do modelo americano. Enquanto a retórica de segurança nacional avança, os Estados Unidos enfrentam uma desigualdade de renda crescente e visível precarização de seus serviços básicos. No setor de transportes, o país jamais desenvolveu uma rede moderna de trens de alta velocidade para integração territorial e mobilidade urbana, mantendo sua população dependente do transporte individual corporativo. Além disso, a ausência de um sistema público universal de saúde impõe um modelo financeiramente punitivo aos mais pobres, arrastando milhões de famílias trabalhadoras a dramas pessoais desumanos e falências por dívidas médicas.

O contraste com a dinâmica geopolítica global fica ainda mais evidente quando se observa a estratégia da China. No centro da corrida tecnológica contemporânea, Pequim adota uma postura voltada ao desenvolvimento de plataformas de Inteligência Artificial de código aberto, como os recentes modelos globais disponibilizados abertamente pela comunidade chinesa. A diplomacia e a política tecnológica chinesas promovem um discurso prático de combate à desigualdade, incentivando o compartilhamento de códigos e ferramentas avançadas. Essa abordagem atua diretamente para evitar um futuro distópico no qual a inteligência artificial fique confinada ao monopólio exclusivo de poucas corporações transnacionais que controlam o acesso ao conhecimento do planeta.

A tentativa da atual Casa Branca de ressuscitar o macartismo anticomunista não passa de um sintoma de exaustão intelectual e impotência diante dos problemas reais da sociedade contemporânea. Fantasiar ameaças cubanas não criará redes de transporte rápido nos Estados Unidos, não garantirá médicos aos desassistidos e tampouco deterá a busca dos povos latino-americanos por justiça social e soberania tecnológica.

¨      Congressistas dos EUA criticam relatório de Rubio contra Cuba: 'disparate paranoico'

Analistas, políticos, ativistas sociais e outras vozes nos Estados Unidos se manifestaram contra o relatório anti-Cuba divulgado pelo Departamento de Estado e as declarações mais recentes de Marco Rubio contra o país caribenho. 

Don Beyer, membro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, classificou o relatório que justificava a guerra contra Cuba como ilógico e paranoico. “Um disparate paranoico para justificar uma guerra com Cuba. Aparentemente, uma guerra sem sentido e destrutiva por escolha própria não é suficiente para a Casa Branca de Trump ”, disse.

Já o grupo pacifista CodePink, mencionado no documento, descreveu a situação como uma “caça às bruxas com motivação política” contra vozes pacifistas.

O congressista norte-americano Mark Pocan também se manifestou contra o bloqueio norte-americano: “após mais de 65 anos bloqueando o governo deles, essa política não funciona. A definição de insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente, esperando um resultado diferente”.

Delia C. Ramirez, congressista norte-americana que esteve recentemente em Cuba, lembrou Rubio do verdadeiro papel dos Estados Unidos como fator de desestabilização na América Latina.

“A análise delirante do secretário Rubio omite o fato de que, por mais de seis décadas, as políticas dos Estados Unidos desestabilizaram nossos vizinhos na América Latina — incluindo Cuba — por meio de sanções, embargos, golpes militares, controle territorial e colonização”, enfatizou.

Ela afirmou que “hoje, o Departamento de Estado de Trump, liderado por Rubio, continua essa tradição imperialista enquanto faz o que os autoritários fazem, criminalizando a dissidência”. E acrescentou: “a política externa dos Estados Unidos é responsável por mortes, destruição e desestabilização. Podemos mudar isso. Sim, podemos nos tornar bons vizinhos”.

<><> ‘Caça às bruxas’

Medea Benjamin, uma das líderes do CodePink, afirmou que “o relatório de 99 páginas do Departamento de Estado sobre Cuba é um lixo, ao alegar uma vasta conspiração anti-americana da Cuba, Rússia, China, Irã e grupos estadunidenses, como o CodePink e o Fórum Popular”.

“A verdadeira ameaça? Uma política dos Estados Unidos que causou tanto sofrimento aos cubanos”, afirmou.

O Ministério das Relações Exteriores de Cuba repudiou nesta quarta-feira (22/07) o relatório publicado em 20 de julho pelo Departamento de Estado norte-americano, alegando uma influência subversiva da nação caribenha contra os Estados Unidos.

“Cuba rejeita, nos termos mais veementes, o relatório publicado em 20 de julho pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, referente à alegada influência subversiva de Cuba contra aquele país ”, declarou o ministério em sua conta oficial no Twitter.

<><> Díaz-Canel rebate acusações de espionagem dos EUA

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, rebateu nesta terça-feira (21/07) as acusações pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio de que a ilha representa uma ameaça à segurança nacional norte-americana.

Em pronunciamento, o líder cubano afirmou que Cuba “jamais agiu para prejudicar o povo norte-americano, nem teve a intenção de afetar a segurança nacional dos EUA”. De acordo com ele, ao longo da história, foram os próprios EUA que realizaram ações de espionagem e ataques contra Cuba em “níveis obscenos”.

Díaz-Canel também criticou os recursos destinados por Washington a programas voltados para a mudança de regime em Cuba, classificando-os como iniciativas de subversão e terrorismo. Como exemplos de agressões sofridas pelo país, citou a introdução de doenças, entre elas a epidemia de dengue hemorrágica que, segundo o governo cubano, resultou na morte de 101 crianças, a explosão do voo da Cubana de Aviación em Barbados, que matou 73 pessoas, além de atentados a hotéis e supostas tentativas de assassinato contra líderes da Revolução.

Ao encerrar o discurso, o mandatário cubano voltou a condenar o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos, classificando a medida como um ato “genocida”.

Segundo ele, a sanções são agravadas pelo atual “bloqueio energético” e sustentou que a política norte-americana foi concebida para “exaurir o povo e minar seu apoio à Revolução”. Diante desse cenário, Díaz-Canel defendeu que Cuba exerce seu “direito legítimo” de se proteger diante das pressões externas.

As declarações do presidente cubano foram uma resposta ao relatório elaborado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos e divulgado na segunda-feira (20/ 07). No documento, Washington acusa Cuba de manter um amplo aparato de espionagem, capaz de se infiltrar em órgãos estratégicos norte-americanos, incluindo o Departamento de Defesa.

egundo o governo dos EUA, a inteligência cubana manteve agentes infiltrados “durante décadas” tanto no corpo diplomático norte-americano quanto “nos mais altos escalões” do Departamento de Defesa.

¨      Cuba acusa EUA de prepararem terreno para ataque militar

Cuba rejeita, com todas as forças, o relatório publicado em 20 de julho pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos sobre a alegada influência subversiva de Cuba contra os Estados Unidos. Trata-se de um panfleto de propaganda medíocre.

Busca reforçar a mensagem mentirosa de que Cuba constitui uma ameaça aos Estados Unidos, pretexto que o governo estadunidense utiliza para promover a punição coletiva e o genocídio contra o povo cubano. Por meio da construção de narrativas acusatórias, tenciona fabricar apoio para uma potencial agressão militar.

É hipócrita o Departamento de Estado acusar Cuba de promover a subversão quando é notório que o governo dos EUA destina dezenas de milhões de dólares de seu orçamento federal, anualmente, para subverter a ordem interna em Cuba, provocar fome e desespero e derrubar o governo cubano.

Este é o mesmo governo com um histórico sórdido de interferência e violações do direito internacional, realizando execuções extrajudiciais em águas internacionais, praticando assassinatos políticos, patrocinando atos de genocídio, atacando nações soberanas em todos os continentes e interferindo nos processos eleitorais de Estados soberanos.

É também hipócrita persistir na mentira de rotular Cuba como um Estado patrocinador do terrorismo.

É evidente que nem este nem qualquer outro relatório pode apresentar qualquer prova, nem mesmo o menor indício, para tal acusação ilegítima, porque tal prova não existe, como é do conhecimento das próprias agências especializadas do governo dos EUA.

É, contudo, notório que aqueles que financiam, organizam e instigam atos violentos e terroristas contra Cuba encontram proteção e total impunidade em solo estadunidense.

Este relatório se encaixa no discurso do chamado “terrorismo de esquerda”, um conceito novo que o governo dos EUA, e em particular seu secretário de Estado, estão promovendo ativamente como o novo inimigo. Buscam atacar qualquer traço progressista, compromisso social ou expressão de esquerda, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos, aumentar a repressão e estabelecer um neomacartismo.

O objetivo é, em particular, reprimir e atacar a própria população estadunidense e intimidar aqueles que expressam solidariedade, incluindo os que denunciam a agressão injusta de seu governo contra Cuba. Reconhece-se que a oposição ao embargo econômico, ao estrangulamento da economia cubana e à ameaça de agressão militar está crescendo nos Estados Unidos, inclusive entre os cubanos que lá vivem e seus descendentes.

O Departamento de Estado persiste em questionar os laços de Cuba com outras nações soberanas, como se o direito internacional tivesse desaparecido. Manipula e distorce a história amplamente reconhecida de solidariedade, ativismo anticolonialista e internacionalismo de Cuba, inclusive dentro dos Estados Unidos. A cada ano, o governo norte-americano sofre repetido isolamento nas Nações Unidas por se recusar a pôr fim ao embargo econômico.

Incapaz de disfarçar sua admiração velada pela epopeia da Revolução Cubana, o relatório revela o temor de uma superpotência nuclear diante do exemplo de justiça social e defesa da soberania. Demonstra, portanto, um complexo de inferioridade em relação a um programa nacional que prioriza o povo em detrimento das elites.

Como sempre fez, Cuba continuará cultivando relações amistosas com o povo e as instituições norte-americanas, em estrita observância ao direito internacional, à Carta das Nações Unidas e à Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

 

Fonte: O Cafezinho/TeleSUR/Granma

 

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