A
ressurreição do macartismo americano
O
Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou recentemente um relatório
intitulado “Cuba: A Capital do
Comunismo do Século XXI“. No anúncio oficial feito na rede social X,
o Secretário de Estado Marco Rubio declarou que, por mais de seis décadas, o
regime cubano teria sido o principal patrocinador do esquerdismo radical e do
terceiromundismo dentro do território norte-americano, prometendo expor o que
chamou de história de espionagem e subversão para a população dos Estados
Unidos.
O
movimento seguiu-se à realização da chamada “Ministerial sobre o Ressurgimento
do Terrorismo Político”, evento organizado por Rubio que contou com discursos
de nomes proeminentes da nova administração, como Scott Bessent, Kash Patel e
Stephen Miller. Com sua retórica agressiva, Miller chegou a classificar os
movimentos progressistas como um “câncer fatal para a civilização”, afirmando
que as instituições ocidentais se tornaram “covardes” e exortando a defesa da
nação com a mesma força empregada contra um invasor que entra em uma residência
familiar.
O
relatório governamental mira explicitamente organizadores da esquerda
democrática interna, como os Socialistas Democráticos da América (DSA). Embora
o próprio documento seja forçado a admitir que a organização possui
compromissos ideológicos orgânicos e não foi moldada por controle direto de
Havana, insiste em enquadrá-la em supostas redes de influência por conta de
delegações enviadas à ilha. A combinação entre desqualificação das garantias
constitucionais, ameaças formais de designação de grupos de esquerda como
organizações terroristas e menções explícitas a investigações nos moldes das
listas negras da Guerra Fria acendeu o alerta sobre a preparação de um clima
sufocante de repressão política interna.
Em
análise detalhada sobre a ofensiva promovida em Washington, o ensaísta e
historiador americano John Ganz assinala que a
tentativa da Casa Branca de atribuir a fermentação política interna a
fantasmagóricas operações estrangeiras não é uma novidade, mas a reciclagem de
um velho manual partidário. Ganz lembra que a tática remete diretamente ao
“Pequeno Pânico Vermelho” da era Reagan, deflagrado em 1981 quando o Subcomitê
do Senado sobre Segurança e Terrorismo, chefiado pelo senador Jeremiah Denton e
abastecido por ideólogos ultraconservadores como Samuel Francis, tentou
ressuscitar os mecanismos de caça às bruxas das décadas de 1950.
Como
recorda Ganz em seu texto, analistas e conspiradores daquela época — como
Arnaud de Borchgrave, autor do romance de desinformação The Spike —
acusavam jornais independentes e movimentos sociais de atuarem como fantoches
de Havana ou de Moscou para promover tumultos urbanos nos Estados Unidos.
Contudo, o próprio ex-diretor da CIA, William Colby, ao depor na comissão da
época, descartou tais teses conspiratórias ao certificar que os protestos e o
ativismo político americano eram fenômenos estritamente autóctones, nascidos
das próprias contradições sociais do país. Naquele momento, o hysteria
mccarthista acabou naufragando em sua própria inconsistência fática.
Como
era de se esperar, o bolsonarismo e a extrema-direita latino-americana já
tentam se apropriar dessa cruzada norte-americana para alimentar seus próprios
expedientes políticos. Na América Latina, marcada por gritantes desigualdades
sociais e concentrada estrutura de renda, as elites conservadoras
historicamente recorreram ao espantalho do anticomunismo como ferramenta de
desinformação. O objetivo sempre foi criminalizar a luta por direitos sociais,
proteger lucros e privilégios corporativos e desviar a atenção pública das
reformas estruturais urgentes.
A
narrativa reacionária, no entanto, falseia a realidade histórica ao pregar o
fim da esquerda. O pensamento socialista e as forças progressistas nunca
morreram nas Américas nem nos próprios Estados Unidos. Pelo contrário,
permanecem dinâmicos e vivos. Exemplo recente e expressivo é a vitória eleitoral expressiva de Zohran Mamdani em Nova York,
somada ao fortalecimento contínuo de candidaturas abertamente socialistas nas
grandes metrópoles norte-americanas. Além disso, os Estados Unidos ostentam um
sólido e vibrante ecossistema cultural e acadêmico onde o pensamento de esquerda
desempenha papel central. Vale lembrar também que, antes da sufocante onda
macartista de meados do século passado, o país serviu de refúgio e lar
acolhedor para numerosos intelectuais e socialistas europeus que moldaram o
debate público global.
A
fixação da extrema-direita em reviver fantasmas da Guerra Fria escancara o
desejo de ocultar os dramas sociais do modelo americano. Enquanto a retórica de
segurança nacional avança, os Estados Unidos enfrentam uma desigualdade de
renda crescente e visível precarização de seus serviços básicos. No setor de
transportes, o país jamais desenvolveu uma rede moderna de trens de alta
velocidade para integração territorial e mobilidade urbana, mantendo sua
população dependente do transporte individual corporativo. Além disso, a
ausência de um sistema público universal de saúde impõe um modelo
financeiramente punitivo aos mais pobres, arrastando milhões de famílias
trabalhadoras a dramas pessoais desumanos e falências por dívidas médicas.
O
contraste com a dinâmica geopolítica global fica ainda mais evidente quando se
observa a estratégia da China. No centro da corrida tecnológica contemporânea,
Pequim adota uma postura voltada ao desenvolvimento de plataformas de
Inteligência Artificial de código aberto, como os recentes modelos globais
disponibilizados abertamente pela comunidade chinesa. A diplomacia e a política
tecnológica chinesas promovem um discurso prático de combate à desigualdade,
incentivando o compartilhamento de códigos e ferramentas avançadas. Essa
abordagem atua diretamente para evitar um futuro distópico no qual a
inteligência artificial fique confinada ao monopólio exclusivo de poucas
corporações transnacionais que controlam o acesso ao conhecimento do planeta.
A
tentativa da atual Casa Branca de ressuscitar o macartismo anticomunista não
passa de um sintoma de exaustão intelectual e impotência diante dos problemas
reais da sociedade contemporânea. Fantasiar ameaças cubanas não criará redes de
transporte rápido nos Estados Unidos, não garantirá médicos aos desassistidos e
tampouco deterá a busca dos povos latino-americanos por justiça social e
soberania tecnológica.
¨
Congressistas dos EUA criticam relatório de Rubio contra
Cuba: 'disparate paranoico'
Analistas,
políticos, ativistas sociais e outras vozes nos Estados Unidos se manifestaram
contra o relatório anti-Cuba divulgado
pelo Departamento de Estado e as declarações mais recentes de Marco Rubio
contra o país caribenho.
Don
Beyer, membro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, classificou o
relatório que justificava a guerra contra Cuba como ilógico e paranoico. “Um
disparate paranoico para justificar uma guerra com Cuba. Aparentemente, uma
guerra sem sentido e destrutiva por escolha própria não é suficiente para a
Casa Branca de Trump ”, disse.
Já o
grupo pacifista CodePink, mencionado no documento, descreveu a situação como
uma “caça às bruxas com motivação política” contra vozes pacifistas.
O
congressista norte-americano Mark Pocan também se manifestou contra o bloqueio norte-americano: “após mais de 65
anos bloqueando o governo deles, essa política não funciona. A definição de
insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente, esperando um resultado
diferente”.
Delia
C. Ramirez, congressista norte-americana que esteve recentemente em Cuba,
lembrou Rubio do verdadeiro papel dos Estados Unidos como fator de
desestabilização na América Latina.
“A
análise delirante do secretário Rubio omite o fato de que, por mais de seis
décadas, as políticas dos Estados Unidos desestabilizaram nossos vizinhos na
América Latina — incluindo Cuba — por meio de sanções, embargos, golpes
militares, controle territorial e colonização”, enfatizou.
Ela
afirmou que “hoje, o Departamento de Estado de Trump, liderado por Rubio,
continua essa tradição imperialista enquanto faz o que os autoritários fazem,
criminalizando a dissidência”. E acrescentou: “a política externa dos Estados
Unidos é responsável por mortes, destruição e desestabilização. Podemos mudar
isso. Sim, podemos nos tornar bons vizinhos”.
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‘Caça às bruxas’
Medea
Benjamin, uma das líderes do CodePink, afirmou que “o relatório de 99 páginas
do Departamento de Estado sobre Cuba é um lixo, ao alegar uma vasta conspiração
anti-americana da Cuba, Rússia, China, Irã e grupos estadunidenses, como o
CodePink e o Fórum Popular”.
“A
verdadeira ameaça? Uma política dos Estados Unidos que causou tanto sofrimento
aos cubanos”, afirmou.
O
Ministério das Relações Exteriores de Cuba repudiou nesta quarta-feira (22/07)
o relatório publicado em 20 de julho pelo Departamento de Estado
norte-americano, alegando uma influência subversiva da nação caribenha contra
os Estados Unidos.
“Cuba
rejeita, nos termos mais veementes, o relatório publicado em 20 de julho pelo
Departamento de Estado dos Estados Unidos, referente à alegada influência
subversiva de Cuba contra aquele país ”, declarou o ministério em sua conta
oficial no Twitter.
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Díaz-Canel rebate acusações de espionagem dos EUA
O
presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, rebateu nesta terça-feira (21/07) as
acusações pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio de que a ilha
representa uma ameaça à segurança nacional norte-americana.
Em
pronunciamento, o líder cubano afirmou que Cuba “jamais agiu para
prejudicar o povo norte-americano, nem teve a intenção de afetar a segurança
nacional dos EUA”. De acordo com ele, ao longo da história, foram os próprios
EUA que realizaram ações de espionagem e ataques contra Cuba em “níveis
obscenos”.
Díaz-Canel
também criticou os recursos destinados por Washington a programas voltados para
a mudança de regime em Cuba, classificando-os como iniciativas de subversão e
terrorismo. Como exemplos de agressões sofridas pelo país, citou a introdução
de doenças, entre elas a epidemia de dengue hemorrágica que, segundo o governo
cubano, resultou na morte de 101 crianças, a explosão do voo da Cubana de
Aviación em Barbados, que matou 73 pessoas, além de atentados a hotéis e
supostas tentativas de assassinato contra líderes da Revolução.
Ao
encerrar o discurso, o mandatário cubano voltou a condenar o bloqueio econômico
imposto pelos Estados Unidos, classificando a medida como um ato “genocida”.
Segundo
ele, a sanções são agravadas pelo atual “bloqueio energético” e sustentou que a
política norte-americana foi concebida para “exaurir o povo e minar seu apoio à
Revolução”. Diante desse cenário, Díaz-Canel defendeu que Cuba exerce seu
“direito legítimo” de se proteger diante das pressões externas.
As declarações do presidente cubano
foram uma resposta ao relatório elaborado pelo Departamento de Estado dos
Estados Unidos e divulgado na segunda-feira (20/ 07). No documento,
Washington acusa Cuba de manter um amplo aparato de espionagem, capaz de se
infiltrar em órgãos estratégicos norte-americanos, incluindo o Departamento de
Defesa.
egundo
o governo dos EUA, a inteligência cubana manteve agentes infiltrados “durante
décadas” tanto no corpo diplomático norte-americano quanto “nos mais altos
escalões” do Departamento de Defesa.
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Cuba acusa EUA de prepararem terreno para ataque militar
Cuba
rejeita, com todas as forças, o relatório publicado em 20 de julho pelo Departamento de
Estado dos Estados Unidos sobre a alegada influência subversiva de Cuba
contra os Estados Unidos. Trata-se de um panfleto de propaganda medíocre.
Busca
reforçar a mensagem mentirosa de que Cuba constitui uma ameaça aos Estados
Unidos, pretexto que o governo estadunidense utiliza para promover a punição
coletiva e o genocídio contra o povo cubano. Por meio da construção de
narrativas acusatórias, tenciona fabricar apoio para uma potencial agressão
militar.
É
hipócrita o Departamento de Estado acusar Cuba de promover a subversão quando é
notório que o governo dos EUA destina dezenas de milhões de dólares de seu
orçamento federal, anualmente, para subverter a ordem interna em Cuba, provocar
fome e desespero e derrubar o governo cubano.
Este é
o mesmo governo com um histórico sórdido de interferência e violações do
direito internacional, realizando execuções extrajudiciais em águas
internacionais, praticando assassinatos políticos, patrocinando atos de
genocídio, atacando nações soberanas em todos os continentes e interferindo nos
processos eleitorais de Estados soberanos.
É
também hipócrita persistir na mentira de rotular Cuba como um Estado
patrocinador do terrorismo.
É
evidente que nem este nem qualquer outro relatório pode apresentar qualquer
prova, nem mesmo o menor indício, para tal acusação ilegítima, porque tal prova
não existe, como é do conhecimento das próprias agências especializadas do
governo dos EUA.
É,
contudo, notório que aqueles que financiam, organizam e instigam atos violentos
e terroristas contra Cuba encontram proteção e total impunidade em solo
estadunidense.
Este
relatório se encaixa no discurso do chamado “terrorismo de esquerda”, um
conceito novo que o governo dos EUA, e em particular seu secretário de Estado,
estão promovendo ativamente como o novo inimigo. Buscam atacar qualquer traço
progressista, compromisso social ou expressão de esquerda, tanto dentro quanto
fora dos Estados Unidos, aumentar a repressão e estabelecer um neomacartismo.
O
objetivo é, em particular, reprimir e atacar a própria população estadunidense
e intimidar aqueles que expressam solidariedade, incluindo os que denunciam a
agressão injusta de seu governo contra Cuba. Reconhece-se que a oposição ao
embargo econômico, ao estrangulamento da economia cubana e à ameaça de agressão
militar está crescendo nos Estados Unidos, inclusive entre os cubanos que lá
vivem e seus descendentes.
O
Departamento de Estado persiste em questionar os laços de Cuba com outras
nações soberanas, como se o direito internacional tivesse desaparecido.
Manipula e distorce a história amplamente reconhecida de solidariedade,
ativismo anticolonialista e internacionalismo de Cuba, inclusive dentro dos
Estados Unidos. A cada ano, o governo norte-americano sofre repetido isolamento
nas Nações Unidas por se recusar a pôr fim ao embargo econômico.
Incapaz
de disfarçar sua admiração velada pela epopeia da Revolução Cubana, o relatório
revela o temor de uma superpotência nuclear diante do exemplo de justiça social
e defesa da soberania. Demonstra, portanto, um complexo de inferioridade em
relação a um programa nacional que prioriza o povo em detrimento das elites.
Como
sempre fez, Cuba continuará cultivando relações amistosas com o povo e as
instituições norte-americanas, em estrita observância ao direito internacional,
à Carta das Nações Unidas e à Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.
Fonte:
O Cafezinho/TeleSUR/Granma

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