O
que Javier Milei vem fazer no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro a
presidente
Sem
nenhuma aliança política consolidada, o senador Flávio
Bolsonaro (PL) oficializa
neste sábado (25/7) sua candidatura à Presidência em um evento
que promete contar com a presença de Javier Milei.
A vinda
do presidente argentino ao Brasil ocorre em meio à sua baixa popularidade,
catapultada por um escândalo recente de corrupção em seu governo e pelas dificuldades
econômicas vividas em seu país.
As
agendas de Flávio Bolsonaro e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas
(Republicanos), pré-candidato à reeleição, apontam a participação do presidente
argentino em ao menos duas atividades no sábado em São Paulo.
No
Palácio dos Bandeirantes, com Tarcísio, Milei receberá a Ordem do Ipiranga, a
mais alta honraria concedida pelo Estado de São Paulo. Depois, deve seguir em
direção ao Pacaembu, onde participa da convenção do PL que oficializa a
candidatura de Flávio.
A
presença de Tarcísio está confirmada no evento do PL, ainda que seu partido não
tenha se definido sobre apoiá-lo ou não.
Em um
momento em que o partido de Flávio é tido como isolado politicamente, sem uma
chapa nem apoios partidários definidos, a figura de Milei dá musculatura para a
base ideológica da campanha do filho mais velho do presidente.
Mas a
atração internacional não deve converter votos, afirma Regiane Bressan,
professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo
(Unifesp), especializada em América Latina.
"Eu
não sei se o Milei vai, de fato, gerar mais transferências de votos, mas
reforça a identidade ideológica", diz.
"A
presença dele energiza, consolida o núcleo duro do eleitorado de direita, mas,
muito mais no sentido de um símbolo de coragem discursiva e de radicalismo
econômico", prossegue.
"Dificilmente
a figura de um presidente estrangeiro poderá converter o eleitor de centro ou
aquele mais pragmático, porque as preocupações imediatas orbitam em torno da
economia doméstica e dos serviços públicos locais."
A
visita de Milei ao Brasil faz parte de um projeto maior. "Milei tem esse
plano de se consolidar em países onde a direita está crescendo", afirma
Bressan.
Em uma
espécie de turnê pela América Latina, o presidente argentino seguirá, depois do
Brasil, para a posse de Keiko Fujimori no Peru. Em seguida, irá para o Equador,
onde deve realizar conversas com o presidente, também conservador, Daniel
Noboa, segundo a Reuters.
Na
sequência, Milei visitará a Colômbia para a posse de Abelardo de la Espriella,
um outsider da
direita radical que acaba de vencer as eleições presidenciais
no país.
Para
Bressan, muito mais do que apoiar Flávio ou prestigiar a vitória de um político
da direita radical em outro país, Milei busca aumentar sua popularidade na
região.
"O
interesse dele em estar no Brasil não é só pelo Brasil, é por ele também",
afirma. "Ele não tem poder para mobilizar tantos votos, mas busca
consolidar-se como uma liderança intelectual e política da direita
ocidental."
Esse
movimento de se popularizar pela região vem na mesma esteira do avanço da
direita radical na América Latina nos últimos anos. Com as
vitórias recentes no Peru e na Colômbia, o mapa político da América Latina vem
se alinhando ideologicamente ao presidente americano, Donald Trump.
Analistas
afirmam que esse avanço pode ter impacto nas eleições brasileiras, que são,
inclusive, passíveis de tensões provocadas por Trump.
"Os
americanos estão fazendo um círculo de fogo em torno do Brasil, e isso já está
pressionando o país", analisou Feliciano de Sá Guimarães, professor do
Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), para a BBC
News Brasil em junho.
Nesta
semana, começaram a valer as novas tarifas impostas por Trump contra o Brasil,
algo que o Flávio Bolsonaro afirma ter tentado impedir, sem sucesso. O impasse
revela a complexidade do xadrez político na região.
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Milei sobe no palanque de Flávio
Esta
será a terceira viagem de Milei ao Brasil desde que assumiu a Presidência da
Argentina, em dezembro de 2023.
Seu
plano inicial era também visitar Jair Bolsonaro (PL), que está em prisão
domiciliar em Brasília, mas o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal
Federal (STF), negou seu pedido.
No
entendimento do ministro, Bolsonaro está proibido de receber visitas com
finalidade político-eleitoral até o fim das eleições. A decisão ocorreu após
Flávio divulgar uma
carta escrita pelo pai em apoio à sua pré-candidatura.
Os
advogados de Bolsonaro recorreram, alegando que a negativa restringe a
liberdade de pensamento do ex-presidente, segundo a Folha de São Paulo.
No mês
passado, Flávio esteve na Argentina em encontro com Milei. Ao longo dos últimos
meses, o senador também realizou uma série de viagens internacionais na
tentativa de se alçar como o líder da direita na região.
O
senador tenta contornar obstáculos importantes neste início oficial da
campanha, com dificuldades para avançar entre as mulheres — que são a maioria
do eleitorado —, trocas públicas de farpas com a ex-primeira-dama Michelle
Bolsonaro (PL) e seu nome atrelado ao escândalo do Banco Master.
Isso
levou partidos do Centrão a declararem neutralidade nesta eleição, ao mesmo
tempo em que viu o Supremo Tribunal Federal autorizar a abertura de uma
investigação sobre os repasses que Flávio negociou com o banqueiro Daniel
Vorcaro para financiar a produção da cinebiografia de seu pai.
Apesar
da sucessão de crises, Flávio Bolsonaro segue competitivo na corrida eleitoral.
O senador continua em segundo lugar na votação para o primeiro turno, atrás do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e aparece como único candidato capaz
de rivalizar com o petista pela liderança, segundo o
agregador de pesquisas da BBC News Brasil, atualizado constantemente
com os últimos levantamentos. Se o segundo turno fosse hoje, ele teria 42% das
intenções de voto ante 46% de Lula.
Mas a
ausência de alianças no momento em que sua candidatura é oficializada é um
sinal, segundo analistas, de uma fragilidade política da campanha do senador,
que tenta desfazer essa percepção trazendo para seu palanque o governador
Tarcísio e o presidente Milei.
Não é
costumeira a visita de um chefe de Estado a uma convenção partidária, mas é
condizente com a agenda de Milei em torno de encontros organizados pela direita
radical.
Em
julho de 2024, ele esteve pela primeira vez no Brasil como presidente e
participou da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Balneário
Camboriú (SC).
Na
ocasião, ele não realizou compromissos com o governo federal, algo que também
não está previsto para ocorrer agora. Lula e Milei só se encontraram no Brasil
durante a Cúpula do G20, no Rio de Janeiro, em novembro de 2024.
Ele
também esteve em encontros de conservadores nos Estados Unidos e em convenções
da legenda de direita radical VOX, na Espanha. Em uma das visitas, o argentino
gerou uma crise diplomática ao chamar a Begoña Gómez, esposa do
primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, de corrupta.
O
governo espanhol reagiu, retirando definitivamente sua embaixadora de Buenos
Aires.
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Os problemas que o presidente argentino enfrenta em casa
A
tentativa de se popularizar fora da Argentina ocorre em um momento de baixa
popularidade dentro de casa.
Segundo
pesquisa realizada pela AtlasIntel para a Bloomberg Linea, publicada no início
de julho, 58% dos argentinos desaprovam o governo Milei. O percentual é
ligeiramente mais baixo que o registrado em abril, quando a desaprovação estava
em 63%, auge do chamado "escândalo Adorni".
O
ex-chefe de Gabinete de Milei, Manuel Adorni, foi acusado de envolvimento em um
escândalo por suposto enriquecimento ilícito e ocultação de patrimônio no valor
de R$ 500 mil (cerca de R$ 2,6 milhões).
Após se
contradizer e acabar por assumir que se tratava de economias não declaradas,
Adorni renunciou ao cargo no fim de junho. Mas a mancha deixada na Casa Rosada
já havia se consolidado: 80% dos argentinos consideram provável ou muito
provável que Adorni tenha cometido irregularidades financeiras relacionadas ao
seu patrimônio pessoal, segundo a mesma pesquisa AtlasIntel.
O caso
envolvendo Adorno foi mais um de uma série de notícias envolvendo o governo com
acusações de corrupção.
O
próprio Milei protagonizou um caso obscuro, hoje sob investigação da Justiça
dos EUA, após promover uma criptomoeda cujo valor despencou em questão de
segundos.
Karina
Milei, irmã do presidente, secretária-geral da Presidência e uma das pessoas
mais influentes do governo argentino, foi citada em áudios vazados, que
sugeriam ela ter recebido parte de um suposto esquema de propina na Agência
Nacional para a Deficiência (Andis, na sigla em espanhol).
E o
candidato do governo Milei a deputado pela província de Buenos Aires, José Luis
Espert, renunciou à candidatura depois que vieram a público seus vínculos com
um empresário acusado de narcotráfico nos EUA. Todos negam ter agido de forma
irregular.
Apesar
das sucessivas notícias negativas, Milei teve uma sólida vitória nas eleições
nacionais de meio de mandato em
outubro passado, quando os argentinos renovaram metade da Câmara dos
Deputados (127 legisladores) e um terço da Câmara Alta (24 senadores), mas,
acima de tudo, deram seu apoio ao presidente.
A
vitória ocorreu dias depois de um inédito
resgate financeiro realizado pelos EUA para a Argentina, e de
um apoio explícito de Trump a Milei. "A eleição está próxima, e a vitória
é muito importante, estamos aqui para apoiá-lo", afirmou Trump na época.
Meses
depois, em março, a revista britânica The Economist elogiou as políticas
austeras do presidente, chamando-as de "sensatas, ainda que duras".
"Politicamente,
o presidente nunca esteve tão forte", escreveu a Economist, mencionando o
sucesso em aprovar as medidas orçamentárias e as reformas de seu governo.
Mas o
sucesso durou pouco, e, em maio, a mesma revista publicou reportagem intitulada
"Milei está em sérios apuros". "Os argentinos poderiam ter
ignorado as denúncias de corrupção se a economia estivesse indo bem. Mas não
está."
"Os
eleitores agora têm duas grandes queixas: escândalos de corrupção e uma
economia em dificuldades", publicou a revista.
No
entanto, Bressan afirma que as crises domésticas enfrentadas por Milei causam
pouco impacto em sua vitrine para o exterior.
"Externamente,
para quem olha de fora, Milei está conseguindo se consolidar como um reformador
audaz, porque os índices macroeconômicos estão melhorando. Mas no plano
doméstico, o país está empobrecendo", afirma ela.
A
inflação do país saiu de três dígitos no fim de 2024 para 33% em junho deste
ano, um dado amplamente divulgado por Milei. Além disso, seu governo comemorou
recentemente a redução da pobreza para 28%, atingindo seu nível mais baixo dos
últimos sete anos, segundo dados apresentados pelo Instituto Nacional de
Estatísticas e Censos do país (Indec) no fim de março.
Mas
analistas de institutos públicos e consultorias privadas questionam os
números apresentados pelo governo. Os dados contrastam com
outros indicadores de renda, como os salários reais e as aposentadorias, que
estão em queda.
Com
isso, o país vive o fenômeno dos "trabalhadores pobres", em que ter
um emprego não é garantia para sair da pobreza.
"O
discurso para fora dá a entender que a inflação está controlada, que o PIB está
melhorando, mas com um custo popular muito grande", afirma Bressan.
• Milei, o derrotado argentino, vem
visitar seu amigo Flávio Bolsonaro, o derrotado brasileiro. Por Emir Sader
Javier
Milei, entre derrota e derrota, encontra tempo para vir visitar seu amigo, o
igualmente derrotado Flávio Bolsonaro.
Do que
se trata? De trazer o apoio que Milei não tem para a convenção que vai escolher
o candidato, já previamente derrotado, Flávio Bolsonaro. Zero mais zero dará
zero. Nenhum dos dois vai sair fortalecido do encontro, do abraço desconsolado
dos dois derrotados.
Essa é
a imagem atual da extrema-direita latino-americana. O fracasso do governo
argentino, o modelo mais expressivo do neoliberalismo – também derrotado –, do
Estado mínimo, a ponto de que Milei chegou a declarar: “Entre o Estado e a
máfia, prefiro a máfia”. Uma declaração que seria assustadora, se é que há
coisas da extrema-direita latino-americana que ainda nos assustem.
Essa
mensagem ideológica traz Milei ao filho de Bolsonaro. Não poderá ver o pai,
condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, porque o Judiciário
brasileiro proibiu o abraço solidário dos dois representantes da
extrema-direita latino-americana.
O
abraço entre as duas expressões do neoliberalismo, derrotado e fracassado na
América Latina, tem a força dessa derrota e desse fracasso. Representa trazer a
fracassada experiência argentina para se somar à experiência igualmente
fracassada da extrema-direita brasileira.
O que
produzirá esse abraço, além da amargura e do choramingar das derrotas dos dois
lados? Nada. Rigorosamente nada. Diante da força e da provável reeleição de
Lula e da provável derrota de Milei e da sua substitução, provável, pelo
governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, esse encontro da
extrema-direita fica reduzido à sua verdadeira dimensão: o nada.
Fonte: BBC
News Brasil/Brasil 247

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