sábado, 25 de julho de 2026


 Veja como beatos de araque podem faturar alto no mercado da hipocrisia

A “lava jato” se foi, mas o lavajatismo ficou. O “combate à corrupção” industrializou-se — da mesma forma que se faz com a desinformação, com os identitarismos, com o discurso ambiental e a imagem intergalática exagerada de grupos criminosos. Se a corrupção já foi ou é um bom negócio, vender a imagem de paladinos da justiça pode ser mais lucrativo ainda.

O dólar pode cair ou não. No mercado do oportunismo, entretanto, a demanda e a oferta de demagogia estão sempre em alta. Os negociantes do ramo seguem a mesma cartilha:

1) Aproveitam-se de um problema real, como a corrupção, a destruição da natureza ou o crime organizado; 2) Superfaturam o tamanho do problema;

3) Industrializam falsas soluções, como se fez na “lava jato”;

4) Procuram quem quer comprar suas campanhas, como a que se move contra o Supremo Tribunal Federal.

Clientela não falta. Os produtores rurais da Europa, em busca de pretexto para bloquear as vendas brasileiras; os grandes contribuintes, que, no Brasil, em matéria tributária, perdem sistematicamente para o Fisco; ou um Donald Trump, em busca de pretexto para desequilibrar a balança comercial, a seu favor — e por aí vai.

<><> O magnata

Um dos magnatas desse negócio é o empreendedor e sacerdote de Vesta Joaquim Falcão. Sua especialidade é criar fundações altamente lucrativas que vendem em suas gôndolas filantropia, idealismo e conversa mole.

No célebre esquema “lava jato”, Falcão associou-se a Sergio Moro e procuradores da República. Com a fama de resolvedor, ele passou a vender alforria a envolvidos nas investigações — colocando ou tirando nomes do rol de alvos da autoapelidada “força-tarefa”.

Esse tipo de tramoia, narram advogados criminais que atuaram na defesa de réus de Curitiba, germinou e floresceu em célebres delações premiadas. Os produtos comercializados em questão eram também a inclusão ou exclusão de nomes. Nesse sistema de corretagem, houve também balcões de venda de felicidade — vendedores de serviços jurídicos que garantiam absolvição caso assumissem a causa.

Joaquim Falcão, em busca de novas oportunidades, está lançando o livro A Oligarquia dos Poderes e a Crise da Democracia. Ele investe furiosamente contra os Poderes Judiciário, Executivo e Legislativo. Com o mesmo vigor que as hordas golpistas usaram para invadir e depredar os principais edifícios da Praça dos Três Poderes.

<>< Mestre do emparedamento

O autor, como descrevia o então presidente do Uruguai, Julio María Sanguinetti, é dessas pessoas que tiveram toda a paciência do mundo com a ditadura, mas nenhuma com a democracia. Falcão tornou-se conhecido como um dos pioneiros do movimento para emparedar o Supremo Tribunal Federal — que, com uma mão, tentou subordinar o tribunal a Curitiba e, com outra, eleger Jair Bolsonaro.

Assim como a “lava jato” legitimou a mentira como instrumento jurídico, o autor do livro a usa como argumento sociológico. Ele apresenta como prova de sua teoria — de que os poderes se acumpliciaram para destruir a democracia — um fato inexistente. Diz ele que, no Brasil, ministros do STF apresentam projetos de lei ao Congresso. Poderia dar um único exemplo do que diz. Quem sabe em próximo livro.

Outra afirmação estonteante é a que ele apresentou como prova do conluio entre os Poderes no país: o caso do deputado Chiquinho Brazão. Condenado como mandante do homicídio da vereadora Marielle Franco, ele só perdeu o mandato por “excesso de faltas”, e não por quebra de decoro. Um silogismo que Aristóteles jamais imaginou.

Nada de mais para quem inventou a tese de que mais de 80% das decisões do STF são monocráticas. Uma aritmética em que até pedido de pizza pelo iFood é computado como “decisão” para os gênios do Direito que se dedicam o ano todo a produzir intrigas, mas que jamais produziram qualquer raciocínio no mundo da doutrina ou dos paradigmas jurídicos.

<><> Extorsão disfarçada

O esquema “lava jato” fez com que a prática de extorsão e chantagem de agentes privados por agentes públicos parecesse o inverso. Não houve uma única condenação por extorsão. Moro converteu tudo em “corrupção”. Ou seja: como se os empresários tivessem obrigado os agentes públicos a aceitar subornos.

No pau de arara, empresários foram forçados a dizer exatamente o que os procuradores queriam. As falsas confissões induzidas pelos tarefeiros levaram a nada. Por fim, desmobilizado o parque nacional de infraestrutura — para gáudio da concorrência —, o verdadeiro combate à corrupção não avançou um centímetro.

Na versão fantasiosa de Joaquim Falcão, foi porque os ministros do STF são aliados do crime e livraram seus asseclas. Os diálogos entre os integrantes da organização criminosa de Curitiba mostram o que de fato aconteceu. Qualquer pesquisa que associe a expressão “spoofing” (apelido ridículo para as transcrições das conversas entre eles) a nomes como “Joaquim Falcão” esclarece os fatos.

Pode-se saber, por exemplo, que o objetivo do autor do livro, junto com Bruno Brandão, chefe de uma das sucursais da CIA no Brasil, a “transparência internacional”, era criar uma fundação gerida por eles, com dinheiro da J&F Investimentos.

O livro em que o autor ensina como fazer sucesso, imputando a outrem crimes praticados por ele, mostra o quanto a desinformação e a ignorância são terrenos férteis para enganar incautos.

        O arrependimento dos outros milionários mordidos pelo bolsonarismo. Por Moisés Mendes

Uma pergunta que, por enquanto, só o núcleo financeiro da extrema direita pode responder: quem mais, além de Daniel Vorcaro, era mordido pela estrutura de negócios do bolsonarismo? Sabemos que o banqueiro entrou com pelo menos R$ 62 milhões. E os outros?

Mais adiante, os achacados poderiam dizer o que deram e o que se negaram a dar. O andamento das investigações precisa manter a esperança de que saberemos quem são os demais extorquidos. É dinheiro que alguns liberaram com a desculpa de que sustentavam estruturas legítimas do antilulismo e do anticomunismo.

Sabem agora que não financiaram filmes e boas ideias, mas podem ter enriquecido foragidos da Justiça. Quem mais fez colaborações milionárias, sendo ou não ingênuos e patriotas? Poderemos ficar sabendo se as investigações em torno da Abin paralela forem levadas adiante.

O ministro Alexandre de Moraes decidiu encerrar parte do inquérito, com o argumento de que quase tudo estava dentro dos processos do golpe. A Abin paralela seria uma extensão de braços e cabeças da Abin oficial. Monitorava a vida de inimigos e produzia dossiês contra amigos.

Os dossiês da Abin de Bolsonaro tinham como foco empresários apoiadores do bolsonarismo. Por que produzir documentos com informações sobre o que os aliados fizeram no verão passado? Por que mandar investigar cúmplices e parceiros de empreitadas muitas vezes criminosas?

Os dossiês eram encaminhados a Bolsonaro com o pretexto de que serviam de advertência: seu entorno fora do palácio está cercado de sonegadores, contrabandistas, agiotas e chefes de lavanderias de dinheiro sujo. E assim Bolsonaro, que nada sabia, ficava sabendo.

Até os estagiários da Abin eram sabedores do que os investigados faziam e que os dossiês serviam para extorquir quem tinha rabo preso e dinheiro para abastecer os caixas da extrema direita. Extorquiam quem negaceava e ficava em dúvida se deveria continuar apoiando as estruturas do gabinete do ódio e outras atividades golpistas.

Os dossiês da Abin, que não era assim tão paralela, não podem ficar mumificados numa gaveta da Polícia Federal. Não devem ter perdido relevância no contexto do esquema. O arquivamento com a parte que envolvia as figuras de ponta, como Bolsonaro e Alexandre Ramagem, talvez funcione como uma concessão do STF. Não mexeremos mais nisso, para continuar mexendo no que importa.

Se fosse levado em frente com o antigo formato, o inquérito chegaria a gente da própria Abin, que continua dentro do governo. A parte do inquérito que não foi arquivada, e que precisa mostrar serventia, envolve figuras do segundo time do esquema e sem foro, como Carluxo, uma ex-assessora dele e policiais federais.

Uma investigação sem a supervisão de Moraes teria mais autonomia para chegar às engrenagens de produção dos informes e dossiês. É o desafio diante de instituições que não conseguiram, por falta de fôlego, pernas e braços, identificar os criminosos da pandemia e os bloqueadores de estradas, entre outros executores de ações extremistas.

Flávio Bolsonaro era o dinheirista da família, o gestor que transformava relações políticas em negócios, e virou candidato no atropelo. A direita toda, e não só o bolsonarismo, sabe que ele não tem condições de encarar uma guerra contra Lula com paridade de armas.

Flávio só irá sobreviver se tirar uma dúzia de coelhos da cartola, apresentá-los ao centrão e ainda mostrar como fez o truque. Porque ninguém mais confia na sua capacidade de representar todo o antilulismo. Empresários mordidos pela estrutura bolsonarista devem ter os mesmos pensamentos do centrão nesse momento.

Botaram dinheiro fora contribuindo para uma vaquinha que já não dá leite com Bolsonaro preso, com um filho despreparado e perdido em meio a uma luta que não era para ele, com uma madrasta furiosa e dissidente e com o outro filho pateta e foragido.

¨      Neutralidade do centrão fulmina palanque de Flávio Bolsonaro no Paraná. Por Esmael Moraes

A possível neutralidade da Federação União Progressista e do Republicanos na eleição presidencial ameaça deixar Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sem o apoio formal de três partidos que, no Paraná, já fecharam aliança com Sandro Alex (PSD) para o governo e Alexandre Curi (Republicanos) para o Senado. A negociação conduzida pelo PT busca impedir que essa estrutura seja incorporada à campanha do presidenciável do PL, sem exigir apoio formal ao presidente Lula.

Dirigentes do PP e do União Brasil sinalizam que a federação formada pelos dois partidos poderá liberar as alianças estaduais e permanecer neutra na disputa pelo Palácio do Planalto. O Republicanos também informou que as conversas com Flávio Bolsonaro não avançaram, mas ainda não anunciou uma decisão definitiva sobre a eleição presidencial.

A movimentação beneficia Lula porque reduz o arco partidário disponível para Flávio Bolsonaro. A consequência envolve tempo de propaganda, candidaturas proporcionais, diretórios municipais e palanques nos estados. Neutralidade, porém, não significa adesão ao petista: permite que cada grupo preserve seus interesses regionais sem entregar sua estrutura nacional ao PL.

No Paraná, a engenharia estadual já está mais adiantada. União Brasil e Progressistas anunciaram em 22 de julho apoio a Sandro Alex e Alexandre Curi. O acordo foi articulado pelo governador Ratinho Junior (PSD) e reuniu a presidente estadual do PP, deputada Maria Victoria, e o presidente estadual do União Brasil, deputado federal Delegado Matheus Laiola.

Maria Victoria atribuiu a definição a um pedido de Ratinho Junior. Laiola declarou confiança na continuidade do projeto estadual. Nenhum dos dois, entretanto, vinculou publicamente o acordo paranaense ao apoio presidencial a Flávio Bolsonaro. O Blog do Esmael acompanhou o evento em Curitiba.

O Republicanos também integra a coalizão de Sandro Alex e apresenta Alexandre Curi para uma das duas vagas ao Senado. O arranjo responde parte da pergunta eleitoral: PP, União Brasil e Republicanos caminham com o candidato escolhido por Ratinho Junior no Paraná. A escolha presidencial continua sem resposta formal dos diretórios estaduais.

Essa separação permite uma composição incomum, mas politicamente possível: os três partidos podem sustentar Sandro Alex contra Sergio Moro (PL) no governo estadual e, ao mesmo tempo, evitar uma campanha institucional contra Flávio Bolsonaro. Dirigentes e candidatos ainda poderão demonstrar preferências pessoais, mas isso não equivale a apoio partidário formal.

Sergio Moro perde espaço nessa combinação. O senador precisava ampliar sua coligação além do PL e do Novo, mas União Brasil, PP e Republicanos escolheram o campo governista estadual. Uma eventual neutralidade presidencial não devolve automaticamente esses partidos ao palanque de Moro.

Ratinho Junior aparece como o principal beneficiário no Paraná. O governador reuniu a Federação União Progressista e o Republicanos ao redor de Sandro Alex e preservou a candidatura de Alexandre Curi ao Senado. A articulação reduz o espaço de Moro e também de Rafael Greca (MDB), que disputavam partidos e lideranças da base estadual.

Para Lula, o ganho depende menos de conquistar votos declarados do centrão do que de bloquear a expansão de Flávio Bolsonaro. Sem PP, União Brasil e Republicanos, o candidato do PL fica mais dependente da própria legenda e de aliados ideológicos menores. Para Ratinho Junior, a neutralidade nacional permitiria manter sua coalizão estadual sem transformar Sandro Alex em extensão automática do bolsonarismo.

O cenário ainda é uma negociação, não um acordo concluído. PP, União Brasil e Republicanos não anunciaram apoio a Lula, e os diretórios paranaenses não formalizaram qual candidatura presidencial defenderão. O fato definido no Paraná é o apoio a Sandro Alex e Alexandre Curi; o palanque presidencial permanece em disputa.

 

Fonte: Por Marcio Chaer, em Brasil 247

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