sábado, 25 de julho de 2026

Brasil é há décadas fonte de superávit recorde para os EUA

Novamente na mira de tarifas impostas pelo governo Donald Trump, o Brasil acumula um déficit de 144 bilhões de dólares (R$ 734 bilhões) em quatro décadas de comércio de bens com os Estados Unidos. Ou seja, a balança entre os dois parceiros favorece Washington, que registrou saldo positivo em 26 dos 41 anos da série histórica disponibilizada pelo Departamento do Censo dos EUA.

Ao incluir bens e serviços, os EUA chegaram a lucrar 480 bilhões de dólares (R$ 2,4 trilhões) com o Brasil entre 2000 e 2025, mostram dados do Departamento de Análise Econômica (BEA) dos EUA, o que não impediu a imposição de uma nova tarifa de 25% contra as exportações brasileiras ou de uma taxa de 12,5% por suposta falha no combate ao trabalho escravo.

Questionado durante sabatina no Senado americano sobre esse desequilíbrio que favorece os americanos, o indicado para a embaixada dos EUA em Brasília, Daniel Perez, reconheceu nesta semana que seu país mantém um superávit expressivo. Contudo, evitou justificar a nova sanção. "Essa tarifa foi implementada quando eu estava dormindo. Vou me informar melhor nas próximas semanas", afirmou.

Jamieson Greer, chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), também contornou o argumento de que o superávit americano deslegitimaria a medida tomada por seu órgão. "Temos superávit nessa relação. Mas há muitas barreiras aos Estados Unidos, sejam tarifárias, regulatórias ou não tarifárias", disse ao Atlantic Council em dezembro do ano passado.

<><> Conta acumulada há quatro décadas

As declarações das autoridades são sintoma da evolução das trocas entre os dois países ao longo do último século, uma relação marcada por oscilações e que se tornou mais intensa nas últimas quatro décadas.

"Essas oscilações independem, do lado americano, de ser um governo democrata ou republicano. O que elas vão levar em conta é o nível de autonomia do Brasil", diz a cientista política e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Cristina Pecequilo.

"Porque o Brasil, sendo autônomo e não se alinhando com os Estados Unidos, vai buscar muitas vezes objetivos de reforma da ordem mundial e também um reposicionamento regional. E isso afeta o interesse americano", continua.

Entre 1985 e 1995, por exemplo, Brasília chegou a registrar saldos positivos nas trocas comerciais com os EUA. O cenário muda gradualmente durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC), período marcado pela ampliação das compras de aeronaves, veículos, equipamentos eletrônicos e aparelhos de telecomunicações americanos.

A balança comercial passa então a alternar momentos de superávit e déficit nos anos seguintes. O Brasil retoma vantagem em 2002 e atinge um lucro recorde em 2005, impulsionado pelas vendas de minério de ferro, ouro, petróleo e café.

A inflexão definitiva ocorre em 2008, ano da crise financeira americana. Desde então, os Estados Unidos não voltaram a registrar déficit no comércio de bens com o Brasil. O saldo positivo alcançou recordes de 16,5 bilhões de dólares (R$ 81 bilhões) em 2014 e de 15,75 bilhões de dólares (R$ 80 bilhões) em 2021, considerados valores nominais.

O padrão se repete nos últimos dois anos. Em 2025, o déficit brasileiro chegou a 14,4 bilhões de dólares (R$ 73,4 bilhões), mais que o dobro do ano anterior. 

Já no setor de serviços, a balança favorece os americanos ao menos desde 1999. Em valores nominais, 2025 marcou o maior superávit dos EUA dos últimos 26 anos: foram 27,4 bilhões de dólares (R$139 bilhões) obtidos com o mercado brasileiro.

Os dados para 2026, considerados apenas cinco meses, indicam que este ano os valores devem ser ainda maiores. Se considerado o mês de maio, o país se tornou o sexto maior gerador de superávit para os Estados Unidos. Ainda assim, figura como o segundo parceiro comercial mais taxado pela Casa Branca, com tarifa média de 18,2%, atrás apenas da China.

<><> Sanções extrapolam trocas comerciais

"A balança comercial, assim como o comércio exterior, não se trata somente do produto em si. Não é sobre os bens, mas sobre os ganhos relativos dessa relação comercial", afirma o economista Tomás Marques, pesquisador do German Institute for Global and Area Studies (GIGA), em Hamburgo.

Para o pesquisador, o superávit dos EUA mostra que as tarifas não visam corrigir um déficit inexistente, mas reorientar os fluxos comerciais em meio à perda de competitividade de Washington em vários setores, como o de tecnologia.

"Os percentuais [tarifários] são arbitrários. O objetivo é mexer no jogo e renegociar a partir da posição dos Estados Unidos como grande importador. [...] Tarifas e comércio exterior são instrumentos para tentar reorganizar a indústria e recuperar competitividade", completa. 

Isso se traduz na lista de exceções elaborada pelo USTR, por exemplo, que inclui cerca de 2.100 itens, como commodities agrícolas, minerais e metais. Trata-se de produtos cuja demanda interna os EUA não conseguem suprir e que não têm relação com as práticas sob investigação.

Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio ERosa, isso faz com que apenas 18% das exportações destinadas aos Estados Unidos sejam efetivamente atingidas pela nova medida.

"O comércio é o que está menos em jogo", diz Pecequilo, da Unifesp. "Os Estados Unidos usam o ambiente comercial para pressionar o Brasil em outros setores. [...] Conter o Brasil no campo dos organismos multilaterais, das alianças de geometria variável com os outros países emergentes." Disputas políticas também alimentam as sanções.

<><> Etanol e novos mercados na mira

A justificativa apresentada pelo USTR para taxar o Brasil também é representativa dessa equação. Na investigação contra práticas brasileiras, o escritório cita temas que extrapolam o comércio de mercadorias e a balança comercial. Entre eles, o sistema de pagamentos Pix, a regulação das plataformas digitais e questões ligadas à corrupção.

Já entre os produtos, parte das disputas alfandegárias recai sobre automóveis, autopeças e minerais. Na avaliação americana, acordos firmados pelo Brasil favorecem concorrentes como México e Índia, por exemplo.

Mas é o etanol concentra maior esforço da investigação americana. O USTR acusa o Brasil de interromper seu tratamento tarifário especial ao combustível importado dos EUA em 2017. As importações só voltaram a crescer em 2023. Nas contribuições enviadas durante a consulta pública, representantes da indústria americana defendem que a tarifa de 25% ajuda a recuperar participação de mercado perdida ao longo dos últimos anos. Com outras tarifas genéricas acumuladas, o etanol brasileiro deve entrar nos EUA com taxas acima de 30%.

Para o historiador e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing Leonardo Trevisan, o etanol é rotula de um problema mais amplo. "Eles gostariam de entrar aqui no Brasil, que é um consumidor forte de etanol, mas [o problema] não é o etanol. O 'xis' da história é o brutal crescimento do agronegócio brasileiro", diz.

"A agricultura norte-americana está sentindo fortemente a concorrência da agricultura brasileira. Nos Estados Unidos, isso tem um peso político enorme", conclui.

Em entrevista ao Atlantic Council, o chefe do USTR, Jamieson Greer, não escondeu esse interesse. "Eles [Brasil] são concorrentes dos Estados Unidos, especialmente na agricultura. Sempre que tentamos vender nossas commodities no exterior, competimos com os brasileiros", disse.

Especialistas também contestam a crítica à abertura comercial brasileira para outros mercados. Com a ascensão da China e outros parceiros dos Brics nas cadeias globais de valor, alguns segmentos passaram a competir com áreas tradicionalmente dominadas por americanos e europeus. No caso brasileiro, porém, o aumento das exportações ocorreu para diferentes destinos.

"Não houve substituição dos Estados Unidos pela China. Houve crescimento dos dois lados", afirma Tomás Marques. Dados do Banco Central mostram que quase um terço de todo o capital estrangeiro investido no Brasil tem origem americana.

<><> Quem vai resistir mais?

Para os especialistas, o nível de vulnerabilidade do Brasil nas negociações é maior, mas ambos saem prejudicados com as sanções.

"O Estado brasileiro não tem uma capacidade ampla de barganha com os Estados Unidos", destaca Marques, considerando amplo controle da economia brasileira por empresas estadunidenses. 

Por outro lado, o país é atualmente o principal fornecedor de pelo menos 11 produtos para o mercado americano, destaca Trevisan.

"Esse ponto é essencial para entender essa relação. O Brasil compõe cadeias produtivas integradas. São produtos que começam a ser feitos aqui, porque têm uma série de vantagens, e terminam lá. São 6 mil empresas americanas que têm essa relação com o Brasil, algumas delas imensas", conclui.

"Quem vai resistir mais? Os Estados Unidos, do ponto de vista interno, têm um custo alto ao perder um parceiro importante com o qual mantêm superávit e ao aumentar a autonomia política e econômica do Brasil", questiona Pecequilo. Mas o impacto no mercado brasileiro também é evidente, diz. 

¨      Isenções do tarifaço são 'brecha interessante' para Brasília explorar, afirmam analistas

Itens brasileiros que poderiam mexer com a inflação nos EUA — laranja, café, carne, ferro-gusa, aviões e peças de aeronaves — o que representaria quase dois terços das exportações brasileiras para o país norte-americano, foram poupados da sobretaxa de 25%.

Sob pressão das eleições de meio de mandato, em novembro, e os impactos da inflação no bolso dos cidadãos, a Casa Branca foi conservadora em comparação com o primeiro tarifaço, em meados de 2025, tendo taxado o Brasil em 50% em todas as importações.

O escopo reduzido dessa rodada mostra a importância da economia brasileira para os EUA?

<><> Mesmo nome, dois tarifaços

A princípio, diz Juliana Inhasz, professora e coordenadora do curso de graduação em Economia do Insper, embora as tarifas norte-americanas impactem a economia brasileira, a nova rodada de medidas terá um efeito mínimo com a do ano passado, uma vez que mais de 60% das exportações brasileiras para os Estados Unidos estão de fora, seja por já contar com outros regimes tributários ou por estar na lista de exceções.

Com isso, o impacto tende a se concentrar em segmentos específicos da economia. Cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano foram efetivamente atingidas pela sobretaxa, envolvendo aproximadamente US$ 7 bilhões (mais de R$ 35 bilhões) em vendas.

"Não é um choque generalizado […] É um impacto que existe, mas é bem concentrado em alguns setores. Não é sistêmico, como seria o primeiro tarifaço, sem exceções, se tivesse sido implementado."

Esse movimento já se reflete nos números do comércio exterior. As exportações brasileiras em contêineres para os Estados Unidos perderam participação nos últimos anos, caindo de quase 13% em 2022 para cerca de 9% em 2025, segundo dados da consultoria Solve Shipping Intelligence. Em sentido oposto, a participação da Ásia avançou de 27% para 33%, enquanto a do Oriente Médio chegou a aproximadamente 20% no mesmo período.

A reconfiguração dos fluxos comerciais também alterou a logística marítima. Entre janeiro de 2023 e janeiro de 2026, a capacidade mensal de transporte entre Brasil e Ásia cresceu cerca de 127%, alcançando 355 mil TEUs — unidade equivalente a um contêiner de 20 pés. Em contraste, a capacidade da rota para a Costa Leste dos Estados Unidos recuou aproximadamente 22%.

Como os navios chegam ao Brasil carregados de produtos asiáticos e retornam com espaço disponível, o frete de volta tende a ser mais competitivo, reforçando a migração gradual das exportações brasileiras para novos mercados.

"O fato de haver mais de um ano desde que as tarifas começaram a ser impostas nesse patamar sem dúvida ajudou a que o exportador pudesse construir essas outras parcerias", afirma à reportagem Armando Manuel da Rocha Castelar, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Getulio Vargas (FGV Direito Rio). "A própria aplicação da Seção 301 era esperada há algum tempo."

"O impacto nos dois casos, do consumidor estadunidense e do exportador brasileiro, depende um pouco de haver alternativas", afirma. O economista ressalta, contudo, que essa adaptação não ocorre de forma homogênea e que as isenções dadas a muitos produtos refletem, sobretudo, casos em que o impacto seria mais significativo para o consumidor estadunidense.

"Em geral é mais fácil redirecionar as exportações de commodities, e mais difícil as de bens manufaturados."

Complementando a análise, Inhasz avalia que o maior peso da medida tende a recair sobre o empresário brasileiro mais dependente do mercado norte-americano e com menor capacidade de redirecionar suas vendas.

"Se o preço aumentar, o consumidor americano simplesmente não compra e sofre pouco. Quem acaba arcando com o custo é o produtor brasileiro, que precisa apertar a margem para continuar competitivo."

<><> Lista de vulnerabilidades de Washington?

Ao retirar vários itens brasileiros da mira do tarifaço, a economista enxerga uma "brecha interessante" que o Brasil pode utilizar nas negociações, tanto no sentido político quanto econômico.

"Se a gente está falando que 60 e poucos por cento das exportações brasileiras que são feitas para os Estados Unidos estão saindo da tarifa, isso mostra que a economia americana não consegue se dar ao luxo de fechar as portas das negociações com o Brasil de maneira estrita."

Assim, Brasília teria espaço para pressionar Washington, seja para evitar uma nova rodada de tarifas por meio da Lei da Reciprocidade Econômica, seja para ampliar sua margem de negociação sem necessariamente recorrer ao instrumento jurídico brasileiro. Contudo, Inhasz considera que uma resposta baseada em retaliações diretas tende a produzir mais custos do que benefícios para o Brasil.

"No longo prazo, o caminho mais estratégico e mais inteligente continua sendo a negociação. Retaliar importações americanas pode até parecer uma vantagem no curto prazo, inclusive politicamente, mas aumenta muito o risco inflacionário e o custo para as cadeias produtivas aqui no Brasil."

Na sua avaliação, uma escalada das tensões comerciais encareceria insumos, dificultaria a produção nacional e poderia elevar os preços para os consumidores brasileiros. Por isso, defende que o país utilize a reciprocidade de forma calibrada.

"Usar a reciprocidade com inteligência, de uma maneira bem-equilibrada, com apoio dos setores e diversificação de mercados, preserva muito a margem que o Brasil tem para negociar. O ideal é responder de uma forma estratégica, mantendo a pressão e pedindo negociação, sem transformar esse momento numa guerra comercial. Nós temos muito mais a perder do que eles."

Na mesma linha, Castelar aponta que o Brasil já tem tarifas bem elevadas de importação e a reciprocidade não mudaria muito o quadro de disputa comercial, podendo complicar mais a questão diplomática com os EUA.

"Acho que a resposta está em traçar uma estratégia mais de longo prazo que reflita esse mundo diferente que passou a prevalecer, não em dar respostas imediatas cujo impacto seria mais emocional que prático."

Nesse sentido, avalia, a opção hoje disponível, usar a Lei da Reciprocidade, teria um impacto negativo maior do que o positivo. Em paralelo, a agenda de negociação teria um foco maior em áreas como terras raras do que café ou suco de laranja. Por isso, o ideal seria repensar a agenda geopolítica brasileira.

"Não me parece que esses bens tenham um impacto suficiente sobre o consumidor americano para funcionar como alavanca de negociação até as eleições de novembro. […] Mas isso vai ser muito influenciado pelo resultado das eleições presidenciais do Brasil."

 

Fonte: DW Brasil/Sputnik Brasil

 

Nenhum comentário: