Jovens
trocam ambição de chefia por qualidade de vida
Crescer
na carreira, ganhar mais e conquistar bons benefícios é o sonho de praticamente
todo trabalhador. Mas, cada vez mais, para os mais jovens, esse caminho não
passa necessariamente por um cargo de liderança. É o que apontam pesquisas
globais, como a da consultoria Deloitte, realizada em 2025: apenas 6% dos
entrevistados da Geração Z (nascidos de 1995 a 2010) e dos millennials (também
chamados de geração Y, nascidos entre 1978 a 1994) disseram que seu principal
objetivo de carreira era chegar a uma posição de chefia.
Por
outro lado, o mesmo levantamento revela uma preocupação crescente com o bolso:
48% da Geração Z e 46% dos millennials afirmaram não se sentir financeiramente
seguros — em 2024, os índices eram de 30% e 32%, respectivamente, uma piora
expressiva em apenas um ano.
Nesse
cenário, os dois caminhos — crescer financeiramente e assumir um cargo de
gestão — deixaram de ser sinônimos, uma tendência global que também já se
reflete no Brasil.
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Liderança sim, mas sob certas condições
A
recusa à liderança está longe de ser uma regra geral. Para Lina Nakata,
professora e pesquisadora da FIA Business School e autora do estudo Lugares
Incríveis para Trabalhar, é um mito dizer que as gerações mais novas não querem
liderar.
No
recorte da pesquisa que lidera, referente ao primeiro semestre deste ano, os
jovens têm uma propensão 32% menor de quererem ser líderes do que a média dos
profissionais. Na faixa etária de 18 a 22 anos, liderar é uma prioridade para
15% dos entrevistados, mas esse percentual sobe para 23% entre os profissionais
de 33 a 39 anos, a faixa com o maior interesse por cargos de gestão.
"À
medida que avançamos nas carreiras dentro das empresas, essa expectativa de
liderança aumenta", diz ela, explicando que, no início da jornada no
mercado de trabalho, talvez ser um gestor não seja algo que o profissional
tenha como ambição principal.
Para
Nakata, os jovens não deixam de querer liderar — eles só querem liderar em
condições específicas. "Eles vão querer a liderança à medida que se
identificam com a organização. Quando percebem que estão de acordo com aquilo
que a empresa propõe, e que ela também tem um discurso alinhado com as próprias
ações", analisa.
A
pesquisadora também lembra que rotular a geração mais jovem como
"desinteressada" pela liderança não é um fenômeno novo e que a mesma
crítica já foi feita aos millennials quando eles entraram no mercado.
"Quando
cada grupo jovem chega ao mercado de trabalho, ele vai se adaptando. Estar
naquele ambiente muda as percepções, as avaliações, e as pessoas passam a
enxergar outras possibilidades. No início da carreira, pode haver menor
interesse pela liderança, mas isso se altera com o tempo. Quando a geração Y
chegou ao mercado, falava-se exatamente a mesma coisa", afirma.
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Mudança de prioridades, não falta de ambição
Atualmente,
segundo a coleta anual da pesquisa, 15% dos jovens já enxergam a liderança como
um fator de realização profissional, o que, para a professora, relativiza a
ideia de que a rejeição ao cargo é generalizada. "Não quer dizer que
nenhum jovem não queira ser líder. Significa que existe uma proporção menor de
jovens que buscam essa liderança".
O
primeiro ponto a entender, segundo Nakata, é que a queda no interesse por
cargos de gestão não reflete falta de ambição, mas uma mudança nos critérios de
sucesso.
"Não
diria que é uma falta de ambição. São expectativas e crenças diferentes sobre o
que é sucesso na vida, de forma geral. Quando nós olhamos década atrás, em que
existia um modelo mais padronizado do que era sucesso na carreira, em que
falávamos sobre atingir cargos mais altos e salários mais elevados, hoje nós
vemos que o senso de realização e do que é visto como satisfatório para a sua
vida, para a sua trajetória, tem mudado", explica.
A
professora diz que os jovens questionam as premissas que o próprio mercado de
trabalho estabelece como sucesso — e isso é importante, segundo ela, porque
evita a naturalização de ideias como "ser workaholic é legal" ou
"viver estressado faz parte da rotina". A saúde mental também passou
a ser discutida abertamente.
O
social media Mateus Araújo, de 28 anos, faz parte desse grupo. Ele recusou uma
proposta para coordenar sua equipe por avaliar que o novo cargo exigia um
perfil diferente do seu. "Eu não imaginava que eu fosse ser cotado como o
próximo nome na sucessão. Apesar de desempenhar um bom trabalho, acredito que
os perfis sejam diferentes".
Para
ele, o principal motivo de ter recusado a proposta foi ter o
"discernimento" de que as tarefas e responsabilidades do cargo que
ocupava para a posição que estavam oferecendo eram bem diferentes. Além disso,
significaria abrir mão de uma rotina já consolidada e sob controle.
Hoje,
suas prioridades profissionais incluem estabilidade, qualidade de vida e
flexibilidade para realizar trabalhos como freelancer "em uma rotina
tranquila". Apesar disso, ele não descarta que, no futuro, essa seja uma
opção no plano profissional.
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O impacto da longevidade
Segundo
a professora, essa mudança também está ligada ao aumento da expectativa de
vida. A mesma pesquisa da Deloitte mostrou que cerca de 40% da Geração Z e dos
millennials estão preocupados com a possibilidade de não conseguir se aposentar
com conforto financeiro.
Com a
população vivendo mais — e trabalhando por mais tempo —, a qualidade de vida se
tornou prioridade para envelhecer bem já nas decisões de carreira dos mais
jovens.
"Hoje,
temos uma expectativa de vida muito mais alta. Isso faz com que já saibamos que
teremos que trabalhar por mais tempo, seja qual for o motivo. E também
percebemos que os jovens querem uma carreira mais equilibrada, e não
necessariamente buscar um cargo de liderança. É uma tendência global",
afirma Nakata.
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O cálculo que os jovens fazem
Para
ela, os jovens hoje avaliam mais os prós e contras de assumir um cargo mais
alto do que gerações anteriores. "Eles estão vendo o que é mais
preferível, o que vai trazer maior satisfação, o que compensa mais. Vão pensar
nas suas demandas, obrigações e, ao mesmo tempo, quanto recebem em troca
disso".
Um dos
fatores desse cálculo é a remuneração. "Quando comparamos a remuneração da
base com a da liderança, compensa menos ser líder porque são mais
responsabilidades, mais riscos assumidos, mais recursos e orçamentos a
gerenciar. Isso faz com que o jovem prefira ter mais equilíbrio na vida,
priorizar qualidade de vida, flexibilidade, entre outras coisas mais difíceis
de conciliar com a liderança", afirma.
Esse
foi um dos motivos que pesou sobre a decisão de Araújo. "Ao aceitar a
proposta, eu precisaria ter que lidar com uma demanda mais imprevisível, com
uma rotina presencial mais volumosa, com dinâmicas de trabalho com mais
colaboradores e parceiros. E, pressuponho, que por uma remuneração que não acho
que valesse à pena, afinal, minha paz e uma rotina mais previsível tem muito
mais peso para mim”, enfatiza ele.
A
professora acrescenta que as prioridades em cada momento de carreira também
pesam sobre a escolha, como buscar ou não novos desafios e propósito no
trabalho, coisas "que às vezes o cargo de liderança não carrega junto”.
Os
dados da Deloitte mostram exatamente isso: para 89% da geração Z e 92% dos
millennials, o propósito é importante para satisfação e bem-estar no trabalho.
A
modernização do mercado também empurra essa mudança. Com novas carreiras e
demandas surgindo o tempo todo, cresce a aposta na carreira horizontal, com
foco em crescer sem necessariamente subir na hierarquia.
Ainda
assim, Nakata explica que ainda existe quem deseja liderar. "Acaba sendo
uma preferência para os que buscam essa ascensão e que, consequentemente, está
relacionada a salário, a benefícios, a privilégios e a acessos a tomadas de
decisão mais complexas”, acrescenta.
Por
outro lado, a professora descreve que essa mudança de expectativas obriga as
empresas a repensarem planos de carreira e políticas de retenção. Ela diz que,
conversando com áreas de RH, escuta com frequência que a Geração Z prefere
benefícios a salário fixo alto. E para que os jovens se interessem por cargos
de gestão, diz ela, as empresas precisam mostrar que a liderança vale a pena.
Fonte:
DW Brasil

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